Do sonho que revolve o mundo cabe tambem uma parte á mulher da esfrega.
Arrasta tudo comsigo. Cae o inverno dentro da primavera. Engrandece-a,
espalma-lhe os pés, esfarrapa-lhe os vestidos.
Está aqui a figura--está aqui outra coisa. Muda de expressão, como se
fosse possivel as lagrimas usarem por dentro as figuras humanas, como a
chuva ou os passos gastam a pedra. Aquillo dura um momento, transparece
um minuto, mas esse minuto chega. Logo á submissão e á humildade se
mistura um nada de entontecimento. Quasi nada. Trouxe sempre comsigo
debaixo do chale um resto de sonho amargo. Remoeu-o transida de frio
pela vida fóra, quando fez recados, aqueceu a agua e rachou a lenha. É
um nada e ampara-a. Atreve-se... Toda a gente precisa de qualquer
estonteamento para suportar a vida. Sonho gasto que andou por todos os
caminhos, com pés espalmados como a recoveira. Há sonhos humildes que
ninguem quer sonhar: servem á Joanna que quando os usa os vira do
avêsso.
Velha quer dizer experiencia e seccura, e a Joanna não tem experiencia
nenhuma da vida. Conserva a ternura intacta. Ninguem na ouve. Tem uma
filha, nunca fala na filha. Ás vezes pousa em mim os olhos turvos:
--O corpo pede-me terra.
Ainda hoje não comeu senão uma côdea que lhe deram. Aproveita tudo. Anda
sempre absurda a fazer contas como um avaro. Os trapos são sempre os
mesmos: secca-os no corpo. O monologo é sempre o mesmo com que enche a
vida toda. É sempre a mesma obstinação desconjunctada, como se as
palavras gesticulassem para o lado de dentro, e a mesma ideia que a
persegue o que debalde repele. Seja o que fôr, a Joanna esconde-o muito
fundo. Ás vezes fica suspensa e alheada. Mal pode arrastar as pernas
trôpegas. É pelle, meia duzia d'ossos, um cangalho, que sente uma
absoluta necessidade de repouso, de terra para dormir. O frio é de
morte. Entranha-se-lhe até aos ossos, e a velha lá segue com o saquitel
de borôa e os olhos turvos de tanto ter chorado. Vê sempre não sei quê
que a não larga.
--A tua filha?...--E nunca fala da filha.
N'aquelle desespero percebo uma palavra outra palavra. Sobre isto choro,
sobre isto lagrimas em barda, como se nascesse uma fonte na escuridão. A
Joanna chora sempre, chora por tudo e por nada, chora por si e pelos
outros. Não se sabe onde vae buscar tantas lagrimas.
A ternura é humida.
Não comprehendo este sêr. Viro-o, reviro-o. É um nada com duas ou tres
idéas no caco. Cheira mal, cheira a aziumado. Passou a vida a aturar os
doentes e a vida repele-a. Apega-se e a vida acaba por fazer de Joanna
de unhas roídas, pelles no pescoço e olhos turvos, uma figura disforme.
Irrita-me e prende-me. Sei como a Joanna se encortiça d'um lado e se faz
sensibilidade do outro. Posso dizer quasi dia a dia como as mãos se lhe
deformam, como os olhos se lhe aguam, explicar como a mulher da esfrega
se parece com o panno da esfrega. Não sei explicar o resto. Com este
molho d'ossos e alguns farrapos no corpo, há um fiosinho d'oiro a
reluzir, um fio que teima em aparecer á tona e em se misturar a agua de
lavar a louça. Annos, velhice, desgraça--e teima. Teima até ao caixão.
Reluz sempre. Tem o mundo contra si, a vastidão sofrega, o rodilhão do
universo em perpetuo inferno. Resiste. Parece facil de suprimir n'um
sôpro. Resiste a tudo, esse pó necessario como o polen á aza para voar.
Um nada com a noite deante de si, com a voragem deante de si. Tudo se
gasta e desgasta--não o usam.
Tenho passado noites em debate com este sêr absurdo. Acabo pelo
desespero. Enfurece-me e apega-me ternura. Uma bocca enorme que se fecha
sem emitir palavras, os mesmos olhos inocentes de pasmo, e um ronco que
lhe vem dos gorgomilos como do fundo dum fole. Mais nada.
Sacudo-a--deita sempre a mesma agua. O mundo é uma voragem. Tanto faz. A
vida é uma mistificação. Debalde. Responde-me com ternura. Responde-me
com uma vida humilde de desgraça e lagrimas. E outra coisa exprime a
figura: surprehendo atravez dos farrapos e do ridiculo, um nada immenso,
uma força immensa que transmite outro nada: algumas lagrimas para
chorar, outro ventre para parir. Um poder de se perpetuar--para gritos.
Impelem-na--impele. Debalde a dôr sua, a Joanna caminha molhada e
tropega, mas caminha. É inutil a desgraça agarrar-se-lhe. Mais funda
porque é muda como a noite. Faz parte da velha. Envolve-a, cresce,
enrodilha-se-lhe. Sua. Só geme:--Anh...--Resiste á desgraça, resiste á
vida, resiste ao ridiculo. A velha consegue ser maior que a desgraça.
Nem toda a agua de lavar a louça suprime este facto.
O meu desespero termina aqui, deante d'esta creatura que não
comprehendo, de mãos roidas e um chale velho sobre o corpo mirrado de
ternura. Estraga-me a vida toda. Perturba-me a logica. Mete-me medo.
Tanto faz que a Joanna viva ou morra, que grite ou se cale: as mesmas
estrellas no céo, a mesma grandeza absurda, o mesmo mudo espanto. E no
entanto n'esta confusão esplendida só a sua alma comunica com a minha
alma. A sua dôr, a sua mentira é que importam á minha vida e á tua vida.
Negrume e um arranco: exaspero para manter de pé um resto de ilusão. Mal
se fecha abre os olhos atonitos. Não diz palavra. Por fim chora, as
lagrimas correm-lhe pelos sulcos das lagrimas e mistura-as ao pó de
sonho com que foi entretendo a vida, a pequeninas coisas gastas e
poidas--ao sonho que ninguem quer, ao sonho que ninguem usa, o que em
todo caso a sustenta e a enleva, como as bonecas das creanças pobres, de
trapo e com dois olhos abertos a retroz, que se lhes afiguram rainhas.
Há um misterio na vida de Joanna, e no entanto na sua alma lê-se como
atravez d'um vidro. Tudo n'ella será falso excepto a dôr. Não sei,
ninguem sabe o que tem. Sinto que se obstina como se fosse de pedra e
dentro houvesse outra Joanna a dar com a cabeça pelas paredes. Não ouço
o que diz, nem sei o que sofre--mas a desgraça sua n'aquelle monologo
sem pés nem cabeça, a que não ligo sentido. Debalde o sonho se
encarniça. O sonho, que não cabe no mundo, cabe entre as quatro paredes
daquelle caco e revolve-a. Fecha a bocca como se tivesse medo de falar.
Não quer vêr--e há-de por força vêr. Persiste em manter de pé o resto da
ilusão em que passou a vida, obstina-se o ciclone vivo em pol-a frente a
frente á desgraça. É sonho contra sonho. O que ella não quer é vêr, e só
ella sabe o que não quer vêr. Não pode com o pezo desconforme que a
torna grotesca, e de todo se assemelha agora á arvore do quintal: mais
sonho--mais flôr. Abre uma bocca enorme, fecha-a sem emitir som. Mostra
as mãos, aperta os gorgomilos e o sonho arranca-lhe farrapos. Há-de
acabar por lhe extorquir a dôr...
Sua vida é um monologo, que eu não sei traduzir. Nossa vida é sempre um
monologo de interesse e de sonho. Sempre o mesmo monologo interior, de
dia, de noite, quando acende o lume ou quando põe em mim os olhos
turvos. Talvez os bichos monologuem assim, muito baixinho, p'ra dentro,
só dôr, sem entenderem a vida nem explicarem a vida. A desgraça está
alli ao pé, cada vez mais secca, e nem o sonho nem a desgraça conseguem
arrancar-lhe aquillo de vez para fóra.--A minha filha...--Mas isso não
basta! não chega! Mais dôr, mais sonho. Abre a bocca cada vez maior e
não tira outro som dos gorgomilos: só emite um ronco. A desgraça e o
doirado tingem e entranham-se na agua de lavar a louça. Há-de acabar por
falar... Até agora por mais que faça sae-me das mãos ridicula.
--E vae eu disse-lhe...--E estaca, esfarrapada e atonita. Sacode-a o
sonho com desespero.--Anh...--E como n'aquelle caco espesso só há duas
ou tres idéas como traves mestras, e ternura n'aquella alma obscurecida,
não avança mais palavra. E a desgraça sua e tresua. Grotesco, grotesco,
e desespero n'este grotesco, e dôr n'este manequim desconjunctado, com
um chale a esvoaçar e a bocca espremida. Anda aqui um sêr immenso que
lucta com um sêr humilde e o amolga até á caricatura. Não pode mais--e
ainda aperta a bocca... O que tu lhe fizeste, sonho! o que tu lhe
fizeste!... Tornaste-a disforme como a sombra d'um bonifrate projectada
sobre um ecran.--Creou aquillo a bafo, trouxe-o sempre comsigo debaixo
do chale, com olhos agudos e tal ar de aflição que parece tonta.--A
minha filha...--e tu arrastas-lho com um trapo por todos os esgotos.
Debalde se debate: tem de falar...
--A minha filha casou rica, a minha filha tem uma sala de visitas (é o
que a Joanna mais admira no mundo) como a das outras senhoras. A minha
filha... não posso! não posso!...
E para não avançar mais a Joanna ri-se de si propria. Quem a não
soubesse capaz de exagerar, diria que exagera. Ajunta pormenores
embaraçosos a essa historia que se parece com a mulher da esfrega pelos
empurrões e pelos trapos. Repete-se, hesita, volta ao principio, sem
termos para se exprimir. E atraz das palavras sem ligação sente-se cada
vez mais dôr: o panno sujo da esfrega está embebido de lagrimas.
--Tenho uma tristeza metida em mim...
A narrativa desconjuncta-se: ganha em dôr e em grotesco. Enche a bocca,
perde em naturalidade, adquire em imponencia. O tom carregado é de farça
com residuos de lagrimas. A desgraça ri-se da desgraça. Augmenta as
côres de exagero, carrega o traço, e a tinta engrossa:
--A sala de vizitas! a sala de vizitas!...--Representa com ademanes e
mesuras grotescas a sua entrada n'uma sala em passo medido de procissão.
Avança um passo, recua um passo. E ahi surgem agora as vizitas da filha,
umas atraz das outras com espalhafato. A Joanna prolonga demasiado a
scena para as velhas se rirem--e tem os olhos arrasados de lagrimas.
Insiste, para-lhe na bocca o riso desdentado como se tivesse um nó no
gorgomilo. Teima, e desata a chorar.--E vae eu disse-lhe...--Reage e
começa logo a rir. É um quadro extranho e sem realidade. No fundo, a
tintas que resumam desespero, agitam-se figuras com penantes
desconformes e sedas amarellas. Primeira dama, segunda dama--e os
chapeus teem penachos doirados, os vestidos recortes de espanto. E as
mesuras repetem-se n'um acesso. Terceira dama de cauda a rasto, outra
dama, cumprimentando para a direita e para a esquerda, e já nos longes
enfumados, sempre com exagero e grotesco, outras damas de espavento--da
alta roda... E o sêr esfarrapado mexe o craneo, para cima e para baixo,
com um sorriso á sobreposse. Postiço sobre postiço. Representa--e todas
estas figuras parecem sufocadas, todas estas figuras que ella cria
ridiculas, mal dão dois passos, estão mortas por desatar aos
gritos--todas estas damas inverosimeis, de rôxo, de amarello e de verde,
pariu-as o grotesco com dôr. A Joanna imita as contumelias, olha em
roda, e recebe-as pé atraz pé adeante. E já o absurdo augmenta, a dôr
augmenta e trasborda, quando outras damas de farça, outros manequins
forjados pelo sonho, se agitam de cá para lá na sala de vizitas,
engrandecida e transformada na sua bocca n'um salão doirado. É o ponto
em que as velhas gosam, sentadas á roda da Joanna, em que a D.
Felicidade exclama:--Ai que eu não posso mais! ai que eu até fico
doente! Vem-me a sufeca.--Estão ali todas. Está a D. Herminia, e com a
D. Herminia um mundo de inveja paciente; a D. Penaricia, e com a D.
Penaricia uma alma onde repousam exhaustos, como n'um vasto dormitorio,
todos os despeitos d'uma existencia inutil; a D. Fufia com os cabelos
arripiados, e por traz da D. Fufia as ruinas devastadas de Carthago.
Está a mulher tropega, amachucada, com olhos aguados de cão. E com isto
ridiculo, e sobre esta tragedia ridiculo.
Já a historia entra n'outra phase. Tantas vezes se lhe tem perguntado
porque é que a filha a deixa andar na esfrega, que a velha acrescenta
pormenores embaraçosos. A narrativa torna-se obscura, dolorosa,
hesitante, como se fosse arrancada aos pedaços d'uma alma
espesinhada.--E vae eu disse-lhe...
--Hoje é que ella está que até parece o Taborda!
Na realidade a Joanna é insuportavel. Repete sempre as mesmas coisas,
depara-se por todos os cantos como um trambolho. De noite, quando se
pilha na enxerga, cuido que moe ainda o mesmo sonho:--A esta hora lá
está ella... a esta hora... A esta hora a minha filha...--E os olhos
cerraram-se-lhe de extasi, de dôr ou de espanto no sordido buraco.
Todas as noites a velha, quando sae da esfrega, dá uma grande volta no
negrume, alta, ossuda, molhada até aos ossos. Ninguem sabe onde a
conduzem os passos tropegos, a falar só, a remoer o sonho que a sustenta
e ampara. Por vezes palpa um pilar de granito, por vezes debate com um
sêr mysterioso, uma questão insoluvel. Sigo a sombra esgalgada, que
gesticula e reza. Pára n'uma ruella, senta-se á porta d'um casebre.
Bate, não lhe respondem. Espera, e outra vez timidamente se atreve a
chamar...--De dentro sacodem-na palavras bruscas, e a velha torna por o
mesmo caminho, encharcada até aos ossos... Esta casa não é como as
outras casas, esta sala não é como as outras salas, nem esta rua como as
outras ruas.