Tinham decorrido alguns dias desde que a baroneza principiára a receber
de Mauricio signaes inequivocos de um galanteio, que ella com as mais
louvaveis intenções favorecia.
Durante todo este tempo o leviano rapaz consagrára à sua nova paixão
todos os instantes, sujeitava-lhe todos os pensamentos. Não perdia a
menor occasião de se encontrar com a prima e de renovar as scenas, que a
agudeza de genio e a vivacidade de espirito de Gabriella sabiam rodear
de attractivos inteiramente novos para a inexperiencia do apaixonado
moço.
Em época alguma tinham os criados conhecido Mauricio tão caseiro como
então; cessaram as suas correrias pelos arredores, e os cavallos só eram
por elle tirados da ociosidade quando Gabriella se lembrava de passeiar
pelos campos. Mauricio era então certo a acompanhal-a.
Este estado de coisas inquietava porém a baroneza.
Caracteres, como o de Mauricio, por muito os vêr na roda da sociedade em
que vivia, já para ella não tinham segredos não estudados. Não confiava
tanto no prestigio que actualmente exercia no animo de seu joven e
voluvel primo, que não temesse a influencia que poderia exercer sobre
elle a monotonia das impressões da vida que elle passava nos Bacellos.
A baroneza tinha, é verdade, immensos recursos para varial-as. Estava
ainda longe de os dar por esgotados. Quando Mauricio julgava ter
conhecido a verdadeira feição moral de Gabriella, ella desilludia-o,
impressionando-o sob uma feição nova.
Umas vezes fallava-lhe com uma seriedade maternal; outras parecia
abrir-se-lhe na mais fraternal expansão; mostrava-se-lhe mais tarde
reservada e discreta; depois satyrica e espirituosa, e sempre cheia de
encantos, que com perfeitissimo conhecimento e uso da arte sabia fazer
realçar.
Apesar d'isso, porém, a baroneza antevia perigos na prolongação
d'aquella vida monotona, e sentia a necessidade de dar um golpe
decisivo.
Era preciso partir para Lisboa e obrigar Mauricio a seguil-a.
A demora d'este projecto poderia mallogral-o. Resolveu portanto apressar
a sua partida.
Uma circumstancia, porém, a tornára difficil.
Os successivos desgostos que tinham ferido o coração de D. Luiz, a
resignação que elle fizera dos seus antigos habitos, a homisiação a que
condemnou successivamente ambos os filhos, as saudades avivadas de
Beatriz, o desconforto do seu viver actual, sem esperanças de melhor
futuro, e por ventura com remorsos do passado, todas estas influencias
acabaram por prostrar de desalento o velho fidalgo, e por acabrunhal-o e
envelhecêl-o em poucos dias, como se estes se contassem por annos.
Nada o distrahia. As gazetas, em cuja leitura alimentava outr'ora a
chamma legitimista, que lhe abrazava o coração, enfastiavam-n'o, e
tinham sido intencionalmente desviadas pela baroneza; a companhia e a
conversação de frei Januario não as podia já aturar sem impaciencia;
perdeu o gosto para tudo, e principiou a adquirir habitos
progressivamente sedentarios.
Interrompeu os seus passeios, deixou de apparecer á mesa, jantava e
almoçava no quarto, e acabou por passar quasi todo o dia na cama,
debilitando-se n'esta inacção a olhos vistos.
Gabriella via com cuidado os symptomas d'este crescente abatimento
physico e moral, e procurava combatel-o por todos os meios.
Ia para o quarto do tio, e variando a conversa e temperando-a com todas
as graças que o espirito e o estudo lhe suggeriam, conseguia distrahil-o
e chegava até a fazêl-o sorrir.
Outras vezes entretinha-o, lendo-lhe em voz alta, e escolhia livros que,
no dizer della podassem adoçar as cruezas do genio do fidalgo e
amaciar-lhe as aspereza das suas escamas aristocraticas. Quantas
occasiões D. Luiz escutava attento e commovido os episodios de certos
livros, mansamente revolucionarios, e abria desprevenido o coração a
doutrinas subversivas dos seus velhos preconceitos, tão occultas ellas
se lhe ensinuavam entre os artificios da concepção e da linguagem!
A baroneza tinha muita fé n'esta vaccina litteraria.
O resultado porém de tudo isto foi que assim que ella tentou partir para
Lisboa, encontrou no tio uma reluctancia com que não havia contado.
O pobre velho, fraco, triste e doente, havia-se costumado á companhia
d'aquella mulher cheia de vida, de intelligencia e de alegria, e
queria-lhe com o apêgo que, n'essas idades, a alma contrahe a todas as
imagens que lhe recordam o tempo em que se conheceu joven e vigorosa.
D. Luiz experimentava quasi um secreto terror ao lembrar-se de que a
baroneza o havia de deixar. Quem viria sentar-se ao lado do seu
melancolico leito, assim que ella partisse? Os filhos afastára-os para
longe de si, em castigo dos delictos com que tanto o haviam offendido.
Frei Januario era-lhe insupportavel.
Mas ficar só, viver só, pensar só, alli n'aquella casa que nem era sua,
só nas suas longas e melancolicas vigilias, com as escuras memorias do
seu passado, com as sombrias apprehensões pelo futuro... esta ideia
aterrava-o. Quando Gabriella alludia á sua próxima partida, elle
desviava o sentido da conversa e claramente lhe pedia que não fallasse
n'isso.
A baroneza via-se pois obrigada a transferir indefinidamente o seu
projecto de deixar a aldeia.
Comtudo cada dia que se demorava nos Bacellos contava-o ella como uma
probabilidade menos a favor dos seus planos!
Esta difficil situação em que se via, obrigou-a a pensar seriamente no
partido que devia adoptar.
Era preciso descobrir um meio de abandonar a aldeia e voltar a Lisboa,
sem causar a D. Luiz o desgosto e a pena que, no estado de saude e de
espirito em que o via, ella receiava que lhe podésse ser fatal.
Uma manhã foi ella procurar o seu primo Jorge, muito convencida de que
tinha emfim descoberto o expediente que procurava.
Jorge trabalhava com uma actividade febril, depois que se ajustára o
casamento de Bertha. Parecia querer procurar no trabalho uma embriaguez
que lhe amortecesse as dôres do coração, que aquelle facto lhe
produzira. Mas a violencia do esforço cançava-o, e bem claro o revelava
na pallidez e depressão da physionomia.
Gabriella não pôde deixar de fazer uma observação mal o viu aquella
manhã:
--É preciso cautela, primo Jorge. Nada de trabalho immoderado! Lembra-te
de que a tua constituição não é para taes fadigas.
--Porque me diz isso?
--Porque te estou lendo no rosto a necessidade de ar livre, de sol, de
exercicio e de distracção do pensamento.
--Effeitos de uma noite mal passada. Eu não me sinto cançado.
--Embora. Sê prudente. Olha que o bom exito dos teus planos depende da
tua perseverança, e a perseverança está mais na continuação dos esforços
do que na violencia d'elles.
--Creia que me sei poupar.
--Muito bem. Agora farás o favor de fechar esses livros e de me escutar,
porque tenho que te dizer.
--Ás suas ordens--respondeu Jorge obedecendo-lhe.
--Entrarei sem demora no assumpto. Sabes que formei o plano de partir
ámanhã pela madrugada para Lisboa?
--Então que urgencias são essas?
--É que se não tomo uma resolução assim, não acabo de partir. Vou de
adiamento em adiamento até ao fim do anno. E é indispensavel que parta.
--Indispensavel!--repetiu Jorge com ar de duvida.
--Com certeza que é. Além do que é necessario arranjarmos Mauricio. Has
de concordar commigo, que esta vida perde-o. Cada dia que se passa para
elle n'esta ociosidade campestre, exerce uma funesta influencia sobre
aquelle caracter, aliás de muito aproveitaveis qualidades.
--Isso é assim. Porém Maurício que parta só.
--Não partirá.
--Porquê?
Gabriella hesitou em dar a razão que Jorge lhe pedia, e respondeu
evasivamente.
--Sei que não partirá. Demais é conveniente que eu lhe prepare o caminho
em Lisboa e por isso preciso de lá ir.
--Porém meu pae?
--Pois ahi é que está a dificuldade, e por causa d'isso é que eu
reclamei esta conferencia.
--Então?
--O tio Luiz está bastante doente. Do corpo e do espirito. Chega a
dar-me cuidados. N'aquelle estado não póde prescindir de certos carinhos
e desvelos, proprios só de uma mulher. São-lhe já tão indispensaveis,
que elle, coitado, aterra-se sómente com a ideia de ter de viver sem
elles. Por isso não quer ouvir fallar na minha partida. A mim mesma me
custa deixal-o, porque sei que lhe hei de fazer falta.
--E contudo diz que parte ámanhã!
--É verdade, porque julgo ter descoberto uma combinação que remediará
tudo.
--Qual é?
--É preciso substituir-me. É preciso sentar uma mulher á cabeceira do
tio Luiz, mas uma mulher que o estime, que olhe por elle, que o distraia
e a quem elle consagre uma affeição que o faça esquecer de mim, e que
lhe torne essa enfermeira ainda mais necessaria do que eu hoje lhe sou,
e ninguem mais está n'este caso do que a afilhada d'elle, essa rapariga
por quem o tio parece haver já manifestado uma particular sympathia, e
que melhor do que ninguem póde vir a exercer sobre elle uma influencia
salutar; n'uma palavra, Bertha da Povoa, a filha do Thomé.
Jorge não pôde reprimir um movimento de contrariedade ao escutar o
projecto da baroneza.
Ergueu-se da mesa, junto da qual estivera sentado, e disse com certo
modo sacudido, como exprimindo uma opinião irrevogavel:
--Não póde ser.
--Porquê?--perguntou Gabriella.
--Porque... porque não.
--Quererás dar-te ao incommodo de procurar outra razão mais logica,
primo Jorge?
--Meu pae não aceitaria os cuidados da filha do Thomé da Povoa.
--Primeiro que tudo é preciso que consideres que o doente que eu deixo
lá dentro não é já aquelle D. Luiz que nós ambos conhecemos na Casa
Mourisca; depois Bertha para elle é raras vezes a filha do Thomé, é a
amiga de Beatriz, é a imagem viva d'aquelle anjo, que elle ainda hoje
chora. Teu pae não terá coragem para afugentar Bertha de junto do seu
leito, e difficil será tiral-a de lá.
--Thomé não consentiria...
--O Thomé é um homem generoso e que, apesar de tudo, tem uma sincera
affeição ao tio Luiz. O Jorge bem o sabe.
--Mas...
--Mas, a final de contas, a principal objecção está em que o primo Jorge
não quer. E porque não quer?
--Não é isso, mas... Demais a mais Bertha não viria de certo n'esta
occasião, em que lhe não falta que fazer em casa.
--Pois que ha por lá?
--Os preparativos do casamento d'ella.
--Do casamento de... quem?!
--De Bertha.
A baroneza ficou d'esta vez verdadeiramente surprendida.
--De Bertha?! Pois Bertha casa-se?!
--E em pouco tempo.
--Com quem?
--Com o Clemente, o filho da minha ama, da Anna do Védor.
Gabriella permaneceu algum tempo calada, sem poder desviar os olhos de
Jorge, como se quizesse devassar o que se passava no espirito do primo,
ao dar-lhe em tom de indifferença aquella noticia.
--Bertha casa-se!--repetiu ella--E por sua vontade?
--Por certo. Quem a obrigaria?
--Parece-me incrivel. E que pensa o primo Jorge d'esse casamento?
--Acho-o tão natural, que fui eu proprio que fiz a proposta.
--A proposta do casamento?!
--Sim, a proposta do casamento.
--A Bertha?!
--Ao pae e a ella.
--E como te lembraste d'isso?
--Porque o Clemente me pediu.
--Ah! E condescendeste sem dificuldades?
--Porque não?
--E Bertha tambem aceitou sem objecções?
--Sim, sem grande hesitação.
Jorge respondia a esta serie de perguntas d'uma maneira constrangida,
como quem anciava por libertar-se depressa do inquerito. Nunca olhára
directamente para a baroneza, que pelo contrario não tirava d'elle os
olhos, nem perdia os signaes de turbação com que elle lhe respondia.
A final Gabriella dirigiu-se ao primo no tom de resolução de quem se
decide por um partido manifesto.
--Jorge, olha bem para mim.
Jorge fitou na prima os olhos admirado.
--E' com indifferença que vês realisar-se o casamento de Bertha e que me
estás fallando n'elle?
Jorge córou intensamente á inesperada interpellação, e tentou responder
ladeando:
--Com indifferença não, de certo. Sou amigo do Thomé e Bertha é...
--A filha d'elle, bem sei. Deixemos esses parentescos. E já que desejas
que falle mais claro, pergunto-te: É ou não é verdade que amas Bertha?
--Eu?!
--Sim, tu. E repara no que me vão responder os labios, porque o rosto já
me respondeu.
Jorge conheceu que não lhe era possivel dissimular, abraçou portanto o
partido da franqueza, que lhe era mais congenial.
--N'esse caso era desnecessaria outra resposta. Porém não duvidarei em
dar-lh'a. É verdade que a amo.
--N'esse caso que quer dizer toda esta comedia?
--Quer dizer que eu e Bertha estamos decididos a cumprir corajosamente o
nosso dever. Ella fazendo a felicidade de um homem honrado que a estima,
e realisando o papel de providencia de uma familia, que é a mais
gloriosa missão da mulher; eu votando-me todo á obra que emprehendi, e
procurando tornar tranquillos os ultimos dias de meu pae n'este mundo,
sem lhe ir exacerbar as paixões do seu coração irritado, para satisfazer
as minhas.
--A poesia dos meus sentimentos está muito atrazada, ao que vejo.
D'antes os amantes sinceros e generosos punham acima de tudo os direitos
dos seus puros affectos. Eu sou dos que lêem por a cartilha d'esses
tempos.
--Os affectos generosos estendem a sua generosidade aos sentimentos dos
outros corações, ainda quando lhes são oppostos. Respeitam-nos.
--É muito sublime; não entendo bem. Vamos a saber, primo Jorge,
dar-se-ha que ainda haja por ahi uns fumosinhos de vaidade
aristocratica?
--Em mim não a conheço; mas respeito-a n'aquelle velho, em quem
descarregaria o ultimo golpe se a não respeitasse.
--É esse o obstaculo? Não vejo ahi senão a necessidade de uma
contemporisação.
--Não digo isso, prima. As contemplações que tenho com meu pae,
têl-as-hei com a sua memoria.
--Mas não é muito de christão suppôr que o sacrificio feito á vaidade do
vivo póde ser agradável á alma, que deixou no sepulchro todos os
prejuizos do barro em que se envolvia. Os preconceitos aristocraticos
não sobem ao céo; quero crêl-o; ficam nos sarcophagos da familia, de
mistura com as cinzas mortuarias.
--Embora; mas seriam criminosos todos os projectos de felicidade, que se
baseassem em um facto tão funesto como esse a que allude. Em taes
fundamentos não serei eu quem os edifique.
--Mas, se bem me recordo, o primo Jorge disse-me ha dias que não se
julgava com direito de sacrificar outra felicidade que não fosse a sua.
--É verdade. Mas não sou eu só que tenho coragem.
--Ah! Ella tambem?! Visto isso concertaram ambos esse plano? É generoso,
não ha duvida. Eu cada vez adoro mais a provincia, onde se dão umas
raras plantas, em cuja existencia quasi não acreditava. Agora já
comprehendo a opposição que encontra em ti o meu projecto. Depois da
vossa heroica resolução, é claro que devia contrariar-te a presença de
Bertha n'esta casa.
--Confesso que sim.
--Concebe-se. Pois é pena, porque me agrada o projecto, e assim tem de
ficar só o tio Luiz.
--Mas não parta.
--Alto lá. Por muito estranhos que me pareçam os teus planos, viste que
não lhes oppuz obstaculos. Reclamo a mesma condescendencia para com os
meus.
--Porém meu pae?...
--Não sei o que lhe faça, primo. Pensa n'isso a vêr se até á hora da
partida me lembras alguma solução. Eu não acho.
A baroneza retirou-se poucos momentos depois apparentemente dissuadida
da sua primeira ideia.
Chegando porém ao seu quarto, sentou-se á secretária, e preparando uma
folha de papel escreveu com a sua miuda calligraphia o seguinte:
«Meu caro snr. Thomé da Povoa.
Sou obrigada a partir hoje para Lisboa. Deixo meu tio muito doente e
muito sentido pela minha falta. Na idade em que elle está e nas suas
tristes disposições de espirito dá-se muito apreço aos cuidados de
uma mulher. A minha ausencia deixa-o tão só e tão sem conforto, que
receio dos effeitos d'ella. Sei quaes os ardentes desejos de
vingança que o snr. Thomé tem contra meu tio e a indole dos actos
com que os satisfaz, e por isso julguei dever dar-lhe estas
informações, para que se vingue a seu modo.