XXVIII

Tinham decorrido alguns dias desde que a baroneza principiára a receber

de Mauricio signaes inequivocos de um galanteio, que ella com as mais

louvaveis intenções favorecia.

Durante todo este tempo o leviano rapaz consagrára à sua nova paixão

todos os instantes, sujeitava-lhe todos os pensamentos. Não perdia a

menor occasião de se encontrar com a prima e de renovar as scenas, que a

agudeza de genio e a vivacidade de espirito de Gabriella sabiam rodear

de attractivos inteiramente novos para a inexperiencia do apaixonado

moço.

Em época alguma tinham os criados conhecido Mauricio tão caseiro como

então; cessaram as suas correrias pelos arredores, e os cavallos só eram

por elle tirados da ociosidade quando Gabriella se lembrava de passeiar

pelos campos. Mauricio era então certo a acompanhal-a.

Este estado de coisas inquietava porém a baroneza.

Caracteres, como o de Mauricio, por muito os vêr na roda da sociedade em

que vivia, já para ella não tinham segredos não estudados. Não confiava

tanto no prestigio que actualmente exercia no animo de seu joven e

voluvel primo, que não temesse a influencia que poderia exercer sobre

elle a monotonia das impressões da vida que elle passava nos Bacellos.

A baroneza tinha, é verdade, immensos recursos para varial-as. Estava

ainda longe de os dar por esgotados. Quando Mauricio julgava ter

conhecido a verdadeira feição moral de Gabriella, ella desilludia-o,

impressionando-o sob uma feição nova.

Umas vezes fallava-lhe com uma seriedade maternal; outras parecia

abrir-se-lhe na mais fraternal expansão; mostrava-se-lhe mais tarde

reservada e discreta; depois satyrica e espirituosa, e sempre cheia de

encantos, que com perfeitissimo conhecimento e uso da arte sabia fazer

realçar.

Apesar d'isso, porém, a baroneza antevia perigos na prolongação

d'aquella vida monotona, e sentia a necessidade de dar um golpe

decisivo.

Era preciso partir para Lisboa e obrigar Mauricio a seguil-a.

A demora d'este projecto poderia mallogral-o. Resolveu portanto apressar

a sua partida.

Uma circumstancia, porém, a tornára difficil.

Os successivos desgostos que tinham ferido o coração de D. Luiz, a

resignação que elle fizera dos seus antigos habitos, a homisiação a que

condemnou successivamente ambos os filhos, as saudades avivadas de

Beatriz, o desconforto do seu viver actual, sem esperanças de melhor

futuro, e por ventura com remorsos do passado, todas estas influencias

acabaram por prostrar de desalento o velho fidalgo, e por acabrunhal-o e

envelhecêl-o em poucos dias, como se estes se contassem por annos.

Nada o distrahia. As gazetas, em cuja leitura alimentava outr'ora a

chamma legitimista, que lhe abrazava o coração, enfastiavam-n'o, e

tinham sido intencionalmente desviadas pela baroneza; a companhia e a

conversação de frei Januario não as podia já aturar sem impaciencia;

perdeu o gosto para tudo, e principiou a adquirir habitos

progressivamente sedentarios.

Interrompeu os seus passeios, deixou de apparecer á mesa, jantava e

almoçava no quarto, e acabou por passar quasi todo o dia na cama,

debilitando-se n'esta inacção a olhos vistos.

Gabriella via com cuidado os symptomas d'este crescente abatimento

physico e moral, e procurava combatel-o por todos os meios.

Ia para o quarto do tio, e variando a conversa e temperando-a com todas

as graças que o espirito e o estudo lhe suggeriam, conseguia distrahil-o

e chegava até a fazêl-o sorrir.

Outras vezes entretinha-o, lendo-lhe em voz alta, e escolhia livros que,

no dizer della podassem adoçar as cruezas do genio do fidalgo e

amaciar-lhe as aspereza das suas escamas aristocraticas. Quantas

occasiões D. Luiz escutava attento e commovido os episodios de certos

livros, mansamente revolucionarios, e abria desprevenido o coração a

doutrinas subversivas dos seus velhos preconceitos, tão occultas ellas

se lhe ensinuavam entre os artificios da concepção e da linguagem!

A baroneza tinha muita fé n'esta vaccina litteraria.

O resultado porém de tudo isto foi que assim que ella tentou partir para

Lisboa, encontrou no tio uma reluctancia com que não havia contado.

O pobre velho, fraco, triste e doente, havia-se costumado á companhia

d'aquella mulher cheia de vida, de intelligencia e de alegria, e

queria-lhe com o apêgo que, n'essas idades, a alma contrahe a todas as

imagens que lhe recordam o tempo em que se conheceu joven e vigorosa.

D. Luiz experimentava quasi um secreto terror ao lembrar-se de que a

baroneza o havia de deixar. Quem viria sentar-se ao lado do seu

melancolico leito, assim que ella partisse? Os filhos afastára-os para

longe de si, em castigo dos delictos com que tanto o haviam offendido.

Frei Januario era-lhe insupportavel.

Mas ficar só, viver só, pensar só, alli n'aquella casa que nem era sua,

só nas suas longas e melancolicas vigilias, com as escuras memorias do

seu passado, com as sombrias apprehensões pelo futuro... esta ideia

aterrava-o. Quando Gabriella alludia á sua próxima partida, elle

desviava o sentido da conversa e claramente lhe pedia que não fallasse

n'isso.

A baroneza via-se pois obrigada a transferir indefinidamente o seu

projecto de deixar a aldeia.

Comtudo cada dia que se demorava nos Bacellos contava-o ella como uma

probabilidade menos a favor dos seus planos!

Esta difficil situação em que se via, obrigou-a a pensar seriamente no

partido que devia adoptar.

Era preciso descobrir um meio de abandonar a aldeia e voltar a Lisboa,

sem causar a D. Luiz o desgosto e a pena que, no estado de saude e de

espirito em que o via, ella receiava que lhe podésse ser fatal.

Uma manhã foi ella procurar o seu primo Jorge, muito convencida de que

tinha emfim descoberto o expediente que procurava.

Jorge trabalhava com uma actividade febril, depois que se ajustára o

casamento de Bertha. Parecia querer procurar no trabalho uma embriaguez

que lhe amortecesse as dôres do coração, que aquelle facto lhe

produzira. Mas a violencia do esforço cançava-o, e bem claro o revelava

na pallidez e depressão da physionomia.

Gabriella não pôde deixar de fazer uma observação mal o viu aquella

manhã:

--É preciso cautela, primo Jorge. Nada de trabalho immoderado! Lembra-te

de que a tua constituição não é para taes fadigas.

--Porque me diz isso?

--Porque te estou lendo no rosto a necessidade de ar livre, de sol, de

exercicio e de distracção do pensamento.

--Effeitos de uma noite mal passada. Eu não me sinto cançado.

--Embora. Sê prudente. Olha que o bom exito dos teus planos depende da

tua perseverança, e a perseverança está mais na continuação dos esforços

do que na violencia d'elles.

--Creia que me sei poupar.

--Muito bem. Agora farás o favor de fechar esses livros e de me escutar,

porque tenho que te dizer.

--Ás suas ordens--respondeu Jorge obedecendo-lhe.

--Entrarei sem demora no assumpto. Sabes que formei o plano de partir

ámanhã pela madrugada para Lisboa?

--Então que urgencias são essas?

--É que se não tomo uma resolução assim, não acabo de partir. Vou de

adiamento em adiamento até ao fim do anno. E é indispensavel que parta.

--Indispensavel!--repetiu Jorge com ar de duvida.

--Com certeza que é. Além do que é necessario arranjarmos Mauricio. Has

de concordar commigo, que esta vida perde-o. Cada dia que se passa para

elle n'esta ociosidade campestre, exerce uma funesta influencia sobre

aquelle caracter, aliás de muito aproveitaveis qualidades.

--Isso é assim. Porém Maurício que parta só.

--Não partirá.

--Porquê?

Gabriella hesitou em dar a razão que Jorge lhe pedia, e respondeu

evasivamente.

--Sei que não partirá. Demais é conveniente que eu lhe prepare o caminho

em Lisboa e por isso preciso de lá ir.

--Porém meu pae?

--Pois ahi é que está a dificuldade, e por causa d'isso é que eu

reclamei esta conferencia.

--Então?

--O tio Luiz está bastante doente. Do corpo e do espirito. Chega a

dar-me cuidados. N'aquelle estado não póde prescindir de certos carinhos

e desvelos, proprios só de uma mulher. São-lhe já tão indispensaveis,

que elle, coitado, aterra-se sómente com a ideia de ter de viver sem

elles. Por isso não quer ouvir fallar na minha partida. A mim mesma me

custa deixal-o, porque sei que lhe hei de fazer falta.

--E contudo diz que parte ámanhã!

--É verdade, porque julgo ter descoberto uma combinação que remediará

tudo.

--Qual é?

--É preciso substituir-me. É preciso sentar uma mulher á cabeceira do

tio Luiz, mas uma mulher que o estime, que olhe por elle, que o distraia

e a quem elle consagre uma affeição que o faça esquecer de mim, e que

lhe torne essa enfermeira ainda mais necessaria do que eu hoje lhe sou,

e ninguem mais está n'este caso do que a afilhada d'elle, essa rapariga

por quem o tio parece haver já manifestado uma particular sympathia, e

que melhor do que ninguem póde vir a exercer sobre elle uma influencia

salutar; n'uma palavra, Bertha da Povoa, a filha do Thomé.

Jorge não pôde reprimir um movimento de contrariedade ao escutar o

projecto da baroneza.

Ergueu-se da mesa, junto da qual estivera sentado, e disse com certo

modo sacudido, como exprimindo uma opinião irrevogavel:

--Não póde ser.

--Porquê?--perguntou Gabriella.

--Porque... porque não.

--Quererás dar-te ao incommodo de procurar outra razão mais logica,

primo Jorge?

--Meu pae não aceitaria os cuidados da filha do Thomé da Povoa.

--Primeiro que tudo é preciso que consideres que o doente que eu deixo

lá dentro não é já aquelle D. Luiz que nós ambos conhecemos na Casa

Mourisca; depois Bertha para elle é raras vezes a filha do Thomé, é a

amiga de Beatriz, é a imagem viva d'aquelle anjo, que elle ainda hoje

chora. Teu pae não terá coragem para afugentar Bertha de junto do seu

leito, e difficil será tiral-a de lá.

--Thomé não consentiria...

--O Thomé é um homem generoso e que, apesar de tudo, tem uma sincera

affeição ao tio Luiz. O Jorge bem o sabe.

--Mas...

--Mas, a final de contas, a principal objecção está em que o primo Jorge

não quer. E porque não quer?

--Não é isso, mas... Demais a mais Bertha não viria de certo n'esta

occasião, em que lhe não falta que fazer em casa.

--Pois que ha por lá?

--Os preparativos do casamento d'ella.

--Do casamento de... quem?!

--De Bertha.

A baroneza ficou d'esta vez verdadeiramente surprendida.

--De Bertha?! Pois Bertha casa-se?!

--E em pouco tempo.

--Com quem?

--Com o Clemente, o filho da minha ama, da Anna do Védor.

Gabriella permaneceu algum tempo calada, sem poder desviar os olhos de

Jorge, como se quizesse devassar o que se passava no espirito do primo,

ao dar-lhe em tom de indifferença aquella noticia.

--Bertha casa-se!--repetiu ella--E por sua vontade?

--Por certo. Quem a obrigaria?

--Parece-me incrivel. E que pensa o primo Jorge d'esse casamento?

--Acho-o tão natural, que fui eu proprio que fiz a proposta.

--A proposta do casamento?!

--Sim, a proposta do casamento.

--A Bertha?!

--Ao pae e a ella.

--E como te lembraste d'isso?

--Porque o Clemente me pediu.

--Ah! E condescendeste sem dificuldades?

--Porque não?

--E Bertha tambem aceitou sem objecções?

--Sim, sem grande hesitação.

Jorge respondia a esta serie de perguntas d'uma maneira constrangida,

como quem anciava por libertar-se depressa do inquerito. Nunca olhára

directamente para a baroneza, que pelo contrario não tirava d'elle os

olhos, nem perdia os signaes de turbação com que elle lhe respondia.

A final Gabriella dirigiu-se ao primo no tom de resolução de quem se

decide por um partido manifesto.

--Jorge, olha bem para mim.

Jorge fitou na prima os olhos admirado.

--E' com indifferença que vês realisar-se o casamento de Bertha e que me

estás fallando n'elle?

Jorge córou intensamente á inesperada interpellação, e tentou responder

ladeando:

--Com indifferença não, de certo. Sou amigo do Thomé e Bertha é...

--A filha d'elle, bem sei. Deixemos esses parentescos. E já que desejas

que falle mais claro, pergunto-te: É ou não é verdade que amas Bertha?

--Eu?!

--Sim, tu. E repara no que me vão responder os labios, porque o rosto já

me respondeu.

Jorge conheceu que não lhe era possivel dissimular, abraçou portanto o

partido da franqueza, que lhe era mais congenial.

--N'esse caso era desnecessaria outra resposta. Porém não duvidarei em

dar-lh'a. É verdade que a amo.

--N'esse caso que quer dizer toda esta comedia?

--Quer dizer que eu e Bertha estamos decididos a cumprir corajosamente o

nosso dever. Ella fazendo a felicidade de um homem honrado que a estima,

e realisando o papel de providencia de uma familia, que é a mais

gloriosa missão da mulher; eu votando-me todo á obra que emprehendi, e

procurando tornar tranquillos os ultimos dias de meu pae n'este mundo,

sem lhe ir exacerbar as paixões do seu coração irritado, para satisfazer

as minhas.

--A poesia dos meus sentimentos está muito atrazada, ao que vejo.

D'antes os amantes sinceros e generosos punham acima de tudo os direitos

dos seus puros affectos. Eu sou dos que lêem por a cartilha d'esses

tempos.

--Os affectos generosos estendem a sua generosidade aos sentimentos dos

outros corações, ainda quando lhes são oppostos. Respeitam-nos.

--É muito sublime; não entendo bem. Vamos a saber, primo Jorge,

dar-se-ha que ainda haja por ahi uns fumosinhos de vaidade

aristocratica?

--Em mim não a conheço; mas respeito-a n'aquelle velho, em quem

descarregaria o ultimo golpe se a não respeitasse.

--É esse o obstaculo? Não vejo ahi senão a necessidade de uma

contemporisação.

--Não digo isso, prima. As contemplações que tenho com meu pae,

têl-as-hei com a sua memoria.

--Mas não é muito de christão suppôr que o sacrificio feito á vaidade do

vivo póde ser agradável á alma, que deixou no sepulchro todos os

prejuizos do barro em que se envolvia. Os preconceitos aristocraticos

não sobem ao céo; quero crêl-o; ficam nos sarcophagos da familia, de

mistura com as cinzas mortuarias.

--Embora; mas seriam criminosos todos os projectos de felicidade, que se

baseassem em um facto tão funesto como esse a que allude. Em taes

fundamentos não serei eu quem os edifique.

--Mas, se bem me recordo, o primo Jorge disse-me ha dias que não se

julgava com direito de sacrificar outra felicidade que não fosse a sua.

--É verdade. Mas não sou eu só que tenho coragem.

--Ah! Ella tambem?! Visto isso concertaram ambos esse plano? É generoso,

não ha duvida. Eu cada vez adoro mais a provincia, onde se dão umas

raras plantas, em cuja existencia quasi não acreditava. Agora já

comprehendo a opposição que encontra em ti o meu projecto. Depois da

vossa heroica resolução, é claro que devia contrariar-te a presença de

Bertha n'esta casa.

--Confesso que sim.

--Concebe-se. Pois é pena, porque me agrada o projecto, e assim tem de

ficar só o tio Luiz.

--Mas não parta.

--Alto lá. Por muito estranhos que me pareçam os teus planos, viste que

não lhes oppuz obstaculos. Reclamo a mesma condescendencia para com os

meus.

--Porém meu pae?...

--Não sei o que lhe faça, primo. Pensa n'isso a vêr se até á hora da

partida me lembras alguma solução. Eu não acho.

A baroneza retirou-se poucos momentos depois apparentemente dissuadida

da sua primeira ideia.

Chegando porém ao seu quarto, sentou-se á secretária, e preparando uma

folha de papel escreveu com a sua miuda calligraphia o seguinte:

«Meu caro snr. Thomé da Povoa.

Sou obrigada a partir hoje para Lisboa. Deixo meu tio muito doente e

muito sentido pela minha falta. Na idade em que elle está e nas suas

tristes disposições de espirito dá-se muito apreço aos cuidados de

uma mulher. A minha ausencia deixa-o tão só e tão sem conforto, que

receio dos effeitos d'ella. Sei quaes os ardentes desejos de

vingança que o snr. Thomé tem contra meu tio e a indole dos actos

com que os satisfaz, e por isso julguei dever dar-lhe estas

informações, para que se vingue a seu modo.

Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia · 第 56 / 93 题