XXVII

Entrando na Herdade para cumprir a promessa feita a Clemente, Jorge

encontrou o fazendeiro, que havia pouco tempo voltára de visitar os

campos, sentado á modesta banca do seu escriptorio, examinando com

attenção os livros de assento e algumas cartas que recebêra.

Usando da familiaridade, com que era recebido n'aquella casa, Jorge

entrára sem se mandar annunciar.

--Olá! viva o snr. Jorge--exclamou o lavrador, voltando-se ao rumor de

passos que ouvira--venha cá, venha, que temos novidade.

--Então que ha?--perguntou Jorge, sentando-se defronte d'elle.

--Vamos a saber. Teve cartas do Porto?

--Não.

--Hum! É o que eu digo. Se está á espera de que os advogados lhe

escrevam, bem tem que esperar. Aquelles senhores, sahindo do

escriptorio, não pensam mais nas demandas nem nos clientes. Olha quem.

Eu cá entendo-me com os procuradores e não me dou peior. Ora leia.

E passou para as mãos de Jorge uma carta, na qual de facto o procurador

lhe dava lisonjeiras informações relativamente ao pleito que a Casa

Mourisca sustentava. A questão tomára uma face nova, depois da juncção

ao processo de certos documentos de importancia, e o parecer dos juizes

era favoravel, segundo o que podia conjecturar o procurador, forte

n'estes prognosticos.

A noticia não podia ser indifferente a Jorge. A boa solução d'esta

demanda facilitaria consideravelmente os seus projectos economicos; e

poderia depois tentar mais desembaraçado e com mais efficacia os

expedientes que a sua meditação e a experiencia de Thomé lhe suggeriam.

--Então que diz a isso?--interrogou o fazendeiro.

--É devéras uma feliz nova.

--Diga-me agora se ha de ou não vir tempo em que aquella casa negra

tornará a ser o que foi.

--Espero que Deus me conceda essa ventura.

--Agora é necessário escrever para Lisboa para apressar o negocio, e com

relação áquelles titulos, que parece não estarem muito na ordem,

recommendo-lhe este procurador, que é homem diligente e seguro.

--Era já minha tenção fallar-lhe n'elle. Deixemos porém agora esta

materia, porque outro grave motivo me trouxe aqui e tenho pressa de me

desempenhar da missão.

--Olá! Motivo grave! Pelo modo de dizer parece que se tracta de coisa de

polpa.

--Não é de pequena gravidade, não--insistiu Jorge--e se quer que lhe

falle a verdade, Thomé, não me é agradavel a incumbencia.

--Vá lá. Estou d'aqui a adivinhar o que é. Temos algum recado do pae. O

snr. D. Luiz sabe invental-as de bom feitio. Ás vezes tem lembranças!

Mas eu já estou prevenido para tudo, venha mais essa. Diga lá.

--Não, Thomé, não se tracta de meu pae. E não cance mais a cabeça, que

por certo não adivinha, e eu, em duas palavras, ponho-o ao corrente de

tudo. O Clemente, o filho da Anna do Védor, procurou-me ha poucas horas

para me pedir que me encarregasse de ser o seu mediador em uma pretenção

que elle tem dependente de Thomé.

--De mim?! Deve ser bem exquisita para que o rapaz não venha em pessoa

fallar-me. Então não somos nós amigos?

--Ha delicadeza da parte d'elle n'isto, porque a pretenção de que se

tracta é de certo melindre. Em uma palavra, estou encarregado de pedir

para Clemente a mão de Bertha.

Jorge não pronunciou estas palavras com a mesma forçada placidez com que

até alli sustentára o dialogo. Parecia que os labios as repelliam, como

se os escaldassem ao passar.

Thomé recebeu sem estranheza a communicação. Mostrou bem que a ideia

d'essa alliança não era nova para elle, e que não carecia de tempo para

a examinar, porque todas as faces d'elle lhe eram já conhecidas.

--Ah! pois era isso?--disse elle naturalmente--Escusava de tantas

ceremonias o rapaz, porque já deve saber por a mãe o que eu penso do

caso. Pela minha parte não ponho duvida alguma. O Clemente é um rapaz de

bons sentimentos, honrado como poucos, trabalhador, e tendo já de seu

alguns haveres, que não são maus principios de vida. É um rapaz de

lavoura, como não podia deixar de ser o marido de Bertha, que filha de

lavrador nasceu tambem; mas sempre tem mais um bocadinho de educação do

que esses machacazes que por ahi conheço, a quem não entregaria a filha,

nem que m'a pesassem a oiro. O Clemente não, o Clemente é um homem que

sabe dar valor ás coisas, e ha de conhecer que a minha Bertha sempre se

creou por a cidade, e que por isso exige outro tractamento que não o

d'essa raparigada por ahi, que de qualquer maneira está bem. Pois não

acha que tenho razão, snr. Jorge?

--Sim--respondeu Jorge, levantando-se e encaminhando-se para a janella,

como para dissipar o despeito, que lhe causava a maneira por que Thomé

fallava d'aquella alliança--sim, Clemente tem maneiras mais polidas e,

como diz a mãe d'elle, sabe muito bem fazer uso da senhoria e da

excellencia pela pratica da correspondencia official.

--Isso lá historias--tornou Thomé, sem perceber a meia ironia das

palavras de Jorge--que para nada lhe serve a senhoria e a excellencia

para o casamento. Entre marido e mulher não ficam bem essas ceremonias,

e não ha como o «tu» entre quem se quer bem.

Estas palavras incommodaram tanto Jorge, que principiou a tocar

ruidosamente nos vidros como para não as ouvir. «Tu» entre Clemente e

Bertha!

Thomé continuou:

--Mas eu não queria dizer isso. Quando fallava nas maneiras do Clemente

queria dizer que elle tem isto, que não sei bem como se chama, isto de

um homem saber tractar com uma pessoa delicada sem a offender. Porque,

vê o snr. Jorge? eu conheço homens que tiveram grande educação, muitos

mestres, e muitos estudos, sim senhores, e que estão sempre a dizer

coisas que offendem os outros. Emquanto que muitos, que não foram tão

bem olhados em pequenos, teem lá não sei que dom de conhecer as pessoas

e sabem viver com ellas sem nunca as escandalisar. Isto é assim como que

uma delicadeza que se não aprende, que nasce com as pessoas. Ora o

Clemente é dos taes.

--Em vista do que ouço, reputo-me feliz por ter sido o portador de tão

fausta nova, e de concorrer, ainda que secundariamente, para obter-lhe

um genro tão precioso--disse Jorge, cujo despeito se exacerbava.

--Devagar, devagar, esta é cá a minha opinião, mas não sou eu que me

caso e portanto Bertha é que ha de decidir. Eu não duvido dar conselhos

a minha filha e dizer-lhe o que penso d'este ou d'aquelle rapaz de quem

ella se lembre para noivo; mas constrangêl-a, isso é que eu não faço.

--De certo; mas creio que Bertha não será tão cega, que não veja as

excellencias que concorrem na pessoa de Clemente, e que se não lisonjeie

da preferencia que lhe mereceu.

--Pois eu tambem quero crêr que o não engeitará. Mas emfim, a gente vê

as coisas com uns olhos e ellas com outros. Por muito ajuizadas que

sejam, as raparigas a final teem olhos de raparigas e ás vezes lá

descobrem em um homem umas coisas, que as captivam ou que as desgostam,

e ninguem póde saber o que lhes agradará mais. Em todo o caso eu vou

consultal-a.

--Muito bem. Consulte-a e se, como é de esperar do juizo d'ella,

Clemente fôr bem acolhido, dê-me parte para o participar ao meu

constituinte.

Jorge não podia despojar as suas palavras de todo o tom de ironia, ao

referir-se a Clemente.

--Mas...--disse com certa hesitação Thomé--então retira-se já?

--Pois não diz que vae consultar Bertha?

--Mas, se se demorasse, podia já saber...

--A urgencia não é tanta que se torne necessario esperar. Mas emfim

esperarei. Vou dar uma volta pelo campo, emquanto lhe falla.

--E tinha duvida em ficar?

--Ficar onde?

--Aqui.

--A fazer o quê?

--A ouvir a resposta de Bertha.

--Eu?!--exclamou Jorge, com uma vivacidade que para Thomé não tinha

explicação.

--Então que tem? Não se tracta de segredo algum. É uma proposta que vou

fazer a minha filha e á qual ella responderá sim ou não, e está acabado.

A presença do snr. Jorge nada estorva. Antes poderia dar á pequena

informações a respeito do Clemente, que ella conhece mal...

--O quê?! Thomé!--acudiu Jorge irritado--pois cuida que eu me encarrego

de similhante papel? Eu? Que interesse tenho eu em que Bertha aceite a

proposta de Clemente? Que certeza posso dar-lhe de que fará bem

aceitando-a? Eu sei lá? Clemente é um rapaz de quem sou amigo, mas não

sei nem quero saber se d'elle se fará um bom marido. A respeito de

casamentos não dou conselhos. Não quero que me lancem depois as culpas.

N'esse assumpto cada um escolha por si, porque para si escolhe.

Informações a respeito do Clemente! Eu?! Mas que informações quer que eu

dê?

--Pois não diz que é seu amigo?--tornou Thomé, um pouco admirado com as

maneiras impertinentes que notava em Jorge--Não é essa já pequena

garantia para a minha Bertha, que sabe o valor que teem os homens, a

quem o snr. Jorge dá esse nome.

--Ah! não sabia que eu era a pedra de toque no conceito de Bertha para

julgar dos caracteres dos homens. Mais um motivo para ser reservado.

--Diga-me uma coisa, snr. Jorge--insistiu Thomé, e em tom mais

decidido--se soubesse que o Clemente era um miseravel, um vicioso, um

extravagante, de más qualidades, e estivesse persuadido de que seria um

mau marido, ter-se-ia encarregado de pedir-me, em nome d'elle, a mão de

minha filha?

--Por certo que não--respondeu Jorge promptamente e com toda a lealdade.

--Muito bem; pois é isso mesmo que eu desejava que minha filha soubesse.

O snr. Jorge não lhe daria conselhos, dir-lhe-ia sómente: encarreguei-me

de dar este passo, porque este homem é um homem honrado. Agora o mais é

com ella. Mas isso poria as coisas no seu logar. Porém uma vez que não

quer...

Passava-se n'aquelle momento na alma de Jorge uma lucta de resoluções

antagonistas. Se por um lado lhe repugnava a proposta de Thomé,

tentava-o por outro a curiosidade dolorosa de saber como Bertha

acolheria o pedido de Clemente e a resposta que lhe daria. Receiava que

a intima commoção, que procurava suffocar, se trahisse na presença de

Bertha em tão solemne momento, e ao mesmo tempo custava-lhe renunciar a

observal-a quando ouvisse a proposta do pae. A curiosidade venceu.

Esforçando-se por desvanecer todos os vestigios da sua perturbação,

Jorge respondeu a Thomé no tom da maior indiferença, que, visto que elle

julgava conveniente a sua presença durante a entrevista que ia ter com a

filha, pela sua parte não oppunba objecção.

E sentando-se outra vez á banca, abriu ao acaso um livro, que fingiu

examinar attento, mal podendo reprimir o tremor da mão com que o

segurava.

Thomé da Povoa chamou a filha ao escriptorio.

Jorge ouviu os passos de Bertha, descendo as escadas; sentiu-a abrir a

porta e entrar na sala; levantou timidamente os olhos para responder ao

comprimento que ella lhe dirigiu e baixou-os novamente sobre o livro que

abrira.

Bertha olhou interrogadoramente para o pae, que permanecia silencioso,

como quem estudava a maneira de principiar.

A final entrou assim no assumpto:

--Mandei chamar-te, Bertha, porque se tracta d'um negocio serio, que te

diz respeito.

--A mim?--perguntou Bertha admirada, alternando os olhares entre o pae e

Jorge, que não erguia os seus.

--Sim, filha, a ti. O caso não é de espantar. Ha um rapaz n'esta terra,

um moço honrado e trabalhador, a quem tu agradaste e que te pede para

mulher.

Jorge aventurou um olhar furtivo para o rosto de Bertha. Viu-o mudar

rapidamente de côr; córou primeiro, empallideceu depois.

--Este rapaz--proseguiu Thomé--é já teu conhecido. É o Clemente, o filho

da ti'Anna do Védor, de quem és amiga. Agora decide lá.

Bertha permanecia silenciosa, como se a inesperada noticia lhe tivesse

tirado o uso das faculdades, a ponto de não comprehender o que ouvira.

Notando o silencio da filha, Thomé acrescentou:

--O snr. Jorge foi quem teve a bondade de se encarregar do pedido de

Clemente, porque o rapaz não teve coragem para o fazer em pessoa.

Jorge franziu ligeiramente o sobrolho, a estas palavras, que não quizera

ouvir.

Bertha estremeceu e desviou para Jorge um olhar expressivo de profunda

amargura, que elle não observou. Voltando-se depois para o pae,

perguntou-lhe com a voz tremula e prêsa pela commoção:

--E que respondeu o pae ao pedido que lhe fez, em nome de Clemente, o

snr. Jorge?

--Eu, filha?--respondeu Thomé--Pela minha parte disse e digo que não

ponho estorvos. Conheço o rapaz, sei as qualidades que elle tem e para

genro agrada-me. Mas isso não tira. Tu é que deves dizer se elle te

agrada para marido.

Bertha baixou, durante alguns momentos, os olhos e não respondeu. Depois

ergueu-os e fitou-os em Jorge, como a procurar-lhe penetrar no

pensamento; a final com voz já mais firme, mas commovida ainda, disse:

--Visto que foi o snr. Jorge quem se encarregou d'essa proposta,

parece-me ter direito a pedir tambem a sua opinião a respeito d'ella.

Jorge estremeceu e olhou para Bertha de uma maneira que denunciava um

intimo sobresalto.

--A minha opinião?--repetiu elle, sem saber o que dizia.

--Sim, o snr. Jorge é amigo de meu pae, e julgo que meu amigo tambem.

Não ha de querer vêr-me infeliz. Encarregando-se de dar o passo que deu,

é de certo porque julga que eu poderei encontrar a felicidade, seguindo

o caminho que me facilita assim. A sua lealdade obriga-o a dizel-o

francamente, se assim o pensa. E eu atrevo-me a exigil-o da sua

lealdade.

--Eu apenas cumpri a missão de que me encarregaram, mas não

aconselho--balbuciou Jorge.

--O snr. Jorge é demasiado sincero na sua amizade a meu pae para aceitar

essa missão de um homem de quem receiasse que me podia vir a

infelicidade. Quero acredital-o.

Jorge irritou-se; irritou-se contra si por a turbação que sentia, e

contra Bertha, por suspeitar que era o amor a Mauricio que lhe estava

dictando aquellas palavras; por isso respondeu com o tom ironico do

costume:

--Não duvido affirmar que o Clemente é um excellente rapaz, que póde

fazer feliz qualquer mulher que não aspira a mais do que á estima leal e

sincera de um homem de bem. Vejo em Clemente garantias de que dará a uma

esposa de ideias razoaveis aquella felicidade que consiste na paz

domestica e no amor da familia. Mas eu não sei se isto satisfará a toda

a gente. Ahi está que as educações modernas fazem ás vezes o espirito

das mulheres mais exigente e habituam-nas a sonhar com umas certas

poesias na vida, que um homem como o Clemente sem duvida não póde

realisar. A essas agrada ás vezes mais qualquer estouvado, com a cabeça

cheia de loucuras e o coração vazio, mas que tenha a brilhante qualidade

de saber dizer falsidades em bonitas palavras.

Depois, reprimindo esta excepcional vivacidade, que estava espantando

Thomé, acrescentou:

--Se, como creio, Bertha não está n'este caso, parece-me que encontrará

em Clemente um marido leal.

Estas palavras pronunciou-as Jorge em tom sumido e baixando de novo o

olhar para o livro que não lia.

Thomé voltou á falla:

--Sabes que mais, Bertha, estas coisas querem-se pensadas. Tu darás a

resposta quando quizeres, que a pressa não é muita.

Bertha atalhou:

--Não é necessário, meu pae. A minha resolução está formada. Póde mandar

dizer a Clemente que aceito.

Jorge sentiu ennevoarem-se as letras do livro, como se lhe passasse por

diante uma nuvem escura.

Thomé insistiu:

--Não, filha; para que has de ser tão apressada? Valha-te Deus. Pensa e

depois resolverás.

--Já resolvi, meu pae--repetiu Bertha com firmeza.--Clemente é um homem

honrado, eu não posso aspirar a mais. Dizem que é uma alma generosa, ha

de estimar-me, eu não procuro outras delicadezas além d'aquellas que

sabem poupar-nos uma offensa immerecida. E é tão facil evitar offender

uma rapariga como eu!

E dizendo isto desviava na direcção de Jorge um olhar intencional.

--Póde mandar dizer a Clemente que aceito, meu pae--repetiu ella,

concluindo.

--Vê lá! Olha que eu não quero que te constranjas! E agora deixa-me

tambem fallar a tua mãe, que sem a ouvir não é bom decidir nada.

Espera-me aqui um pouco, que eu vou chamal-a.

E sem aguardar reflexões, Thomé, intimamente satisfeito com a prompta

condescendencia da filha, sahiu da sala em procura de Luiza.

Jorge não desejaria conservar-se mais tempo alli, só, na presença de

Bertha, mas faltou-lhe o animo para levantar-se. Ambos se conservaram

calados por algum tempo.

Jorge nem levantára os olhos do livro.

Bertha foi quem primeiro rompeu aquelle glacial silencio.

--Devo-lhe agradecer, snr. Jorge, o muito cuidado que lhe merece a minha

felicidade.

Jorge ergueu a cabeça e fitou os olhos no semblante de Bertha.

A violencia que ella fazia para reprimir a sua profunda commoção era bem

manifesta.

--Espero que Bertha se não decidisse pelo partido que adoptou, senão por

sua livre vontade--disse Jorge com mais brandura do que até alli--e que

a minha ingerencia em tudo isto não influisse de maneira alguma para

obrigal-a a sacrificar a sua felicidade...

--Oh! por certo que não--atalhou Bertha, cada vez mais agitada--eu sou.

.. hei de ser muito feliz...

E não podendo reter mais tempo as lagrimas que lhe subiam impetuosas aos

olhos, occultou o rosto entre as mãos e poz-se a chorar.

Jorge aproximou-se d'ella com compassiva solicitude.

--Porque chora, Bertha?--perguntou elle com affabilidade.--Se por acaso

foi contra sua vontade que deu aquella resposta, ainda está em tempo.

Ninguem lhe pede um sacrificio, repare. Porque chora assim, Bertha?

Em vez de responder, Bertha elevando para Jorge os olhos banhados de

lagrimas, perguntou com a voz tremula ainda:

--Ficará pelo menos extincta de uma vez com este sacrificio a aversão

que me tem, snr. Jorge?

Jorge estremeceu.

--A aversão que lhe tenho?! Que diz, Bertha?! Pois imagina?...

--E quer ainda negal-a? Não sei em que lh'a tenho merecido, mas existe e

bem clara se manifestou agora.

--Bertha!...

--Não lh'o disse eu já no outro dia? E agora o que o moveu a

encarregar-se d'essa proposta? e porque o fez com aquellas palavras

crueis? Eu bem as percebi. Meu Deus, em que foi que o offendi, snr.

Jorge, para ser tão severo commigo, quando para com todos é tão

indulgente? A minha educação... Deus sabe se me deixei fascinar por

ella, Deus sabe se não luctei sempre contra a imaginação, quando ella me

fazia conceber loucuras, como a todas as raparigas da minha idade. Quem

póde condemnar-me por ellas, se eu sou a primeira que as condemno? Em

que tenho mostrado esses defeitos de educação, que tão severamente me

censura? Se soubesse, snr. Jorge, como, percebendo o seu desdem, tenho

sido escrupulosa em procurar em todos os meus actos o motivo d'elle...

Deus é testemunha de que nada descobri. Falle, já agora que está

consummado o sacrificio, já agora que deve julgar satisfeita a expiação

que me impoz, tenho direito a exigir de si o cumprimento da promessa,

que ha poucos dias não ousou recusar-me. Bem vê, se descobriu em mim

culpas, para remir as quaes me marcou esta penitencia, bem vê com que

resignação eu a aceito e a cumpro. Valha-me pelo menos este pouco merito

para obter da sua parte uma declaração franca, já que não póde

valer-me... a sua amizade. Falle, snr. Jorge, diga-me porque me quer

mal, o que fiz eu, que más qualidades descobriu em mim para me tractar

como tracta? Falle.

E a commoção cortava-lhe em meio as palavras ao dizer isto. Jorge não

estava menos commovido.

Bertha deixára-se cahir soluçando em uma cadeira, e escondia o rosto

entre as mãos; Jorge, cujo semblante já não conservava vestigios da sua

fria e habitual reserva, veio sentar-se junto d'ella, tornou-lhe

afectuosamente as mãos, e dirigindo-se-lhe com brandura, disse-lhe:

--Vou satisfazêl-a, Bertha; vou ser sincero e leal comsigo, já que assim

o quer. Escute-me e saberá a causa occulta de todo o meu estranho

procedimento. Olhe bem para mim, Bertha, para lêr no meu semblante a

sinceridade da minha confissão.

Bertha ergueu para elle os olhos humidos de pranto.

Jorge proseguiu, apertando-lhe com mais fervor as mãos que conservava

nas suas.

--A causa intima, a causa occulta das minhas acções para comsigo,

Bertha, essa causa mysteriosa que eu procurava esconder da vista de

todos e suffocar no meu coração... quer sabêl-a, Bertha? Essa causa é o

muito amor que lhe tenho.

Bertha estremeceu e, retirando as mãos das de Jorge, levou-as ao rosto

como para reprimir um grito.

Jorge proseguiu:

--Agora ha de escutar-me, Bertha. Os corações reservados, como o meu,

quando chegam a soltar a primeira confidencia precisam de se revelar

inteiros; escute-me. Amo-a; amava-a antes mesmo de a ver depois do seu

regresso á aldeia. Insinuou-se-me na alma este amor no meio das minhas

preoccupações e dos meus cuidados, sem eu bem saber como. Ouvia fallar

de si a seu pae, lia as suas cartas, pensava em si e... e amei-a. Foi o

meu primeiro amor. Nunca tinha sentido outro, nunca sentira até a

necessidade de amar. Nenhuma mulher me havia escutado uma só palavra de

galanteio. Persuadira-me eu proprio de que o meu coração era superior á

violencia dos affectos, a que os outros cediam. Quando, pelo que senti,

me vi forçado a abandonar esta crença, quando comecei a duvidar da minha

immunidade, assustei-me e irritei-me contra mim mesmo por me achar

fraco. Quiz luctar e vencer essa paixão que, a despeito da minha

vontade, sentia occupar cada vez mais espaço no meu coração. Ai, Bertha,

começou para mim uma lucta extenuadora; quanto mais resistia, tanto mais

me sentia subjugado. Revoltei-me contra a fatalidade d'este affecto,

revoltei-me contra si, Bertha, a quem desejava querer mal por o muito

que a amava já. D'ahi a rudeza das minhas palavras, a quasi hostilidade

do meu proceder para comsigo. Para apagar o prestigio que o seu nome,

que a sua imagem tinham adquirido no meu coração, suppunha-lhe defeitos

imaginarios, inventava-lhe vicios de educação, procurava assim alienar

de si os meus affectos, antes que chegasse o temido momento de vêl-a; em

vão, cada vez a amava mais, e no dia em que finalmente a tornei a ver,

conheci que era irremediavel aquella fatalidade; amava-a e muito e

tanto, que até ciumes sentia já.

Bertha, a estas palavras, levantou os olhos para elle.

Jorge proseguiu respondendo áquelle gesto:

--Ciumes, sim, Bertha; ciumes que ralavam, ciumes que me enchiam de

remorsos, e que envenenavam quasi o afecto que me ligava a meu irmão.

Porque era d'elle que os sentia. Veja que má loucura a minha! É a

Mauricio que Bertha ama, pensava eu, seduzem-n'a as qualidades

brilhantes de meu irmão, e comtudo elle não a ama como eu. Então

indignava-me contra si, Bertha, e contra mim proprio, porque a amava

tanto.

A uma pequena pausa que Jorge fez na sua apaixonada exposição, Bertha

ergueu outra vez os olhos para elle, e n'esse olhar ia a condemnação

d'aquelles ciumes.

Jorge continuou:

--E porque me assustava tanto este amor? Porque tentava resistir-lhe

assim? Ao principio foi pela estranheza que me causou este sentimento

novo e desconhecido. Depois, o receio de que fosse descoberto este amor

em um homem que todos suppunham incapaz de amar; um quasi pudor de

coração. Finalmente veio a reflexão augmentar estes receios. Se este

affecto crescesse e me dominasse como paixão violenta e exclusiva, que

obstaculos não teria a vencer! que preconceitos não teria de calcar!

Desprezando arreigados prejuizos de meu pae, incorrêra eu já nas suas

iras, mas d'essa vez desattendi-os, menos pela minha felicidade, do que

pela d'elle; para salvar o nome e a honra da nossa familia, a cuja

aviltação meu pae não sobreviveria. Tive por isso coragem para luctar e

tenho-a para proseguir. Mas agora tractava-se sómente da minha

felicidade; era só a elle que eu teria de sacrificar os preconceitos, o

orgulho, as radicadas opiniões d'aquelle honrado velho. Faltava-me o

alento para tental-o. Preferia dar-lhe em holocausto o meu coração. E o

sacrificio devia ser definitivo, porque a memoria de meu pae o exigiria

de mim, impôr-m'o-ia tão fortemente como elle proprio. Mas, se este amor

fosse correspondido, faltar-me-ia o animo e até o direito de o

sacrificar assim. Por isso fugi de me revelar, Bertha, por isso tentei

antes fazer-me aborrecido do que estimado de si, de quem eu apreciaria o

amor como um dom do céo. Creia. Por isso aceitei com o coração a

despedaçar-se-me, mas com certo doloroso prazer, a missão de que me

encarregou Clemente. Deus sabe o que eu soffria ha pouco. A sua

condescendencia torturava-me, nas suas hesitações julgava descobrir

vestigios de uma affeição... por Mauricio. D'ahi vieram todas as

loucuras que eu disse. Eis o segredo do meu coração, Bertha, eis o

mysterio das minhas acções. Agora julgue-me e perdoe-me. Bem vê que

tambem soffro.

E, terminando estas palavras, Jorge inclinou a fronte sobre a mão, como

se o esforço que fizera o tivesse extenuado.

Bertha foi d'esta vez a que primeiro interrompeu aquelle silencio

eloquente de paixão; com a voz ainda sobresaltada, mas com o olhar

seguro, ella respondeu apertando a mão de Jorge:

--A sua confidencia leal e a sua generosidade deu-me coragem de ser

tambem sincera. Jorge, repare; sem o menor receio nem hesitação, com o

olhar erguido diante do seu, vencida por a confiança que se sente em uma

alma tão nobremente generosa, tambem lhe faço a minha confidencia.

Jorge... eu também o amava...

Jorge ergueu a cabeça ao ouvir a inesperada declaração, e por momentos

brilhou-lhe no rosto um clarão de alegria.

Bertha, baixando timidamente os olhos, continuou:

--Sim, tambem o amava; mas tambem tinha comprehendido a necessidade do

sacrificio de que falla, e não serei de certo eu quem lhe tire o animo

de realisal-o. É antes para lhe dar coragem que lhe fallo assim; para

que a certeza de que alguem soffre comsigo lhe dê allivio no

soffrimento. Venero e estimo seu pae, como se fosse o meu, Jorge, e para

lhe evitar uma dôr, não acho grande o sacrificio do meu coração e dos

meus affectos. E agora muito menos; deu-me a certeza de que me não

despreza. Era essa suspeita que me torturava. Agora sou feliz, e

sinto-me corajosa. Encaro sem desalento o meu dever e o meu futuro. Não

serão obstaculo os sentimentos da minha alma; porque n'elles sinto eu

antes auxilio. É d'esta natureza o amor que lhe tenho, Jorge. Amando-o,

aceitarei sem remorsos a proposta de Clemente. Vê? É porque este affecto

ennobrece, e emquanto o sentir não receio de me tornar indigna d'elle.

Apenas fallarei com lealdade a meu noivo, para dizer-lhe que não posso

prometter-lhe amor, porque o não sinto por elle.

--Não, Bertha, não; não aceite a proposta de Clemente. Se é verdade que

me ama, não aceite...

--Porque não, Jorge? Creia-me. É a mais segura maneira de vencermos este

sentimento, que a nosso pezar nos dominou. Ambos nós respeitamos muito o

dever. Elle nos dará coragem.

--Bertha; diga outra vez que me ama; diga-me que me illudi sempre em

relação aos seus sentimentos, e eu vencerei as resistencias que se

oppozerem a este amor, como tenho vencido as que luctavam contra os

projectos que formei de salvar a minha casa de ruina.

--Que diz, Jorge? Nunca me poderá vir a felicidade da discordia da sua

familia e bem vê que era inevitavel. Eu sou a filha de Thomé da Povoa,

lembro-me d'isso, Jorge; de Thomé da Povoa, o antigo criado da Casa

Mourisca; o homem de quem o snr. D. Luiz recebe os serviços como

humilhações e insultos. Seu pae estima-me; ainda ha bem pouco me

abençoou, como se eu fosse sua filha. Não queira obrigar-me a perder

essa estima, que tanto prézo. Não seria feliz depois; não podia sêl-o.

Assim conservarei a amizade de todos... porque o snr. Jorge ha de

estimar-me sempre, não é verdade?

--Hei de adoral-a, Bertha--murmurou Jorge, submettido.

--Vamos; procedamos agora como se nada se passasse entre nós. Ganhemos

coragem para cada um cumprir o seu dever e separemo-nos como bons

amigos.

E commovida ainda, estendeu a mão a Jorge, que a levou apaixonadamente

aos labios, cobrindo-a de beijos.

--Bertha, Bertha, não será quasi um crime o que fazemos? Despedirmo-nos

assim quando pela primeira vez nos revelamos?

--Não, Jorge, não é. É um dever... doloroso, mas é um dever.

Ouviram-se as vozes de Thomé e de Luiza, que voltavam.

Jorge ergueu-se sobresaltado:

--Não posso simular a placidez necessaria para fallar-lhes e ouvil-os

fallar n'este casamento, Bertha; como hei de ter animo para o

presenciar? Adeus e... se lhe faltar a coragem... tudo se remediará

ainda.

--Adeus, Jorge. Havemos de ser dignos um do outro. Não fraquearemos.

E Jorge sahiu da sala para não se encontrar com Thomé.

Bertha recebeu os paes já com os olhos enxutos, ainda que agitada pela

violencia da ultima scena.

Luiza parecia mediocremente encantada com a perspectiva do casamento que

tanto satisfazia Thomé.

--Então é verdade, Bertha? E tu querel-o?--perguntou ella em tom de quem

duvidava.

--Sim, minha mãe, julgo que devo aceitar.

--E... e o snr. Jorge... tambem te aconselhou?

--Sim--respondeu Bertha mais enleiada--o snr. Jorge é de parecer que

sim.

--Já se retirou?--perguntou Thomé da Povoa, procurando-o com a vista.

--Já. Disse que não podia demorar-se. E eu peço licença para me retirar

tambem.

E Bertha apressou-se a sahir da sala para se esconder no seu quarto e

chorar.

--Emfim!--concluiu Luiza, suspirando e depois de seguir a filha com a

vista--Vossês lá o lêem, lá o entendem. Mas não era isto o que eu

esperava.

--Então que esperavas tu?--perguntou Thomé, levemente

despeitado.--Julgavas talvez que viria por ahi algum principe pedir-te a

filha para casar?

--Eu cá me entendo.

--E eu tambem te entendo. Que ainda ninguem te pôde tirar da cabeça umas

teias de aranha que lá se metteram. Agora pelo menos deves estar

desenganada.

Luiza suspirou e não deu resposta. Mas pensava comsigo:

--Bertha já eu vi, e a cara não é de noiva contente. Tenho pena de não

vêr a d'elle. Mas emfim, seja o que Deus quizer!

Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia · 第 55 / 93 题