D. Luiz estremeceu de irritação a estas palavras.

--Meus filhos! Que me quer dizer d'elles? D'elles me queixo eu. Jorge

fez-me córar pela pouca dignidade dos seus sentimentos; Mauricio pela

vileza dos seus actos.

--Mauricio?! Sancto Deus! Pois que succedeu mais?

D. Luiz, ainda tremulo de indignação, contou á baroneza a scena da

vespera. A cólera do velho contra o filho era violenta e contrastava com

a brandura e quasi respeito que o dominava ao fallar de Bertha.

A baroneza ia notando estes phenomenos todos.

Assim que D. Luiz concluiu, Gabrieila, encolhendo os hombros, formulou a

emenda:

--Loucuras de rapaz.

--Loucuras! Loucuras de rapaz! Que diz, Gabrieila? Nem tudo se póde

permittir ou desculpar ao verdor dos annos. E quando nas acções de um

rapaz se nota, já não apenas o estouvamento e a inconsideração que é

propria dos annos, mas os signaes de uma profunda depravação moral, esse

rapaz, aos vinte annos, tem já a alma corrompida.

--Mas o que vê mais do que estouvamento nos actos de Mauricio?

--Que ia elle fazer embriagado, e na companhia de devassos, á Casa

Mourisca?

--Saiba então, meu tio, que o primo Mauricio tem o fraco de se julgar

apaixonado por todas as raparigas bonitas que vê. É o seu defeito.

Portanto julga-se tambem apaixonado por Bertha, que me dizem ser gentil.

Parece porém que não tem sido feliz por esse lado. D'ahi os seus

desafogos. Depois os planos de Jorge, mal interpretados, e as malevolas

instigações d'aquellas sanctas creaturas dos nossos primos do Cruzeiro

fizeram-lhe já por mais de uma vez vêr no irmão innocente um rival

preferido, e ahi está. Acrescentando a isto a influencia do estado

anormal em que diz que elle hontem se achava, tudo se explica. Loucuras

de uma cabeça estouvada; que por o coração fico eu.

--Perde-se, perde-se--insistia D. Luiz.--Não respeitar os sentimentos

mais puros! nem pelo menos lhe merecer respeito aquella pobre rapariga,

que tem as mais sanctas tradições de nossa familia a protegêl-a! Nem

ella! É uma infamia!

--Sabe o que tudo isto está pedindo, meu tio?

--O que é?

--É que se tire Mauricio d'aqui. Esta ociosidade perde-o. Este viver

apertado no pequeno circulo da aldeia ha de acabar por suffocar n'elle

as melhores aptidões e desenvolver-lhe as más. Creia. O tio deve vencer

os seus escrupulos em deixar Mauricio partir.

--Lembrei-me já d'isso. E n'esse intuito a procurei. Mas pense bem,

Gabriella. Engolfal-o na grande sociedade, onde os vicios e as tentações

se conspiram para embriagar e seduzir a juventude, e elle em quem

germinam já tão maus instinctos...

--Tem dotes de alma que lá se desenvolverão e neutralisarão os vicios e

as tentações.

D. Luiz curvou a cabeça pensativo. Os seus preconceitos politicos eram

muito vivazes, não cediam sem resistencia.

--Para que me deu o Senhor filhos!--exclamou elle, revoltando-se contra

a sua perplexidade, e acrescentou:

--Mas a final que carreira póde elle seguir?

--Não fixemos d'antemão planos. Em geral os acontecimentos

annullam-n'os. Decida-se a partida. Eu o recommendarei de maneira que

elle proprio possa dentro em pouco escolher a carreira que lhe convenha.

--Mas, se tiver de ceder...

--Meu tio, permitta-me uma reflexão. Se quizermos prevenir todos os

fortuitos inconvenientes de uma resolução qualquer, antes de a tomarmos,

nehuma abraçaremos. Deixemos as objecções e os reparos para o momento

apropriado. Quer que Mauricio parta?

--Se elle ha de perturbar a paz d'essa família e obrigar-me mais uma vez

a humilhar-me diante d'ella... Porque meus filhos teem tido a rara

habilidade de deixar a humilhação por o unico expediente ao meu

pundonor! Collocaram a razão e a justiça da parte dos meus inimigos,

forçoso era, para poder ter a cabeça erguida, curval-a primeiro e

implorar perdão.

Gabrieila fingiu não attender á primeira parte das reflexões do tio.

--Muito bem. Vou fallar ao Mauricio. Tudo se ha de decidir em pouco

tempo. Tenha fé em que se não perde uma familia, cujos futuros

representantes teem, um o caracter honrado e a razão clara de Jorge,

outro os bons instinctos e as brilhantes qualidades de Mauricio. Pelo

contrario, creio que ella está destinada a dar um salutar exemplo

áquelles, cuja estrella tambem declina, ensinando-lhes a unica maneira

de continuar, nos tempos que correm, as nobres tradições dos seus

antepassados.

--E qual é essa maneira unica?--interrogou o fidalgo, quasi ironico,

como se já esperasse a resposta.

--Entrar nobremente no caminho da actividade e do trabalho;

distinguir-se ahi, como se distinguiram outr'ora nas guerras de Africa e

nas navegações os que tinham o mesmo nome para ennobrecer. Ser ocioso,

por não poder ser guerreiro, é fraco titulo para a veneração dos

contemporaneos. Cada seculo tem a sua tarefa, meu tio; a de hoje não se

cumpre ás lançadas, nem ás cutiladas. O bom senso do tio Luiz ha de

dar-me razão. Sabe além d'isso muito bem o que se faz lá por fóra, o que

se faz na Inglaterra, por exemplo, onde tambem ha nobreza e orgulhos

nobiliarchicos, como por cá, e mais talvez ainda.

--Bem vê que não desprezei a educação de meus filhos, nem impedi que

Jorge trabalhasse, quando me pediu para o fazer. Pelo contrario, n'esse

dia julguei receber uma lição d'aquella criança, e cheguei a córar dos

meus setenta annos de incuria e de ociosidade. A minha velhice achou-se

menos veneranda do que aquella juventude. Mas repare, Gabriella, que

disse: entrar _nobremente_ no caminho do trabalho. E nobremente não é

andar a estender a mão á esmola dos antigos servos da nossa casa.

--Não houve esmola. Foi um honrado contracto aquelle, feito entre dois

homens igualmente honrados. Se faltaram n'elle todas as seguranças do

costume, tanto melhor; foi porque ambos se conheciam e confiavam um no

outro. As garantias mais poderosas são a final essas. Contractos d'estes

só se dão entre homens de bem. Olhe, tio Luiz, longe de mim discutir

agora o proceder de Jorge; mas, se quer que lhe diga, tenho a intima

convicção de que ahi dentro, bem no fundo da sua consciencia, não se

conserva já grande resentirnento contra seu filho mais velho. Ha

forçosamente uma voz interior que lhe clama que Jorge é um nobre e

generoso caracter.

--Não disse ainda que Jorge fosse vil e infame. Mas diz bem, Gabriella,

não discutamos agora isto. Peço-lhe então que decida Mauricio a sahir

para evitar novas imprudencias e indignidades; não tanto por nós, como

por essa boa rapariga, que é digna devéras de toda a sympathia. Que

parta e que não me appareça.

E D. Luiz sahiu do quarto, repetindo esta ultima recommendação.

A baroneza ficou pensando:

--Decididamente é preciso pôr Mauricio d'aqui para fóra. Este caracter

em uma cidade grande é uma coisa insignificante; a agitação que causa

perdia-se na grande agitação d'aquelle mundo. Aqui é um terrível

elemento de desordem e talvez de sérias catastrophes. Agora quem me

agrada mais e muito mais é o tio Luiz. Sim, senhores. Acho-o menos

bravo, apesar dos seus furores. Como elle fallava da filha do Thomé! Do

Thomé, que é a final a pedra de escandalo d'isto tudo! Quem o domaria a

este ponto? A rapariga, ao que parece, tem condão para se insinuar. O

tio Luiz tem um grande fraco por ella, conhece-se. Já o que o padre me

contou de quando foi a historia de entrega das chaves, e agora esta

entrevista... Preciso de conhecer Bertha; está dito. É uma influencia

que é bom cultivar. Digam o que quizerem; não ha nada melhor para

amansar um velho bravio como este. É vêr a falta que fez aquella pobre

Beatriz. Ao pé de um velho quer-se sempre uma rapariga para não os

deixar azedar e tomar estes ares selvagens e opiniões avinagradas, que o

tio Luiz já ia adquirindo. Nada; o padre procurador o mais distante

d'elle possivel, que prégue a outros os seus soporiferos sermões sobre o

direito divino e sobre a corrupção da época; no logar d'elle colloquemos

Bertha, e quero saber se o leão não ha de amansar. Agora vamos lá vêr

Mauricio. Para fallar a verdade, ainda não sei bem o que se ha de fazer

d'elle; mas em todo o caso, mandemol-o para Lisboa, porque nos está

causando muito embaraço aqui.

E Gabriella dirigiu-se para a sala do almoço, onde Mauricio todas as

manhãs a precedia.

Encontrou-o na varanda, que deitava para uma ribanceira, como absorvido

na contemplação do abundante jorro de agua que d'alli se despenhava por

entre fetos vigorosos, cuja rama encobria o fundo do precipicio. Os

raios do sol da manhã irisavam a humida poeira, que a a agua, ao

quebrar-se, levantava do abysmo.

Gabriella aproximou-se de Mauricio sem ser percebida, e depois de o

observar alguns momentos, poisou-lhe a mão no hombro.

Mauricio voltou-se quasi sobresaltado. Ao vêr a prima sorriu.

--Não a senti chegar.

--Isso vi eu. Que profunda meditação era essa? Queira Deus que não

estivesses sentindo a attracção do abysmo. Dizem-me que é irresistivel;

sobre tudo para certas organisações.

--Não, os abysmos physicos não são os que me attrahem.

--O que é o mesmo que dizer que os moraes alguma attracção exercem sobre

ti.

--Estou quasi a persuadir-me disso.

--De quê?

--De que me impelle uma força irresistivel por um caminho, no fim do

qual a minha quéda é inevitavel.

--É um presentimento tragico.

--É uma opinião dictada pela experiencia.

--Experiencia! Essa palavra na tua bôca, Mauricio! O eterno mote dos

velhos, glosado por um rapaz de dezoito annos, e estouvado como todos

sabemos!...

--E porque não ha de ser esse mesmo estouvamento o que me perde? Os

estouvados são os homens que não teem na razão força bastante para

conterem os impulsos das paixões, e que por isso obedecem a estas, sem

que os façam parar os preconceitos do mundo e os conselhos dos juizos

frios.

--Se me faz favor, esses são os apaixonados. Os estouvados não chegam

nunca a ir muito longe sob o impulso de uma paixão, porque mudam de

soberana a cada momento, d'onde resulta um mover indeciso, um fluctuar

sem rumo, um jogar entre ventos encontrados, que não lhes permitte

vencer longo caminho.

--N'esse caso rejeito o epitheto de estouvado.

--Achas então que ha já o governo constituido e definitivo no teu

coração?

--Estou convencido de que se fixou o meu destino.

--Pelo lado do amor?

--Sim; pelo lado do amor.

--A noticia contraria grandemente os meus planos.

--Os seus planos?

--Sim; não sabes o que me trouxe aqui? Vim para declarar-te que o tio

Luiz exige terminantemente que o Mauricio parta quanto antes para

Lisboa, por se ter a final convencido de que, apesar de todos os perigos

da vida da capital, é esse um passo preferivel a deixal-o permanecer

aqui, no seio da ociosidade que, como sabes, é a mãe dos vicios todos.

--N'esse caso principia hoje a lucta. Eu declaro que não parto.

--Devéras?

--Devéras. A minha sorte está decidida, prima. E qualquer que seja o

resultado d'esta resolução...

--Mas, vamos a saber, primo Mauricio, e Bertha?... (porque me parece que

se tracta de Bertha) e Bertha corresponde-te?

--Creio que sim. Por timidez procura fugir-me, ou por desconfiança

talvez. Por isso mesmo hei de provar-lhe que sou sincero, e que atravez

de todos os preconceitos...

--Está a tentar-te o papel de Romeu, é o que estou vendo. Desconfio da

sinceridade d'essa exaltação.

--Pois verá.

--Ora ponhamos as coisas no seu logar. Não principies tu a phantasiar

escaramuças de Montechi e Capuletti, que provavelmente não terão logar,

com grande damno das feições romanticas do caso. A coisa ha de passar-se

mais prosaicamente, como hoje se passa tudo. O primo Mauricio, depois de

uns arrufos do tio Luiz, havia de, mais anno menos anno, vêr sanccionado

por elle o seu casamento. Muito bem. Ahi o tinhamos patriarcha rural,

burguezamente installado na lareira da Herdade, com os filhos a

treparem-lhe aos joelhos, e conversando em sancta paz com o papá Thomé e

com a mamá Luiza, ouvindo o estalar das pinhas, e abrindo a bôca de

somno, quando a ceia se demorasse alguns minutos além das nove horas.

Por este mesmo tempo, outros rapazes da sua idade, e talvez com menos

aptidão do que elle, caminhariam por entre os fulgores da moda, da

elegancia e da gloria, conhecidos e apreciados nos circulos onde radia a

intelligencia e onde as brilhantes qualidades do espirito encontram

sempre em que se exercerem. Não chegariam a este solitario Mauricio ás

vezes umas invejasinhas d'esses taes, mesmo ao suave calor da fogueira

patriarchal?

--E quem me impediria de os seguir tambem?--disse Mauricio

contrariado.--N'esses caminhos que diz não é força progredir solitario.

O apoio de um coração...

A baroneza abanou a cabeça em signal de duvida, dizendo:

--Desengana-te, Mauricio, se ainda te sorri a vida da grande sociedade,

não procures a companhia de corações como o de Bertha.

--Porque não?

--Os corações como o de Bertha precisam do calor suave da vida de

familia para rescenderem o grato perfume do seu amor. Para um homem a

quem ainda attrahem as luctas da vida e as lides da gloria, não é das

mais adequadas companhias a d'estas mulheres extremosas e modestas, que

sómente se satisfazem com affectos, e cujo amor não se nutre da gloria

do objecto que amam, mas exclusivamente do amor que d'elle exigem. Almas

que o ciume desalenta, que a ausencia definha, não são para companheiras

d'aquelles homens. Se um dos taes mais imprudente liga um d'estes

corações ao seu destino, ou o martyrisa, cedendo aos proprios instinctos

de gloria, ou sacrificando-lh'os, tortura-se, e a tortura reflecte-se

sobre essas almas amoraveis, que a adivinham.

--E poderá ser verdadeiro um amor que não tenha essas qualidades que

diz?

--Póde. Pois não póde! É preciso que evites, Mauricio, o preconceito que

tem muita gente de que tudo é falso e mau nos brilhantes circulos

sociaes. Não é. Lá ha tambem amores e affeições verdadeiras, podes

crêl-o, mas, nascidas e creadas em condições diversas, vivem e resistem

a ventos que definham as outras. Uma mulher d'aquelle mundo, sem que

deixe de amar seu marido, não aspira a monopolisal-o para o seu amor.

Pelo contrario, deseja que elle desempenhe a sua missão na sociedade.

Com a gloria que ahi adquirir, se illumina ella tambem, e em vez de o

reter na obscuridade do lar domestico, impelle-o para a luz e sente que

o seu amor por elle cresce na proporção em que os outros o admiram. É

uma vaidade que se converte em estimulo. Estas mulheres assim servem de

incentivo ás aspirações, e são as que convem aos artistas, aos

politicos, em uma palavra, aos ambiciosos.

--Mas quem lhe disse que eu era ambicioso?--perguntou Mauricio, já em

tom differente, e demorando na baroneza um olhar analysador, como de

quem pela primeira vez descobria n'ella qualidades dignas de attenção.

--E podes negar que o és?--proseguiu Gabriella--Ora falla-me com

franqueza. Resignar-te-ias sem pesar á ideia de passar o resto da tua

vida esquecido e obscuro n'este canto da provinda, tendo por unica

diversão uma caçada de lebre? Conformar-te-ias com as modestas

aspirações de Jorge, que se satisfaz com dirigir em bom caminho a

administração d'esta casa? Não sonhas muita vez com a brilhante

sociedade dos salões da capital, onde todas as aristocracias se

confrontam, onde se tracta com tudo quanto ha de elegante, de nobre, de

distincto nas sciencias, nas letras e nas artes? Não tens já sentido a

anciedade de viajar, de te engolfares nos focos da civilisação moderna;

finalmente de viver em um mundo, onde os teus talentos, as tuas

qualidades possam ser devidamente apreciadas?

--É muito lisonjeira, prima Gabriella. Mas, quando eu sonhasse com tudo

isso... E não negarei que mais de que uma vez essas phantasias me tenham

enlevado, mas de que me serviria? Acaso o mundo está á minha espera para

me patentear todas as portas d'esses logares de fascinação?

--Para os rapazes de vinte annos, de talento e de vontade não ha

barreiras no mundo. Querer é poder. O mundo é menos feroz do que parece.

Quando alguem se aproxima d'elle com a intrepidez e o arrojo do domador,

esta terrivel fera abaixa a cabeça e não ataca.

--E qual póde ser a minha carreira n'esse mundo?

--Não se escolhe de longe. Na presença dos caminhos escuta-se uma voz

interior, que nos diz: «Por aqui?»

--Mas creia que eu sou um inexperiente. Fóra d'estes ares sentir-me-ia

embaraçado.

--Eu prometto acompanhar-te nos primeiros passos.

--Sómente nos primeiros?

Maurício fez a pergunta com uma entonação de voz e com um olhar, que

causaram estranheza a Gabriella.

Fitou-o, como para perscrutal-o, e depois com um sorriso malicioso nos

labios, tornou-lhe:

--Pareceu-me perceber uma musica de galanteio n'essa pergunta? Vê lá.

Pois nem eu te merecerei indulgencia e contemplação?

--Demasiada contemplação me tem merecido até, e Deus sabe se por meu

mal.

--Um _calembourg_ ao que percebo. Bonito. Onde está aquelle fiel Romeu

de ainda agora? Se eu insistisse, era capaz de te arrancar uma

declaração formal, estou vendo.

--Tem razão para zombar, prima, porém...

--Previno-te, Mauricio, de que não vale a pena perder o tempo commigo.

Eu tenho uma maneira prompta e rasgada de tractar as coisas, que se não

compadece com as longuras e alternativas de um galanteio a teu modo. Bem

vês que já não sou criança de quinze annos, e que perdi a paciencia

d'essa idade. Mas vamos almoçar, que nos estão chamando.

Durante o almoço, ao qual não assistiu D. Luiz, a conversa resumiu-se em

observações de critica e analyse culinaria de frei Januario e nas glosas

laconicas de Gabriella, que pôz final á prelecção, levantando-se da mesa

e ordenando que lhe apparelhassem a egoa para um passeio.

Quando, momentos depois, descia ao pateo, apanhando a longa cauda do seu

vestido de amazona, encontrou Mauricio, que parecia esperal-a para a

ajudar a montar e por ventura para lhe servir de _jockey_.

--Então que quer dizer isto? Encarregaste-te agora das funcções de

monteiro-mór?--perguntou-lhe Gabriella.

--Se me permitte que desempenhe estas funcções, muito me honrarei com

ellas.

--Quem póde recusar um offerecimento tão amavel? Mas que me encontras tu

de novo para me olhares com esses olhos?

--É porque effectivamente ainda a não tinha visto assim.

--Assim, como?

--Tão...

--Tão?...

--Com esses vestidos.

--Ai, ainda não? É verdade que ainda me não tinha dado para isso aqui.

Então tambem ainda me não viste cavalgar?

--Ainda não.

--Olhem que descuido o meu!--disse Gabriella, saltando agilmente sobre o

sellim, auxiliando-se da mão de Mauricio; e emquanto ageitava as dobras

do vestido, preparava as redeas e acabava de apertar as luvas,

proseguiu:

--Pois n'esse caso vaes ver o que são primores na arte. Ao que parece

vens tambem?

--Se me permitte?--disse Mauricio, parando junto do cavallo, que ia já a

montar.

--Com uma condição.

--Qual é?

--Quando eu te disser que nos separemos, hás de condescender.

--Obedecerei, embora me custe.

--É indispensavel. Tenho hoje uns projectos, que não posso realisar

senão sósinha.

--Acompanhal-a-hei até onde me permittir.

--Está dito. A cavallo!

E, instigando de subito a egoa, partiu a galope, fazendo signal a

Mauricio para que a seguisse.

Apesar de toda a diligencia d'este em montar, e da desfilada em que

lançou o cavallo, não lhe foi facil attingil-a. Sendo emfim alcançada, a

baroneza afroixou a rapidez da egoa, e os dois cavalgaram a passo, um ao

lado do outro.

A violencia do exercicio avivara o carmim nas faces da baroneza e

dera-lhe ao olhar uma animação maior do que a que lhe era habitual.

O sorriso que lhe entreabria os labios, e o arfar do seio, agitado pelo

impeto da carreira, realçavam os dotes naturaes d'aquelle typo feminino,

no qual se já se desvanecêra o frescor da primeira juventude,

sobreviviam ainda os traços permanentes de uma belleza correcta.

Mauricio não se fartava de a admirar aquella manhã. Fôra para elle uma

imprevista revelação. Dir-se-ia que até alli uma nuvem lhe occultára as

perfeições da prima e que, de repente, essa nuvem se rasgára para o

surprender.

O prestigio da elegancia, da moda, dos distinctos habitos sociaes, do

espirito cultivado na frequencia da mais selecta sociedade, estava

actuando no coração de Mauricio, predisposto como o de poucos para

aquelle influxo.

A belleza e a intelligencia de Gabriella, aprimoradas ambas por uma

arte, que sabia occultar-se para não prejudicar os effeitos que obtinha,

attrahiam Mauricio de uma maneira irresistivel.

A baroneza tinha a perspicacia necessaria para o perceber. O seu amor

proprio feminino era naturalmente afagado pela descoberta; mas, além

d'esta desculpavel fraqueza, outras razões havia mais poderosas para que

essa observação a lisonjeasse.

Gabriella, como já dissemos, ficára viuva muito joven, do barão de Souto

Real. Tendo ainda instinctos de juventude a satisfazer, promettêra a si

propria consultar o coração antes de prender-se segunda vez.

Quando recebeu a carta de D. Luiz e veio ter com elle á Casa Mourisca,

sabedora das difficuldades financeiras com que luctava o fidalgo e dos

nobres esforços de Jorge para remedial-os, occorrêra-lhe o pensamento

generoso de favorecer o empenho do primo, offerecendo-lhe com a sua mão

os recursos de que elle precisava para realisal-o. A admiração e o

respeito que lhe inspirava o caracter sisudo de Jorge permittiam-lhe dar

esse passo com o coração folgado.

Custava-lhe apenas ter de renunciar aos fulgores da capital, a que se

habituára e que amava com toda a paixão de uma mulher da moda; mas

confiava em que o seu bom senso e os subsequentes cuidados de familia

lhe suavisariam o sacrificio. Tractando porém mais de perto com o primo,

comprehendeu que devia desistir do seu projecto.

Jorge pareceu-lhe incapaz de se apaixonar; e com certeza, não a amando,

não se resolveria a aceitar a mão que ella lhe offerecesse, mórmente por

levar comsigo os recursos que o poderiam auxiliar na sua nobre empreza.

Gabriella abandonou pois a ideia que tivera. Em Mauricio não pensára ao

principio. Achava-o tão leviano, que, como ella dizia, não podia

lembrar-se seriamente de fazer d'elle um marido. Agora porém, notando a

subita impressão que occasionalmente lhe produzira, e cujos effeitos

duravam e progrediam, a baroneza principiou a encarar o caso debaixo de

differente luz.

Se Mauricio se apaixonasse por ella, ser-lhe-ia facil fazêl-o partir

para Lisboa e vencer a repugnancia que elle parecia oppôr a abandonar a

aldeia justamente na occasião em que a resistencia do pae havia cedido.

Se, depois de deixar tomar maior incremento a este novo capricho de

Mauricio, ella subitamente partisse para Lisboa, sem duvida que o

arrastaria atraz de si. O resto fal-o-iam as seducções da capital.

Para conseguir este resultado, julgou pois Gabriella que não devia

apagar aquelle fogo que principiava a atear-se no inflammavel coração do

primo; lavareda rapida e fugaz, que importava? com tanto que durasse até

extinguir a outra que lá ardia.

E se durasse mais? Quem sabe? Talvez que o primeiro pensamento de

Gabriella se podésse realisar com uma variante. Mauricio não era Jorge.

O caracter voluvel e inconstante do filho mais novo de D. Luiz não o

garantia como um modêlo de maridos. Mas a baroneza, segundo elle proprio

dissera ao primo, não era d'estas mulheres exigentes que zelam a posse

de todos os pensamentos e de todos os instantes do homem que amam. A

vida da alta sociedade ensinára-a a ser condescendente. Se encontrasse

no marido verdadeira estima e delicadeza, não seria uma ou outra

infidelidade que a obrigaria ao papel lacrimoso de esposa abandonada.

Depois, Mauricio tinha pelo menos sobre Jorge uma vantagem.

Não exigiria d'ella o sacrificio dos seus queridos habitos, nem a

desterraria dos luzidos circulos que ella amava tanto. Antes lhe abriria

ampla carreira de gozos, quando soltasse os vôos ás ambições, que lhe

adivinhára.

Assim pois Gabriella deixava-se galantear por o primo e ensaiava n'elle

a sua tactica admiravel, que o encontrou mais inexperiente do que era de

suppôr em quem de tanta fama de experimentado gozava.

Mauricio porém achava-se pela primeira vez diante de uma mulher educada

na alta escóla d'esta especial esgrima. A arte era demasiadamente subtil

para elle a descobrir. Todo o artificio estava em simular a mais

completa ausencia de affectação. Parecia tudo espontaneidade,

irreflexão, imprudencia até, e julgando conquistar um coração indefezo e

sem arte, o novel combatente era victima de um gladiador previdente,

armado de vizeira e coiraça e jogando magistralmente com armas de melhor

tempera.

A baroneza estava a acabar de convencer-se de que a supposta paixão de

Mauricio por Bertha não passava de uma illusão ou de um capricho.

Mas não haveria em Bertha algum sentimento menos ephemero e que podésse

ameaçar-lhe o coração?

Era esse o problema que restava resolver. E para esse fim sahira a

baroneza. A presença de Mauricio impedia-a de proceder n'essa

investigação, por isso exigira d'elle a promessa de a deixar, quando

lh'o pedisse.

Cavalgaram por muito tempo juntos, antes que fosse reclamado o

cumprimento d'essa promessa. Mauricio ia cada vez mais enlevado. Sómente

proximo da estrada, que conduzia á Herdade, foi que a baroneza lhe pediu

para se separarem.

Mauricio quiz romper o contracto, Gabriella porém insistiu.

Ao despedirem-se a baroneza disse para o primo, com uma inflexão de voz

que alvoroçou o coração do pobre rapaz:

--Agora provavelmente vaes procurar vêr a menina Bertha?

Mauricio respondeu expansivamente:

--Conceda-me que lhe beije a mão, prima, e correrei a encerrar-me em

casa com as impressões d'esta memoravel manhã.

Gabriella concedeu-lhe o pedido e recompensou-lhe com um sorriso o

galanteio.

E Mauricio foi effectivamente para os Bacellos, com o pensamento

occupado pela imagem da prima.

No meio dos seus enlevos pungia-o uma ideia.

«E Bertha?» pensava elle.

A pobre Bertha, que a vaidosa imaginação do rapaz teimava em representar

perdida de amores, não soffreria muito se outra lhe disputasse com

vantagem a posse do coração d'elle. E não estava esse perigo imminente?

É porém de notar que esta contrariedade era um dos maiores incentivos

para augmentar a chamma da sua nascente paixão por Gabriella.

Havia uma perspectiva de lagrimas e de dôres a servir-lhe de fundo do

quadro, e Mauricio, sem ser cruel e compadecendo-se até de antemão do

mal que suppunha ir causar ao coração de Bertha, sentia-se seduzido por

a situação que creára.

Expliquem como podérem estas contradicções de caracter, na certeza de

que o facto não é excepcional, antes muito da regra commum.

Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia · 第 52 / 93 题