XXIII

No dia seguinte pela manhã, D. Luiz mandou pedir á baroneza authorisação

para fazer-lhe uma visita, reclamada por motivos urgentes.

Gabriella respondeu que o ficava aguardando com impaciencia.

E não foi por mero comprimento que o disse; os negocios d'aquella

familia achavam-se em um estado tal, que era de esperar de momento para

momento uma crise importante, e o menor successo podia provocal-a.

Gabriella sabia-o e aguardava-a.

Meia hora depois entrou D. Luiz sombrio e grave no gabinete da sobrinha.

Esta acolheu-o com a maior deferencia, procurando lêr-lhe no semblante o

pensamento que o trouxera alli, mas empregando no exame toda a

dissimulação.

--Para que se incommodou, tio Luiz? Se quizesse ter a bondade de esperar

eu iria receber as suas ordens.

--Ergui-me cedo. E ergui-me sem ter dormido. Por isso fui tão matinal.

--Meu Deus! achou-se então incommodado?

--De espirito, muito; muito.

E D. Luiz passou a mão pela fronte, suspirando.

--E posso proporcionar-lhe algum allivio, meu tio?--perguntou Gabriella,

conduzindo-o para um sofá, onde se sentou ao lado d'elle, olhando-o com

ar de interrogação e de interesse.

--Gabriella, a sorte de minha familia está jogada. É uma família

perdida--rompeu vehementemente o fidalgo.

--Não diga isso, tio Luiz.

--Digo-o e sinto-o--continuou elle mais exaltado.--Quando uma casa como

a nossa, que não póde já conservar o antigo esplendor e o estado que em

melhores tempos sustentou, não sabe de mais a mais manter o prestigio

que teve por as praticas tradicionaes de nobreza, por acções de

fidalguia, emfim por estes actos de superioridade que fazem dobrar a

cabeça aos mais insolentes e intimidar a vista dos invejosos, quando uma

casa chegue a um tal estado de decadencia, nenhum apoio solido tem a

sustental-a e em pouco tempo cahirá em ruina total. A minha está

perdida!

--Seus filhos...

Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia · 第 51 / 93 题