D. Luiz acudiu com vivacidade:

--Quem lhe disse isso? Eu não preciso de acompanhamento. Que me tenham

apparelhado o cavallo para de tarde.

--Então v. exc.ª sahe só?!--perguntou o padre, em quem esta quebra de

pragmatica causava grande confusão.

--Vou--respondeu D. Luiz, continuando o seu passeio na sala.

O padre sahiu d'alli estupefacto para a cozinha, onde foi assistir á

ultima demão de uma empada, e n'esse exame conseguiu felizmente

desvanecer a violencia da impressão, que a ordem do fidalgo lhe havia

produzido.

Effectivamente, pouco depois do jantar, ao qual Mauricio não assistira,

D. Luiz montou a cavallo, e cortejando garbosamente a baroneza, que veio

despedir-se d'elle á janella, partiu a meio trote pelos caminhos dos

campos.

Era um ultimo lampejo da sua elegancia passada.

Na maneira por que dirigia o eavallo não se notava, porém, a indecisão

propria de quem vae ao acaso. Percebia-se que o fidalgo havia marcado

destino áquelle passeio.

Tomou por atalhos de montes, evitando o centro da povoação rural, rodeou

quasi toda a freguezia, e, seguindo pelas raias das contiguas e por

desvios ermos de casas e de cultura, por chapadas maninhas e pinhaes,

onde apenas se entrevia a choça do guardador, foi dar ao extremo opposto

da aldeia, nas proximidades da Casa Mourisca.

E quanto mais perto se achava do abandonado solar, mais crescia o

cuidado que o cavalleiro parecia ter em não ser observado e em dirigir

por veredas pouco frequentadas a sua cautelosa carreira.

Entrou por fim em uma bouça pertencente á casa, collocada, porém, fóra

dos muros da quinta e separada d'elles por uma especie de valia, que

servia de caminho publico.

D'alli avistavam-se as arvores, os telhados, as torres, e as mais

elevadas janellas da Casa Mourisca.

D. Luiz fez parar o eavallo e fixou melancolicamente os olhos no velho

solar onde nascêra e onde apprehendia não poder morrer, como haviam

morrido os seus avós.

Ia adiantada a tarde, e á luz desmaiada do sol, que declinava, crescia a

tristeza do velho. Os olhos tinham um fulgor que denunciava lagrimas.

Era solemnemente triste aquelle quadro. A nobre figura do ancião, assim

immovel, extatico, no ermo alpestre de um pinhal, a que os ventos da

tarde arrancavam um gemer monotono e triste, com os olhos fitos nas

ameias do seu palacio acastellado, d'onde as paixões o expulsaram, com o

rosto illuminado pelos tremulos raios do sol, que desenhava

distinctamente o rendilhado da rama dos carvalhos longinquos, atraz dos

quaes se escondia, era uma personificação vigorosa do desalento e da

saudade sob o colorido de desesperança que a velhice lhe dava.

A immobilidade do cavalleiro contrastava com a impaciencia do fogoso

animal, que escarvava insoffrido o solo, sem que podésse satisfazer a

ancia do movimento que o devorava. De subito o cavalleiro fez um

movimento, como de quem adopta uma resolução, a que por muito tempo

repugnára.

Pôz-se de novo a caminho, seguindo sempre a direcção do muro da quinta,

e sem abandonar o pinhal.

Pouco adiante encontrou as ruinas de uma antiga casa de guarda, já quasi

destelhada, e em cujo recinto cresciam á vontade as giestas e as

tojeiras, por entre os montões de telha e de caliça cahida, e onde

encontravam tranquillo abrigo reptís de toda a especie.

D. Luiz levou para alli o cavallo, que prendeu ao varão oxydado e

torcido de um caixilho de janella, e sahiu outra vez, continuando a

rodear a quinta.

Havia um logar onde o muro era parte derrubado e facilitava extremamente

o ingresso. Sabiam-n'o bem uns certos rondadores noctivagos, que tantas

vezes por alli effectuavam as suas explorações depredatorias no mal

vigiado terreno da Casa Mourisca.

Foi por o mesmo caminho d'esses visitadores suspeitos, que o

proprietario d'aquelle nobre solar ahi entrou furtivamente, e córando do

passo a que a violencia de uma entranhada saudade o impellia.

Dentro em pouco achava-se na quinta.

Caminhou inteiramente agitado pelas ruas solitarias, atravessou as

devezas, onde áquella hora não penetrava um só raio de sol, e sem

vacillar seguiu na direcção da casa. Ao chegar ao pateo, viu aberta uma

pequena porta por onde habitualmente se fazia o serviço do palacio.

Occorreu-lhe-só então que poderia estar alguem lá dentro, áquella hora.

Se se encontrasse alli com Thomé, como conseguiria arrostar com a

vergonha de ser por elle descoberto n'aquella visita furtiva? Ia a

recuar, mas o impulso interior a obrigal-o a progredir era mais forte.

Venceu. Aproximou-se cautelosamente da porta e ficou-se a escutar por

alguns instantes. No interior havia o mais completo silencio. Não se

divisavam vestigios que denunciassem presença de alguem estranho. D.

Luiz deu a medo alguns passos no limiar, subiu os primeiros degraus da

escada, hesitando e escutando a cada passo que dava e a cada degrau que

subia.

Sempre o mesmo silencio.

Pensou então o fidalgo que bem poderia ser que na precipitação da sahida

tivesse ficado aberta aquella porta; e animado por esta hypothese

adiantou-se mais resoluto.

Havia nas largas escadas uma luz froixa e quasi mysteriosa; esta luz e

aquelle silencio eram dos que infundem no animo um sentimento quasi de

pavor.

N'esses corredores e escadas vazias e obscuras, elle, o senhor e

proprietario do solar, movendo-se, com o receio de ser descoberto! Que

situação a sua! Que humilhadora situação para o seu orgulho!

As correntes de ar sibillavam melancolicamente ao enfiarem-se pelas

fechaduras das portas e frestas, que deitavam para a escadaria; os

passos do fidalgo tinham sob aquellas abobadas uma resonancia estranha.

Eram sem numero os objectos que lhe recordavam os amargos momentos da

sua alvoroçada sahida da Casa Mourisca; caixões vazios, sacos, bocêtas,

papeis de empacotar, tudo jazia ainda em confusão nos corredores, como,

na pressa dos preparativos, frei Januario os deixara. Signaes eram estes

que parecia indicarem que desde aquelle dia ainda ninguem entrára na

Casa Mourisca.

Mais seguro já na persuasão de que não seria surprendido n'esta

clandestina visita, D. Luiz subiu sem o menor receio as escadas que

levavam ao _Sancta Sanctorum_ das suas affeições, á torre onde haviam

sido os aposentos de Beatriz, aonde ella tinha vivido e expirado. Era

esta a peregrinação que emprehendêra aquelle desconfortado velho; para

alli era que as suas intensas saudades o chamavam. Tinha já subido mais

de meio lanço da escadaria, quando subitamente estremeceu, parando a

escutar um mal distincto som que lhe chegára aos ouvidos. Correu-lhe no

rosto uma pallidez mortal e a fronte principiou a cobrir-se-lhe de um

suor, como de agonia.

A turbação que sentia, foi tão intensa, que teve de apoiar-se á parede

para não cahir.

Eram os sons longinquos de um instrumento de musica, que partiam do

logar para onde elle se dirigia. Vagos, confusos ainda, mas melodiosos

como de harpa que, pendurada dos ramos dos carvalhos, vibra ao perpassar

das brizas da tarde.

Na triste solidão d'aquella casa abandonada, á hora mysteriosa do

escurecer do dia, aquelles sons resoando pelos longos corredores e pela

vastidão das salas desertas, tinham de facto não sei quê de

sobrenatural; dir-se-ia musica de fadas em um d'esses paços encantados,

que ergue no meio das florestas a imaginação popular.

Mas não era sómente o inesperado e a estranheza do facto que feriam de

espanto o senhor da Casa Mourisca. Aquelles sons exerciam sobre elle

outra e superior influencia.

Conhecia-os; não eram vozes estranhas aos ouvidos do ancião ralado de

saudades, e que se achava alli attrahido por ellas.

Conhecia-os; em outras épocas tinham já resoado entre aquellas tristes

paredes e sob os altos tectos dos aposentos hoje deshabitados. N'esses

tempos, havia alli dentro corações que pulsavam de sympathia ao

escutal-os. Eram o signal de que o anjo da familia velava; de que a

meiga criança, sobre cuja cabeça se condensavam todos os castos affectos

d'aquella alma de homem, praticava com os anjos, seus irmãos, na

mysteriosa linguagem da musica.

Aquelles sons... podia elle desconhecêl-os?... eram os da harpa de

Beatriz.

Mas que mysterio revelavam elles agora? Que magia os faria renascer,

quando, havia tanto, cahira gelada a mão que os desferia?

As sombras dos mortos teriam vindo povoar a casa abandonada pelos vivos?

A alma querida de Beatriz viera por ventura chorar e lamentar-se da

solidão em que os seus haviam deixado os logares que ainda conservavam

tão vivas as memorias d'ella?

Quem póde analysar o confuso turbilhão de ideias que atravessou

n'aquelle momento o espirito do fidalgo?

Piedosas crenças da infancia, superstições que a razão subjugara,

chimericos productos d'um cerebro febril, tudo se levantou em enxame

alvoroçado e revolto a obscurecer a intelligencia do ancião, que tremia

sob um inexplicavel terror.

--É uma allucinação--pensava elle, esforçando-se por dominar aquella

fraqueza--é uma quasi loucura produzida por esta ideia fixa, que nunca

me abandona.

E continuava a subir com passos ainda mal seguros as escadas da torre.

Mas os sons, que elle julgava effeito dos sentidos allucinados, longe de

se desvanecerem, cada vez se ouviam mais distinctos. Sem duvida alguma

partiam dos aposentos de Beatriz.

Estava terrivelmente pallido o fidalgo. A vista vagueava-lhe com a

mobilidade que produz o delirio. Ha situações na vida em que a razão

mais segura vacilla e sente-se vergar sob a influição das mais

supersticiosas crenças.

D. Luiz n'aquelle momento acreditava sinceramente na realidade das

apparições.

A distancia permittia-lhe já distinguir a melodia que executava a harpa.

Tambem lhe era conhecida; era a de uma canção predilecta de Beatriz, uma

musica cheia de recordações para o pobre pae. O presente desapparecia

n'aquelle momento; o passado resurgia com toda a luz, que desde muito se

lhe apagára na carreira da vida. Chegára quasi á porta do quarto d'onde

partiam os sons. Restava entrar... Mas o que o esperava alli? Talvez se

desvanecesse o encanto e a vazia realidade o aguardasse para o punir!

A razão de D. Luiz não podia formar juízos sobre o que se estava

passando. A mão tremula, que se estendeu para abrir a porta do quarto

mysterioso, pendeu desfalecida, e o velho permanecia immovel no patamar,

subjugado pela força d'aquelle encantamento.

N'este tempo juntára-se aos sons da harpa a voz de uma mulher; baixinho,

quasi a medo, como a ave a ensaiar o canto ao renascer da estação,

cantava a letra da mesma canção que Beatriz preferia. Era um timbre

juvenil, sonoro, agradavel, o d'aquella voz, e na meia altura a que se

elevava, havia um não sei quê de mystico e sobrenatural, que veio

completar a allucinação do velho.

--Meu Deus! meu Deus! tende misericordia de mim!--murmurava elle,

passando a mão na fronte pallida.--Se isto é um sonho, deixae-me morrer

a sonhal-o!

E vergaram-se-lhe os joelhos diante d'aquella porta mysteriosa, e,

soluçando e rebentando-lhe emfim impetuosas as lagrimas dos olhos, cahiu

dizendo em uma desvairada exclamação:

--Ó minha filha! minha filha! Se és tu que assim me arrebatas d'este

mundo, tem compaixão de teu velho pae, e não partas sem que lhe

appareças um instante que seja!

Calaram-se de subito os sons da harpa e da voz feminina. E, pouco

depois, a porta abria-se e Bertha apparecia no limiar.

Ao vêr o fidalgo de joelhos, com a cabeça escondida entre as mãos e

soluçando, a filha de Thomé da Povoa correu para elle commovida:

--O snr. D. Luiz! O meu padrinho! Ó perdão, perdão!--exclamava ella.

E o susto que a voz do velho lhe havia causado, ao interromper-lhe

inesperadamente o canto, cedeu o passo á mais sentida afflicção.

Á voz de Bertha, D. Luiz ergueu a cabeça e fitou a afilhada com um olhar

espantado e interrogador.

As lagrimas desciam-lhe ainda a duas e duas pelas faces emmagrecidas.

--Perdão, perdão, meu bom padrinho--proseguia Bertha, tentando

erguêl-o--fiz mal, bem o vejo, bem o sinto agora... mas havia tanto

tempo que eu desejava visitar estes sitios! mas não chore, snr. D. Luiz,

por amor de Deus perdoe-me!

O fidalgo, quasi ainda alheio ao que se passava, deixou-se erguer e

conduzir por Bertha para dentro do quarto, e sentou-se, sem consciencia

dos seus actos, na cadeira junto da harpa, cujas ultimas notas parecia

ainda vibrarem no espaço.

A commoção violenta quebrára-lhe as forças.

Os braços e a fronte pendiam-lhe em um desfallecimento profundo.

Bertha ajoelhou-se-lhe aos pés, tomando-me as mãos, beijando-as, e

cobrindo-as de lagrimas.

--Se eu imaginasse que podia causar-lhe esta pena, não teria vindo. Foi

uma loucura minha; agora é que vejo; mas trazia isto na ideia havia

tantos dias!... Só hoje me atrevi a subir aqui... Se soubesse como

chorei ao tornar a vêr este quarto e estes objectos, que todos conhecia.

Todos! Oh não se afflija, snr. D. Luiz, e perdoe-me, perdoe-me por quem

é, perdoe-me por amor d'ella. Fiz mal, bem conheço, mas, como tambem lhe

queria muito... Depois, assim que vi esta harpa... Ó meu Deus, que

saudades! Como me lembrei d'ella, da musica que tantas vezes lhe ouvi,

da canção que ella preferia... Quiz avivar essas recordações e... Mal

sabia eu o que estava fazendo! Como era cruel sem o suspeitar! Quem me

ha de perdoar o mal que lhe fiz? Imagino o que soffreu, o que está

soffrendo ainda... E ser eu quem lhe avivou essas feridas!... Não me

queira mal por isso. Foi a saudade que me trouxe até aqui, a saudade

d'aquelle anjo que eu conheci no mundo. Por amor d'elle lhe peço que me

perdoe a dôr que lhe causei.

E a voz de Bertha tremia ao fallar assim. D. Luiz não a interrompêra,

porque a agitação era ainda n'elle muito forte para o deixar fallar.

Poisando porém as mãos na cabeça de Bertha e afastando-lhe os cabellos

da fronte com um gesto de paternal carinho, fitou-a com os olhos ainda

ennevoados de lagrimas e disse-lhe, suspendendo-se a cada palavra, em

lucta com a commoção que o suffocava:

--De que me pedes perdão, Bertha? D'estas lagrimas? Oh! deixa-as correr,

que ha muito não chóro lagrimas que me dêem um allivio assim. Eu sou que

te digo: Obrigado, Bertha, obrigado, que me fizeste entrever a

felicidade que o céo me póde ainda dar; n'estes curtos instantes da

minha illusão luziram-me uns lampejos de alegria celeste. Tu só podias

resuscitar-me a filha e eu quasi a senti ao ouvir-te, ao escutar essa

abençoada musica e a voz, que julguei que só me chegaria outra vez aos

ouvidos, se um dia me fosse dado escutar a dos anjos no céo. Agradecido,

Bertha. A este meu coração são mais conhecidas as dôres que o despedaçam

e queimam, do que estas que o desafogam em lagrimas. Agradecido, filha.

E o severo fidalgo da Casa Mourisca, sensibilisado, sem o menor vestigio

da sua habitual rigidez, aproximou dos labios a fronte de Bertha e

beijou-a com a doce affabilidade de um pae.

Bertha beijava-lhe as mãos, chorando com elle.

Por muito tempo assim se entenderam mudos aquelle velho e aquella

rapariga, trazidos alli por uma mesma saudade, consagrando lagrimas a

uma mesma recordação. D. Luiz estava cada vez mais fascinado. Nem por a

ideia lhe corria que fosse a filha de Thomé da Povoa, quem tinha na sua

presença, e quem abençoára e beijara.

Era a companheira de Beatriz, a encarregada pela alma d'aquelle anjo de

conservar no mundo a sua memoria, de avivar as sympathias que ella

inspirára na alma dos que a choravam ainda, e que a choral-a morreriam.

As mãos de Bertha não tinham profanado a harpa de Beatriz, tocando-a;

nem ultrajára a sua memoria a voz que cantava a ballada favorita da

infeliz menina.

D. Luiz cedia á influencia d'aquelle brando caracter feminino, e adorava

em Bertha a imagem da filha que perdêra.

Ambos se esqueciam do presente, fallando d'ella. D. Luiz mostrou a

Bertha todos os objectos, que haviam pertencido á filha e que elle alli

conservava ainda como reliquias sagradas.

A poucos olhos os revelaria assim, como fazia aos de Bertha. Mas a quem

conservava tão bem a memoria de Beatriz não era sacrilegio o

devassal-os.

--Ai, Bertha, Bertha, para que me quiz mostrar Deus aquella alma na

vida, se havia assim de roubar-m'a?--exclamava D. Luiz no decurso d'este

melancolico exame.

--Para lhe dar um anjo que o veja do céo e vele pelo destino d'esta

familia, que ella tanto estremecia na terra.

--O destino d'esta familia!--repetiu o fidalgo, assombrando-se-lhe o

semblante.--Triste destino!

--Confio nas orações d'aquelle anjo.

--Quando uma familia cumpre no mundo uma dolorosa expiação, nem as

orações dos anjos podem allivial-a d'ella. Deus afastou do mundo a

innocente e fraca, para me deixar só a mim o pêso do meu infortunio e o

das longas culpas dos nossos. Elle bem sabia que emquanto a tivesse ao

meu lado para arrimo, nem sentiria o castigo. Aceito a sentença de Deus,

procurarei cumpril-a com firmeza, e oxalá que meus filhos, recebendo o

sinistro legado, não desfalleçam como covardes.

--Não pense n'essas coisas, meu padrinho. Tenho fé que ainda voltarão

dias felizes para esta casa.

--Sim; quando a comprar em hasta publica qualquer proprietario

endinheirado, que faça depois resoar por estas salas os sons dos bailes

e dos festins. A casa verá então dias alegres, verá. E quem se lembrará

dos velhos senhores d'ella, cujos descendentes talvez aceitem um logar

de conviva á mesa do novo proprietario? Porque vamos para uma época de

faceis condescendencias.

Bertha calou-se, baixando os olhos, porque pressentia perigos na

direcção que levava a conversa.

D. Luiz tinha delicadeza para comprehender a discrição de Bertha, e

mudando de tom, continuou:

--Mas perdoa-me, Bertha, estas ideias tristes da velhice não são para a

tua idade. É uma crueldade da minha parte não guardar para mim estes

pensamentos.

--Se eu podésse desvanecel-os!

O fidalgo limitou-se a fazer um gesto de negação.

N'este momento ouviu-se nas escadas um rumor de passos e de vozes, que a

ambos fez estremecer.

--É teu pae, Bertha?--perguntou D. Luiz, erguendo-se e olhando em redor

com inquietação.

--Meu pae não está na terra. Ha tres dias que partiu e não o esperamos

ainda hoje--respondeu Bertha, sobresaltada tambem.

Calaram-se como para melhor escutarem o rumor que parecia já mais

proximo.

Ouviu-se uma voz dizer:

--Vejamos comtudo d'este lado; a torre póde muito bem servir para

pombal.

Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia · 第 49 / 93 题