Quando o procurador, a fim de suavisar as agruras do desterro, pretendia
fazer transportar algum objecto que podia ser de utilidade para melhor
accommodação da familia, o fidalgo ordenava-lhe sêcamente que o deixasse
ficar, o que cada vez mais exasperava o padre.
Vendo que tudo estava prompto, D. Luiz deixou por alguns instantes o
procurador na sala e subiu vagarosamente as escadas que conduziam aos
antigos aposentos da filha que perdêra.
Ao penetrar alli, que doloroso estremecer o do coração do velho! Ia
desamparar tambem aquelle quarto! Esta ideia só poderia fazer
vacillar-lhe a inabalavel coragem! Era um logar de reconhecimento
aquelle para o desconfortado ancião. Tudo alli dentro se conservava como
no fatal dia em que ella morrêra. Todos os objectos que haviam
pertencido á infeliz criança alli se guardavam religiosamente. E ia
deixal-os! O leito, o genuflexorio, o toucador, a harpa, parecia
possuirem uma voz para fallar-lhe d'ella. E havia de fugir-lhes! A
coragem porém não sossobrou na lucta. D. Luiz fechou discretamente a
porta para si; depois com fervorosa commoção beijou quasi um por um
esses differentes objectos, e ao chegar junto do leito, o mesmo em que a
vira adormecer do ultimo somno, ajoelhou soluçando, e cobriu de beijos e
de lagrimas as almofadas onde tantas vezes se encostára a pallida cabeça
da sua Beatriz.
Mais tranquillo depois d'esta effusão de dôr, ergueu-se, enxugou os
olhos e desceu com a mesma lentidão as escadas até o portal, onde o
padre o esperava já com impaciencia e inquieto pelo adiantado da hora.
Um criado segurava pela redea os cavallos, que deviam transportal-os.
--Vamos, vamos, snr. D. Luiz, olhe que nos apanha a noite na estrada e
os caminhos não são lá essas coisas--exclamou o padre afflicto.
D. Luiz, em vez de responder-lhe, disse para o criado que segurava os
cavallos:
--Vae esperar-nos na baixa do Paul. Nós já lá vamos ter.
--Então v. exc.ª quer ir a pé até á baixa do Paul?!--perguntou o padre
assustado.
--Vou?
--Mas... é um estirão e....
--Então que fazes? Parte--disse D. Luiz com impaciencia para o criado, e
este obedeceu-lhe promptamente.
O padre ficou a resmonear:
--Eu cada vez ando mais ás aranhas com a gente d'esta casa. Sempre tenho
visto e ouvido coisas ha tempos a esta parte! Olhem que preparos estes!
Havemos de ceiar a boas horas, não tem duvida nenhuma!
--Agora feche a porta, frei Januario--ordenou D. Luiz.
O padre tomou com ambas as mãos a enorme chave do portão, e fêl-a girar
na fechadura.
Este movimento produziu um som agudo, similhante ao gemido de uma ave, o
qual resoou tristemente pelo interior d'aquella casa deserta.
O padre tirou a chave, que juntou ao mólho que trazia, deu um encontrão
á porta, para verificar se ella estaria bem fechada, e depois olhou para
D. Luiz.
--Vamos--disse este.
O padre ia pôr-se a caminho, mas parou vendo o fidalgo seguir a direcção
opposta á da quinta dos Bacellos.
--V. exc.ª por onde vae?
--Por aqui--respondeu sêcamente o fidalgo, continuando a andar.
--Mas... v. exc.ª está enganado. Esse não é o caminho.
--Bem sei.
O padre seguiu-o, murmurando contra as venêtas do fidalgo:
--Esta cabeça já não regula direita. Onde diabo quer ir este homem?
O caminho que D. Luiz continuava a seguir, ia tão divergente do que o
padre esperava, que outra vez o interpellou:
--Mas v. exc.ª onde quer ir?
--A casa do Thomé da Povoa--respondeu D. Luiz e acrescentou:--E
advirto-lhe, frei Januario, que não me sinto com disposições para
conversar.
O padre sabia que sempre que D. Luiz fazia certas observações em certo
tom e com certa inflexão de voz, era inutil e imprudente contrarial-o.
Por isso calou-se, o que augmentou o mau humor que já trazia accumulado.
--A casa do Thomé da Povoa!--resmungava elle--O homem está doido! Ora
isto! E eu a atural-o! O que me estava reservado!
A intenção com que o fidalgo demandava a casa do fazendeiro era um
mysterio indecifravel para o espirito do procurador.
Tinham descido a encosta, a meio da qual se erguia a Casa Mourisca.
Aproximavam-se da ponte que atravessava o valle. A tarde ia no fim. Era
já a claridade do crepusculo que illuminava a paisagem. A azafama do
trabalho acalmára. Nos marcos dos campos, á soleira das portas e nos
parapeitos das pontes repoisavam finalmente os lavradores das fadigas do
dia. O gado caminhava para as prêsas, conduzido por crianças de seis e
sete annos. Nos arvoredos ouvia-se um cantar de aves, timido como elle
é, ao aproximar do outomno e ao aproximar da noite. Era tal a serenidade
da tarde, que se percebia o sino de uma freguezia distante, dobrando a
finados.
A suave melancolia d'aquella hora influiu no animo de D. Luiz. Que
densidade de tristeza a que poisou n'aquelle coração! Saudades, mas
saudades escuras de velhice, saudades de quem não tem futuro, era o que
havia n'aquella alma. Com o passado lhe tinham ido todos os objectos das
suas crenças, do seu amor, das suas affeições. Já não era capaz de
enthusiasmo, e os olhos em que o enthusiasmo não influe, vêem
tristemente coloridas todas as scenas da vida. Ao desencantamento do
presente juntavam-se as apprehensões pelo futuro a entenebrecer-lhe o
espirito. Era devéras infeliz aquelle velho!
Depois da ponte seguia-se a collina, onde prosperava a Herdade de Thomé.