XVII

Ficaram apenas na sala Jorge, Mauricio e a baroneza.

A indignação de D. Luiz parecia haver desvanecido a energia de Jorge; a

consciencia do pobre rapaz, como que vacillando ao embate das violentas

paixões paternas, quasi lhe censurára a precipitação do passo que déra.

Igualmente abatido, Mauricio sentia remorsos ainda mais vivos. Não

podendo já duvidar da innocencia do irmão; como perdoaria a si proprio

as suspeitas e insultos com que o ferira?

Do vão da janella a baroneza observava-os immovel e silenciosa.

Mauricio ergueu emfim a cabeça, e tendo nos olhos ainda vestigios de

lagrimas; hesitou alguns instantes; depois, por um d'esses movimentos

promptos e irresistiveis, a que a violencia dos affectos o provocava,

caminhou agitado para Jorge.

--Jorge--disse elle, intima e sinceramente commovido--se ainda se não

esgotou a generosidade da tua nobre alma, não me retires a affeição, que

por tanto tempo te mereci.

Jorge apertou-lhe a mão com affecto.

--Nunca t'a retirei, Mauricio. Podes crêl-o. Affligem-me alguns dos teus

desvarios, principalmente porque sei que elles estão em contradicção com

os nobres sentimentos da tua alma. Mas para te perder a affeição não é

isso motivo. Para mim és n'esses momentos, como uma criança que se vê a

dormir á beira de um precipicio. Inspiras-me, como ella, apenas sustos,

e não cólera nem aversão.

E os dois rapazes abraçaram-se com effusão.

--Vamos--disse a baroneza, intervindo--a situação precisa de que se

pense n'ella seriamente. As pazes estão feitas, em boa hora; pensemos

agora como gente de juizo.

--Antes de mais nada, Jorge, o que ha de verdade em tudo isto?

--O que eu disse.

--Vê bem; falla-me com franqueza. Eu não acreditei no que de ti se

espalhou. Concederia que Jorge podésse praticar uma loucura, mas uma

acção indigna, um abuso de confiança, sabia que não. Porém não ha em

toda esta historia alguma coisa que não disseste ainda? Bertha é para ti

completamente indifferente? Esta é que é a questão.

Só a muito custo Jorge pôde disfarçar a turbação em que a pergunta de

Gabriella o lançou, mas respondeu com apparente serenidade:

--Bertha é uma rapariga, que por todos os motivos respeito.

E com mais custo ainda, acrescentou:

--E nada mais.

--E para Mauricio o que é Bertha?--continuou a baroneza, sorrindo ao

voltar-se para o primo mais novo.

Não obteve logo resposta.

--Bem vêem--insistiu ella--que ha uma coisa que eu não posso ainda

explicar. Assisti á vossa reconciliação, signal de que tinha havido uma

desintelligencia. Qual foi pois o motivo d'ella?

--Uma das minhas loucuras--respondeu Mauricio a final--cedi a um

movimento de paixão, encontrando-me com Jorge hontem, quando elle sahia

da casa de Thomé da Povoa, e soltei expressões, que parece que ainda me

estão queimando os labios.

--Então, visto isso, achavas-te com direito de sentir ciumes. Segue-se

que amas Bertha. E é devéras esse amor?

A fronte de Jorge contrahiu-se levemente ao ouvir a pergunta, e emquanto

aguardava a resposta do irmão.

--Se responder pelo que penso d'elle--disse Mauricio--juro que é.

D'esta vez um ligeiro sorriso deslizou nos labios de Jorge.

--Isso quer dizer--tornou a baroneza--que respondendo pelo que pensas de

ti, receias muito que não. Pois, meu caro priminho, a occasião exige que

se ponham de lado caprichos e brinquedos de criança, e que se siga com

sisudeza e tenacidade de homem um caminho qualquer. Não estámos em tempo

de brincar. Dá-se uma grave crise, em que todos os bons planos de Jorge

podem ser destruidos de encontro á resistencia do tio Luiz. Eu nem posso

calcular o que resultará de tudo isto. E portanto....

Interrompeu-a n'este ponto a entrada de um criado, pedindo-lhe para

chegar ao quarto de D. Luiz, que desejava fallar-lhe.

--N'este caso esperemos o resultado d'esta entrevista para adoptar um

partido--dizia ella, apressando-se em satisfazer os desejos do tio.

Em caminho para o quarto de D. Luiz, a baroneza notou nos corredores e

nas salas intermedias um movimento extraordinario, que não sabia a que

attribuir.

Os criados iam e vinham apressurados, communicavam ordens uns aos

outros, abriam e fechavam portas, desciam a duas e duas as escadas, e

transportavam differentes objectos, como se se tractasse dos

preparativos de uma jornada.

Nos aposentos de D. Luiz achou Gabriella o fidalgo em pé no meio da

sala, emquanto frei Januario, de joelhos junto de uma arca, introduzia

n'ella algumas peças de roupa, que aquelle lhe ia indicando.

--Eu não sei o que v. exc.ª vae fazer, snr. D. Luiz--murmurava no

entretanto o egresso, que parecia cumprir a tarefa de má vontade, suando

em bagas--isto não tem pés nem cabeça. Olhem agora, sem commodos

nenhuns... assim de um momento para outro....

D. Luiz, sem responder ás reflexões do procurador, continuava a

indicar-lhe os objectos que devia arrecadar.

Gabriella dirigiu-se a elle:

--Mandou chamar-me, meu tio?

--Ah! mandei, sim, Gabriella. Desculpe importunal-a. Mas tenho que lhe

pedir um favor--respondeu D. Luiz com forçada placidez.

--Mil que sejam.

--Depois do que se passou, não quero demorar-me n'esta casa uma só

noite. Peco-lhe por isso hospitalidade na sua. Se me não engano,

tencionava partir ámanhã para lá. Não é verdade? Pois bem, faça o

sacrifício de partir hoje e permitta-me que a acompanhe. Um quarto e uma

enxerga bastam-me. Preciso de me ir costumando a tudo.

A baroneza ficou por alguns momentos muda de surpreza.

--Mas... Por quem é, meu tio... Grande prazer me dará a sua visita...

porém em outras circumstancias e por outros motivos. Não tome resolução

alguma emquanto assim está dominado pela paixão. Veja o que vae fazer! O

que se dirá? O que se fallará por toda a parte!

--Já de sobra teem em que fallar. A vergonha não é maior--tornou o velho

mais agitado.

--Pois sim--acudiu o padre--mas reunir a vergonha ao incommodo... a

fallar a verdade... é... é...

--A vergonha... a vergonha... Mas tem a certeza, tio, de que julga bem e

despreoccupado de paixões, os actos de seu filho? Quem lhe diz que

outros não chamarão virtude áquillo a que chama baixeza?

A cólera relampagueou de novo nos olhos do velho:

--Gabriella, por quem é, desista de contrariar-me. Asseguro-lhe que me

não demove da resolução em que estou e que sómente me afflige. Se não

quer conceder-me o abrigo dos seus tectos, irei bater a outra porta.

Gabriella não insistiu.

--A minha casa é sua sempre, meu querido tio. Vou dar as ordens para

partirmos.

--Não esperem por mim--recommendou ainda o fidalgo--eu irei com frei

Januario mais tarde, porque tenho que fazer antes. Sinto o incommodo que

isto lhe vae causar, Gabriella. Mas os criados ficarão na estalagem da

Encruzilhada.

--Todos cabem; visto que tambem os quer levar, escusam de ficar a meio

caminho. Então fecha-se a Casa Mourisca, ao que estou vendo? Muito bem.

A casa de meu pae é bastante espaçosa, e com os arranjos que eu mandei

fazer-lhe ultimamente, deve bem servir para nós todos. Agora um pedido.

--Qual é?

--Jorge está consternado, pelas suas asperas palavras ao jantar. Não ha

de reconciliar-se com elle?

--Gabriella, se é amiga de Jorge, não procure trazêl-o á minha presença,

e se quer que isto que sinto cá dentro contra meu filho não cresça ou

degenere em paixão peior, não pronuncie diante de mim por ora o nome

d'elle.

Gabriella tinha certo dom para conhecer quando convinha luctar e quando

era preferivel ceder. D'esta vez percebeu que o animo de D. Luiz não

estava para acalmar de prompto.

Sahiu sem aventurar mais uma palavra a tal respeito e foi ordenar os

preparativos da partida.

Ao passar na sala onde ainda estavam Jorge e Mauricio, apenas lhes

disse:

--Tracta-se de partir já.

--Para onde?

--Para a minha casa, nos Bacellos.

--E meu pae?

--Tudo parte. É uma emigração completa.

--E a Casa Mourisca?...

--Fechada, ao que parece, até... acabar o interdicto.

--Mas isso não póde ser!

--Mas é, e eu vou já dar ordens precisas para a mudança.

--E eu vou fallar com meu pae--exclamou Jorge, erguendo-se.

A baroneza reteve-o.

--Não vás. É inutil e perigoso. Deixa que os factos succedam

naturalmente. Eu já estou convencida de que esse é o melhor expediente.

É preciso que teu pae desafogue a paixão que lá tem dentro. Entende que

deve sahir d'aqui, deixemol-o sahir. Estas exterioridades acalmam-n'o.

Depois lhe apparecerás.

--Então agora recusa vêr-me?

--Recusa. O que não tira que não possas estar muito á tua vontade na

minha casa dos Bacellos. Ha lá um pavilhão na quinta, ao talhar para um

refugiado como tu.

Passados poucos minutos os moradores da Casa Mourisca punham-se em

movimento para a quinta dos Bacellos.

Os preparativos não occuparam muito tempo, porque o fidalgo mandára

apenas levar o que fosse estrictamente necessario.

A baroneza veio despedir-se do tio, que insistiu em querer ser o ultimo

a sahir de casa.

Jorge e Mauricio partiram em companhia de Gabriella.

O fidalgo ficou só com frei Januario, que continuava a protestar por

todas as fórmas contra a resolução da mudança de quartel a horas

improprias.

Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia · 第 30 / 93 题