Ficaram apenas na sala Jorge, Mauricio e a baroneza.
A indignação de D. Luiz parecia haver desvanecido a energia de Jorge; a
consciencia do pobre rapaz, como que vacillando ao embate das violentas
paixões paternas, quasi lhe censurára a precipitação do passo que déra.
Igualmente abatido, Mauricio sentia remorsos ainda mais vivos. Não
podendo já duvidar da innocencia do irmão; como perdoaria a si proprio
as suspeitas e insultos com que o ferira?
Do vão da janella a baroneza observava-os immovel e silenciosa.
Mauricio ergueu emfim a cabeça, e tendo nos olhos ainda vestigios de
lagrimas; hesitou alguns instantes; depois, por um d'esses movimentos
promptos e irresistiveis, a que a violencia dos affectos o provocava,
caminhou agitado para Jorge.
--Jorge--disse elle, intima e sinceramente commovido--se ainda se não
esgotou a generosidade da tua nobre alma, não me retires a affeição, que
por tanto tempo te mereci.
Jorge apertou-lhe a mão com affecto.
--Nunca t'a retirei, Mauricio. Podes crêl-o. Affligem-me alguns dos teus
desvarios, principalmente porque sei que elles estão em contradicção com
os nobres sentimentos da tua alma. Mas para te perder a affeição não é
isso motivo. Para mim és n'esses momentos, como uma criança que se vê a
dormir á beira de um precipicio. Inspiras-me, como ella, apenas sustos,
e não cólera nem aversão.
E os dois rapazes abraçaram-se com effusão.
--Vamos--disse a baroneza, intervindo--a situação precisa de que se
pense n'ella seriamente. As pazes estão feitas, em boa hora; pensemos
agora como gente de juizo.
--Antes de mais nada, Jorge, o que ha de verdade em tudo isto?
--O que eu disse.
--Vê bem; falla-me com franqueza. Eu não acreditei no que de ti se
espalhou. Concederia que Jorge podésse praticar uma loucura, mas uma
acção indigna, um abuso de confiança, sabia que não. Porém não ha em
toda esta historia alguma coisa que não disseste ainda? Bertha é para ti
completamente indifferente? Esta é que é a questão.
Só a muito custo Jorge pôde disfarçar a turbação em que a pergunta de
Gabriella o lançou, mas respondeu com apparente serenidade:
--Bertha é uma rapariga, que por todos os motivos respeito.
E com mais custo ainda, acrescentou:
--E nada mais.
--E para Mauricio o que é Bertha?--continuou a baroneza, sorrindo ao
voltar-se para o primo mais novo.
Não obteve logo resposta.
--Bem vêem--insistiu ella--que ha uma coisa que eu não posso ainda
explicar. Assisti á vossa reconciliação, signal de que tinha havido uma
desintelligencia. Qual foi pois o motivo d'ella?
--Uma das minhas loucuras--respondeu Mauricio a final--cedi a um
movimento de paixão, encontrando-me com Jorge hontem, quando elle sahia
da casa de Thomé da Povoa, e soltei expressões, que parece que ainda me
estão queimando os labios.
--Então, visto isso, achavas-te com direito de sentir ciumes. Segue-se
que amas Bertha. E é devéras esse amor?
A fronte de Jorge contrahiu-se levemente ao ouvir a pergunta, e emquanto
aguardava a resposta do irmão.
--Se responder pelo que penso d'elle--disse Mauricio--juro que é.
D'esta vez um ligeiro sorriso deslizou nos labios de Jorge.
--Isso quer dizer--tornou a baroneza--que respondendo pelo que pensas de
ti, receias muito que não. Pois, meu caro priminho, a occasião exige que
se ponham de lado caprichos e brinquedos de criança, e que se siga com
sisudeza e tenacidade de homem um caminho qualquer. Não estámos em tempo
de brincar. Dá-se uma grave crise, em que todos os bons planos de Jorge
podem ser destruidos de encontro á resistencia do tio Luiz. Eu nem posso
calcular o que resultará de tudo isto. E portanto....
Interrompeu-a n'este ponto a entrada de um criado, pedindo-lhe para
chegar ao quarto de D. Luiz, que desejava fallar-lhe.
--N'este caso esperemos o resultado d'esta entrevista para adoptar um
partido--dizia ella, apressando-se em satisfazer os desejos do tio.
Em caminho para o quarto de D. Luiz, a baroneza notou nos corredores e
nas salas intermedias um movimento extraordinario, que não sabia a que
attribuir.
Os criados iam e vinham apressurados, communicavam ordens uns aos
outros, abriam e fechavam portas, desciam a duas e duas as escadas, e
transportavam differentes objectos, como se se tractasse dos
preparativos de uma jornada.
Nos aposentos de D. Luiz achou Gabriella o fidalgo em pé no meio da
sala, emquanto frei Januario, de joelhos junto de uma arca, introduzia
n'ella algumas peças de roupa, que aquelle lhe ia indicando.
--Eu não sei o que v. exc.ª vae fazer, snr. D. Luiz--murmurava no
entretanto o egresso, que parecia cumprir a tarefa de má vontade, suando
em bagas--isto não tem pés nem cabeça. Olhem agora, sem commodos
nenhuns... assim de um momento para outro....
D. Luiz, sem responder ás reflexões do procurador, continuava a
indicar-lhe os objectos que devia arrecadar.
Gabriella dirigiu-se a elle:
--Mandou chamar-me, meu tio?
--Ah! mandei, sim, Gabriella. Desculpe importunal-a. Mas tenho que lhe
pedir um favor--respondeu D. Luiz com forçada placidez.
--Mil que sejam.
--Depois do que se passou, não quero demorar-me n'esta casa uma só
noite. Peco-lhe por isso hospitalidade na sua. Se me não engano,
tencionava partir ámanhã para lá. Não é verdade? Pois bem, faça o
sacrifício de partir hoje e permitta-me que a acompanhe. Um quarto e uma
enxerga bastam-me. Preciso de me ir costumando a tudo.
A baroneza ficou por alguns momentos muda de surpreza.
--Mas... Por quem é, meu tio... Grande prazer me dará a sua visita...
porém em outras circumstancias e por outros motivos. Não tome resolução
alguma emquanto assim está dominado pela paixão. Veja o que vae fazer! O
que se dirá? O que se fallará por toda a parte!
--Já de sobra teem em que fallar. A vergonha não é maior--tornou o velho
mais agitado.
--Pois sim--acudiu o padre--mas reunir a vergonha ao incommodo... a
fallar a verdade... é... é...
--A vergonha... a vergonha... Mas tem a certeza, tio, de que julga bem e
despreoccupado de paixões, os actos de seu filho? Quem lhe diz que
outros não chamarão virtude áquillo a que chama baixeza?
A cólera relampagueou de novo nos olhos do velho:
--Gabriella, por quem é, desista de contrariar-me. Asseguro-lhe que me
não demove da resolução em que estou e que sómente me afflige. Se não
quer conceder-me o abrigo dos seus tectos, irei bater a outra porta.
Gabriella não insistiu.
--A minha casa é sua sempre, meu querido tio. Vou dar as ordens para
partirmos.
--Não esperem por mim--recommendou ainda o fidalgo--eu irei com frei
Januario mais tarde, porque tenho que fazer antes. Sinto o incommodo que
isto lhe vae causar, Gabriella. Mas os criados ficarão na estalagem da
Encruzilhada.
--Todos cabem; visto que tambem os quer levar, escusam de ficar a meio
caminho. Então fecha-se a Casa Mourisca, ao que estou vendo? Muito bem.
A casa de meu pae é bastante espaçosa, e com os arranjos que eu mandei
fazer-lhe ultimamente, deve bem servir para nós todos. Agora um pedido.
--Qual é?
--Jorge está consternado, pelas suas asperas palavras ao jantar. Não ha
de reconciliar-se com elle?
--Gabriella, se é amiga de Jorge, não procure trazêl-o á minha presença,
e se quer que isto que sinto cá dentro contra meu filho não cresça ou
degenere em paixão peior, não pronuncie diante de mim por ora o nome
d'elle.
Gabriella tinha certo dom para conhecer quando convinha luctar e quando
era preferivel ceder. D'esta vez percebeu que o animo de D. Luiz não
estava para acalmar de prompto.
Sahiu sem aventurar mais uma palavra a tal respeito e foi ordenar os
preparativos da partida.
Ao passar na sala onde ainda estavam Jorge e Mauricio, apenas lhes
disse:
--Tracta-se de partir já.
--Para onde?
--Para a minha casa, nos Bacellos.
--E meu pae?
--Tudo parte. É uma emigração completa.
--E a Casa Mourisca?...
--Fechada, ao que parece, até... acabar o interdicto.
--Mas isso não póde ser!
--Mas é, e eu vou já dar ordens precisas para a mudança.
--E eu vou fallar com meu pae--exclamou Jorge, erguendo-se.
A baroneza reteve-o.
--Não vás. É inutil e perigoso. Deixa que os factos succedam
naturalmente. Eu já estou convencida de que esse é o melhor expediente.
É preciso que teu pae desafogue a paixão que lá tem dentro. Entende que
deve sahir d'aqui, deixemol-o sahir. Estas exterioridades acalmam-n'o.
Depois lhe apparecerás.
--Então agora recusa vêr-me?
--Recusa. O que não tira que não possas estar muito á tua vontade na
minha casa dos Bacellos. Ha lá um pavilhão na quinta, ao talhar para um
refugiado como tu.
Passados poucos minutos os moradores da Casa Mourisca punham-se em
movimento para a quinta dos Bacellos.
Os preparativos não occuparam muito tempo, porque o fidalgo mandára
apenas levar o que fosse estrictamente necessario.
A baroneza veio despedir-se do tio, que insistiu em querer ser o ultimo
a sahir de casa.
Jorge e Mauricio partiram em companhia de Gabriella.
O fidalgo ficou só com frei Januario, que continuava a protestar por
todas as fórmas contra a resolução da mudança de quartel a horas
improprias.