XVI

Amanheceu alvoroçada e ruidosa a Casa Mourisca no dia destinado para o

jantar, em homenagem a Gabriella.

N'aquelle tranquillo e silencioso edificio, que parecia constantemente

absorvido nas recordações dos seus tempos de gloria, notava-se um

movimento excepcional.

O velho fidalgo não quizera faltar ás tradições de hospitalidade que a

familia lhe legára.

Ordenou que, embora á custa de qualquer sacrificio, se celebrasse a

chegada da sobrinha, segundo o velho estylo, convidando-se para jantar

os representantes da mais preclara nobreza dos arredores.

Ainda que a tristeza e misanthropia, de que era victima, o trouxessem,

havia muito tempo, arredado dos parentes e dos amigos de outras épocas,

o senhor da Casa Mourisca preferiu sujeitar-se á impertinencia de lhes

abrir mais outra vez as suas salas, a deixar de cumprir uma pratica que

lhe impunham os brios de fidalgo creado nos habitos de grandeza e

liberalidade de um solar de provincia.

Jorge tentára ainda oppôr algumas sensatas reflexões a esta dispendiosa

exhibição de uma opulencia mentida; mas encontrou o pae inflexivel.

Frei Januario, que antevia a perspectiva d'um d'aquelles regalados

jantares, que se tinham ido com os dizimos, com os foraes, com as

luctuosas, com os conventos, com as milicias e com muitas outras coisas

igualmente despertadoras das suas clericaes saudades, frei Januario,

dizemos, sentia em si uns jubilos de criança, que nem podia nem

procurava disfarçar.

Eloquente como nunca, corroborou a opinião do fidalgo, fazendo-lhe bem

sentir o deslustro que soffreria o brazão da casa se não se observassem

essas praticas senhoris dos tempos passados, e dando como faceis de

aplanar todas as difficuldades que, á primeira vista, apresentava o

projecto.

A Jorge, que lhe suscitava algumas objecções, o egresso sómente

respondia:

--Tenha paciencia, snr. Jorge, a nobreza obriga!

--Obriga a ser nobre, que é ser leal, sincero, honrado, sem affectação,

sem prodigalidade, e sem sumptuosidades que se sustentem á custa alheia.

--Á custa alheia?!

--Emquanto esta casa tiver uma divida é á custa alheia que vive, gere

dinheiro de outros e não lhe é airoso gastar em festas e banquetes o que

precisa para remir-se primeiro e para prosperar depois.

--Uma casa de fidalgos não é uma casa de commerciantes. Que estes, que

não teem um nome a respeitar, se não mettam em cavallarias altas,

entende-se. E é até muito para sentir vêr por ahi fazer o contrario,

como se vê! Mas agora quem tem brazão na porta e retratos nas paredes...

--Quem tem brazão e retratos, e vive como n'esta casa se tem vivido,

arrisca-se muito a ter de vender um dia brazões e avós, por preço

modico, ao commerciante que teima em metter-se em cavallarias altas, e

que tem a felicidade de não cahir do cavallo abaixo.

--Adeus, elle ahi vem com as suas! Eu já lhe disse, não percebo que

ideias são essas com que o menino me anda ha tempos. Ora para o que lhe

havia de dar! O filho mais velho de uma casa como esta, aparentado com

as primeiras familias do reino, com marquezes e duques da melhor

linhagem, tudo nobreza antiga e da que não admitte duvida a fallar como

qualquer d'esses bacharelitos que veem de Coimbra, mações nos ossos e

republicanos na alma! Uma coisa assim!

Apesar da repugnancia que sentia pela festa ordenada por o pae, Jorge

julgou prudente superintender nos aprestes d'ella, para obstar a que

fossem dirigidos pelos alvitres do padre procurador.

Um d'estes alvitres fôra o de se pedir emprestadas ás proprias familias

convidadas diversas peças de baixella, de que estava desprevenida a cópa

da Casa Mourisca.

Este ridiculo expediente era pelo padre tido na conta de engenhosa

tactica, porque, explicava elle: cada familia, conhecendo apenas a prata

que lhe pertencia, havia de suppôr que toda a mais era da casa, que em

tempo fôra das mais bem providas n'esta especie. Por tal fórma, não se

tornaria notada a falta, e cada qual se daria até por lisongeado em

haver merecido do proprietario esta prova de confiança.

Jorge não se deixou convencer, apesar do persuasivo da logica; e em

despeito de vehementes protestos do padre, exigiu que o serviço se

fizesse sómente com o pouco ou muito que houvesse em casa.

O padre appellou para o fidalgo, que nisto porém decidiu a favor do

filho.

Os convidados para o jantar eram todos da mais genuina fidalguia da

provincia. Por muitas d'aquellas veias andava globulo de sangue, que já

pertencêra a Fuas Roupinho ou a Egas Moniz e que por um mysterio

physiologico, que só se dá n'aquella esmerilhada casta, conseguira

transmittir-se inteiro de veias para veias, atravez de vinte gerações,

com o fim providencial de manter inabalaveis os brios da raça.

Era um gosto seguir pelos seculos fóra a linha, pela qual alguns dos

presentes procediam muito direitamente de qualquer notavel heroe das

origens da monarchia. Havia tal que tinha tirado a limpo o numero de

ordem que lhe competia n'aquella illustre enfiada de morgados, e que

deixava evidente, por um _autem genuit_ nobiliario, ser o vigesimo ou o

decimo-setimo rebentão de sua preclarissima cêpa. Bom fôra que elle se

tivesse entregado a esses calculos, por não ser provavel que

apparecesse, no succeder dos tempos, outro espirito de igual alcance,

que ousasse mergulhar em tão transcendentes e uteis computações; e assim

ficaria a humanidade privada de uma noção valiosissima.

Embora estivessem um tanto enfesadas e pêcas quasi todas aquellas

vergonteas, sempre derivavam de uma profunda cêpa; e quem não havia de

preferil-as a ramos embora cheios de viço, cujas raizes estivessem á

flôr da terra?

Os dotes physicos tinham, é verdade, soffrido um pouco com os extremos e

cuidados empregados para conservar a crase aristocratica d'aquelle

sangue livre de toda a mistura que o derrancasse; os dotes

intellectuaes, em geral, resentiam-se do cordão sanitario, de que os

chefes d'aquellas familias as haviam cingido para precavêl-as da

infecção de ideias novas, propagadas pelos livros e jornaes da

actualidade. Mas lá estava o fermento da fidalguia, que era o essencial,

e que suppria bem a saude e a illustração.

Algumas familias, que cedendo um pouco ás exigencias da época, não

tinham trancado de todo os portões dos seus solares a certas innovações,

eram por esse facto olhadas com desconfiança por os puros, que as

accusavam de eivadas pela lepra do seculo.

Emquanto se esperava pelo jantar, formavam os convidados na sala nobre

da Casa Mourisca grupos variados e caracteristicos. As senhoras de idade

madura, tias e mães, sentadas em semi-circulo em um dos angulos da sala,

narravam pausadamente umas ás outras as occorrencias domesticas

relativas ao intervallo de tempo em que se não tinham visto; exaltavam

os dotes pessoaes do filho primogenito e as prendas da menina da casa.

Finalmente combinavam enlaces matrimoniaes entre os seus filhos e

sobrinhos, de maneira que o sangue dos descendentes sahisse ainda mais

rico em essencia aristocratica, se é que era susceptivel de maior apuro.

Os chefes de familia, passeando na sala, ou formando grupos nos vãos das

janellas, lidavam na sua tarefa de vinte annos: a de demonstrar que o

que perdêra a causa realista fôra a traição e o suborno; e, arvorados em

prophetas, entoavam trenuos sob a imminente dissolução social,

periphraseando os artigos de fundo da _Nação_ e do _Direito_.

A abolição dos morgados e vinculos, definitivamente decretada poucos

annos antes, fornecia forte alimento para aquellas jeremiades; os

dissipadores fidalgos, que tinham arriscado o futuro e bem-estar dos

filhos, desbaratando-lhes a legitima com a sua imprevidencia e

prodigalidade, lançavam agora á conta da lei o que era a consequencia

logica da sua má administração.

As raparigas fallavam umas com as outras, de vestidos e de enfeites, e

dispunham de quando em quando de algum olhar mais terno para qualquer

dos primos presentes, em cujo numero se continham os namorados de cada

uma ou de mais do que uma. Estas representantes das poeticas e vaporosas

castellãs, que na meia idade premiavam os campeadores na liça, os

guerreiros na volta dos combates, e os menestreis e pagens que lhes

endereçavam conceituosos galanteios nos estrados das salas, tinham

perdido muito da poesia do typo primitivo. Vivendo em uma época em que

não havia campeões, guerreiros, nem trovadores para premiar,

limitavam-se as meninas a acceitar a côrte dos primos, tambem muito

pouco parecidos com os seus cavalleirosos avós, e com a maior candura,

que póde medrar na provincia, roubavam umas ás outras os noivos e os

namorados.

Algumas havia alli mais revolucionarias, que tinham conseguido

introduzir o piano em casa e com elle as musicas da moda, obtendo uma ou

outra vez dos paes a concessão de dar uma partida, onde a nata da

nobreza provinciana dançava os _Lanceiros_ como qualquer sociedade de

artistas.

Os rapazes reunidos no terraço fumavam e atiravam a rewolver aos troncos

das arvores ou ás avesitas que poisavam nos ramos.

A maioria, ou morgados ou filhos segundos, era de ignorantes e vadios;

se alguns haviam descido até ao ponto de irem a Coimbra fazerem á

sciencia a honra de a estudar, poucos d'esses mostravam as habilitações

adquiridas, exercendo qualquer mester social. Seria dobrar o desdouro.

Commettida a fraqueza de sentar-se nos bancos das aulas ao lado dos

filhos dos commerciantes e lavradores, devia-se pelo menos seguir o

exemplo do mano bacharel do Cruzeiro, o qual evitára a circumstancia

aggravante de servir depois para alguma coisa.

Formava grupo á parte frei Januario em animado colloquio com outros dois

padres, tambem appensos a casas fidalgas, e igualmente fervorosos na

defeza dos legitimos direitos da nobreza e abominadores dos pedreiros

livres.

Mauricio, na companhia dos rapazes no terraço, entre os quaes se achavam

os dois primos do Cruzeiro, tomava parte nas suas diversões, mas sem

perder certo ar de melancolia, que lhe ficára das scenas da vespera.

Jorge attendia a todos, mas n'elle era ainda mais evidente do que em

Mauricio a preoccupação de espirito.

Desde a vespera os dois irmãos não haviam trocado uma palavra. Gabriella

notára-o, e desconfiava de que alguma coisa se tivesse passado entre

elles.

Não deixava porém a baroneza de desempenhar pela sua parte, com superior

sciencia, o papel que lhe cumpria, como a pessoa em honra de quem tinha

logar a festa de familia. Ia de grupo a grupo, tendo uma amabilidade

certeira para cada individuo, e conseguindo desvanecer com as

inebriantes inhalações de lisonja a superciliosa desconfiança que os

seus ares de côrte da actualidade despertavam n'aquelles espiritos,

escrupulosos respeitadores da côrte velha.

Houve uma circumstancia que excitou a curiosidade da baroneza. Notára

ella que a maior parte dos rapazes, com quem os manos do Cruzeiro haviam

conversado e rido, seguiam Jorge com olhares maliciosos, e que sempre

que este lhes voltava costas, trocavam uns com outros risos mal

suffocados. Da roda dos rapazes communicára-se o mesmo effeito á das

raparigas, por intermedio dos colloquios de alguns namorados, e dentro

em pouco viu-as olharem tambem para Jorge com certa estranheza, e

cochicharem e rirem umas com as outras, quando livres da observação

d'elle.

A mysteriosa confidencia passava de labios para ouvidos com rapidez tal,

que momentos depois estava nas visinhanças de Gabriella.

Não pôde a curiosidade d'esta tardar mais tempo em informar-se do que

assim agitava a sociedade moça, e que até já havia deixado estupefacta

mais de uma respeitavel matrona, que por acaso fôra partícipe do

segredo.

--O que é que se diz por ahi, priminha?--perguntou a baroneza á rapariga

mais proxima--corre de certo alguma noticia estranha, porque as vejo

todas em alvoroço.

--E com razão. Então não sabe? O primo Jorge tem um namoro!

--E o caso é para taes espantos?

--Pudera não! Então não conhece o primo Jorge, já vejo. Ainda não houve

quem lhe merecesse um comprimento, que não fosse de simples ceremonia.

Todos iriam jurar que era impossivel que elle gostasse de alguem. E

vejam lá.

--É porque pertence á especie rara dos que amam só uma vez, e dos que

amam de maneira tal que não podem sem remorsos amar por passatempo.

--Pois será. Mas vejam aonde foi elle cahir!

--Então quem é ella?

--A Bertha. A filha do Thomé!

--Fico na mesma, priminha.

--Não conhece o Thomé? O Thomé da Herdade. Um lavrador que foi criado do

tio Luiz e que está hoje rico.

--Ah! bem sei, então é uma rapariga do campo.

--Envernizada na cidade, onde o pateta do pae a mandou educar. Chegou ha

dias a casa.

--E Jorge conhecia-a?

--Em criança, sim. Depois julgo que se não viram senão agora.

--E quem descobriu essa paixão?

--Viram-n'o sahir umas poucas de noites de casa d'ella.

--Jorge?!

--É verdade. Os primos do Cruzeiro viram-n'o, e parece até que o primo

Mauricio.

--Ah! Mauricio?!

--Sim, e o mais bonito é que esse tambem pelos modos tinha suas

pretenções, por passatempo já se sabe, olha o outro! a esse então tudo

lhe serve. De maneira que hoje estão que nem palavra dizem um ao outro.

--Isso já eu notei; mas custa-me a crêr que Jorge...

--E a todos. Pois aquelle sonsinha...

--Não é isso o que eu dizia. O que eu acredito é que, sendo o que me diz

verdade, Jorge ama devéras essa rapariga, e elle não tem caracter para

abusar de alguem. Deus sabe o que de tudo isso póde resultar.

--Quer dizer a prima que é capaz de casar com ella?

--Sim, estou convencida de que se elle a ama, formou já essa tenção e ha

de cumpril-a.

--Tinha que vêr a prima Bertha da Povoa!

--Eu lhe digo, para a menina talvez tivesse que vêr, para mim, que já

estou costumada a esses espectaculos, seria a coisa mais natural do

mundo.

Assim informada do que se passava na sala, Gabriella observou com mais

attenção Mauricio e Jorge, e estudou nas physionomias de ambos os

vestigios d'aquelle mysterio.

Era manifesta a frieza que os separava n'aquella manhã. Evitavam-se

tanto, quanto podiam. As frontes d'um e d'outro estavam contrahidas, e

os sorrisos gelavam-se-lhes nos labios, sempre que queriam forçal-os a

apparecerem.

--Será verdade que Jorge ame essa rapariga? N'esse caso deve ser uma

paixão bem séria a d'elle--pensava Gabriella.

N'este tempo a porta da sala abriu-se e D. Luiz appareceu aos seus

hospedes vestido com aquelle esmero e gravidade, que sabia guardar em

todos os actos da vida.

O fidalgo não tivera pressa em apresentar-se na sala.

Fizera-se substituir por Jorge na solemnidade da recepção e na da

apresentação de Gabriella a todos os primos, que ainda não a

conhecessem.

Frei Januario explicára a ausencia do fidalgo, attribuindo-a a

incommodos habituaes, que sómente mais tarde lhe permittiam sahir dos

aposentos.

A verdade, porém, era que D. Luiz desejava encurtar, quanto lhe fosse

possivel, o tempo em que tinha de conviver com os seus parentes

n'aquelle dia dedicado aos deveres de hospitalidade.

Produziu alvoroço na sala a entrada de D. Luiz.

Todos correram a comprimental-o com aquella deferencia, que a indole

séria e melancolica do fidalgo e a evidente superioridade da sua

intelligencia e educação a todos impunha.

--Como vaes tu, D. Luiz?--disse, apertando-lhe a mão um ex-coronel de

milicias, que havia acabado, pouco tempo antes, de ameaçar com a espada

que tinha em casa na gaveta todas as constituições do mundo.

--Graças a Deus que déste signal de vida, homem!

--O primo D. Luiz devia procurar mais distracções--acudiu a vigesima

descendente de um dos guerreiros de Ourique.

--Ainda bem que a priminha Gabriella o veio tirar do seu

lethargo--acrescentou outra, ramo infructifero de arvore igualmente

illustre.

O titulo de baroneza raros o concediam a Gabriella, porque era de origem

suspeita para aquelles pechosos aristocratas.

Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia · 第 28 / 93 题