XV

Ao outro dia pela manhã, estava Mauricio apparelhando por as proprias

mãos o cavallo favorito, quando Jorge foi ter com elle.

--Tencionas ir hoje ao Cruzeiro?--perguntou Jorge.

--Talvez passe por lá. Porquê?

--Porque n'esse caso podias poupar-me o trabalho de lhes mandar convite

especial para o jantar d'ámanhã.

--O jantar de ámanhã!?

--Sim; o pae insiste em celebrar com um jantar a chegada de Gabriella, e

bem vês que não é possivel deixar de convidar os do Cruzeiro, ainda que,

por minha vontade, os deixaria quietos no seu antro.

--Eu os convidarei. D'esses me incumbo. E a outra parentela?

--Mandar-se-hão cartas.

--Um jantar na Casa Mourisca! Ó sombras dos nossos antepassados, folgae!

--Estremecei, dize antes, que mais razão teem para isso.

--Estes velhacos não deitaram hontem de comer a este pobre

animal--observou Mauricio, afagando o cavallo.

--Seria uma prova de affeição que lhe dariamos se lhe proporcionassemos

occasião para mudar de dono--murmurou Jorge, sorrindo.

Pouco depois, Mauricio montava e partia a trote para o Cruzeiro.

A casa do Cruzeiro, solar dos asselvajados primos de Mauricio, ficava no

extremo da povoação, exhibindo nos campos que a cercavam uma agricultura

preguiçosa e mesquinha, e dominando um vasto tracto de mal cuidadas

bouças, onde os senhores da propriedade perseguiam implacaveis as lebres

e perdizes, que alli se acoutavam.

Causava lastima o estado de decadencia a que a má administração e a vida

dissipada dos senhores do Cruzeiro tinham levado aquella casa, de cuja

passada grandeza já nem se descobriam vestigios.

Na actualidade não era mais do que um velho casarão ennegrecido, mal

vedado aos ventos e ás chuvas, onde cada dia realisava um novo estrago,

que nunca mais era reparado. Por fóra e por dentro a mesma absoluta

carencia de confortos; porque não sentia a necessidade d'elles a robusta

organisação de qualquer dos proprietarios; afeitos á vida dos montes, ás

longas caçadas e ás luctas com os rigores do tempo. O solo árido, os

celleiros vazios, a abegoaria deteriorada, os curraes desertos, a

cultura perdida... era desolador o aspecto do solar do Cruzeiro! Parecia

havel-o fulminado um d'aquelles tremendos anathemas de que rezam os

livros sanctos, os quaes feriam de esterilidade igual as entranhas da

mulher e as entranhas da terra. Os pinhaes, cortados sem methodo nem

prudencia, cahiam sacrificados ás penurias monetarias do morgado, que ia

a pouco e pouco transmutando em vinho toda a propriedade. As aguas

vendidas para acudir a iguaes urgencias abandonavam as terras á sêde que

as fazia infecundas. Umas apparencias de movimento agricola, que ainda

se divisavam na quinta, eram-lhe mais fataes do que beneficas, e podiam

comparar-se ao fervedouro das larvas nas carnes em decomposição.

N'aquelle vasto corpo, que se decompunha, tambem se agitavam seres que

viviam dos seus detritos.

Trabalhava-se alli para destruir e não para semear ou edificar. O

desbarato com que os proprietarios sacrificavam os seus bens, attrahia

os ávidos visinhos, como córvos sinistros em volta do cadaver exposto na

estrada.

Era meio dia, quando Mauricio se apeiou no espaçoso pateo da casa, onde

reinava o silencio das ruinas. Apenas se ouvia o latir de uma matilha

encerrada nas lojas e impaciente por ir bater as mattas e bouças. O

aspecto que feria a vista de quem entrava era de uma propriedade

inteiramente abandonada; alli apodrecia um arado inutil; além

oxydavam-se os metaes de inactivos instrumentos de lavoura; a agua

empoçada das ultimas chuvas estancava, cobrindo-se de uma crusta

esverdeada; as ortigas e parietarias vegetavam em plena liberdade, nas

junturas das lageas e nos buracos das paredes. Nos telhados cresciam em

verdadeira floresta as hervas parasitas; fragmentos de louça, de

garrafas, velhos arcos de pipa, farrapos, montões de caliça pejavam,

desde tempos immemoriaes, a superficie do pateo. Manchas verdes de

musgos e de lichens, que a humidade desenvolvera, cobriam a fachada do

edificio, por onde havia muitos annos não passára a brocha do caiador.

Mauricio subiu as escadas d'esta casa humida e entrou nos corredores que

estavam tão desertos como o pateo. Passeavam por elles imperturbadas as

gallinhas e as pombas como em terreno familiar, e occasiões havia em que

pela porta meia aberta dos aposentos se insinuava curiosa uma cabeça

suina. Só os criados não appareciam; a ociosidade dos amos era

contagiosa. Conhecedor da topographia da casa, Mauricio foi ter direito

ao quarto dos primos que procurava.

Dormiam ainda os dois mais novos, emquanto o morgado andava labutando

com alguns lavradores visinhos no destroço do que ainda lhe restava.

O somno do padre e do doutor não era para ceder á primeira chamada.

Ainda depois de lhes bater á porta, Mauricio continuou a ouvil-os

ressonar em um duo assustador.

A final respondeu a voz rouca de um d'elles com um som inarticulado, que

claramente expressava o mau humor que lhe assistia ao despertar.

--Sou eu, abram--disse Mauricio, continuando a bater.

Respondeu-lhe uma praga, e depois outra voz acrescentou:

--A porta está aberta. Levanta a tranqueta e entra.

Mauricio assim fez e entrou para a sala, que servia de aposento commum

dos dois manos.

Havia dentro uma atmosphera quente, abafadiça e viciada de fumo de

cigarro que suffocava.

A sala era ampla, mas de um desarranjo e desconforto indescriptivel.

Dois catres de ferro ao lado um do outro, uma cadeira sem fundo,

sustentando a bacia e jarro mutilados, servia de lavatorio, a roupa

pendurada em cabides fixos na parede mal caiada e salitrosa, ou cahida

pelo chão, o espelho pendente dos caixilhos da janella, velas de sebo

meio gastas mettidas em garrafas, cuja superficie era adornada de

gordurentas stalactites, e em palmatorias de metal pintado de lagrimas

verdes pela oxydação; a um canto o deposito da roupa suja, em outro o

arsenal, composto de espingardas, rewolvers, paus ferrados, chicotes e

cassetetes; além os arreios de cavalgadura; na mesa, ao pé da cama, os

restos das grosseiras iguarias da ceia da vespera, alguns usados

baralhos de cartas, de mistura com umas insignias pobres e desprezadas

da vestimenta do padre, tudo ennodoado de azeite e de vinho, e pontas de

cigarro por toda a parte.

Os dois achavam delicias n'este viver, que chamavam escolastico, e que

diziam avivar-lhes recordações dos seus tempos de estudante.

Bem poderia comtudo o aposento ter mais um grau de limpeza, sem que

n'isso tivesse de despir a feição de desordem, caracteristica a um

quarto de rapaz solteiro.

Quando Mauricio abriu para traz as portas das janellas, os dois primos

saudaram com uma jura a luz do dia, que foi incommodar-lhes com os seus

raios a retina preguiçosa. Depois de um ruidoso e prolongado bocejo, o

doutor sentou-se na cama com os olhos mal abertos e os cabellos

cahindo-lhe em desordem sobre a testa; e o padre, meio amuado, voltou-se

para a parede, no intento de encetar outro somno.

--Que vida de inuteis vadios esta!--exclamou Mauricio, puxando para o

meio da sala a mais desoccupada e limpa cadeira que encontrou, e

pondo-se ás cavalleiras n'ella.--Ao meio-dia!

--Isso! Vem para cá fallar da vida de vadios. Olha se me convences de

que te afadigas muito a trabalhar.

--Em todo o caso já vim de minha casa até aqui e tu, ao que parece, ias

no meio de um somno e lá o padre então... esse vae, pelo que estou

vendo, no principio d'outro.

--Mas como diabo te deu para vires por aqui tão cêdo?

--Cêdo? Olha que é meio-dia! Mas... vim encarregado de uma missão.

--De quem?

--De meu pae.

--De teu pae?! Para nós?!

--É verdade. Estou incumbido de vos convidar a todos tres para jantar

ámanhã.

O padre deu uma volta na cama, ao ouvir este convite e fitando Mauricio

com olhos espantados, ainda que mal abertos, exclamou com voz rouca de

somno:

--O tio Luiz dá ámanhã um jantar?!

--Sim, senhor. Em obsequio á Gabriella, a baronezinha de Souto-Real, que

lá está desde hontem de manhã.

--Ora essa!--acrescentou o padre, e tornou a voltar-se para a parede.

--Bravo!--applaudiu o doutor--isso já me cheira melhor do que a tal

historia do Jorge feito guarda-livros. Aquelle Jorge com'assim ha de ser

sempre d'essas ratices. E dize-me cá: que tal está agora a Gabriella?

--Não me pareceu mal; ainda que, para te fallar a verdade, não lhe dei

muita attenção.

--Sim, tu andas agora distrahido com a...

N'este ponto interrompeu-se subitamente, e dando uma palmada no

travesseiro, a qual lhe fez cahir na cama a cinza inflammada do cigarro

que principiou nos lençoes uma centesima combustão, exclamou:

--É verdade! que me ia esquecendo? fizemos uma grande descoberta esta

noite, homem!

--Qual foi?

O padre, ao ouvir as palavras do irmão, deu um salto para sentar-se na

cama, e preparando tambem um cigarro, disse, fitando Mauricio com um

sorriso alvar:

--Olha lá, ó Chico. Vê como contas a coisa, porque o Mauricio é nervoso;

não sei se sabes.

--Mas de que se tracta?

--De um caso muito engraçado. Rimos a perder. Mas ainda havemos de rir

mais, porque a historia promette dar de si.

O padre, meio estendido pela cama fóra para pedir lume ao irmão,

confirmou o dito d'este com um gesto e um grunhido.

--Mas digam lá o que foi--insistia Mauricio.

--Hontem á noite--principiou o doutor--fui eu aqui com o Lourenço á

espadelada do Martinho. Aquillo não esteve de todo mau. Bem boas

raparigas, e a luz conveniente. Mas, alli pelas onze horas, appareceram

uns apaixonados armados de varapaus, e com uns certos modos, que

principiaram a fazer ferver-me o sangue.

--Eram os mesmos da feira do mez passado--acudiu o padre--mal fiz eu em

não ter quebrado os ossos ao Gaudencio, quando o deixei atordoado na

estrada.

--O certo é--proseguiu o mano doutor--que os homens começaram a fazer-se

finos, e eu que vi o Lourenço já a fumegar, previ logo o caldo entornado

e fui procurar o marmeleiro que deixára atraz da porta, para o que desse

e viesse.

--Não era preciso. Para aquelles basto eu só--annotou o padre, sugando

com força o cigarro, que teimava em não arder.

--Meu dito, meu feito--continuou o outro--nós a sahirmos e elles

comnosco. O Lourenço pôz logo dois fóra do combate; eu arquei com o

terceiro, que me derreou o braço esquerdo, mas a quem escangalhei a

cabeça; o ultimo fugiu-nos. Era o João do Pinhão.

O padre interveio:

--Eu, que lhe ando com sêde, disse logo para o Chico: «Vamos d'aqui

cortar-lhe o caminho e dar-lhe uma lição.» E tomamos pela quelha do

regedor.

--E viemos sahir mesmo defronte da porta do Thomé! por traz da prêsa.

Sabes?

--Sei muito bem.

--Ora o homem não appareceu.

--Mas appareceu cousa melhor--acudiu o padre.

--Havia de andar peia meia noite e nós sem fazer bulha ainda escondidos

na sombra. Percebes?

--Mesmo defronte da casa do Thomé--insistiu o padre.

--E depois?--interrogou Mauricio impaciente.

--Depois...

A mulher é um catavento,

Que com os ventos varia;

Seu amor dura um momento,

Tolo é quem n'ellas se fia.

Cantarolou o doutor.

Mauricio olhou interrogadoramente para o padre.

--Meu caro priminho--disse-lhe este--põe as tuas crenças de môlho e

prepara-te para arrancares um punhado de cabellos; um ou dois.

--Mas que queres dizer com isso?

--Quero dizer que a porta do Thomé abriu-se sorrateiramente e sahiu de

lá um patusco... Trai la rai lai lai.

--É impossivel!--exclamou Mauricio com indignação, comprehendendo as

malignas allusões do primo.

--Qual impossivel?--confirmou o padre--Não ha impossiveis n'este mundo.

Desengana-te, menino.

--Mas teem a certeza de que se não illudiram?

--Ora se temos. Era um homem em corpo e alma.

--E viram quem era? Conheceram-n'o?

Os dois irmãos, a esta pergunta, trocaram entre si um olhar e um sorriso

de velhacaria.

--Com certeza, não; mas suspeitamos--respondeu o doutor.

--Quem é?

--Alto lá! Nada de ferver em pouca agua. Isso fica para segunda

observação. Por ora não possuimos ainda a certeza. Porém já mais de uma

noite temos encontrado o tal ratão, de quem suspeitamos, não muito longe

do sitio, e já andavamos com a pedra no sapato.

--Ó Chico, olha que o Mauricio não está bom. Estes golpes repentinos...

--Qual! Se eu não acredito uma unica palavra do que vocês estão para ahi

a dizer--tornou-lhe Mauricio, erguendo-se e passeiando na sala agitado.

--Não que a cousa é muito para se não crer--disse o doutor, principiando

a vestir-se--uma rapariga de dezoito annos, que vem do collegio, ter um

apaixonado?... Sim, o caso é tão raro!

--Vocês não conhecem Bertha.

--Tu, sim, que a conheces. Papalvo de olhinhos fechados que ainda anda a

sonhar por este mundo com princezas encantadas--observou o padre,

tirando de entre a roupa da cama um volume de Paulo de Koch, com que

adormecêra na vespera.

--Então lá por que um homem sahe de noite de casa do Thomé, já não póde

ser senão por amor de Bertha. É boa!--insistia Mauricio, contra a sua

propria convicção.

--Sim, meu menino, sim; isso tudo e o mais que tu

quizeres--respondeu-lhe o padre, apertando outro cigarro.

--Veremos o que tu pensas, assim que vires o tal homem--tornou o doutor.

--Ora mas digam-me: Pois não ha tanta gente em casa?

--Pois ha, ha.

--Então...

--Então tem vocemecê razão--concluiu impertinentemente o padre.

--Muito bem--propôz o doutor.--Para sahir de duvidas queres tu vir

comnosco bater a mata esta noite para conhecer o coelho?

--Quero, sim.

--Muito me hei de rir esta noite!--exultou o padre, saltando abaixo da

cama.

--Mas promettes não assassinares a pequena na furia do teu ciume?

--Não creio verdadeira a vossa supposição, mas se o fosse...

--Que farias? Ora dize lá--perguntou o padre, piscando um olho emquanto

esperava a resposta.

--Achava essa mulher tão desprezivel que...

--Pumba! Ora ahi temos outra. Na verdade ha nada tão desprezivel como

uma mulher que abre a porta a qualquer pessoa de preferencia ao menino

Mauricio, a joia dos namorados!--ponderou zombeteiramente o padre.

--Não quero dizer isso, mas...

--Pois, meu menino, prepara-te para o desengano, e volta ás priminhas

dos Barrocaes, que essas são fieis.

--Ora, mas digam-me vocês uma coisa--insistia Mauricio--quem querem que

seja o homem que possa estar já com Bertha n'esse tom de familiaridade?

--Não entremos n'essa questão. A seu tempo cahirão as cataratas.

--Já digo, eu não acredito.

--Pois nosso Senhor te dê sempre essa commoda incredulidade; antes de

casar e depois de casar.

E entre os tres ficou pactuada para aquella noite uma espionagem cerrada

á casa de Thomé, com o fim de reconhecerem a mysteriosa visita.

Mauricio passou o dia todo pensativo e preoccupado com a revelação que

os primos lhe fizeram.

Ainda quando Bertha não tivesse adquirido grande preponderancia sobre os

pensamentos de Mauricio, bastaria a ideia de que outro o preterira no

coração de uma mulher, a quem elle havia dedicado um olhar de galanteio,

para devéras o irritar.

Mas, de justiça é que se diga, o amor, a paixão, a inclinação, o

capricho, ou como mais rigoroso nome tenha, o sentimento de Mauricio

para Bertha attingira a maxima intensidade, a que podiam subir os

affectos d'aquelle caracter voluvel. Se não amava ainda devéras, é certo

tambem que nunca amára melhor. Bertha demais possuia sobre as outras

mulheres, que nas épocas successivas haviam reinado na imaginação d'este

rapaz, o prestigio das recordações de infancia, a distincção de tracto

adquirida na educação da cidade, e até a desaffectada reserva com que

lhe tinha acolhido o galanteio.

As reflexões de Jorge contra aquelles amores, a perspectiva das

repugnancias de familia, dos obstaculos a vencer, dos preconceitos e

paixões com que luctar, longe de extinguirem a chamma em que elle

procurava abrazar-se, antes mais a activavam.

A ideia de um amor entre dois corações jovens, amor constante em

despeito do antagonismo, das animadversões e dos odios das familias;

esse eterno e poetico thema de tantas obras de arte, era sympathico á

phantasia de Mauricio, que, seduzido por ella, chegou a convencer-se de

que estava destinado a ser mais um exemplo do caso; estimulo este

sufficiente para o apaixonar.

Jorge estranhou-lhe o ar pensativo, mas não o interrogou.

A baroneza, usando dos privilegios de mulher nova e elegante, costumada

a não refrear a sua curiosidade feminina, interpellou-o directamente:

--Não voltaste muito amavel do teu passeio matinal, Mauricio. Que foi

isso?

--Perdoe-me, prima. Isto é uma das muitas mudanças de colorido que, sem

que se saiba porque, se opéra no humor de uma pessoa.

--Hum! Não andará ahi influencia do coração?

Mauricio soltou um meio riso de descrente, respondendo:

--O coração! O meu coração é modesto. Não aspira a dominar. Nunca lhe

conheci essas tendencias.

--N'isso mesmo que dizes d'elle se está a perceber que ha espinho lá

dentro.

--A prima ha de perdoar-me a franqueza; mas já vejo que tem o defeito do

seu sexo, que é não poder imaginar que haja sobre o caracter e a boa ou

má disposição de um homem outra influencia que não seja a de uma mulher.

--E quando os homens se occupam tão pouco de coisas graves, como...

certos que nós conhecemos, a lei não deixa de ser verdadeira.

--Engana-se; vê? Os homens da minha indole são exactamente aquelles que

estão menos sujeitos á influencia que diz. Aceitamos a infidelidade e a

inconstancia feminina como um facto natural e com que já contavamos,

porque em nós nunca se desenvolvem aquellas illusões que levam muitos

espiritos a endeusar a mulher. Estamos prevenidos para todas as

occorrencias, porque nunca nos esquecemos da fragilidade d'esses

delicados objectos, que amamos só por que são frageis e delicados. As

grandes desillusões e os profundos desespêros são para os que fazem do

amor um culto e sonham a mulher de uma essencia superior. Persuadem-se

de que é de crystal a bola de sabão matizada que os seduz, e portanto

ficam muito desconsolados quando ella se lhes desfaz no ar.

--Cada vez confirmo mais a minha supposição. Eras bastante delicado para

me poupares a essa theoria de mau gosto sobre a mulher, se não estivesse

fallando em ti o despeito por uma causa recente.

A exactidão da observação da baroneza feriu Mauricio no riso e fêl-o

balbuciar, córando:

--Peço perdão se a minha franqueza a offendeu, porém...

--Não te canses a desculpar-te. Eu até achei graça a essa profissão de

scepticismo, já muito meu conhecido, mas que não sabia que tambem nascia

nos bosques, onde julguei que se haviam refugiado as boas crenças desde

que emigraram das cidades. Ámanhã espero que estarás mais senhor de ti.

--Estou a sangue frio, creia.

--Veremos com mais vagar esse coração. É-me isso preciso para os meus

planos.

--Os seus planos?!

--Então já te esqueceste de que eu estou aqui principalmente por tua

causa?

--Ah! sim, agradeço-lhe o cuidado; mas estou receiando ter de dar-lhe

muito que fazer.

--Veremos.

A noite chegou e bem vagarosa para a impaciencia de Mauricio.

Pouco mais seria de Ave-Marias, já elle instava com os primos do

Cruzeiro para que fossem pôr-se de vigia.

--Isso não vae assim!--diziam elles--Pois que cuidas tu? Não sabes que o

passaro é dos que só voam de noite? Falla-nos lá para as onze horas.

Mauricio illudiu em todo este tempo a sua impaciencia, tentando provar

aos primos com argumentos novos, que lhe tinham occorrido em casa, a

impossibilidade de ser para Bertha a visita nocturna da Herdade.

Os primos respondiam rindo só com phrases equivocas, que Mauricio não

comprehendia.

--Olha cá, ó Mauricio--perguntou o mano doutor--em tua casa sabe-se do

teu namoro com a filha do Thomé?

--Ahi vens tu com o namoro!...

--Pois seja o que quizeres; da tua affeição, se achas mais bonito; mas

sabem?

--Apenas o Jorge me fez a esse respeito algumas reflexões.

--Ah! o Jorge fallou-te n'isso?

--Ha dias. Pelos modos o Thomé queixou-se-lhe...

--Ai, o Thomé queixou-se ao Jorge? Sim senhor, tem graça. Que te parece,

ó Lourenço?

--É bem bom! e então o Jorge deu-te conselhos, hein?

--Sim, disse-me alguma coisa; que era preciso cautela, que não era

prudente o meu proceder...

--Ah!

--E quasi me fez prometter que desistiria.

--Ah! fez-te prometter isso?

--Quasi.

Os dois não podiam suster o riso.

--É impagavel aquelle Jorge!--repetia de quando em quando o padre.

--Vocês bem sabem o genio d'elle.

--Ai, sabemos. Pois nós bem sabemos... o genio d'elle. Ah! ah!...

E os risos redobravam.

Mas a noite chegára emfim e cerraram-se cada vez mais as sombras sobre

os caminhos do campo. Mauricio pôde finalmente acompanhar os primos ao

logar da espia.

Dirigiram-se alli por os sitios menos frequentados, e sem soltarem uma

palavra.

Mauricio, a seu pezar, sentia-se dominado por uma commoção profunda. Não

era só despeito, era já uma nascente repugnancia pelo acto que

praticava. Envergonhava-se d'aquelle furtivo mister de espião.

Chegados ao local, o padre escolheu a posição de maneira que podessem

vêr, sem serem vistos.

Por muito tempo nada descobriram; nem ouviram mais algum som além do

melancolico gemer dos sapos, a distancia.

Mauricio, entre impaciente e satisfeito por o resultado nullo da

espionagem, principiava a dirigir aos primos alguns ditos

epigrammaticos, quando a mão do doutor lhe tapou a bôca, ao mesmo tempo

que o padre se voltava para lhe recommendar silencio.

Effectivamente encostado ao muro da Herdade caminhava um homem, que a

sombra da noite não deixava conhecer.

Chegando á porta, que devia estar apenas cerrada, empurrou-a e entrou, e

fechou-a de novo sem fazer ruido.

Mauricio quiz correr atraz d'aquelle homem. Retiveram-n'o os primos.

--Espera, pateta! Deixa-o sahir, que eu te prometto que havemos de

conhecêl-o.

--Que diabo queres tu fazer, maluco? Não vês que espantas a caça?

--Hei de vêr quem elle é!

--Pois sim, mas para isso é preciso prudencia.

--A porta ficou aberta. Eu vou...

--Vaes aonde? Ora tem juizo. Á sahida pilhamol-o.

Mauricio porém insistiu e os primos condescenderam em passar um

cauteloso exame á entrada por onde o vulto desapparecêra.

Reprimindo a custo os impetos de Mauricio, o padre dirigiu a exploração,

e mui de mansinho entreabriu a porta e entraram no pateo da casa; perto

ficava a escada, por onde se subia para as salas.

Mauricio ia a transpôl-a, mas os primos impediram-n'o. D'aqui

originou-se uma pequena altercação que, ainda que em voz baixa, foi

percebida pelos cães que latiram furiosos.

De uma das janellas da casa partiu uma voz, perguntando:

--Quem está ahi?

Era a voz de Bertha.

Mauricio ia a responder-lhe, cheio de indignação, mas o padre tapou-lhe

a bôca e obrigou-o a retirar-se.

Esta retirada foi feita com tal pericia, que não excitou mais attenção

da gente da casa.

Tudo recahiu em socego.

A presença de Bertha foi para Mauricio a confirmação das suspeitas dos

primos.

Por isso mais excitado e impaciente do que até alli, aguardava a sahida

do mysterioso incognito.

O padre collocou-se em sitio apropriado para poder tolher a passagem ao

visitador nocturno.

Perto de hora e meia aguardaram os tres. A final ouviu-se ruido na

porta, e depois de algumas palavras ditas para dentro a meia voz, o

homem espiado sahiu.

Ouviu-se atraz d'elle correr a chave na fechadura cautelosamente.

A vinte passos, pouco mais ou menos, de distancia da casa de Thomé, o

personagem que tanta curiosidade excitava, viu o vulto de tres homens

immoveis, que lhe estorvavam a passagem.

Mais perto d'elles, parou a perguntar-lhes:

--Tenho o caminho livre?

--Apenas depois de satisfeita a simples formalidade de se dar a

conhecer--respondeu o padre.

--Á ordem de quem?

--De tres contra um.

--É direito que não reconheço.

E o individuo, desembaraçando um pouco os braços, que levava envolvidos

em uma manta, parecia disposto a fazer face a uma d'essas aggressões,

que não são raras em algumas das nossas freguezias ruraes.

N'este tempo porém Mauricio, a quem a voz d'este homem havia ferido

desde as primeiras palavras que lhe ouvira, adiantou-se para elle, e ao

vêl-o desembaraçado, exclamou:

--Mas... elle é Jorge!

Os primos soltaram uma risada.

Jorge, que o leitor já tinha reconhecido, vendo emfim quem eram os seus

suppostos aggressores, deixou outra vez cahir a manta sobre os hombros e

perguntou em tom de leve despeito:

--Então que brincadeira é esta?

--Não é nada, primo Jorge--respondeu o doutor--quizemos apenas verificar

uma suspeita.

--Uma suspeita?!

--Vamos, perdoa-nos a indiscrição, mas bem vês que ha poucos prazeres

para uns peccadoraços como nós, iguaes ao que nos causa o vêr cahir um

sancto nas mesmas fraquezas de que nos accusam.

Isto disse o padre, o doutor acrescentou:

--O que te pedimos de hoje em diante é menos severidade nos teus juizos

e mais indulgencia para as miserias dos humanos.

Jorge principiou a irritar-se com as palavras dos primos; voltando-se

para Mauricio disse-lhe com certa rispidez e quasi tremendo de

indignação:

--Tu, que estás mais habituado do que eu a lidar com estes senhores, não

me saberás explicar estes ditos, que não percebo, e ao mesmo tempo a

significação da tua presença aqui, a tolher-me os passos, como um ladrão

nocturno?

O silencio de Mauricio significava tambem muita indignação e cólera

concentrada.

A presença de Jorge n'aquelle legar sómente a podia explicar aceitando a

hypothese maligna dos do Cruzeiro; e na recordação da conversa que

tivera com o irmão, a respeito da filha de Thomé, via agora um excesso

de dissimulação e hypocrisia, que o revoltavam tanto mais

vehementemente, quanto maior era o respeito que até alli lhe mereceu o

caracter de Jorge.

Por isso a sevéra interpellação d'este fez rebentar em explosão aquella

cólera mal reprimida.

--Escusas de te armares com os teus costumados ares de juiz e de censor,

Jorge--exclamou Mauricio indignado--bem vês que, desde este momento,

perdeste para mim todo o prestigio e toda a authoridade moral. Tive até

hoje candura bastante para tomar a serio o teu caracter de prudencia e a

tua lealdade, mas desde que vejo a hypocrisia, que havia em tudo isso,

sou eu que domino e que tenho o direito de interrogar e de censurar.

--Enlouqueceste, Mauricio?--perguntou Jorge em tom quasi de piedade, que

mais irritou o irmão.

--Que indigna e ridicula comedia andas tu a representar n'este

mundo?--tornou este quasi allucinado--Na tua idade tens já coragem para

tanto! Armares-te de severidades pedantes contra as minhas loucuras de

rapaz, loucuras leaes a final de contas e a descoberto, loucuras, mas

não vilezas, e occultares na sombra actos, que a mim, ao estouvado e

perdido, fariam córar de vergonha. Oh! não te invejo o talento de

comediante, Jorge.

--Mauricio, repara que não estás em ti.

--Sim, eu tenho esse defeito. Não sei medir as minhas palavras, não sei

encobrir, nem disfarçar; tudo o que penso me vem aos labios. Hontem

dizia que te estimava e respeitava, e era verdade; hoje digo-te que te

desprézo e te lastimo, e é verdade tambem. Cuidas que não me recordo das

tuas palavras e dos teus conselhos ha poucos dias? Invocaste o nome

sagrado de nossa mãe, a memoria venerada de Beatriz, para quê? para

exigires de mim uma promessa; dizias tu, que era a de respeitar a paz de

coração de uma rapariga, que uma abençoára e a quem a outra quizera como

a irmã; mas sob a capa d'essa promessa ia a de te deixar em paz no gozo

das tuas aventuras nocturnas e dos teus amores traiçoeiros e

escandalosos.

--Silencio!--exclamou Jorge, com um tom intimativo que cortou em meio as

palavras do irmão.

--Podia perdoar-te todos os insultos feitos ao meu caracter; não posso

consentir que calumnies quem não está aqui para se defender, e quem

tinha direito a esperar encontrar em ti um defensor e não um

calumniador. Ordeno-te silencio em nome de alguns restos de honra, que

ainda te deixassem intacta as companhias devassas que frequentas.

--Que é lá isso, priminho, que é lá isso?--acudiram immediatamente os

dois manos.

Jorge não se intimidou.

--Não me assustam as suas ameaças. Sei agora o que significa esta

espionagem e aquellas gargalhadas cynicas e alvares de ha pouco.

Cabe-lhes bem o papel degradante que desempenham aqui, e nem é de

estranhar o conceito que formam das intenções dos outros de que julgam

pelas suas. O que lamento é vêr-te associado a esta empreza, Mauricio,

porque, faço justiça ao teu caracter, deve repugnar-te intimamente o

passo que déste.

--Em vez de sermões, priminho, não acha que seria melhor explicar-nos o

que veio fazer a horas mortas a esta casa?

--Não sinto a necessidade de explicar as minhas acções diante de taes

juizes. Pouco me importa a estima em que teem a minha reputação os

senhores do Cruzeiro. Resignar-se-hão portanto a prescindirem das

explicações que pedem.

Os dois riram-se maliciosamente. Jorge proseguiu:

--Entendo esse riso. Conheço-os. Sei que depois da espionagem se segue a

calumnia; mas o meu desprezo é muito grande para transigir. Calumniem.

--Ora essa! Nós sabemos guardar um segredo. Socega.

--Sei qual é o alimento com que se nutre a sua ociosidade. Não importa.

Á vontade, meus senhores, teem a estrada livre e contem que não serei eu

que os estorvo n'aquella que costumam seguir, porque não a frequento.

Dizendo isto, deu alguns passos para se afastar; depois, voltando-se

para Mauricio:

--Repara que já desceste o primeiro degrau da infamia; espiaste; agora

vê se desces o segundo, calumniando. Ha n'aquella casa uma familia

tranquilla e respeitada, ajuda agora esta gente a manchal-a de lama,

ajuda; o insulto é facil para quem não precisa de se abaixar muito para

a apanhar.

Os primos, ainda que valentes e atrevidos, ouviram com excepcional

prudencia a correcção que lhes infligira as palavras de Jorge e

limitaram-se a acompanhal-o de risadas quando elle se retirou.

Mauricio estava já sentindo remorsos do que dissera ao irmão. Este

adquirira sobre elle o seu antigo ascendente.

--Parece-me que foi bem infame o que fizemos aqui--disse Mauricio,

arrependido.

--Sim? Parece-te isso? Pois vae pedir perdão ao mano--tornou-lhe o

padre, rindo com desdem.

--Parvo!--exclamou o doutor--Querem vêr que engoliu a arara?!

--Deixa lá, então que queres? a innocencia tem d'estas canduras.

--Mas vocês ainda acreditam?...

--Ora adeus, adeus! Vae-te deitar e vê se nos arranjas umas indulgencias

do mano Jorge.

E os primos deixaram Mauricio, e partiram zombando da candura d'elle.

Mauricio voltou a casa desgostoso de si e com o espirito fluctuando

entre o remorso e a suspeita.

Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia · 第 27 / 93 题