Que graçolas são essas, senhor Palha?

Que estulto riso sobre tudo espalha?

Costuma attribuir-se a pouco siso

O séstro folião do eterno riso.

E cuidou tirar joias d'um thesouro?

Cuidou ter dito bocadinhos d'ouro?

Pilherias de matar, chistes d'arromba?

Pois nunca embalde co'a razão se zomba,

E com ella zombou no seu escripto.

Uma coisa é _espirito_, outra _esprito_.

Já vê que me refiro á carta-asneira

Abrindo aos disparates a torneira

Nas illustres columnas do _Illustrado_.

Quanto fôra melhor estar calado!

A defeza enterrou-lhe a protegida,

Ha patronos assim; hoje é perdida

A causa da Madama. Andou de leve

Em tudo quanto disse, e nunca teve

Hora mais infeliz. Veja: primeiro

O seu grande argumento é--_dá dinheiro!_

Que miseria inaudita! D'esse modo

Bota abaixo a moral do mundo todo.

Ó venenos subtis, ó ferros finos.

Quem maldirá a mão dos assassinos

Se vós rendeis milhões? Ó lupanares

Da vil prostituição, nos seus cantares

Passou-vos Palha carta de limpeza.

Lucraes muito por dia? Santa empreza.

Não quer saber de mais; o merecimento

Afére-o pelo ganho; isto é nojento.

A moral, a virtude, que lhe importa?

O caso está em quanto rende a porta,

A corrupção geral é que o deleita

Dês que possa ser fonte de receita.

A arte mascarou-se em traficante,

A arte é _chilrear_ e vêr sonante.

E houve quem berrasse, e inda hoje berra,

Contra o barbaro interesse da Inglaterra

Envenenando a China? Que patetas!

Não haviam mugir á vacca as tetas?

Se vem sangue no tarro que tem isso?

O sangue tambem faz bello chouriço.

E fresquinha a _Madama_, e curto o fato?

Diz elle que o reparo é caricato.

Pois quanto mais a filha mostra a perna

E a linguagem mais cheira a taberna

Mais acode o concurso hoje em Lisboa

Que até na _côrte_, em gripho, inda resôa

A fama de Cascaes e os lindos _fados_

Que por lá se dançaram, e os trinados

Da banza afidalgada; haja folgança

Que n'este mundo ha só prazer e pança.

Na insulsa peça o Palha chocarreiro

Só dá voto de peso ao bilheteiro;

Com este é tudo bom. Frivolidades.

Phrases regateiraes, e necedades;

A praça da Figueira, emfim, na scena.

Sem um dito sequer que faça pena

De não lembrar depois; eis o encanto

Do Palha da Trindade; e faz-lhe espanto

Que os da _Nação_ não saltem d'alegria,

E ratos diz que são de _Sacristia_...

Alto lá, senhor Palha, mais decencia.

Não se emporcalhe assim _Vossa Excellencia_.

Não bula na _Nação_, que o trouxe ao collo,

Que passa por ingrato, além de tolo.

Pois não andou por lá de noite e dia?

Não foi rato tambem na sacristia?

Então o dizer mal mui mal lhe fica;

Embora n'outra parte arme a futrica.

O bonito é caluda. Se hoje adora

O que d'antes queimára, rôa agora

Nas lonas do theatro, chupe azeite

Dos candieiros da rampa, mas não deite

Só por na corrupção viver contente

Má fama da que fôra sua gente.

Que mal lhe fez á bolsa, em que só pensa,

A antiga tradição, a antiga crença?

Desertou; e bem viu que foi tranquillo.

Nenhum tiro se deu a perseguil-o.

Nenhuma voz se ergueu bradando--raca--,

Nem ninguem lhe puxou pela casaca.

Virou-a como quiz; e nem as trovas

D'aquelle _José Paes de Torres Novas_

Ninguem lhe recordou: assim, nem pio,

Que mais calvo o farão, e inda faz frio.

Se seu honrado pae resuscitasse

Como o rubor lhe subiria á face

Vendo o filho truão na patria cara

Cuspir injurias, com facecia ignara;

Vendo o filho nos tempos em que vamos

Morder insano a procissão de Ramos!

Que tem, que póde ter gambia obscena,

Em anzol de patacos sobre a scena,

Com pia procissão, qualquer que seja,

Dês que tem por escudo a Santa Egreja?

Como o tal velho Palha encresparia

O sobr'olho a toda esta porcaria?

Vêr seu filho gabando os assobios

D'amoladinhos vãos e de vadios;

Censurar a gravata séria e lisa;

O _pé fresco_ exaltar; gente em camisa;

Ser-lhe, emfim, tudo antigo de quizilia

E comicos só ter como familia!...

Ó manes venerandos e _embécados_

Dos Desembargadores, sois trocados

Na voz do filho e neto, em sêde d'ouro.

Por titeres do palco! Forte estouro

Levava o tal amigo se surgia

Toda a Palha anciã, se não morria

De vergonha outra vez, que é coisa dura

Ver por nossos mordida a sepultura!

Mas basta, senhor Palha, e se inda a fome

Lhe exige mais roer, roa em seu nome.

(_A Nação_).

_CONTRARIEDADE_

_.......... e nunca teve

Hora mais infeliz....._

(V. Exc.ª mesmo).

Cantor das duzias, teu rosto

porque é que encobres assim?

Quem és tu? Es Arlequim?

Es o Furioso de Ariosto?

Es o Roberto Pimpim?

És um anão Torquemada

com pretensões a Vestal,

fructo da copla carnal

do author da _Besta esfolada_

e do esfolado animal?...

Não és coisa alguma d'estas?

Então, ó santinho, o que és?

Pedes p'r'a missa das dez,

ou tocas órgão nas festas

e dás aos folles co'os pés?

Pela linguagem rasteira

comtigo decerto dou.

Se pae não és, és avô

da que chamas regateira,

da propria filha da Angot.

E a neta engeitas?... e á neta

condemnas a phrase chã?

Que cheira mal a hortelã

dizêl-o póde, pateta,

a vil cebola albarrã?

É franca? P'ra sempre o seja.

Vale mais ter esse dom

que ser beato e maçon

e berrar que é contra a Egreja

_colhér e trolha!..._ Chiton!

Mostra uma perna? Essa é boa!

Olhem lá co'o que elle vem!

Mostrou uma? Pois tambem

você percorre Lisboa

mostrando as quatro que tem.

Ó sociedade corrupta!...

Ó moralista infeliz!...

que viste a perna da actriz

e em vez de beber cicuta

vaes beber... ao chafariz!

Eu sei que o mundo é doente.

Tem um scirro que o corroe.

Além d'isso ao fraco heroe

doe-lhe inda a raiz do dente

que foi arrancar a Alcoy.

Ao mais pequeno symptoma

que indique augmento do mal

recresce a faina geral.

Com papas lhe acode Roma

na região temporal;

Dá-lhe sangrias Castella;

põe-lhe um cauterio o allemão,

emquanto mata o capão

e ferve á pressa a panella

a Italia no seu vulcão.

Em França a magna assemblea

revôlta, ignara, loquaz,

discute se é agua raz

ou se é forca a panacea

n'este momento efficaz.

Seguindo o fraterno impulso,

o frio, sizudo inglez

chega-se ao leito do endez

e diz, tomando-lhe o pulso:

_Inda não vae d'esta vez._

E o pai da magra Siberia,

o grande doutor Moscow,

da casa de Deus avô

brama:--_Pois se a coisa é séria,

ó rapazinhos, lá vou._

Mas tu co'os teus alfarrabios

e com teu surriso alvar

é vêr, apalpar, e... obrar.

Podera! Que valem sabios

onde apparece o alveitar?...

Assim, receitas á antiga:

«Dois grãos de moral... de Adão,

que andou nú e foi burlão.

Com elles faça uma figa,

raspe, e metta de infusão.

«Deite depois disciplinas

com ponta de pita e nó.

Misture São Pedro em pó,

e co'as minhas proprias clinas

fomente o enfermo sem dó.

«Note bem. Rigor na dieta

de acepipes liberaes.

Não cheirar sequer jornaes.

Se a cura for incompleta

dê-lhe mais... e mais... e mais!»

O mau, o peior, o diabo,

ó cego Miramolim,

é que essa droga ruim

por um triz que já deu cabo

do mundo vezes sem fim.

Não faças mais medicina

que o tempo gastas em vão;

e, se és tolo ou charlatão,

grunhe contra a tua sina,

mas contra mim, isso não.

Porque andei lá na botica

de _avantal_ e braços nús,

porque os xaropes compuz,

mais e mais se justifica

meu tédio pelo alcaçuz.

E se a _Nação_ me deu mama,

se ao collo trazer-me quiz,

porque estranhas se lhe eu fiz

no regaço e p'ra tal ama

o que faz todo o petiz?!

Sob a campa que os encerra

deixa tranquillos os meus.

Não chames, rei dos pygmeus,

para as contendas da terra

aquelles que estão com Deus.

Do seu tempo honradamente

seguiram costume e lei.

Com ser do meu provarei

que amo a patria, a minha gente,

e o seu exemplo imitei.

E se algum, velha maluca,

surgisse da eterna paz,

de provar-me era incapaz,

que os olhos estão na nuca;

que o _direito_ é andar p'ra traz.

_SENTENÇA_

Estes autos correndo folha a folha,

d'elles fica provado á saciedade

que tem bolha a _Nação_, e que tem bolha

o Palha da Trindade.

Marfára-se o jornal só porque em scena

mostrára certa artista

uma das pernas gordas, e essa--obscena.

O Palha redarguiu: que era uma pena

e, mais, uma injustiça

tratar como se fôra de corista

a perna d'uma actriz--das de mão cheia;

--que a perna era a cubiça

do velho jornalista;

--que o ferro d'elle, o ferro... era que a meia

cobrisse aquella gambia tão roliça;

por fim--que era um sacrista...

insulto enorme a quem ajuda á missa!

Ás partes deu-se vista

da perna questionada. Era postiça.

Recalcitra a _Nação_, accesa em febre:

--que fôra burla torpe, e facto novo

em terra portugueza, dar-se ao povo

um gato em vez de lebre.

--Que falsa ou verdadeira a perna fosse,

de rama d'algodão, ou simples cana,

sempre era perna, e _gratis_ dava um dôce

a quem de lhe morder não désse a gana.

D'ahi a grave offensa

á pureza moral da raça humana;

a indignação immensa

d'uma sã consciencia ultramontana!

--Que o Palha tambem fôra antigamente

irmão na sacristia

levantando a ração, conforme a havia,

e sempre com bom dente.

--Que lá n'um bello dia

fugira como um burro cacilheiro

sem lhe gritarem: _Chó!..._ Que santa gente!

Que o réles emprezario, tendo o fito

nas cruzes do dinheiro,

trazia todo inteiro,

aos pinchos, dentro em si, um vil cabrito:

a fórma d'animal mais predilecta

do Belzebuth maldito

quando a noss'alma empanzinar projecta.

--Que os paes, avós, emfim toda a Palhada

que jaz na cova, qual vivera, honrada,

por causa da tal perna

ficára condemnada

d'uma eterna vergonha á dôr eterna.

O réo contesta, e diz:

--Que era verdade

haver por lá andado;

mas n'uma tal edade

que não chegára nunca a ser ferrado.

--Que o tinham n'um cerrado

onde brotava apenas a Saudade;

constante era a estiagem;

o ceu caliginoso;

de lagrimas sómente a beberagem;

por festa o cardo; espinhos só por goso.

--Que tiritando ali, aguado o pêllo,

extincto o movimento,

transportado se vira n'um momento

ás pávidas mansões do eterno gêlo.

--Que, lá muito de longe, a Liberdade

lhe fez então negaças.

«Tens frio?... Vem. Aqueço. A escuridade

é de razão deixal-a á sepultura,

veu das caveiras, manto das carcassas!

Chama-te a luz! a luz que vem da altura

dos iriados ceus!... Surge!... Caminha!...

Quanto mais caminhar a humanidade

do espirito de Deus mais se avisinha.»

Apoz da seducçáo d'aquelle canto,

ouvindo aquelles hymnos,

homem por elles feito, erguida a fronte,

partira ancioso em busca do horisonte

onde, envolvida em nimbos purpurinos,

c'roada d'amaranto,

a deusa refulgia.

Partira. Fôra. E não se arrependia.

Conspurcal-a pretendem? Na passagem

cospem-lhe insultos? Baixam-lhe a pagode

o templo augusto? Arrastam-na á voragem?

Ella é pura sempre; é sempre forte!

Póde velar seu rosto; só não póde,

sem que renasça, captival-a a morte!

E disse mais. E disse d'esta sorte:

--Que mesmo ao Santo Padre, e mais é santo,

não faz o dinheirinho um mau cabello...

nem, em nome de Pedro, recebêl-o.

Para engeital-o, em menospreço tel-o,

nas mãos como José largar-lhe o manto,

um pobre peccador e Belisario,

seria necessario

que fosse um dromedario;

que fosse um gran camêlo!

--Que exhibir uma perna no theatro

não era nada comparado ás quatro

sobre as quaes a _Nação_ a qualquer hora

vae, cabisbaixa, manquejando legoas

por esse paiz fóra.

--Que em seu rancor profundo,

sendo christã, não dera ao menos tregoas

áquelles que dormiam descançados

nas sombras do outro mundo!...

Coitados!...

Sim; coitados!

Empenharam-se juntos na batalha

em pró do mesmo rei. Nos mesmos fossos

o mesmo pó morderam. Na mortalha

nem isso lhes valeu!

Ai! pobres ossos!

Ouvidos por tal fórma ambos os lados;

e

--Sendo mais que certo

que a folha authora, os olhos pondo em Christo,

por um cantinho d'elles já tem visto

pernas no palco, e pernas mais ao perto,

sem que torça o nariz ou mostre nojo;

--Não podendo a Moral chegar tão longe

que exija a cada canto um Varatojo,

nem de cada mortal engendre um monge

dormindo sobre o tojo;

e

Visto que a _Nação_ no seu ataque

foi rude, e foi cruel, e deu motivo

do Palha ao fogo vivo

que a poz, no ardor do saque,

pouco mais, pouco menos, como um crivo;

--Sendo que o Palha, embora na defeza,

faltou ás leis da guerra

contundindo a _Nação_ prostrada em terra;

inutil, bestial, impia fereza,

inda em cima aggravada na certeza

de estar sovando um martyr;

Attendendo

a ter o mesmo reu a consciencia

do mal que procedia

quando, esquecendo a antiga convivencia

por futil ninharia,

em vez de lhe deitar logo um remendo

se poz a esg'ravatar na porcaria;

Manda a Justiça, a cega, a que é machucha,

a pomba immaculada,

a fossil que nem chucha

nem consente sequer em ser chuchada;

ordena a incorruptivel,--Deus lhes valha!...

que vejam bruxa os dois! Veja uma bruxa

a bruxa da _Nação_! Veja outra o Palha.

Assim, condemno os dois da vida airada.

Em castigo ao jornal seja o Libello,

n'um livro, publicado. E que o releia,

(pequena penitencia ao grande excesso!)

quem á bilis soez abriu a veia.

Saibam-lhe a fel, e trinque-os sempre á ceia,

os fructos do seu odio!

Dal-o ao prelo,

dar-se a si mesmo em elzevir impresso,

jungidos ambos, presos n'um só elo,

do Palha a pena seja, e o seu flagello!

Na mesma falta incursos,

e n'outra falta ainda, a de recursos,

paguem os dois as custas do processo.

_INDICE_

Dona Morte

Por fim

Carta ao Conde d'Almedina, Inspector da Academia Real de Bellas-Artes,

que no estrangeiro sollicitou uma commenda para o author

Requerimento

Prefacio d'um livro inedito

Mal por mal

A uma creatura

Além da campa

A Julio Cesar Machado, que em folhetim do _Diario de Noticias_ dirigira

ao author phrases benevolas

Dies iræ

O meu tinteiro

A Venus nova

O lobo e o cão

Deus e o Amor

Enteada

N'um album

Raphaela

As minhas memorias

Estrella cadente

Ao actor João Anastacio Rosa que, na sua officina de sapateiro, mandára

fazer para uso do author umas botas impermeaveis

Ás rãs pedindo rei

Onze de Novembro

Assim é que eu gósto d'ella!

Em Cintra

Pedindo o indulto d'um alumno militar que em 1872 foi expulso do Lyceu

de Lisboa por não haver restituido a outro alumno um livro que lhe

pedira emprestado

Processo (1875)

Libello

Contrariedade

Sentença

Musa Velha · 第 3 / 3 段