Ouvir-lhes a dôce voz...

interromper essa ausencia

eterna, a eterna saudade

que nos deixára o perdêl-os!

Sonhar é esta piedade

do ceu pelas nossas dôres;

esta mão cheia de flôres

que Deus esparge nos gelos!--

Tudo mais são pesadelos.

Pois eu sonhei, e não digo

o sonho que tive então.

Não por ser segredo, não,

que á terra desça commigo;

mas quem tem, como eu, vergonha,

mesmo ao leitor seu amigo

nem sempre diz o que sonha.

X

No outro dia ao almoço,

frugal almoço invejado

ao pobre e triste empregado

a quem aos mezes o Estado

permitte rilhar um osso,

muitas vezes esbrugado;

no outro dia a Gertrudes,

velha magra, feia, teza,

inda cheia, á portugueza,

de calvas e de virtudes,

as quentes papas de milho

veio pôr-me sobre a meza.

A mim a quem nada escapa

logo ali me deu no gôto

O vêl-a andar n'um sarilho

a peneirar-se, e á socapa

sorrindo com ar garôto.

--Gertrudes, que historia é esta?--

E ella a rir.

--De que ri?!...--

A rir-se mais.

--Temos festa!

Vae grande baralha aqui

se me não diz, como quero,

porque essa bocca escancára,

e se desengonça, e rebola...

Ella, atalhando:

«Salero!

Soy, señorito, española!»

Figurem-se a minha cara!!

A visão, a Raphaela

com quem ha pouco sonhára,

o bello typo andaluz,

a flôr de um dia... era ella

saída das mãos do Cruz![2]

XI

A moral d'este meu conto

implica artigos de fé:

1.º

Quem vê masc'ra não vê rosto.

2.º

Belleza vista de dia

dê-se-lhe sempre o desconto

de trinta por cento em cré.

3.º

Depois do sol se haver posto

até a Virgem Maria

precisa ser vista ao pé.

4.º

Mesmo assim, inda que perto,

não se diga nunca ao certo

que se está longe da Sé.

[2] Guarda-roupa.

_AS MINHAS MEMORIAS_

Á Exc.ma Snr.ª D. A. F. Pinto

Nasci. Vivi. Foi meu cruel destino

ser inutil, vulgar, emquanto moço.

De dôr em dôr, cançado peregrino,

chego á triste velhice sem conforto.

Nunca pude saber o que era tino,

como a bolsa não soube o que é _caroço_.

Quando voltares hei de ser um morto.

_ESTRELLA CADENTE_

Ella não tinha ainda os seus vinte annos.

Eu já cincoenta, ou mais. Poucos enganos

podia haver na conta. Trouxe-a ao cóllo!

Não fôra um pólo em frente do outro pólo;

mas, inda assim, contando-se este caso,

dir-se-ia ao certo: Era uma vez o Occaso,

e era uma vez a Aurora...

Não sei como

n'um bello dia, por ser vedado o pomo,

por ser appetitoso, finalmente

não sei porquê!... por eu ser um demente...

por ser ella o retrato da que é morta...

fosse lá porque fosse!--Isso o que importa

n'um bello dia--amei-a!... Uma doença

que a gente apanha quando menos pensa.

*

Sorriam de piedade os meus amigos

todos á uma, e os novos e os antigos.

Nas salas bichanava-se em cochichos:

«Ora, o ginja! aparando inda os esguichos

com que o _bisnaga_ amor! Atraz da pomba,

o perfido lacrau!»

Deitavam tromba

os outros pretendentes. Um barulho

por nada. Então porquê?! Por um arrulho?...

Um simples suspirar?... Pois que mau era

brotar-me em pleno inverno a primavera?...

Durava pouco?... Tanto quanto dura

em toda a terra tudo o que é ventura.

Engeita-se por isso?...

A minha idade?!

Fui de Mathusalem socio e confrade.

Adão dizia ao vêr-me: _Olá, compadre!_

Contemporaneo eu sou do eterno Padre.

Não ha mais nada acima. Querem isto?...

O Padre, o velho, foi mais tarde o Christo.

Ondas d'amor jorrou d'aquelle peito.

Remiu. Salvou. Pôz termo ao longo pleito

entre as trevas e a luz, e, porque vinha

em nome só do amor, annos que tinha

ninguem lh'o perguntou.

Sinceramente:

ha rugas dentro d'alma?!...

*

Impenitente

morrera n'esta fé; sobre o Evangelho

jurára que mais ama o que é mais velho;

se o ponto da questão, o delicado,

outro não fôra; um velho ser amado!

Aqui é que me dóe!

É necessario

primeiro formular um questionario.

Menos se quer á flôr, menos se trata,

por ser de argilla o vaso e não de prata?

Aqui... além... embora onde estiveres...

não és, ó flôr, a mesma?... e das mulheres,

--não digo já de todas; mas d'algumas--

igualmente o _boudoir_ tu não perfumas?...

Não busca asylo a crença, a christandade

não presta o culto seu á Divindade

no templo secular, de negro aspecto,

humida arcada, abobadas por tecto,

como na alegre ermida redourada,

quente aos raios do sol, sempre inundada

de jubilos e festa?!... Amor travêsso,

só por vêr para dentro, vê do avêsso?

*

Não te illudas, ó louco! A Providencia

dependente do amor fez a existencia.

Para estimulo a amor fez a belleza,

o viço, a força, quanto com certeza

tu já não tens. Por isso no concurso

aos vagos corações a pelle do urso,

a penna luzidia do bom pato,

dão por si preferencia ao candidato.

Esta a verdade crua. O sentimento

depois é que se faz. É-lhe fermento,

é mister que primeiro insuffle a arteria,

e n'ella o sangue injecte, a vil materia.

A bocca, um pé, a guia d'um bigode

mais que as almas em fogo sempre póde.

E tu não valsas!... tu não tens bocca

o _argot_ da moda, a phrase insossa e ôca!

Por mais _ciré_, torcido, repintado,

que o teu bigode vá... bigodeado

és tu que ficas, velho! a torto e a esmo!

Justo e fatal!... Fatal e justo é o mesmo.

No chão não rojes teus cabellos brancos

n'um desespero ignobil! Para arrancos,

para entrares no inferno como o Dante,

a dôr da tua cólica é bastante.

Outras não queiras, outras não procures

improprias já de ti. Não; em nenhures

rejuvenesce o Fausto; e, dês que ha mundo,

quem disse um velho--disse um moribundo.

*

Ella não tinha ainda os seus vinte annos.

Por não tel-os vivia n'uns enganos

que eu não devia ter nos meus cincoenta.

Distraída commigo olhou attenta

para um moço qualquer. Nem eu me lembro

do nome d'elle já! Era em setembro.

Isso sei eu. Que noite!... Estou a vêl-a!

Ultima noite azul!... Rasto d'estrella,

curva de luz nos amplos ceus cadente,

illuminar-nos veio de repente.

Ella assustou-se, e disse: _Dieu te garde!_

Pouco tempo depois, horas mais tarde,

tal qual a estrella, em rapido trajecto,

no mundo novo entrou d'um novo affecto.

_AO ACTOR JOÃO ANASTACIO ROSA_

que, na sua officina de sapateiro, mandára fazer para uso do author

umas botas impermeaveis

Boas botas com effeito!

Ha que tempos que te eu digo

que, de pequeno, o teu geito

é ser sapateiro, amigo!

Afóra o bico da moda,

que é moda o _bico_ hoje em dia,

quem da terra andasse á roda

_mestre_ assim não toparia.

E lá no mar,--tens ratices!--

com ellas por sobre as ondas

anda a gente como Ulysses

nas aguas das Trabisondas.

O povo grita: Milagre!--;

teus filhos:--Estamos salvos!--;

e tu com graxa e vinagre

vaes enganando os papalvos.

Queima a Sciencia as pestanas

buscando o que seja aquillo;

e nem passadas semanas

conclue que é sebo de grillo!

Tu proprio chuchas no dedo,

_avis rara_, ó _raio_ d'ave;

pois ao fechar teu segredo

perdeste-lhe o tino e a chave.

Seja qual fôr teu systema,

graxa só ou graxa e sebo,

eu, indigena na gemma,

applaudo o que não percebo.

De tão prodigioso invento

só entendo, e não é pouco,

que ou me saíste um portento

ou és rematado louco!

Mas que importa qual diploma

um logar nos dá na Historia?

Toda a estrada leva a Roma.

Por atalhos vae-se á gloria.

É certo que ao fim da vida

a luz do provir é tua:

luz accêsa sem torcida!...

porta aberta com gazua!--

Vê quanto o sec'lo é fecundo!

Vê; regista em tuas notas.

Em poucos annos ao mundo

botou dois homens das botas!

_ÁS RÃS PEDINDO REI_

Traducção da fabula de Lafontaine--Les Grenouilles

Viviam certas rãs n'um charco immundo

em republica plena. Era um pagode!

Tal qual uns democratas que ha no mundo

julgando que a republica, no fundo,

outra coisa não é senão a gente

fazer o que bem quer e quanto póde,

a rã tripudiava impunemente.

Todos os dias era certo o choque

entre o batrachio forte, intransigente,

e parte da nação já descontente

que a Jupiter pedia ou rei ou roque.

O deus fez-lhe a vontade.

Largou-lhe lá do ceu um rei pacato,

de summa gravidade.

Das alturas tombando, o rei na quéda

fez tal espalhafato,

que as fêmeas em pavor, os machos fulos,

aquellas saltitando, estes aos pulos,

como é uso das rãs nas grandes crises,

cada qual a gritar:--arreda! arreda!--

entre os juncaes, no lôdo, nas raizes

dos salgueiraes se enreda.

*

Por longo tempo em seus esconderijos

das rãs esteve homiziado o povo.

Transformaram-se em medo os regosijos

da antiga bacchanal. Gigante novo

cuidavam ser o rei que o ceu lhes déra.

Não ousavam sequer saír da tóca;

pois, não raro, os instinctos maus da fera

por imprudente a presa é que os provoca.

Já n'essas eras muito a pêllo vinha

dizer: _Cautela e caldos de gallinha..._

O rei era um pedaço de madeira.

Nem mais, nem menos.

N'uma bella tarde

uma das rãs, por ser menos covarde

ou mais bisbilhoteira,

tirou-se de cuidados, manso e manso

na flôr das aguas surge, e ás guinadinhas

com muito tento e geito

do cêpo se aproxima.

Após ella vem outra... e outra... aos centos.

Vendo que o rei não sae do seu ripanso,

rodeiam-no; coaxam: _Salta acima!..._

e coaxado e feito!...

O rei, temido outr'ora, ás pecuinhas

d'essa chusma villã se vê sujeito.

Em rapido momento

sobre elle a malta audaz se encarapita,

e faz do bom monarcha um bom assento.

Nem chus nem bus! Calado que nem porta,

qual fôra n'outros tempos!...

Isto irrita.

Rompem as rãs então n'uma algazarra

que o pantano atordôa,

os fios d'alma a quem as ouve corta.

«Leva d'aqui, ó Jove, esta almanjarra

que nem mexe, nem pune, nem perdôa,

e mais parece uma alimaria morta,

cabide d'uma c'rôa,

em vez de nosso rei--nossa vergonha!»

Vae Jupiter que faz? Uma cegonha,

das muitas que possue, logo destaca,

e manda que das rãs ponha e disponha,

n'uma das mãos o queijo e n'outra a faca.

Ora a cegonha, apenas em seu throno

dona das rãs se vê e sem ter dono,

diz comsigo:

--Nasci dentro d'um folle!

Quem tira agora o papo da miseria

sempre sou eu!...--

Passeia toda séria,

perna aqui... perna além, n'um andar molle,

e quanta rã apanha quanta engole.

*

Geral consternação o charco enluta.

Renovam-se as lamurias:

que o rei é doido e tem ás vezes furias;

que, doido ou não, o povo trata á bruta;

por fim, que faça o deus formal promessa

d'outro rei que as não coma tão depressa!

O Jupiter tonante

d'est'arte lhes responde:

«Inutil prece!

Dei-vos um rei tranquillo, inoffensivo,

que nem sempre se tem nem se merece:

um rei que era um regalo!

Foi vêl-o e pôl-o pela barra fóra!

Dei-vos segundo: um genio um pouco vivo...

um pouco extravagante...

Meninas, aguental-o!

Era bom o primeiro e foi-se embora.

É mau este de agora.

Contentae-vos com elle, ó meus endezes,

pois venha quem vier... peior mil vezes.»

_ONZE DE NOVEMBRO_

É noite de São Martinho,

rival do velho Noé.

Cae agua em logar de vinho,

e--milagre!--o meu visinho

entra em casa por seu pé!...

Memorias do alegre santo,

porque é que tanto duraes

se eu já nem bailo nem canto

dês que me deram quebranto

as peças originaes?!

Até as caras meninas,

socias minhas na funcção,

rosas, d'antes, purpurinas,

por muito favor--cravinas...

d'Ambrosio cravinas são.

Martinho, ao que chega a gente!

Ellas feitas uns pasteis

de carne velha e doente;

eu comprando cada dente

por tres e quatro mil reis!

Bem me toucaram taes flôres!

Bem com ellas me touquei!

Da cabeça agora as dôres

quem m'as faz são os tenores,

as portarias, e a lei!

A lei!... a eterna cantiga!

o eterno sarapatel!

Na nossa edade, e na antiga,

lá para uns certos--espiga;

lá para uns outros--papel.

Só uma córta direito:

só a lei da morte é egual.

Para calcular-lhe o effeito

vou, deitado no meu leito,

dormir um somno real.

_ASSIM É QUE EU GÓSTO D'ELLA!_

Eu nunca fui poeta. Era loucura

mostrar depois de velho pretensões

quando as não tive em horas de ventura,

de tão dôces, mas breves, illusões.

Então era a minh'alma que gemia

no vago anceio d'onde nasce o amor;

mas hoje sei que amor no mesmo dia

nasce, esmorece, e morre como a flôr.

Da meiga briza o tépido bafejo,

a rosa perfumada, o pôr do sol,

as nuvens d'oiro,--esplendido cortejo

do astro-rei, a voz do rouxinol;

Esse hymno immenso com que a terra exprime

viva saudade pela extincta luz,

se para mim então era sublime,

ai! que já por meu mal me não seduz!

Quando contemplo agora o fim da tarde,

quando ao sumir-se no crystallino mar

o facho accêso sobre as ondas arde

e vae depois nas ondas mergulhar;

Sabeis vós o que penso em tal instante?

--Vêde a que prosa vil isto chegou!--

Sabeis vós o que penso?'... o que lamento?...

O dia mais de vida que passou.

De vida, sim, meus senhores,

que não ha pechincha egual!

Só algum sarrafaçal

em horas de maus humores

grunhirá sombrio e rouco

que pelo seu fim anhela!

Eu cá por mim acho pouco

e morro d'amores por ella!

A vida saboreada

de um certo modo que eu sei.

Nem limpa-botas nem rei;

trazer camisa lavada;

bem lavada a consciencia;

libras velhas na algibeira;

ter um trem e por decencia

um garoto na trazeira.

Cadeiras... todas de braços,

fôfas como pão de ló.

Nunca dar ponto sem nó

nem pôr ponto em dar abraços.

Caçadas... feitas no prato,

e sobre a caça café.

Charutos... dos de contracto

_Lib'ra nos!_ antes galé.

Vejam se eu dava o cavaco

ou se quebrava o toutiço

por ser tudo quebradiço

n'este mundo como um caco!

Em se quebrando... acabou-se.

Ora, adeus! Fortes lamechas!

Era bonito se fosse

ficando tudo p'ra mechas!

Amor de marrafa branca

como o cão e a cadellinha

sempre fiel! Que gracinha!...

Ao chá por baixo da banca

dando ternas pizadellas

que as meias deixam de luto,

que fazem vêr as estrellas,

e provam que o par é bruto.

Ter sempre o mesmo barbeiro

e sempre o mesmo topete!...

Á mesa do voltarete

defronte o mesmo parceiro!...

O molle ser sempre o molle!...

sempre esperto o serigaita!...

Na mesma gaita de folle

soprar quem sopra tal gaita!...

Quem pensa assim... ai! coitado!

ou perdeu todo o juizo,

ou se tem dente do sizo

pelo alveitar foi achado.

Para mim que sou amante

do que muda e do que mexe,

como havia ser seccante

o tal mundo de escabeche!

Beijar nos pulsos a algema

com que Amor nos manietava;

amanhã mandal-a á fava;

a belleza eis do systema.

Ser hoje amigo do Brito,

amanhã sêl-o dos Soisas!...

Viajar hoje no Egypto;

vêr ámanhã novas coisas!

Isto, sim, que é prazer certo!

Quem julgar que assim não presta

diga adeus a esta festa

que o cemiterio está perto!

Pois póde haver tolerancia

na China, aqui, ou em Gôa

com quem defende a constancia

que é a maçada em pessoa?!

Aqui d'el-rei porque mente

toda a humana geração!...

Grande pena!... pois então,

se mente, mente-lhe a gente.

Por mentira, mentirola.

Por esparrella, esparrella.

Assim vae esta charola:

assim é que eu gosto d'ella!

Dizem que a vida os assusta

porque em tudo encontram móca;

que o bem a todos não toca,

que a Justiça não é justa.

Eu, por mim, quero-a mais larga,

que, se acaso um dia fôr

parar-lhe ás mãos, menos carga

sobre os hombros me ha de pôr.

E se o bem me não tocar

tambem uma vez sómente,

ferro commigo no quente

e, lá, desato a chorar.

Não é mau. Dou de conselho

a quem quizer divertir-se

que chore em frente do espelho

e por força acaba a rir-se.

Chorar é bom! Quem me dera

nos tempos que já lá vão

quando, moço, o coração,

ao romper a primavera

sobresaltado tremia,

e da terra toda em flôr

juntava á meiga harmonia

doces lagrimas d'amor!

Se á vida não acham geito

porque todos têm chorado,

cá para mim vem barrado

quem lhe põe este defeito.

Elles que foram pequenos

e contra as lagrimas chiam,

de _lacrima christi_ ao menos

um copo não beberiam?

Tal resmuneia e se queixa

que as filhas não fecha a mãe;

que a mãe namora tambem,

e mais que torna e que deixa!

Ih! Jesus!... Que gritaria!

Se a mãe as filhas fechasse,

nenhuma as portas abria.

Ai de quem as arrombasse!

Caturras! Se ha quem supponha

nas politicas regiões

que inda póde haver Catões

sendo tão rara a vergonha!...

O galante é que no jogo

cada qual puxa o seu trunfo

quando sem armas nem fogo

alcançar póde o triumpho!

Deploram republicanos

que lhes tosquiam as azas?

Pois vão lá p'ra suas casas

fazer dos creados--manos.

Os outros temem que os thronos

se despedacem? Demonio!

Não lhes resta ainda, monos,

os thronos de Santo Antonio?--

Tudo aqui se remedeia;

tudo tem facil saída

se as honras dermos á vida

d'um jantar ou d'uma ceia.

Quem tentar pôl-a a direito

perde o tempo e a razão

porque luta peito a peito

com phantastica visão.

Eu nunca fui poeta. Agora vêdes

que menos do que nunca aspiro a sêl-o.

Se espalmar-me tentei pelas paredes

do teu Parnaso, Apollo, vae-me ao pêllo!

Põe-me nú se conservo n'este fato

algum resto de parvoas pretensões,

já que o mundo como é, o mundo ingrato,

despir-me soube as dôces illusões.

Dormi. Sonhei. Do sonho hoje acordado

na prosa da verdade emfim caí;

mas como tudo tem sempre um bom lado

ganhei gordura se illusões perdi.

_EM CINTRA_

Tal qual como o sacrista,

o velho Catecismo soletrando,

primeiro se espreguiça;

cabeceia depois de quando em quando;

por fim já não atina

se ha tres, se um cento d'inimigos d'alma;

meninos e doutrina,

rosnando manda á missa;

engendra um travesseiro da batina;

deita-se e dorme emquanto dura a calma:

farto da vida fui-me estiraçando

n'este alcantil, onde aves de rapina

fizeram ninho outr'ora.

Ao longe o sol declina;

já sobre as ondas arde.

Soltando a voz sonora

n'um murmurio suave expira a tarde.

Ai! quem me dera aqui morrer agora!...

Não ha somno melhor!... Somno?... Sería?...

Eu penso que não é, que sentiria

em torno do meu sêr, do meu sêr novo,

uma coisa qualquer que a phantasia

não ousa precisar, á qual aspiro,

para a qual vou fugindo, que me chama,

na qual hei de caír como em seu giro

alado insecto vae caír na chamma.

Não é tolice, não. Quem n'este mundo

diria afoito ao sabio mais profundo,

se n'esse tempo o mundo sabios tinha,

que dentro da gallinha estava um ovo

e dentro d'aquelle ovo outra gallinha?...

Assim succede em tudo. Muda a fórma;

as condições variam da existencia;

mas, por mais que a materia se transforma,

intacta se conserva sempre a essencia.

Logo: hei de viver. Ter consciencia

d'aquillo que então fôr!...

UM CORVO (_que fende o espaço, grasnando_)

Senil demencia!

Sobre essa rocha estoira como um ôdre:

terás a mesma sorte

de tudo quanto é pôdre.

Serei eu só bastante

para fazer-te o corpo n'um farrapo.

Que vida has de viver desde esse instante

mettido no meu papo?

Aonde a consciencia?... o sentimento?...

Perante a Eternidade

tu duras um momento.

Serviste o pensamento

da grande Divindade;

depois!... Depois da morte

não és coisa que importe

do mundo ao movimento.

UMA ANDORINHA (_chilreando em roda da penedia_)

Ai! terra onde nasci!

Ai! dôce patria minha!

tão longe eu sou de ti!...

Saudosa do palmar,

aqui, pobre avesinha,

errante a voltear.

Um dia... qual--não sei...

um dia, em vindo o inverno,

de novo á patria irei.

Então sob o docel

d'aquelle azul eterno,

nos plainos meus d'Argel

Emfim serei feliz!

Nenhuma primavera

roubar-me ao meu paiz

Jamais conseguirá!...

Uma outra pátria, espera,

tambem te surrirá.

UM SAPO (_no fundo do valle_)

Cantigas! boas cantigas

lá por cima oiço cantar.

Do que vae cá pela terra

entendem mais as formigas,

sabem mais reptis na serra

que os passarinhos no ar.

Deixa piar a andorinha.

Bem facilmente se ad'vinha

a tua sorte futura.

Tu és, amigo, a doninha.

É teu sapo a sepultura.

Cantigas! Boas cantigas!

Quem trinca, trinca; trincou.

As doninhas que hei papado

por mais figas, figas, figas

que as outras me têm armado,

ninguem d'aqui m'as levou!

O PINHAL (_ao longe_)

N'um cantico dolente

meus hymnos rumorejo.

É Deus que passa em mim; o Deus que eu vejo

em tudo o que palpita, e vive, e sente.

Ó balsamica rosa,

quando a fragrancia exhalas docemente

da petala mimosa;

lá quando do teu seio,

tepido ninho d'um amor fremente,

irrompem n'um gorgeio

maternas alegrias,

é Deus que passa, o rosto surridente,

cercado de harmonias.

O SINO DA PENA

Dong!...

Dong!...

Dong!...

UM VELHO QUE VAE NA ESTRADA (_tirando o barrete_)

Avè, Maria,

cheia de graça...

O SINO

Dong!...

Dong!...

Dong!...

N'estas auras subtis do fim do dia

--descobri-vos, mortaes!--é Deus que passa.

Dong!...

Dong!...

Dong!...

Desde a remota edade á edade hodierna

Descrença e Fé por esse mundo fóra

vão em perpetua luta caminhando.

Da Sciencia os cartapacios consultando

em Deus não crê, não crê na vida eterna

quem da eterna sciencia tudo ignora.

Sei d'alguns que não crêem... porque é moda...

por ser qualquer idea contrabando

em casco avariado. Finalmente,

crêr, ou não crêr, a certos pouco importa,

por isso que incommoda

andar com seus botões pensando a gente

no fim que ha de levar depois de morta.

Eu á Sciencia estranho e bom jarreta,

eu que penso em morrer, por ser um vivo

que fecha a mala e puxa da gorgeta,

encontro ás minhas maguas lenitivo

crendo que ambas as coisas não são pêta.

Tudo em roda de mim é o grande effeito

d'uma causa maior, cuja existencia

dois principios envolve fatalmente;

amor e omnipotencia:

poder que salva; amor sempre clemente.

Isto me fique ao menos! Hei mudado

de pensar e sentir bastantes vezes.

Só não pude sentir nem ter pensado

ser o mundo um curral, e nós--as rezes.

_PEDINDO O INDULTO_

D'UM ALUMNO MILITAR

que em 1872 foi expulso do Lyceu de Lisboa por não haver restituido a

outro alumno um livro que lhe pedira emprestado

Misericordia!... Um rapaz

sem reflexão e sem tino, que

é da milicia e inda traz

reles buço de menino,

brincando pede e sonega

um mau livro a um mau collega.

O facto é grave! A moral

traja luto!... Esta noticia

corre por maneira tal

que até chegou á policia!

Desloca a pedra angular

do social edificio!...

Cheira a Communa!... Pelo ar,

em busca d'um outro officio,

paira e pia a disciplina!...

Ai de nós! que é certa a ruina

se um braço potente e audaz

não suspende o cataclysmo!...

Corte-se fundo o antraz!

Dôa e pelle o sinapismo!

Assim se fez. Lá no ceu

ha quem nos proteja ainda.

A lei pune. O infame reu

cae prostrado, e o p'rigo finda.

Sabia a lei no monstro fere

_Cartouche e Robert Macaire._

N'um golpe os reduz a pó!

Da dupla calamidade,

descascando um ovo só,

livra e salva a humanidade!

Os relaxados sandeus

dizem:--Não valia a pena.--

Mas é que a Lei, pygmeus,

não raciocina, condemna.

E raciocinasse!... O pepino

não se torce em pequenino?

Aprender nos livros quiz?

Quiz illustrar a sua farda?

Fique burro, que o paiz

gosta que o sirvam d'albarda.

A vergonha, a nodoa, o que é?

O que foi sempre. Esta é fina!

Um pinguinho de rapé

que se tira com benzina:

um nada... que inhabilita:

a letra fatal escripta

com ferro em braza na mão!

E n'este abysmo se lança

sem piedade e sem razão

uma inconsciente creança!...

Melhor livro alguem pilhou

sem ninguem lhe gritar:--Larga!--

Lambeu; os beiços limpou;

e poz-se de mão na ilharga!

Não! que o melro d'alto canta!

e quando ás vezes se espanta

fazem-no Deus, tal crereis?

Uno e bis trino,--isto é sério,

pois sendo os ministros seis

é só elle um ministerio!

O supplicante, senhor,

cartista puro, em presença

dos factos que vem de expôr,

pede o indulto e a recompensa

que o pobre rapaz merece.

É fundada a sua prece

em ser a Lei coisa igual:

e, sendo, já me contento,

se não póde ser mar'chal

façam-no ao menos sargento.

_PROCESSO_

1875

_LIBELLO_

_Le cynisme de l'apostasie._

(Berryer).

Musa Velha · 第 2 / 3 段