Tomarei tambem nota de alguns pontos em que não concordo com

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ANTHERO DE QUENTAL

OLIVEIRA MARTINS

O critico litterario--O economista--O historiador--O publicista--O politico

LISBOA

TYPOGRAPHIA DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA

_50, Largo do Conde Barão, 50_

1894

OLIVEIRA MARTINS

ANTHERO DE QUENTAL

OLIVEIRA MARTINS

O critico litterario--O economista--O historiador--O publicista--O politico

LISBOA

TYPOGRAPHIA DA COMPANHIA NACIONAL EDITORA

_50, Largo do Conde Barão, 50_

1894

Os Luziadas, ensaio sobre Camões a sua obra, em relação á sociedade

portugueza e ao movimento da Renascença, por J. P. de Oliveira

Martins. Porto, 1872.

Se a escóla ethnologica está representada, entre os escriptores novos,

pelo sr. Theophilo Braga, a escóla social e historica--a unica, talvez,

a que propriamente se devêra dar o nome de philosophica--acaba de achar

igualmente entre nós um digno representante num escriptor moço e do

maior futuro, o sr. Oliveira Martins, que num livro recente estudou, a

proposito de Camões (e para nos explicar Camões), a litteratura

portugueza do seculo XVI, no ponto de vista largo e comprehensivo, ao

mesmo tempo politico e psychologico, que caracterisa esta ultima escóla.

Neste ponto de vista, a litteratura de um povo, considerada como um todo

symetrico, uma obra gigantesca e collectiva, apresenta-se como a

expressão do seu espirito nacional, determinado não por tal ou tal

elemento primitivo e, por assim dizer, physiologico, mas pelos

elementos complexos, uns fataes outros livres, uns criados outros

herdados, cuja synthese constitue a _idéa_ da sua nacionalidade--raça,

instituições, religião, tradição historica e vocação politica e

economica no meio dos outros povos. A idéa nacional, na sua evolução,

determina gradualmente o que se póde chamar o temperamento da nação; e,

se esta surda fermentação se manifesta em tudo, nos seus actos e nos

seus pensamentos, revela-se sobretudo na sua imaginação, isto é, no seu

ideal, cuja expressão mais livre é a arte e a litteratura. Nesta

invisivel circulação da seiva interior ha periodos, periodos de

revolução, de progresso, de retrocesso, de incubação ou de plenitude de

forças: a estes correspondem invariavelmente os periodos artisticos e

litterarios, com suas variações de intensidade, lenta formação de

escólas, morbidos estacionamentos, subitas e inflammadas florescencias.

E, como nesta vegetação collectiva, cada ramo, cada folha, cada fructo,

se alimenta com a seiva commum e tem uma vitalidade proporcional á força

que trabalha o grande tronco, o espirito individual acompanha o espirito

nacional nas suas evoluções, gradua pela delle a sua intensidade: a sua

liberdade interior tem por limites, realisando-se, as condições do meio

em que se desenvolve, e o genio do artista, do poeta, ainda quando

protesta e se revolta, é sempre _adequado_ ao genio do seu povo e da sua

época. É por aqui que a historia litteraria se liga á philosophia da

historia, ou antes, que faz parte della. As grandes épocas litterarias

coincidem com as épocas de plenitude do sentimento nacional, aquellas

em que esse sentimento, tomando consciencia de si, se revela em obras

harmonicas e complexas, que são como que o fructo definitivo da lenta

elaboração das instituições, dos costumes, dos pensamentos. Reaes e

juntamente ideaes, essas obras supremas dizem-nos ao mesmo tempo o que

um povo _foi_ e o que _quiz ser_, descobrem-nos a sua _aspiração_ intima

e marcam os _limites_ dentro dos quaes lhe foi dado realisal-a. São o

commentario moral das revoluções politicas e sociaes, e como que os

annaes da consciencia nacional: e, para a philosophia, é na consciencia

que a historia encontra a sua explicação definitiva e a sua final

justificação.

O que diz Camões a quem, depois de o ter lido com olhos de homem de

gosto, o relê com olhos de philosopho? Camões, responde o snr. Oliveira

Martins, diz-nos o _segredo_ da nacionalidade portugueza. Houve, com

effeito, uma nacionalidade portugueza--por mais estranha que esta

affirmação nos pareça, a nós portuguezes do seculo XIX, que não atinamos

a encontrar no presente uma _causa vivendi_: houve uma razão de ser

tanto para as instituições como para os individuos, e uma idéa nacional,

espalhada como a alma collectiva por todo este corpo, então vivo e agil.

E não só houve uma nacionalidade portugueza, mas essa nacionalidade,

superior aos impulsos cegos da raça e á fatalidade da geographia,

produziu-se como uma obra do esforço e da vontade, não resultado de

obscuros instinctos primitivos, como um facto politico e moral, não como

um facto ethnologico. Quando em Hespanha não havia ainda senão catalães,

castelhanos, leonezes e navarros; em França provençaes, gascões,

borguinhões, bretões; em Allemanha suabos, austriacos, saxões,

hanoverianos; em Italia tantos pequenos estados rivaes quantas cidades,

e não se fazia bem idéa do que fosse ser hespanhol, francez, allemão,

italiano, porque estas palavras França, Hespanha, Allemanha, Italia

designavam apenas vagas agrupações naturaes e não grupos organisados--em

Portugal havia só portuguezes, e ser portuguez tinha uma significação

definida e precisa. Este é o grande facto, diz o sr. Oliveira Martins,

que faz delle o seu ponto de partida: daqui, a cohesão politica da

nação; daqui a sua physionomia moral. Essa cohesão é a unidade; essa

physionomia é o patriotismo. O patriotismo, pondera acertadamente o sr.

Oliveira Martins, é cousa muito distincta do amor da terra: e o

patriotismo, como os portuguezes dos seculos XV e XVI o conceberam, foi

um phenomeno moral quasi unico na Europa de então, e que os tornou muito

mais parecidos com os romanos antigos do que com os povos seus

contemporaneos. O patriotismo é uma idéa abstracta, que excede a

capacidade toda sentimental da raça; o instincto naturalista da raça dá

o amor da terra; não vai mais além: só a idéa nacional póde dar o

patriotismo, comprehendido á romana e á portugueza. O Cid batalha mais

de uma vez contra os castelhanos, ao lado dos arabes; o condestavel de

Bourbon vira a sua espada aventureira contra a França que o viu nascer;

nem por isso deixa o Cid de ser um typo de bravura idealisado pelos

hespanhoes, e o condestavel de Bourbon um leal cavalleiro para todos os

cavalleiros de França; mas os Pereiras, combatendo ao lado dos

castelhanos em Aljubarrota, são malditos, _arrenegados_; e, mais tarde o

Magalhães será _portuguez no feito, porém não na lealdade_: apostataram

da idéa nacional. Eis a grande differença. Esta noção do patriotismo

cria uma ordem de sentimentos particulares dos individuos para com a

nação, um modo de ser moral peculiar. É o dever patriotico, como o

comprehenderam, em Roma, Fabricio, Regulo, Catão, em Portugal Castro,

Albuquerque--o dever patriotico, cuja expressão suprema é o heroismo.

Leia-se a historia da Europa até ao seculo XVI: abundam os _bravos_, mas

difficilmente se encontrarão os _heroes_, segundo o typo magnanimo que a

antiguidade realisou, e que de novo e no seu ponto de vista realisou

Portugal durante os seculos XV e XVI. No _peito illustre lusitano_ havia

então alguma cousa de grande e transcendente, que impellia a nação para

um destino extraordinario e suscitava no meio della os heroes, que

deviam servir a idéa nacional com a abnegação tenaz e superior com que

se serve uma idéa religiosa. É que o patriotismo é uma especie de

religião civil. Foi por essa religião que, durante tres seculos, nos

erguemos no mundo, para realisar um sonho gigantesco e quasi

sobre-humano: foi por ella tambem que cahimos exangues e desilludidos,

porque a realidade faltou ao sonho, porque todo o sonho, com o seu

idealismo, se exalta primeiro, perturba depois, transvia, endoudece

aquelles que envolve nas suas nevoas phantasticamente luminosas, mas

sempre enganadoras.

A época nacional portugueza, por excellencia, é o seculo XVI. Tudo

concorre então para dar ao espirito dos portuguezes aquelle summo grau

de tensão, que produz os grandes movimentos nacionaes. A nacionalidade

rompe com impulso irresistivel os seus limites tradicionaes, transborda

fremente como um rio caudaloso, e affirma-se na sua plenitude pelas

descobertas e pelas conquistas. Dentro, a sua força é o resultado da sua

concentração: pela reforma dos foraes, pela monarchia absoluta, pela

expulsão dos judeus, attinge o maximo de unidade politica, social,

religiosa, isto é, o maximo de poder sobre si mesma. Esta energica

cohesão depura o sentimento nacional, dá-lhe uma segura consciencia de

si, e leva-o áquelle grau de tensão em que o patriotismo, exaltando-se,

se transforma numa especie de heroismo universal. A nação faz-se heroe:

o heroismo é a sua atmosphera ordinaria, e todos participam mais ou

menos desse contagio sublimador. Daqui, uma concepção particular da vida

social, do direito, do dever, tanto para a nação como para os

individuos. _Ser portuguez_ é alguma cousa de especial, um typo _sui

generis_ de virilidade e nobreza, que todos procuram realisar, e que a

litteratura idealisa, de que ella se inspira na phase nova em que então

entra. Com effeito, a esta evolução moral corresponde uma evolução

litteraria. Á escóla provençal-castelhana, lyrica, aventureira e

romanesca, succede a grave escóla italiana, com a feição nova que o

espirito portuguez lhe deu, adoptando-a, isto é, moral e épica. Ao

trovador Bernardim Ribeiro, ao popular Gil Vicente succedem Sá de

Miranda e Ferreira, dous romanos. O velho typo cavalheiresco,

phantasioso e sentimental, empallidece diante desse outro que surge,

nobre e digno, quasi severo, o homem do dever, não da sensibilidade, que

João de Barros, Ferreira e Miranda vão levantando, e que Camões virá

collocar sobre o sublime pedestal épico.

Este typo, o verdadeiro typo portuguez do seculo XVI, como se revela nos

_Lusiadas_, não é com effeito uma mera invenção do genio de Camões: é

uma genuina criação nacional, um ideal do sentimento collectivo, que se

foi gradualmente formando e depurando, até encontrar no grande poeta

quem lhe désse uma expressão definitiva. É por isso mesmo que elle

domina, de toda a sua altura, o pensamento e a obra de Camões. O que o

poeta canta é o heroismo portuguez: _o peito illustre lusitano_: e todo

o seu poema se resume nisto, como nesse poema se resume toda a vida

moral portugueza durante um seculo. A razão intima dos acontecimentos,

dos costumes, das opiniões encontra-se alli: explicam-se por elle, e só

elles tambem o explicam completamente. O poema e a sociedade são, por

seu turno, texto e glosa que mutuamente se commentam.

Neste ponto de vista, historico e psycologico, não no ponto de vista

meramente litterario de uma esteril poetica de convenção, é que os

_Lusiadas_ devem ser estudados e comprehendidos--e cabe ao sr. Oliveira

Martins a gloria de ter sido o primeiro a fazel-o, a gloria de ter

_commentado_ philosophicamente os _Lusiadas_. A esta luz tudo se explica

na concepção do poema e na substancia moral delle: percebe-se a razão

deste estranho phenomeno, estranho e unico, do apparecimento de um

verdadeiro poema epico nacional em plena idade moderna.

Isto em quanto á concepção. Em quanto, porém, a certa ordem de

sentimentos, que, no ponto de vista épico, são secundarios, mas que

occupam um grande logar no poema, para os comprehender faz-nos o sr.

Oliveira Martins considerar outro lado da physionomia tão complexa de

Camões e da sua época. Com effeito, se Camões é um portuguez do seculo

XVI, é ao mesmo tempo um artista da Renascença; daqui todo um lado dos

_Lusiadas_, que excede a idéa nacional, e por onde este profundo poema

se liga, não já á vida necessariamente estreita de um simples povo, mas

ao vasto movimento do espirito humano nos tempos modernos. Sem este

lado, a significação dos _Lusiadas_ seria meramente nacional e local,

não europêa e universal: teriam só um valor historico e não philosophico

tambem. Mas Camões, portuguez pelo caracter e pelo coração, era pela

intelligencia mais do que portuguez sómente. Respirava a atmosphera

subtil e vivificante da Renascença: no seu vasto espirito, como no dos

grandes artistas desse tempo, havia um lado mysterioso e profundo que se

virava, não para o passado ou para o presente, mas para o illimitado

futuro, presentindo já a revolução moral dos seculos XVIII e XIX. Se

Camões, como portuguez é patriota e heroico, como homem da Renascença é

pantheista; pantheista platonico e idealista, já se vê, como Miguel

Angelo, Leonardo de Vinci, Shakespeare. Portuguez, exalta os feitos por

onde o seu povo conquista entre as nações um logar proeminente: homem da

Renascença, sente e interpreta a natureza com um naturalismo impregnado

de idealidade, que é mais ainda o presentimento de um mundo moral

novo, do que uma imitação da antiguidade pagan. O sentimento pantheista

da natureza, sentimento todo moderno, e que devia mais tarde chegar á

plenitude em Rousseau, Goethe, Hugo, appareceu pela primeira vez em

Camões. Daqui, o caracter do seu espanto em face dos grandes phenomenos

maritimos; daqui, a concepção do Adamastor; daqui, o sensualismo da

primeira parte do canto XI e o idealismo da ultima. É por este lado que

Camões toma logar entre os grandes espiritos, os _Lusiadas_ entre as

grandes obras dos tempos modernos. A imaginação prophetica do poeta

anticipa tres seculos na historia psycologica da humanidade. Com todos

estes elementos, uns portuguezes, outros europeus, uns locaes, outros

universaes, recompõe o sr. Oliveira Martins a physionomia complexa de

Camões e dos _Lusiadas_, com uma lucidez e segurança de critica

verdadeiramente surprehendentes para quem considerar a completa novidade

do seu trabalho. A sua luminosa synthese abraça o poeta, a obra e a

época: e pela épocha, pelo poeta e pela obra faz-nos sentir a intima

realidade da nação e a sua razão de ser historica. E nessa mesma

synthese comprehende-se tambem a sua decadencia; triplice decadencia,

politica, moral, litteraria. Como? pela decadencia da idéa nacional. Com

effeito, o patriotismo heroico do Portugal do seculo XVI continha em si

mesmo os germens da propria dissolução. Era grande, mas não era justo:

ora nada dura no mundo senão pela justiça. Tinha fatalmente de se

corromper essa orgulhosa idéa nacional, fundada na violencia da

conquista, na intolerancia religiosa e no despotismo politico. Os

vicios interiores do organismo nacional appareceram bem depressa:

appareciam já no tempo de Camões: nos _Lusiadas_ encontram-se de vez em

quando, estrophes sombrias, que são como um lugubre _cras enim moriemur_

lançado no meio das alegrias daquelle festim heroico. Era o futuro

velado e lutuoso que o poeta entrevia num deslumbramento prophetico. A

nação estava, com effeito, condemnada. O heroismo que tem de durar,

lança as suas raizes na região mais inalteravel, mais incorruptivel da

consciencia humana, e as do nosso não chegaram lá: foi uma especie de

_sezão nacional_; não foi um acto reflectido, filho da liberdade moral,

um esforço supremo pela justiça; foi apenas um egoismo sublime. Por

isso, martyres da propria obra, a nossa quéda foi cheia de tristeza e

confusão, nem nos ficou no rosto a serenidade luminosa dos verdadeiros

martyres.

As paginas austeras em que o sr. Oliveira Martins estabelece esta

distincção entre o heroismo da consciencia e o da fatalidade, e mostra

Portugal condemnado por aquillo mesmo que fizera a sua virtude e a sua

grandeza, são das mais gravemente pensadas que se teem escripto na nossa

lingua. É a verdadeira philosophia da historia aquella sua, que reduz e

subordina toda a actividade humana á consciencia e á justiça. A

injustiça da idéa nacional, como os portuguezes então a conceberam,

corrompeu gradualmente as instituições, infiltrou-se nos espiritos e

perverteu os costumes: a sociedade, minada interiormente, vacillou, em

despeito do esplendor mentiroso que exteriormente a vestia, e começou a

desabar. O sr. Oliveira Martins desenhou com mão segura e vivissimo

colorido o quadro das implacaveis realidades, que, produzidas pelo

heroico idealismo portuguez, se viraram contra elle, o viciaram e

acabaram por destruil-o. A nação, atacada deste modo nos seus orgãos

mais vitaes e na mesma alma, que podia produzir no mundo do espirito, da

arte, da litteratura? A decadencia social e moral tinha necessariamente

de corresponder a decadencia litteraria. Um desregramento doentio das

imaginações privadas de ideal, depois um estreito classicismo e uma

poetica de academias, succederam á livre e fecunda expansão do genio

portuguez no mundo do sentimento e da phantasia. A idéa nacional levou

comsigo para a cova o segredo das criações poeticas. Do seculo XVI até

hoje não produziu Portugal uma unica obra artistica ou litteraria

verdadeiramente nacional. De vez em quando, nalguns momentos

excepcionaes, o genio dalguns homens tem-se levantado como um protesto,

e tem-se visto ainda uma ou outra obra viva. Mas essa inspiração é toda

individual, não é nacional: é um producto natural que póde demonstrar

que a raça não morreu com a nacionalidade, não é filha de um sentimento

commum e como que organico da sociedade portugueza. A decadencia

nacional é o grande facto inexoravel da nossa historia, vai em tres

seculos: a decadencia litteraria é uma fórma della, nada mais.

Decadencia irremediavel? pergunta o sr. Oliveira Martins, nas ultimas

paginas do seu livro. Não! responde-lhe a philosophia revolucionaria. A

nossa renovação moral e litteraria será possivel no dia em que, pela

reforma das instituições sociaes, por uma nova e melhor comprehensão da

justiça, comece outra vez o espirito a circular neste grande corpo, mais

inerte ainda do que acabado, volte a animal-o uma alma, um ideal

collectivo. Então Portugal terá de novo uma razão de ser, e a idéa

nacional, mais brilhante e mais quente depois do seu eclipse secular,

fará rebentar outra vez fructos e flores deste chão endurecido sim, mas

debaixo do qual ha ainda (embora a grande profundidade) fontes vivas em

abundancia. As grandes acções serão outra vez possiveis, e um melhor e

mais alto heroismo; por elle serão não só possiveis, mas quasi

inevitaveis os grandes pensamentos poeticos. A renovação litteraria de

Portugal é correlativa com a sua renovação social e está dependente

della: é a conclusão do livro do sr. Oliveira Martins, conclusão que

todos devemos aceitar, não como uma vaga esperança, mas como uma verdade

philosophica cuja realisação não depende senão do nosso esforço, da

energia do nosso sentimento moral. Somos os operarios do nosso proprio

destino, e desde já as nossas mãos o vão aperfeiçoando: terá a fórma que

lhe dermos.

Neste trabalho solemne da renovação nacional, grande é a tarefa que está

talhada para a geração nova, e immensa a sua responsabilidade! Estará

ella, pela intelligencia e pelo coração, pela sciencia e pela virtude, á

altura desta obra austera e formidavel? Muitos o duvidam, vendo-lhe no

rosto uma pallidez de mau agouro... Não me cabe a mim decidil-o: direi

sómente que (quaesquer que tenham de ser os nossos destinos) para

darem testemunho das intenções sérias de uma parte consideravel da nossa

geração, do seu espirito renovador, da sua aspiração a uma melhor

sciencia, bastarão em todo o tempo obras como a _Historia da litteratura

portugueza_, do sr. Theophilo Braga, e o _Ensaio sobre Camões_, do sr.

Oliveira Martins.

9 de maio de 1872.

Theoria do socialismo, evolução politica e economica das sociedades

da Europa: por J. P. de Oliveira Martins. Lisboa, 1872.

I

Pelo assumpto do livro, pela maneira porque nelle se resolvem as

questões que o assumpto envolve, e pela muita amizade, além da

affinidade de crença philosophica e politica, que me liga ao autor,

estava eu obrigado a fallar publicamente desta recente e por tantos

lados notavel obra do sr. Oliveira Martins. Se o não tenho ainda feito,

contando o livro perto já de tres mezes depois de publicado, é porque

preoccupações de outra natureza, envolvendo dispendio de tempo e de

attenção para coisas bastante differentes, me teem totalmente impedido.

Agora mesmo, só lhe poderei consagrar uma rapida noticia, expondo apenas

a impressão geral, que uma primeira leitura, por varias occasiões

interrompida, me deixou, tanto dos defeitos como das sérias qualidades,

que avultam na _Theoria do Socialismo_.

Comecemos pelos defeitos, e pelos pontos em que discordo (sem

pretender por modo algum incluir estas divergencias no numero dos

defeitos) da maneira de vêr do autor. Depois, mais desassombrados,

apreciaremos o pensamento essencial da obra.

Os defeitos são, me parece, exclusivamente de fórma e composição. Ha uma

idéa fundamental no livro, que determina uma linha logica,

desenvolvendo-se sem soluções de continuidade da primeira até á ultima

pagina; ha, nos pontos que essa linha percorre, uma successão natural

correspondente ao encadeamento normal dos principios e dos factos na

sciencia e na historia. O que falta, porém, é uma definição

_cathegorica_ da idéa geradora, e uma exposição precisa e desenvolvida

dos principios, de tal sorte que estes não se entrevejam sómente, mas

appareçam de facto como a _razão sufficiente_ dos phenomenos historicos

e a elles _adequados_. É a esta falta que se deve attribuir a

difficuldade e obscuridade que encontram as intelligencias não

preparadas por uma conveniente educação philosophica (e são muitas,

desgraçadamente) em certas partes desta obra, aliás methodica e bem

deduzida. Quero com isto dizer que não é da idéa que provém a

obscuridade, mas da composição e do estilo. Bastava que o autor tivesse

dado ás _theses_, que precedem cada um dos seus capitulos, um

desenvolvimento proporcional, em vez de as encerrar em formulas, ás

vezes um tanto algebricas, e que nas suas exposições de principios

_arejasse_ um pouco o estilo, tornando-o mais ductil e menos technico,

para que as abstrações philosophicas se tornassem accessiveis ao

simples senso-commum, a que se reduz o criterio de 90 por cento dos

leitores portuguezes.

Faço estes reparos, não só para que as pessoas que não comprehenderam

bem certas paginas do livro do sr. Martins se convençam de que essa

obscuridade nada depõe contra a verdade e lucidez da idéa fundamental

delle, como tambem por entender que o estilo nas obras não litterarias,

e até nas de sciencia pura, não deve ser considerado como coisa

accessoria e secundaria. Certamente que não aconselho aos homens de

sciencia que _façam estilo_; mas é que tal conselho não o daria tambem

aos literatos e aos poetas. Para mim, entre ter bom estilo e _fazer

estilo_ ha uma differença essencial: ter bom estilo significa ter o

estilo proprio e conveniente das idéas que se expõem; _fazer estilo_

significa encobrir a falta de idéas com phrases redundantes e

apparatosas, com aquelles _persicos apparatus_ que já Horacio queria

banidos dos festins e, com maior razão ainda, do discurso. Póde haver, e

ha effectivamente, bom estilo até nas sciencias mais rigorosas,

naquellas a que os espiritos vasios, que querem campar de poeticos,

chamam aridas: ha bom estilo em mathematica, por exemplo, e em chimica:

Lagrange passa por ter escripto algebra com uma elegancia e belleza

verdadeiramente classicas; em chimica, gosa hoje de igual reputação o

illustre Wurtz. Mas deixemos isto, porque não é sobre esthetica que me

propuz escrever. Direi sómente que o sr. O. Martins nunca _faz estilo_,

exactamente porque tem muitas idéas; mas que, por não dispôr ás

vezes convenientemente as suas idéas, consoante os respectivos valores,

_cum pondere, numero et mensura_, deixa passar certas paginas, que, sem

injustiça, podemos acoimar por não terem bom estilo.

Tomarei tambem nota de alguns pontos em que não concordo com o modo de

vêr do autor da _Theoria_. Não é que essas divergencias de opinião sejam

muito profundas, quero dizer, que versem sobre pontos essenciaes da

doutrina do livro: são, pelo contrario, exotericas, e versam

exclusivamente sobre certas apreciações historicas, indifferentes em

grande parte á conclusão geral que o autor tira da evolução das

sociedades na Europa desde a época romana. Essa conclusão é a minha

tambem, como o leitor verá: e se tomo nota destas divergencias, é porque

não me apraz estar completamente de accordo com quem quer que seja,

maximamente com aquelles cuja intelligencia préso e respeito--e desejo

deixal-o registado. Custar-me-hia tanto não concordar em ponto algum com

o sr. O. Martins, como concordar em todos absolutamente. Espero que o

leitor comprehenderá, sem mais explicações, o que quero dizer.

Discordo pois, da maneira porque o sr. Martins encara, na sua

generalidade, a Idade-media, considerando-a como um periodo de

retrocesso em relação á civilisação greco-romana, durante o qual os

elementos evolutivos dessa civilisação estacionassem (experimentando

alguma coisa analoga áquillo a que em physiologia se chama _interrupção

de desenvolvimento_), em virtude das sabidas causas ethnologicas,

sociaes e moraes que determinaram a dissolução do mundo antigo, de

tal sorte que todo o movimento europeu, durante aquelles nove a dez

seculos, se reduzisse, de um lado, á tradicção greco-romana, no que ella

tinha de _já definitivo_ e _não evolutivo_, isto é, o Cristianismo e o

Imperio, e do outro lado, ao reapparecimento de elementos primitivos, os

Barbaros, que apenas repetem extemporaneamente phases sociaes, que a

civilisação antiga, havia já seculos, tinha atravessado. Daqui parece o

autor concluir que a evolução normal da civilisação foi perturbada,

durante um certo periodo, pela introducção violenta de elementos

estranhos, constituindo uma como massa indigesta, cuja laboriosa

digestão produzindo uma lethargia secular, explica sufficientemente a

_interrupção de desenvolvimento_ que descobre na idade-media. Esses

elementos anormaes, que a civilisação teve de digerir durante mil annos,

para poder reatar os termos logicos da sua evolução (seculo 5.º, seculo

16.º), foram, de um lado, o Cristianismo com o seu Santo Imperio, do

outro lado os Barbaros com o seu sistema feudal. Ora, de mais de uma

pagina da _Theoria_ concluo eu que, no pensar do sr. Martins, nenhum

destes dois phenomenos é inherente á evolução, pois que vê nas invasões

barbaras só um phenomeno ethnologico e como que uma fatalidade natural,

e no Christianismo uma mera reacção religiosa, um recrudescimento

anomalo de transcendentalismo, quando já pelo Estoicismo, de um lado, e

do outro pelo Epicurismo, entrava o espirito humano na larga estrada da

philosophia natural, e entrevia no horisonte a luz salvadora da

Immanencia. A conclusão a tirar é que, sem estes elementos

perturbadores, não teria havido _interrupção de desenvolvimento_, seriam

poupadas á Humanidade as agonias da sua _paixão_ (como Michelet chama á

Idade-media), o seculo 16.º teria caído no seculo 6.º, e nós hoje

estariamos já aonde só estaremos no seculo 30.º

Se estas conclusões que não estão explicitas no livro do sr. Martins se

contêem realmente nos seus principios, tenho a objectar-lhe, antes de

tudo, que implicam até certo ponto contradicção com a sua idéa

fundamental, isto é, a Evolução como lei primeira da Civilisação. Que

uma circumstancia ou uma serie de circumstancias exteriores e fataes

possam produzir numa civilisação não sómente uma _interrupção do

desenvolvimento_, mas ainda uma atrophia permanente, comprehende-se e em

nada contradiz a idéa da Evolução. Mas o que a contradiz e o que não se

comprehende é que essa atrophia temporária ou permanente possa ser

expontanea, e saia como um termo necessario da mesma evolução, cuja

essencia é o desenvolvimento. Ora, ainda concedendo que os Barbaros

estejam no primeiro caso (e não me parece que estejam absolutamente,

porque que se as invasões barbaras são um phenomeno natural e fatal, e

um agente exterior, a fraqueza interna de uma civilisação, que succumbe

á barbaria, tem por força de ter uma causa tambem interna, que é preciso

determinar), o Cristianismo é que necessariamente estaria no segundo, e

teriamos assim, neste ponto, a evolução embaraçando-se e

contradizendo-se a si mesma.

Logo, uma de duas: ou a evolução, em determinados casos, póde

suspender-se expontaneamente, e não só suspender-se, mas até

retroceder e annullar-se a si mesma, o que é contradictorio com a sua

idéa essencial; ou não houve realmente na Idade-media um _retrocesso

geral_ e atrophia dos elementos evolutivos, e é necessario procurar no

estudo comparativo dos elementos immediatamente anteriores e posteriores

a essa idade a existencia de um _quid intimum_, cujo desenvolvimento,

assegurando o resultado total da evolução, como sendo-lhe essencial,

póde ao mesmo tempo, pela sua particular natureza, _suspendel-a

parcialmente_, durante um certo tempo e em determinados pontos.

Regeitando a primeira hypothese, como envolvendo um absurdo, fica-nos a

segunda, que não só tem a plasticidade sufficiente para se accommodar á

explicação dos phenomenos divergentes e apparentemente contradictorios

de um periodo tão complexo e revolto como a Idade-media, mas encerra

além disso um real valor philosophico, fazendo entrar na historia uma

das idéas fundamentaes das sciencias da organisação, a idéa de _crise_,

e estabelecendo assim entre o mundo da vida e o do espirito uma

concordancia de bastante alcance.

Nestes termos, diremos que não se deu na Idade-media uma _interrupção

do desenvolvimento_, mas sim uma de aquellas _crises organicas_

que são proprias e expontaneas na evolução dentro do mundo dos

organismos--fazendo entrar neste a historia, como uma fórma organica

superior e transcendente. Crises taes são um resultado do mesmo

desenvolvimento dessa ordem de forças complexas (que não são

independentes e apenas paralelas, mas convergentes e solidarias) que

actuam segundo leis analogas, tanto nos organismos como nas sociedades e

no espirito.

Vê-se claramente como desta solidariedade e convergencia, combinadas com

a acção desigual das circumstancias exteriores sobre cada uma dessas

forças, resultem para muitas dellas desencontros e periodos de

estacionamento, em quanto umas esperam para se desenvolverem que outras

tenham attingido um dado grau de desenvolvimento, sem se realisar o qual

ellas mesmas não podem continuar a sua evolução.

É assim que o sabio paleontologista G. de Saporta (_Origens da vida

sobre o globo_), comparando a evolução solidaria dos reinos animal e

vegetal nas idades primitivas, nos mostra o primeiro, depois de ter

percorrido successivamente uma serie ascendente de typos, estacionar

durante muitos milhares de annos, á espera que o secundo, cujo

desenvolvimento, por causas em parte desconhecidas, fôra mais demorado,

attingisse aquelle termo de ascensão, sem se realisar o qual não podia o

reino animal continuar o seu progresso especifico. Se considerarmos (com

depois dos trabalhos de Darwin e Haekel não podemos deixar de

considerar) que os chamados reinos animal e vegetal não são sómente

paralelos mas solidarios, e constituem realmente um só mundo organico,

teremos um facto consideravel, que a paleontologia nos aponta, o exemplo

de uma immensa e prolongadissima crise, que esse mundo atravessou, a

maior porventura que elle tem atravessado.

Ora é exactamente uma crise analoga que eu sustento ter soffrido a

sociedade europea durante o periodo da Idade-media: o _reino_ social

e politico, depois de rapido e ininterrupto progresso realisado desde

Homero até aos Antoninos, teve de estacionar, esperando que o _reino_

moral, atravez das varias _especies_ do cristianismo e da philosophia

escolastica, chegasse a um grau de desenvolvimento paralelo ao seu, que

lhe tornasse possivel continuar a progredir. A solidariedade entre o

progresso social e moral da humanidade, de um lado e do outro o desigual

desenvolvimento destes dois elementos, bem patente no facto singular

(que aliás se explica) de ter o mundo antigo produzido o direito romano

sem sair do polytheismo, dão cabalmente, me parece, a razão sufficiente

deste _desencontro_ de forças, cujo resultado foi a grande crise da

Idade-media.

É por tudo isto que, a meu ver, a Idade-media não póde ser reduzida,

como parece fazel-o o sr. Martins, a uma simples _tradicção_ e a um

periodo de _atrophia_ dos elementos verdadeiramente evolutivos do mundo

greco-romano. Para mim, são verdadeiramente evolutivos _todos_ os

elementos da idade-media, e a idade-media contém _todos_ os elementos

evolutivos da civilisação antiga: sómente o grande desenvolvimento e as

posições respectivas é que são differentes. Considero o cristianismo

como essencial á evolução; mais, como o termo necessario de todo o

movimento moral da antiguidade: para mim, não só não foi elle um

_incidente_ perturbador, mas não foi de modo algum um incidente. A

_transcendencia_, preparada e organisada por todas as escolas

philosophicas desde Socrates até aos Alexandrinos, incluindo os Estoicos

e até os Espicuristas (cuja metaphisica era tão idealista e a moral

tão mystica como as das outras escolas, e que não foram, como a alguns

tem parecido, os precursores _incompris_ dos racionalistas e

naturalistas modernos), a _transcendencia_, phase necessaria do

pensamento humano, tinha forçosamente de produzir uma religião analoga

na essencia ao Cristianismo; ainda quando lhe faltassem os elementos,

quanto a mim puramente morphologicos, da lenda oriental. Uma prova bem

clara desta ultima asserção, encontro-a na reacção de Juliano, chamado o

Apostata, cuja religião-philosophica não era menos transcendentalistica

e mystica do que a cristan, e que, a ter vingado, haveria produzido uma

theologia e uma igreja exactamente como o Cristianismo. Quero dizer que,

dado o estado moral da humanidade na ultima época do periodo

greco-romano, se o cristianismo não era inevitavel, o que era inevitavel

era uma religião na essencia cristan, isto é, mystica. A exaltação

mystica, que então se apossou do espirito humano, se foi um mal (e não

creio que o fosse absolutamente), foi um mal necessario. Era um termo

logico da Evolução; e a Idade-media, que foi o desenvolvimento desse

termo, não póde por esse lado ser considerada como uma simples _tradicção_.

Em quanto aos Barbaros, bastar-me-ha dizer que não creio que fossem

elles os destruidores da unidade romana, por si não só prestes a

desfazer-se, mas já meia desfeita nos seculos 5.º e 4.º; que sem elles o

imperio ter-se-hia igualmente desmembrado; que elles não impediram a

extincção da escravidão antiga nem a formação da burguezia; que

independentemente da influencia germanica, já o feudalismo tendia a

formar-se espontaneamente no imperio em dissolução, desde o seculo 4.º;

que finalmente, muito antes das invasões já as sciencias e as lettras

tinham decaido, e começára um entenebrecimento intellectual, de que os

barbaros não devem ser responsaveis; bastar-me-ha dizer isto para que o

sr. Martins aprecie as razões por que, ainda por este lado, nada

encontro de anormal e de perturbador no curso da evolução geral da

civilisação durante a Idade-media, nem vejo que houvesse _interrupção de

desenvolvimento_ produzida por causas estranhas e fortuitas.

É este o ponto principal da minha divergencia com o autor da _Theoria_ e

por isso o expuz mais detidamente. Os outros, que são ainda mais

indifferentes á idéa geral do livro, sacrifico-os, para entrar quanto

antes na apreciação dessa idéa.

II

Feitas estas reservas, passo a dizer alguma coisa sobre a idéa

fundamental da obra. Obra, ponho eu aqui intencionalmente, porque é

verdadeiramente _uma obra_, e não apenas _um livro_, a "_Theoria do

Socialismo_" Não é uma simples exposição de factos historicos, mais ou

menos curiosos, acompanhada de juizos e considerações, mais ou menos

rasoaveis ou eloquentes: é um todo ordenado e systematico, em que os

factos e as idéas se encadeam logicamente, convergindo para um

centro commum, que é o ponto de vista superior que os abrange e explica

a todos. É um trabalho conjunctamente philosophico e scientifico, em que

as generalizações formuladas pela sciencia historica recebem a sua

sancção final dos principios racionaes em que assenta a philosophia da

historia--tentativa semelhante na essencia e no methodo, embora diversa

nas conclusões e inferior na execução, á que realizou Guizot na sua

"_Historia da Civilisação na Europa_" e Michelet naquella admiravel

"_Introducção á historia universal_". O sr. Martins não é um erudito,

nem um philosopho de profissão: mostrou porém ter sciencia bastante e

sufficiente elevação de pensamento para nunca ser inferior ao que um tal

plano requeria. Ora, tentar isto, e realisal-o, apesar de muitos

defeitos parciaes, com exito feliz na generalidade, é raro merecimento e

que sobejamente justifica, me parece, esta particular designação de

_obra_ que dei ao livro. Escriptos desta natureza e alcance em nenhuma

litteratura são frequentes: o do sr. O. Martins affigura-se-me que é por

ora unico entre nós. Ainda assim, não é bem por isso que me congratulo,

mas por ver na "_Theoria do Socialismo_" um symptoma animador de franca

e séria adopção da idéa nova pelo espirito portuguez: é isto o que me

faz saudar fraternalmente a obra e o autor.

Socialismo é para muitas pessoas uma palavra aterradora, exactamente

porque não é para essas pessoas mais do que uma palavra. É para outras

um symbolo magico e omnipotente abracadabra, a quem tudo se póde pedir,

de quem tudo se deve esperar, dotado sobrenaturalmente de uma

virtude palingenesica para operar nas coisas humanas uma renovação total

e universal, uma regeneração instantanea e absoluta: estes são os

enthusiastas, que encarnam na palavra socialismo os seus sonhos

individuaes de felicidade, em vez de simplesmente a considerarem como a

expressão de uma ordem de phenomenos objectivos, independente das

imaginações sentimentaes de cada qual, e só adequada á natureza das

sociedades no seu desenvolvimento necessario. Apesar do que ha de

respeitavel nos sentimentos desses crentes, estão elles tão longe como

os outros de saberem o que realmente se deve entender por socialismo. A

uns e outros recommendo o livro do sr. Martins, como muito proprio para

lhes fazer perder tanto as esperanças como os terrores apocalypticos.

O socialismo não é nem a subversão violenta das instituições e dos

costumes, nem a palingenesia messianica milagrosamente revelada, para

acabar para sempre com os males humanos, por este ou aquelle inspirado

propheta de tal ou qual cenaculo de crentes: e não é uma coisa,

exactamente porque não é a outra. Não ha nisto paradoxo. Quero dizer que

o socialismo não ameaça as instituições e os costumes, que constituem o

organismo e a tradição da humanidade, precisamente porque não é uma

invenção do pensamento individual um systema sem raizes historicas,

exterior á realidade social, mas sáe, pelo contrario, da tradicção e da

historia, é a propria historia e tradicção num periodo das suas

transformações continuas, um parto da razão collectiva e um fructo

natural do mesmo desenvolvimento da sociedade. É por isso que a não

ameaça, porque a sociedade não se destroe a si mesma: desenvolve-se e

transforma-se; o socialismo não é mais do que a palavra que quadra ao

grau de transformação e desenvolvimento do momento actual. O que foi no

primeiro quartel deste seculo o liberalismo, o que tres ou quatro

seculos antes havia sido a monarchia, e antes cinco ou seis as communas

e o feudalismo, é o que será ámanhan (e já hoje começa a ser) o

socialismo: um novo periodo e uma nova fórma no organismo das sociedades

europeas. Tão inevitavel como aquelles, será como elles tão benefico e

tão pouco subversivo, sendo, como elles foram, não um resultado fortuito

de opiniões e interesses de individuos, mas um facto necessario da

Providencia immanente na historia.

Em que consista esse facto é o que o sr. Martins, fazendo-se interprete

dos phenomenos sociaes, se propôz explicar, e é o que nós, em companhia

delle, vamos examinar.

Logo na primeira pagina do livro, formula o autor a sua idéa deste modo:

a theoria do socialismo é a evolução.--Desculpe-me o meu amigo se lhe

faço ainda questão duma palavra, mas o rigor nos termos não é

indifferente. Duma maneira geral, a theoria do socialismo é certamente a

evolução, mas a evolução dentro da historia e das coisas sociaes tem um

nome mais particular e consagrado: o Progresso, que é a evolução na

série da humanidade. A evolução abrange todas as séries do

desenvolvimento no universo, cosmologico, geologico, organico, etc., e

por isso inclue a humanidade; mas dentro desta é particularmente o

Progresso. Diriamos, pois, com mais rigor: a theoria do socialismo é

o Progresso. Quizera tambem que o autor, nessa sua primeira _these_,

tivesse definido com mais clareza e explicado com mais extensão esta

idéa. Mas não importa: o que não se define totalmente nas primeiras

paginas, torna-se bem patente pelo livro adiante, e isso é o essencial.

O que o autor não diz mostra-o no encadeamento dos factos sociaes e na

successão das doutrinas através da historia, de sorte que o seu livro

representa-nos em relevo essa grande lei do progresso nas suas phases

verdadeiramente significativas.

Ora, qual é o termo actual do Progresso? o socialismo, responde o sr.

Martins, com a historia na mão. Mas que socialismo? o de Babeuf, o de

Fourier, de Saint-Simon, desta escola, daquella seita, não: simplesmente

o da humanidade. É nesta resposta que está a originalidade e a segura

verdade do livro. O socialismo não sáe de uma escola ou de uma seita:

sáe do mais fundo da consciencia humana, affeiçoada por tres mil annos

de progresso. Não é uma experiencia; é um resultado.

Resultado de que? Do triplo movimento moral, politico e economico das

sociedades. Abraça o homem todo, e corresponde a uma nova concepção

systhematica (uma _affirmação synthetica_, como dizem os positivistas)

do Universo, da vida humana e das relações sociaes. Neste momento, a

evolução das doutrinas philosophicas, moraes e juridicas, da sciencia

economica, dos phenomenos politicos e dos phenomenos economicos,

converge para um ponto central. A esse ponto chamamos nós Socialismo,

não porque coincida (note-se bem isto) com este ou aquelle systema

dos que inventaram a palavra, mas simplesmente porque vem satisfazer a

aspiração commum a todos elles, que os produziu e de que eram meros

symptomas: de tal sorte que até com alguns desses systemas póde estar em

completa opposição o Socialismo positivo, como está, por exemplo, com o

Communismo.

Desta tripla evolução moral, politica e economica resultam tres grandes

conclusões. Da evolução no mundo moral resulta a autonomia absoluta da

consciencia humana, independente das pretendidas revelações

sobrenaturaes para descobrir a verdade e determinar a justiça;

independente de qualquer auctoridade, além da sua propria, para conhecer

e praticar a lei moral. Da evolução no mundo politico resulta a

concepção da liberdade como o unico agente organisador e director da

sociedade, com exclusão de qualquer principio anterior ou exterior ao

direito individual, de qualquer auctoridade que não seja a da propria

liberdade sobre si mesma. Da evolução no mundo economico resulta a

affirmação do trabalho como a base unica justa do valor, tendo por

consequencias, de um lado a egualdade dos trabalhadores perante o

capital, mero instrumento do trabalho e a elle sobordinado e garantido

pelo credito e a mutualidade, do outro lado a egualdade dos

trabalhadores entre si, pela divisão do trabalho, que os torna

solidarios e substitue á anarchia da concorrencia individual a

organisação das forças collectivas da producção--e tendo como

resultados, com a annullação dos privilegios capitalista e proprietario,

a consagração da propriedade e do capital individuaes, e a extincção

da lucta das duas classes actuaes, pela conversão de ambas numa unica de

trabalhadores eguaes e livres.

São estas as tres grandes conclusões, que desentranhando-se de um lento

progresso secular, começam a patentear-se no estado actual das doutrinas

e dos phenomenos moraes, politicos e economicos das sociedades

contemporaneas.

As phases desse progresso, isto é, o caminho seguido pela intelligencia

humana e pelos factos sociaes para chegarem a estas conclusões, é o que

o sr. Martins historía com muita lucidez e sciencia no seu livro, boa

metade do qual é consagrado a este trabalho de alta critica historica.

Eu é que, nos limites estreitos deste esboço nem poderei sequer indicar,

com alguns nomes, culminantes, os principaes marcos miliarios no caminho

deste jornadear da humanidade em busca dos seus proprios destinos. Mas

que magestosa _via crucis_!

Desde a doutrina da Graça, com S. Paulo e S. Agostinho, atravez dos

meandros da Escolastica, depois da inspirada philosophia da renascença e

da philosophia mais scientifica do seculo XVII, chega o espirito humano

a entrever com Vico e os encyclopedistas a doutrina emancipadora da

immanencia, que no seculo XIX formulou de um modo cada vez mais positivo

as escolas de Hegel, Feuerbach, Comte, Proudhon. Evolução paralela

seguem as doutrinas politicas: desde o _omnis potestas a Deo_ e a

_Civitas Dei_, atravez da politica theocratica de S. Thomaz e da

politica Cesarista de Dante, atravez do absolutismo da monarchia

civil de Savedra e Bodin e do despotismo naturalista de Machiavello e

Hobbes, vae o principio tradicional da auctoridade recuando cada vez

mais, com Grotius, Locke, Rousseau, Kant, depois com Fichte,

Rittinghaussen, Proudon, diante do principio racional e humano da

liberdade, até ser por elle absorvido, até só ficar de pé a consciencia

juridica do homem, tendo em si mesma a sua propria e absoluta sancção.

As doutrinas economicas, que só no seculo XVIII se desembaraçam das

politicas, galgam de um salto a distancia que vae da auctoridade

(proteccionismo) á liberdade, e pela bocca de Smith, Rossi, Bastiat,

Stuart Mill, proclamam esta ultima, completa, universal.

Ideas! theorias! sonhos! dirão alguns. Não! realidades, porque os factos

vão seguindo, par e passo o desenvolvimento das doutrinas. A

secularisação cada vez mais definida do estado e da sociedade; a

transformação das monarchias de direito divino em monarchias temperadas,

depois em democraticas, depois em republicas populares; os direitos

individuaes inscriptos nas constituições; a egualdade civil; a liberdade

da industria; o nivelamento constante das classes; a importancia

crescente do povo trabalhador e das questões do trabalho; o privilegio

capitalista que por toda a parte recúa, batido já nos seus ultimos

intrincheiramentos; o capital que se faz povo, que se faz multidão, e

vae já passando para as mãos do proletariado; um novo mundo economico

que emerge com força do antigo cahos social:--são factos e não utopias,

e esses factos trazem comsigo a sua lição, a sua doutrina. Não sois

vós, conservadores, que tendes por vós a tradição da humanidade, somos

nós revolucionarios, que temos, com o futuro, o passado por nosso lado,

o passado no que elle teve de melhor: a aspiração da liberdade, da

igualdade, da justiça.

Mas que immenso caminho andado! Eis-nos á porta de um mundo novo! novo e

todavia feito todo com elementos, que os tempos vieram lentamente

accumulando. Organisar esse mundo é a obra do socialismo. Não é de

destruição, essa obra; é de edificação e de consolidação. Não ameaça um

unico direito; define-os a todos e dá-lhes os seus justos logares. Numa

palavra se encerra o socialismo: organisação espontanea. Livre

organisação da industria, do trabalho, do credito, do capital, do

estado; federação juridica e economica, tudo pela liberdade e tudo para

a egualdade; ou como diz, com expressiva concisão, o sr. Oliveira

Martins "uma unica lei, o trabalho, e uma unica norma, a justiça"; eis

ahi como á luz da philosophia da historia se deve comprehender o

socialismo.

Oliveira Martins O critico litterario, o economista, o historiador, o publicista, o politico · 第 1 / 3 段