Pela avenida ampla, arborisada, chega-se á estação do caminho de
ferro, que nos fica á direita; está á vista o castello ennegrecido
e escalavrado, no seu morro severo destacando entre as collinas; o
caminho passa sob a via ferrea; passa a ponte do Rei, sobre o Sizandro;
vamos entre vinhas e arvoredos; agora a arcada do aqueducto; á direita
uma ermida antiga com umas construcções, ao lado um portão com seus
enfeites; era a albergaria de S. Gião, ou Julião. Lá se conservam
inscripções que nos dizem que os sapateiros da villa no anno de 1359
(era 1397), construiram o modesto albergue, cuja instituição se
incorporou na Misericordia em 1586. Os confrades de S. Gião ahi ouviam
missa aos domingos. Um respeitador de antiguidades renovou a inscripção
em 1849.
Pouco adiante, á esquerda da estrada, indo para os Cucos, existe uma
quinta de construcção vistosa, a quinta das Fontainhas, com seu terraço
e jardim, onde se lê um lettreiro, na parede occidental da casa, que
diz:
Sua Alteza Real
O sern.ᵐᵒ principe o sr. D. João
e a seren.ᵐᵃ princ.ᵃ
a sr. D. Carlota Joaquin
e o sr. infante D. Pedro Carlos
jantaram n’esta quinta
no dia 16 d’outubro
de 1797.
Este infante D. Pedro Carlos tinha então dez annos. D. Marianna
Victoria, filha de D. Maria I, casou com D. Gabriel, infante de
Hespanha. Deste casamento nasceu o infante de Hespanha D. Pedro
Carlos de Bragança e Bourbon, que foi almirante em Portugal. Nasceu
em Aranjuez em 18 de julho de 1787, e falleceu no Rio de Janeiro a 26
de maio de 1813. Este infante casou, no Rio, em 1810, com D. Maria
Thereza, princeza da Beira.
Os banhos dos Cucos são conhecidos de ha muito; a virtude singular
d’esta agua já em épocas remotas attrahia enfermos.
Ainda existem as casinholas onde se abrigavam os miseros banhistas.
Hoje as installações hydrotherapicas das thermas dos Cucos são boas,
feitas com largueza, direi mesmo com generosidade. O edificio das
thermas, a casa dos machinismos, o amplo casino, os dois grandes
chalets, e outras construcções, rodeiam um grande rocio ajardinado e
arborisado. A grande obra começou em novembro de 1890; em julho de
1892 já as thermas funccionavam, provisoriamente; em 15 de maio de
1893 realisou-se a inauguração. Todavia não está cumprido o programma
inicial, faltam chalets, e recreios para os banhistas, ou para as
pessoas de familia que acompanham os enfermos. O principal está feito,
e isto deve-se á coragem do opulento proprietario sr. José Gonçalves
Dias Neiva. Á coragem e á generosidade, porque me affirmaram que embora
a frequencia seja grande já, todavia nem 2% rende o capital alli
empregado.
Como o estabelecimento thermal fica a dois kilometros de Torres Vedras,
muitos banhistas ficam nos hoteis da villa, que são regulares, e em
algumas casas particulares.
A villa lucra com isto dezenas de contos annualmente, todavia nem o
municipio nem os habitantes se esforçam por tornar a villa aprazivel
aos seus hospedes; nem commodidade, nem distracções; nada que realce
a natural belleza d’aquelles sitios. Bem lindos são os arredores da
villa, convidando a pequenos passeios campestres, mas raras as estradas
que prestem, as de macadam cheias de poeira, as primitivas de barrancos
e pedregulhos. Uma das questões locaes é o abastecimento de aguas
potaveis; esta porém não importa muito aos banhistas, que quasi todos
consomem a agua dos Cucos. Eu não bebo d’outra; faz bem e é agradavel,
com o seu ligeiro sabôr salgado. Liga-se optimamente com o vinho. É uma
excellente agua de mesa que os sãos, não só os enfermos, tomam com
agrado. Melhoram o appetite e facilitam a digestão.
Esta agua, que tem o maravilhoso lithio, é _muito pura_ segundo a
analyse microbiologica, feita em 1904, pelo illustre chimico Carlos
Lepiérre.
Os pobresinhos teem tratamento gratuito nos Cucos; a poucos utilisa
esse beneficio porque nos Cucos não encontram albergue ou hospital.
Para isto me parece deveria olhar a Camara Municipal e a Misericordia
de Torres Vedras; proximo dos Cucos um albergue gratuito para pobres
seria um grande bem. E ainda outro de preço muito moderado, uma
hospedaria simples, a simplicidade não exclue o asseio e hygiene,
de alimentação singela e mobilia barata, onde os menos remediados
encontrem agasalho.
Parece facil, isto. Naquelle chanfro do terreno que liga a grande
varzea dos Cucos ao sitio dos pequenos tunneis do Caminho de ferro
seria facil construir modestos albergues, pequenas moradas de
construcção economica.
É generoso o coração do sr. Neiva, consideraveis os seus bens de
fortuna, e effectivo o seu altruismo, mas em emprezas destas é bom
interessar differentes entidades, para que se uma esmorecer, outras
continuem a obra, a util obra começada.
Encontrou o sr. Neiva um ajudante dedicado no dr. Justino Xavier da
Silva Freire, director medico das thermas. É um clinico sensato,
naturalmente lhano, muito accessivel, attencioso aos muitos enfermos.
Que longas narrativas das massadoras enfermidades elle escuta com
delicada paciencia, conseguindo extrahir das confusas exposições a
historia da doença, o fio do caso, os antecedentes do enfermo. Os seus
relatorios annuaes das thermas são muito instructivos e tão nitidamente
escriptos que qualquer cliente os comprehende, aproveitando com a
leitura.
As aguas dos Cucos são chloretadas, sodicas, bicarbonatadas,
sulfatadas, lithinicas, etc. Encontram os chimicos nellas o brometo de
sodio, o chloreto de sodio, os bicarbonatos de calcio, de estroncio, e
de manganez, o chloreto de magnesio. Pois esta complexidade toda produz
uma agua limpida, muito potavel, agradavel ao paladar. Mas o que lhe dá
virtude primacial é o chloreto de lithia que em 1:000 grammas entra por
0,0212.
É isto que torna esta agua preciosa para gottosos e rheumaticos. Faz
bem aos intestinos, e combate a obesidade.