A quinta está na branda encosta da serra da Achada. Esta serra e as
outras d’estes sitios são grandes collinas mais ou menos declivosas, de
100 a 150 metros d’altura sobre os valles que as separam. Ás vezes as
faldas das collinas alastram-se, desdobram-se em suaves encostas; em
pontos alargam-se os valles em varzeas ferteis. O monte coroado pelas
ruinas dramaticas do castello de Torres Vedras está rodeado de varzeas
amplas. Nos banhos dos Cucos a chan, onde estão os hoteis, o casino,
o jardim, o edificio das thermas, está cercada de montes de forte
declive, semelhando uma cratéra, quasi completa, rota apenas por breve
chanfro por onde passa o rio e a estrada que leva a Torres, e uma fraca
depressão, mais a sul, que vae ter ao caminho de ferro, na visinhança
dos pequenos tuneis. O terreno de quasi todas estas chans é de alluvião
moderna, feita pelo Sizandro. O solo em que assenta a parte baixa da
villa está hoje metro e meio mais alto que no seculo XVI, o que se
manifesta em antigas construcções muito soterradas.
As varzes são ferteis e bem cultivadas; nas vertentes agriculta-se
tambem, as vinhas ostentam-se viçosas; pinhaes forram grandes trechos
das collinas, apresentando arvores bem desenvolvidas.
E bom seria que mais semeassem ou plantassem; um pinhal é util e
agradavel, dá sombra e aroma hygienico; serve a lenha, a rama, a pinha;
a moderna medicina com muita razão recommenda o ar do pinhal, e, tem-se
visto nos ultimos annos, o córte de pinhaes para combustivel, para
construcção, para supportes de galerias mineiras, dá bom dinheiro.
Até parece que dá saude o aspecto de um pinheirinho verde, de fresco
avelludado, de perfume resinoso. Por isto pinheiro cortado, pinheiro
semeado, e quantos mais pinhaes melhor, por esses montes onde o sol, o
solo e a aragem se encarregam de o alimentar; se elle cresce que é um
encanto até nos areaes da beira-mar onde a rajada do oceano chega a ser
um açoute; porque o bom pinho formoso e hygienico não exige cuidados
de cultura.
Por entre pinhaes mesclados de algumas vinhas e outras culturas segue
a estrada de Torres para as Lapas; a principio do caminho rompe o
bucolismo da paisagem a massa alvacenta da villa, e o seu outeiro
escuro encimado pelas velhas muralhas do castello, os altos muros
negros da sua alcaçova ou palacio, em tragica derrocada. Faz impressão
aquella ruina; suggere tempos idos, historias mui velhas.
* * * * *
Torres mais antiga, já condado,
Por turdulos se crê ser erigida,
Por dote das rainhas, é morgado,
E de muitas já foi favorecida,
O Beato Gonçalo lá enterrado
Por milagres a faz ser mais luzida,
Assim como João a decorou
Nas côrtes que já nella celebrou.
Como diz o bom e patriota Silveira no _Côro das Musas_.
Passa uma curva da estrada, e deixa-se de avistar casaria nova e
muralhas velhas; segue o caminho na verde paisagem campesina.
A estrada é boa, pouco frequentada, com aspectos variados, dominando o
verde pinhal. De subito uma casaria branca de aldeia, uma egreja, e
na encosta o palacio, bem ao sol, com as suas dependencias, os seus
jardins, pomares, vinhas e matta de arvoredo alto.
Vê-se uma capella de boa construcção e logo uma entrada monumental, de
ampla arcada; entra-se no terreiro; a um e outro lado edificações que
são dependencias do palacio, na frente a fidalga residencia com larga
escadaria e desafogada varanda. Todavia dá logo a impressão de edificio
incompleto.
Á monumental entrada, á elegante escada não corresponde o edificio
nobre que parece acanhado e por acabar. Houve alteração no plano,
com certeza. A fachada que deita para o jardim é mais harmonica; a
mansarda, os frisos azulejados dão-lhe graça.
O palacio, dizem, foi erguido pelo primeiro marquez de Alegrete,
Manuel Telles da Silva, conde de Villar Maior. Foi feito marquez
por D. Pedro II em 1687 (v. _Diario de Noticias,_ de 17 de junho de
1902). Provavelmente foi começado, houve demorada construcção, soffreu
alterações; a mansarda será do meio do seculo XVIII; é possivel que a
escadaria seja da época de D. João V. Para admirar seria que nesses
tempos um Telles da Silva, em poucos annos, observando um só plano,
conseguisse erguer um palacio, chamados, como eram, os principaes
da illustre familia, para altos cargos no reino, no ultramar e no
estrangeiro.
Existe na matta uma capella, incompleta, dedicada a Santo André Avelino
pelo conde de Tarouca, Fernando Telles da Silva, em 1778. E ha, noutro
ponto da matta, uma ermida rustica, com seu alpendre, um pouco mais
antiga.
No jardim alegretes e assentos são azulejados, representando scenas de
caçadas.
As salas teem tectos de madeira e rodapé alto de azulejos, como as do
palacio do Correio-Mór, perto de Loures, e as do casal do Falcão, perto
de Carnide, agora felizmente restaurado, segundo ouvi dizer, sob a
direcção do conhecido e estimado architecto sr. Raul Lino.
Nos jardins vi magnificas hortenses e na matta ulmeiros, pinheiros
mansos, seculares medronheiros, sobreiros veneraveis. O meu amavel guia
disse-me os nomes de algumas arvores, conservados na tradição familiar;
o mais antigo é o sobreiro dos quatro irmãos, assim chamado porque a
pouca distancia do solo o tronco se divide em quatro pernadas reaes,
cada uma d’ellas como uma grande arvore.
Ha uma fonte de agua ferrea na matta, e outra numa alameda de ulmeiros,
com um grupo em marmore, veado filado por um rafeiro; no outro extremo
d’essa alameda deliciosa fica o jogo da bola.
Essas salas de grande pé direito, de chão ladrilhado, de lambris de
azulejo, e tectos de madeira, conservando o ar antigo, não estão
vasias ou despidas. Estas, felizmente, teem muito que vêr e respeitar.
Vi moveis antigos, cadeiras d’espaldar com os brazões de familia,
grandes leitos de pau preto, com torcidos e lavores.
Os donos da casa fizeram abrir armarios e eu vi desfilar pratas antigas
marcadas; ceramicas e crystaes, porcellanas de Sèvres, de Saxe, da
India e Japão, de verdade e alto valor. Vi um copo de crystal lapidado
com uma vista de Santarem, pintada no crystal, bem interessante: e
um dragão de prata, perfumador enorme, trabalho pouco visto, que me
disseram ser feito em Moçambique.
Nas paredes retratos de pessoas de familia, e que familia! esta dos
Telles da Silva! É vêr ahi nas genealogias as séries de paginas com
descendencias e arvores de costado mais frondosas que o sobreiro dos
quatro irmãos. Até o venerando D. Manuel Caetano de Sousa escreveu uma
obra em dois volumes (Bibliotheca Nacional de Lisboa. Manuscriptos,
fundo antigo, C-3-16 e 17. N.ᵒˢ 1048-49), a respeito d’esta familia
com o seguinte titulo bem curioso.--_Corôa genealogica, historica e
panegirica da Excellentissima Casa de Tarouca formada do purissimo ouro
dos Silvas, illustrada com a esplendidissima pedraria dos Menezes,
adornada com as augustissimas flores da Magestade, fechada com
elevados semi diademas da Heroicidade, terminada na altissima esphera
da Soberania, consagrada com a sempre venerada cruz da Santidade,
dedicada ao ex.ᵐᵒ sr. D. Estevão de Menezes filho primogenito dos
ex.ᵐᵒˢ srs. condes de Tarouca João Gomes da Silva e D. Joanna Rosa de
Menezes--._
Pertence effectivamente a esta familia o celebre Beato Amadeu que tão
grande fama conquistou na Italia.
Que singular encanto o de ouvir a dona da casa explicando alguns
retratos de familia! Que consolação, neste paiz de gente estragada,
encontrar um ninho conservado! Que rara impressão no conjuncto,
milagroso entre nós, de tantas recordações e tradições, vivas, na
mente, na linha, nas feições, na voz da herdeira lidima!
A um marquez de Penalva dizia o Tolentino:
Hontem soube o que podia
Estilo suave e brando
E quanto podeis fallando
Eu o vi na Academia
Nas almas fogo acendia
Vossa discreta oração,
Sobre a minha pretenção
Vos peço que assim oreis,
E que ao principe falleis
Como fallaes á nação.
Pois ainda está representado na familia o estylo suave e a discreta
oração, louvados pelo poeta.
Poetas houve tambem nesta familia; poetas e eruditos, homens de
guerra e de diplomacia; na Bibliotheca Lusitana estão inscriptos os
notaveis nas lettras e sciencias. Por estas salas, jardins e bosques
passearam academicos, não faltam sitios para tranquilla meditação. E
no bello terreiro desafogado com certeza se trabalhou na nobre arte da
cavallaria; talvez se corressem touros e jogassem cannas; houve tambem
na familia cavalleiros notaveis, mestres reconhecidos na equitação,
tratadistas na especialidade.
Porque se chama quinta das Lapas? Ha por aqui algumas lapas, grutas,
cavernas? Parece que houve lapas a que se attribuiam lendas de
mouros. Perto de casa ha uma vinha, um grupo de pinheiros mansos, uma
elevação de terreno de poucos metros de altura; ahi umas cavidades
consideraveis. Parece que em tempos alguem fez excavações; acharam
cacos, louças partidas. Tudo se extraviou.
Seria uma mamunha? Um d’aquelles tumulos prehistoricos, em que as
sepulturas eram cobertas por um monticulo artificial? Não sei, o que
hoje se vê pouco significa.
Numa construcção ou pavilhão de fresco perto do jardim fui encontrar
no embrechado que reveste as paredes interiores alguns exemplares de
contas vitreas coloridas de fabrico egual ao das contas de Chellas, da
capella (desapparecida) das Albertas, e da cascata da Quinta do Meio.
Aqui tambem estas singulares contas são acompanhadas de cylindros,
discos, etc., de vidro escuro. Continúa para mim a ser um problema a
proveniencia de taes objectos.