Esta formosa cidade de Lisboa tem sido victima dos terremotos;
impossivel calcular o trabalho perdido, a extensão e a intensidade de
tanta ruina.
Em certos pontos da cidade a camada de entulhos, caliças, fragmentos de
tijolos, é de 3 a 4 metros; pela abertura de cabôcos, e installação de
canalisações, e muito se tem escavado nos ultimos annos por todos os
arruamentos, descobrem-se na baixa, no Rocio, por exemplo, trechos de
canos antigos abandonados e sobrepostos, ainda a profundidade maior.
De tremores muito antigos, e dos da alta idade média ha tradições.
O de 24 d’agosto de 1356 destruiu parte da Sé, e causou enorme
devastação na cidade.
Em janeiro de 1531 houve terremotos a seguir, sendo maior e mais
destruidor o de 26 d’esse mez.
O de 28 de janeiro de 1551 derribou muitos predios.
Em 27 de julho de 1597 uma parte do monte de Santa Catharina escorregou
para o rio, ficando aquelle alteroso monte dividido em dois, Chagas e
Santa Catharina; tres arruamentos desappareceram por completo.
Em 1755 a cidade estava maior, mais povoada; o terremoto de 1 de
novembro fez muitas victimas, grande parte da cidade ficou arrasada, e
o incendio causou incalculavel prejuizo.
Mencionam-se terremotos em 1598, 1699, 1724, fortes mas sem causar
grande damno; os abalos de 1761, 1796, 1807; o de 11 de novembro
de 1858 muito sensivel, em Setubal foi destruidor, matando gente e
derribando casas.
O sr. Paulo Choffat tem trabalhos publicados sobre os ultimos abalos de
terra sentidos na capital.
É certo que Lisboa está n’uma zona perigosa; devemos reparar n’isto.
Nada de concentrar tudo em Lisboa, guardem-se algumas cousas em sitios
mais garantidos.
E todavia ha aqui consideraveis construcções que atravessaram no
seu logar e prumo essas medonhas convulsões; por exemplo uma parte
consideravel das muralhas do Castello, Santa Luzia e a sua muralha, as
capellas orientaes do Carmo, os arcos do Borratem, a casa dos Bicos, a
frontaria da Conceição Velha; bastantes edificios anteriores ao abalo
de 1755 estão de pé; alguns palacios aguentaram as suas linhas, e o
labyrintho das viellas de Alfama conserva a planta medieval.
Mas basta olhar as paredes mais antigas do Carmo e da Sé para perceber
pedras de anteriores construcções, fragmentos de lettreiros e lavores,
empregados na enxilharia ordinaria. Na vetusta parede norte da Sé ha
pedras mettidas no muro que mostram lavor bysantino. No Carmo bocados
de campas com lettreiros em gothico, em diversos pontos do edificio,
estão empregados como pedra vulgar de construcção. É raro encontrar nos
arrabaldes de Lisboa pedras de antigo lavor, da idade média, do ogival,
mesmo da primeira renascença no seu logar; Odivellas é uma excepção,
assim como o casal da Quintan com o seu muro de ameias. É preciso ir
a Cintra, a Torres Vedras, a Santarem para vêr algo antigo de certa
importancia.
Na ultima folha de pergaminho do codice n.ᵒ 61 da collecção alcobacense
da Bibliotheca Nacional de Lisboa um monge deixou noticia do grande
abalo de 24 de agosto da era de Cesar 1394 (1356); fez grandes estragos
prostrando castellos e torres em muitos pontos do paiz; em Alcobaça a
egreja soffreu muito, no mosteiro houve ruinas, e cahiram muralhas do
castello. Foi ao pôr do sol.
Outro monge na mesma pagina escreveu a memoria do terremoto de janeiro
de 1531; por mais de 15 dias sentiram tremer a terra; mas no dia 26,
antes do nascer do sol, foi o grande tremor; conta que em Lisboa houve
grande estrago; no mosteiro houve muita ruina, não escapando a parte
superior do claustro.
* * * * *
O abalo de terra de 1755 foi violentissimo, mas escriptores e artistas
ainda lhe augmentam as culpas. Este terremoto e a invasão dos francezes
são motivos fundamentaes para explicar o desapparecimento de muita
cousa, uma rica mina para encobrir o desleixo, a estupidez, a mania de
estragar que é muito da raça portugueza.
No tomo 3.ᵒ da==_Collecçam Universal de todas as obras que tem sahido
ao publico sobre os effeitos que cauzou o terramoto nos reinos de
Portugal e Castella no primeiro de novembro de 1755_ (Bibl. Nac. de
Lisboa, Gabinete de livros reservados), ha alguns opusculos de polemica
sobre a grandeza da tremenda catastrophe: ==_Carta em que hum amigo dá
noticia a outro do lamentavel successo de Lisboa_==Está assignada por
José de Oliveira Trovão e Sousa (1755).
==_Resposta á carta de José de Oliveira Trovam e Sousa em que se dá
noticia do lamentavel sucesso de Lisboa._ É de 1756; assignada por
Antonio dos Remedios.
==_Verdade vindicada ou resposta a huma carta escrita de Coimbra._ Por
José Acursio de Tavares (Lisboa, 1756). De taes escriptos conclue-se
que o terremoto destruiu bem a terça parte de Lisboa e que o incendio
que se lhe seguiu foi terrivelmente devastador; mas fóra da area de
grande intensidade do abalo, e além do espaço que o fogo alcançou,
muitos predios, bastantes palacios, grandes arruamentos ficaram salvos;
agora é bem raro encontrar uma frontaria, uma janella, uma grade de
varanda anterior ao terremoto. No final do seculo XVIII e no seculo
XIX a transformação foi completa; basta a vulgarisação da vidraça e
o desapparecimento da rotula para modificar o aspecto da cidade. Em
povoações onde o terremoto não foi tão destruidor, apenas se sentiu,
a transformação foi analoga. É que na verdade o portuguez é bem
fraco conservador. Aqui pelos arrabaldes de Lisboa direi mesmo que é
destruidor. Por isto eu dou toda a attenção ao que me parece antigo, me
demoro com o anterior ao seculo XVIII, e quasi pasmo quando me surge um
fragmento do seculo XVI.
Folheando qualquer _Illustração_ estrangeira se vê o carinho, o amor
com que em paizes muito mais atormentados que o nosso se guardam
antigos edificios, casas particulares de aspecto artistico, objectos de
uso vulgar consagrados pela idade, qualquer cousa que seja documento
do antigo viver. Os terremotos são damninhos, mas a indifferença, o
desleixo, a ignorancia são grandes causas de destruição.
* * * * *
Este caminho entre varzeas ferteis, arvoredos mansos, collinas de
grandes curvas com terras de semeadura e verdes pinhaes, por onde
vamos encontrando gente do campo, scenas da vida popular, é a via
tragica na historia de Portugal, brados de victoria e rumores de
desespero, marchas de tropas em dias de lucta, por aqui passaram entre
estas paisagens que só lembram agora frescas aguarellas; patuleias e
cartistas; miguelistas e pedristas, columnas de Junot e de Wellington;
castelhanos que vieram cercar Lisboa, portuguezes voltando de
Aljubarrota; e provavelmente cavalleiros de Affonso Henriques, e dos
mouros, dos godos e dos romanos; porque é esta a estrada que leva a
Lisboa, a antiga e nobre cidade, o grande porto maritimo.
Na ida para o Correio-Mór, perto da Povoa de Santo Adrião, reparei em
certa pedra lavrada de aspecto raro; na volta parei e fui vê-la; é
_Uma ara romana._
Ha um poço coberto, encravado no muro, a poucos metros da estrada;
sobre um pequeno arco um nicho com a imagem de S. Pedro; perto um
poial, alto, e no chão uma pedra lavrada, com funda cavidade. É um
parallelepipedo de oito decimetros de comprido, por tres de altura,
proximamente, de pedra vidraço; um cordão de forte relevo divide os
lados em duas fachas; na superior um lavor geometrico, curvas em grega
torneando saliencias circulares; na facha inferior quatro rosas entre
curvas symetricas. Creio que é uma ara romana. Salvou-se junto da fonte
d’agua com virtude, guardada pela tradição. Por aquelles sitios teem
apparecido antiguidades romanas, ainda que são muito menos numerosas
as inscripções que nos arredores de Cintra. Como esta pedra lavrada
atravessou intacta tantos seculos, n’este paiz de estragados!
* * * * *
--Versos novos?!
--Umas liras! diga já, frei Simão!
Estavam no jardim, na meia laranja da cascata, á sombra do platano
alteroso. Linda manhã de junho. Era o dia anniversario da senhora
morgada; visitas de Lisboa animavam o palacio. A missa tinha sido
ás 7, e o almoço terminára ás 9. Alguns dos senhores partiram para a
tapada, outros para o picadeiro vêr os dois cavallos novos que o conde
trouxera de Sevilha.
O apparecimento de frei Simão, frade jeronymo, que viera de Belem em
ruidosa e balouçante caleça, foi saudado com alvoroço; o frade tinha
sempre a contar anecdotas facetas, algumas muito repetidas mas que
elle contava com certa graça, e noticias da gente palaciana, sempre
saboreadas com delicia.
Frei Simão avançou devagar, até perto da morgada, muito serio, fez uma
cortezia reverendissima, e recitou o soneto de parabens pelo feliz
anniversario; era composição nova; vinha escripto em primorosa lettra
num papel, com sua inicial floreada, enrolado e atado com fita de seda
branca.
Depois deixando o tom ceremonioso, pondo-se muito risonho, annunciou os
versos novos, umas _sonóras_, não umas _liras_...
--Diga, diga.
--É a segunda vez que as leio...
--E nós a julgarmos que tinhamos a primicia...
--A primeira vez só uma pessoa, alta pessoa, as ouviu. Por isto posso
dizer a primicia.
--Quem seria a alta pessoa?
--Eu digo, senhora morgada; foi el-rei que Deus Guarde.
--Bravo! foi ao Paço? teve audiencia?
--Foi na rua, antes na estrada. El-rei viu-me passando pela estrada de
Pedrouços; mandou parar o coche. E bradou-me:
--Então, oh! Santa Catharina, fizeste a resenha?
--Sim, meu senhor, e está em verso; ia levá-la a Vossa Real Magestade.
--Não precisas ir mais longe; dize lá.
Acheguei-me á porta do coche e li os versos. Eu já me sentia acanhado
porque a lira é comprida, e o coche ali parado na estrada. Mas el-rei
D. João V gosta de versos jocosos; não imaginam como elle ria.
--E como soube elle que Vossa Reverencia fizera a lira?
--Ora, foi assim. Em Belem, no nosso mosteiro, pela festa de S.
Jeronymo, costuma haver lauto jantar, com convidados; ao jantar da
casa, jantar de festa, juntam-se muitos presentes; enche-se o grande
refeitorio; o d’este anno foi estrondoso. El-rei soube e encontrando-me
ha dias em palacio, disse-me para lhe fazer a noticia dos pratos; e eu
puz a lista em verso; fiz a lira!
--Diga, diga.
--Eu começo; frei Simão de Santa Catharina collocou-se em frente das
damas; limpou lentamente a fronte, a bocca e o nariz com o lenço
cheiroso a agua de rosas.
_Monarcha Soberano
Pois Vossa Magestade assim me ordena
O jantar deshumano
Irá cantando a Musa pouco amena
E em ser só se verá que foi diverso
No refeitorio em prosa e aqui em verso._
A lira vae descrevendo o grande refeitorio, o adorno das janellas
com estatuas, festões, grinaldas de flores naturaes, os aparadores
carregados de pratas, o chão atapetado de flores.
_Estava o refeitorio num brinco._
Em cada logar da vasta meza havia os _appetites_, as pequenas iguarias,
com seus adornos.
_Cobria o cuvilhete
um papel retalhado, com acerto
que inda que pequenete
como grande queria estar coberto.
Na marmelada vinha, guaposito
guarnecido de flores um palito.
Em cada assento havia
garfo, faca, colher e guardanapo
dois pães, com bizarria
melancia excellente, melão guapo
figos, uvas, limões, pecegos, peras
sem graça, o cesto enchiam, mui devéras.
A ilharga da salceira
um bom tassenho de presunto havia
tão magro e tão lazeira
que a mim me pareceu ser porcaria
tambem tinha azeitonas e alguem disse
que foram d’Elvas._
Estes eram os appetites que adornavam os logares dos commensaes. Agora
os pratos.
_Foi o primeiro prato uma tijella
cheia em demazia
de caldo de gallinha com canella
que da gallinha trouxe a propriedade
porque o caldo tinha ovo na verdade.
Foi o segundo prato
uma bem feita sopa á portuguesa
que dava de barato
O filis e o primor que ha na franceza._
* * * * *
_Por algum grão delito
foram muitos perús esquartejados
uns vêm com sambenito
outros vinham sómente afogueados._
* * * * *
_Outro prato de assado
que era lombo de vacca mui tenrinho.
Comia afadigado
outro leigo mui gordo meu visinho
rollos e pombos ensopados._
Seguiram-se as frigideiras com linguas e miolos. Os coristas que
serviam á meza eram muitos e andavam lestos. Appareceram as _empanadas
inglezas_; tinham:
_Ade, perdiz, gallinha, frangalhada
E disto vinha a olha enchouriçada.
Apoz isto algumas doze tortas._
* * * * *
_Cinco ou seis pratos de ovos
De pão de ló por dentro recheados
Outros mal entrouxados
Outros ovos tambem com corôa regia
De almojavanas conto
A duas mui grandes por cabeça
Em assucar em ponto._
Depois d’isto _empada de vitella_ e _arroz doce_.
_Sinceramente disse aqui a verdade
Falta o perdão de Vossa Magestade._
Vem agora a nota no amarellado papel que estou seguindo:
--_Indo levar o papel a Pedrouços se encontrou el-rei que mandou parar
o coche e parado ouviu ler todo o papel com muito agrado._
Mas frei Simão de Santa Catharina esqueceu-se de uma cousa, e o padre
geral quando viu o papel reparou logo, e zangou-se; obrigou o frade a
fabricar mais versos e a levar o supplemento a el-rei.
_O caso é que na salceira
me esqueceu de meio a meio,
com o presunto e azeitonas
pôr um pedaço de queijo._
* * * * *
_Pois vá, faça outros, e ponha
(me disse o Geral severo)
que não quero que diga el-rei
que não dei queijo framengo._
_Saiba Vossa Magestade
que tambem queijo tivemos
noviços e sacerdotes
coristas e frades leigos._
A _lira_ de frei Simão Antonio de Santa Catharina foi muito gabada e
applaudida.
--É uma delicia!
--Um verdadeiro appetite, faz vontade de comer.
--Diga outra vez, e muitas damas insistiam no pedido. Mas a condessa
observou:
--Tenham caridade, isso é incommodo para Sua Reverencia. Ainda se não
lembraram de mandar vir um refresco.
Veiu logo um creado com bandeja de prata com bolos e marmellada de
Odivellas; outro creado com licor de tangerina e canella, e um copo de
limonada. Voltaram os senhores, fez-se grande roda, e entre risos e
_ós_ admirativos repetiu-se a leitura dos versos.
--Percebe-se logo que frei Simão é um academico.
--E de varias academias.
--Da Anonyma sei eu, por ser lá meu confrade.
--E da Portugueza.
--E da Escholastica.
--É verdade, frei Simão, deve saber, ora se sabe, houve eleição renhida
em Odivellas; muita gente, e da mais alta se interessou na eleição da
nova abbadessa.
O frade contou o que sabia dos bilhetes, dos pedidos, das ordens, das
promessas ás freiras eleitoras; foi uma bulha que durou mezes.
--E não fez versos ao caso?
--Isso merecia liras e sonóras.
--É verdade que fiz, não nego e a prova é esta; aqui está a sonóra; e
do largo bolso tirou um papel.
--Leia! leia!
--Vou começar.
Os enredos, as bulhas, as trapaças
Os enganos, os medos, os temores
Os ardis, as astucias, as negaças
Os agrados, os risos, os amores;
As trombas, os focinhos, as caraças
As furias, os raivassos, e os rancores
Que houve em certa eleição com forte espanto
Darão materia a nunca ouvido canto.
E segue a sonóra n’este tom, narrando os episodios da eleição da
abbadessa, no então revoltoso convento de Odivellas, ninho de
endiabradas freiras. Este frei Simão tem muitas peças poeticas algumas
muito aproveitaveis para o conhecimento de minucias e particularidades
da época.
* * * * *
Dias depois de um passeio a Loures e á quinta do Correio-Mór,
appareceu-me um cavalheiro d’aquelles sitios, com quem eu cavaqueara,
e apresentou-me uma porção de papeis velhos, manuscriptos, que me
disse ter encontrado havia annos n’um gavetão da copa monumental do
palacio. Percorri os papeis; pouco achei de curioso ou interessante.
Entre elles vinham poesias do seculo XVIII, alguns sonetos de
anniversarios, dirigidos a pessoas da familia Matta; e uma descripção
de lauto banquete no mosteiro dos Jeronymos de Belem, que me pareceu
bom documento da época, e singular peça poetica. Por isto a transcrevo
em parte. Nos papeis não encontrei nome do auctor. Depois achei n’um
cancioneiro a mesma poesia attribuida a frei Simão Antonio de Santa
Catharina, e até com a mesma nota pittoresca de ter sido lida a el-rei
D. João V, na estrada de Pedrouços.