Lumiar. Quinta do Sr. Duque de Palmella

Esta egreja de S. João Baptista do Lumiar é freguezia muito antiga.

A disposição do templo mostra a sua remota fundação, grandiosa, em tres

naves; mas as reconstrucções e concertos deram-lhe um aspecto moderno.

Consta que foi esta egreja fundada em 1267. Eram padroeiras as freiras

de Odivellas, por doação de D. Thereza Martins, viuva de D. Affonso

Sanches, filho bastardo d’el-rei D. Diniz.

Não pára aqui a historia. D. Affonso III possuia aqui uma casa de campo

com sua quinta; esta propriedade pertenceu depois a D. Diniz.

Em terreno da quinta foi edificada a egreja. A posse passou ao bastardo

de D. Diniz, o infante D. Affonso Sanches, e então se chamou á casa de

campo o Paço de Affonso Sanches.

Este entrou nas luctas d’aquella época atormentada, os bens foram-lhe

confiscados, e D. Affonso IV, o irmão, chamou-lhe o Paço do Lumiar.

Mais tarde a propriedade deixou de pertencer á corôa, mas conservou

sempre o nome de Paço do Lumiar; por alli se ergueram casas, fez-se

povoação, e ao fim d’ella uma ermida dedicada a S. Sebastião.

O marquez de Angeja, D. Francisco de Noronha, em fins do seculo _XVIII_

edificou o actual palacio, hoje pertencente á Casa Palmella.

O duque de Palmella, D. Pedro, homem de espirito cultissimo e fino

gosto, gostava immenso da sua quinta, augmentou-a com a que pertencera

á casa dos marquezes de Olhão, depois ao conde da Povoa, e algumas de

menor importancia, e assim formou a grandiosa quinta actual, com o

seu palacio, e grande pavilhão, jardins, estufas, avenidas de grandes

arvoredos, obras de arte de merecimento.

Sendo de forte declive o terreno da quinta tiveram de fazer grandes

socalcos, sustentados por fortissimas muralhas o que dá effeitos

raros, perspectivas inesperadas a edificios e arvoredos. Ha ahi bellos

exemplares vegetaes, a Araucaria excelsa é a primeira plantada em

Portugal, o dragoeiro, ainda que um pouco mutilado é bello exemplar,

a Araucaria brasileira compara-se á celebre do jardim botanico de

Coimbra; cedros, platanos, e ulmeiros seculares alastram fechadas

sombras. Nesta quinta se deram luzidas festas no tempo do 1.ᵒ duque, e

aqui se guarda, bem ordenada e conservada, a grande e preciosa livraria

Palmella.

Mas dos tempos de Affonso Sanches, de Diniz? Nada, nem vestigio; nem

uma pedra toscamente lavrada, ou singelo lettreiro, nada recorda esses

tempos antigos.

Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa · 第 42 / 72 题