Foi Luiz Gomes da Matta o instituidor do vinculo ou morgado da quinta
da Matta, não me parece todavia que elle fizesse o grande palacio. Seu
filho e successor Antonio Gomes da Matta fez grande testamento que por
quaesquer questões foi impresso:==Testamento que fez Antonio Gomes
da Matta, correyo mór que foi deste Reyno de Portugal. Lisboa, off.
Craesbeeckiana, 1652, in-4.ᵒ, 136 pag.==
A pag. 62 do testamento, mencionando varias propriedades, diz
simplesmente==quinta da Matta com suas terras e azenha e mais pertenças
propriedade que Luiz Gomes da Matta, meu pae, deixou vinculada.==
E nada mais; não falla do palacio, das obras d’arte, etc.; quando é
minucioso relativamente a outras cousas menores.
É testamento interessante; o testador era homem piedoso, devoto, muito
rico.
Possuia grandes predios em Lisboa, quintas na Luz, em Loures, em
Almada, grandes herdades no Alemtejo, no termo de Elvas. Grande
capitalista, emprestava dinheiro sobre penhores.
A sua casa de morada em Lisboa estava posta com fausto; menciona os
pannos de raz, e brocateis que forravam as paredes das salas; tinha
joias de grande valor, e enorme quantidade de pratas.
Fazia festas religiosas; dava cera, azeite, dinheiro para muitas
imagens; no testamento contempla dezenas de corporações religiosas, de
parentes, de creados, e de empregados do correio, amigos e compadres.
Mas não falla de grande residencia na Matta. Por esta razão, e pelo
edificio que vejo agora, creio que o palacio actual foi erguido em
tempo de D. João V, soffrendo algumas modificações em época mais
recente.
Mas temos em Volkmar Machado um dado importante; ao tratar do conhecido
pintor José da Costa Negreiros, conta que foi discipulo do famoso André
Gonçalves==cujo estylo seguia com mais sisudeza mas com menos agrado==,
e que fez alguns tectos em Loures, na quinta do Correio-Mór.
Negreiros morreu em 1759.
É possivel que as pinturas da sala dos Apostolos sejam, em parte, de
Negreiros; outras serão de seus discipulos Bruno José do Valle, ou
Simão Baptista; mas as decorações de outras salas, e especialmente os
grandes trabalhos a estuque, devem ser da segunda metade, adiantada, do
seculo XVIII, pois que a furia da decoração a estuque foi posterior ao
terremoto de 1755.