De Bemfica á quinta do Correio-Mór

(1905)

Sabe bem de vez em quando uma excursão fóra das estradas mui trilhadas,

longe de caminhos de ferro e de electricos. Pelo meio dia cheguei a

Bemfica, á cocheira do largo da Cruz da Era. Cocheira pacata, bom

serviço e preço modico; arranjou-se um carrinho; e seguimos pela

estrada do Poço do Chão, muito socegada, entre muros de quintas, sebes

de caniços, e filas de oliveiras. Passa a quinta da Granja, a da

Condessa de Carnide, a do Sarmento ou Bom Nome; deixa-se á esquerda

a estrada da Correia; agora o antigo chafariz e o moderno lavadouro,

ambos sem agua. Á nossa esquerda fica a egreja parochial de S. Lourenço

de Carnide, muito caiada, veneravel pela sua idade; estamos no Alto do

Poço, de linda vista campestre. Estes sitios de Carnide e Luz são dos

melhores dos arrabaldes da capital, mas infelizmente os senhores da

governança não lhes teem dado attenção. Muitas vezes nem agua teem os

pacificos e modestos moradores. A hygiene, a limpeza publica é quasi

nulla. Facilidade de communicações não existe. Emfim carencia completa

de melhoramentos municipaes. Bons ares e contentem-se. Eis agora a

egreja da Luz, isto é, a monumental capella-mór e cruzeiro, porque o

corpo da egreja arruinou-se pelo terremoto de 1755.

Mas o que resta pela sua architectura e decoração, principalmente pelas

pinturas, é uma joia, essa fundação da inclita infanta D. Maria. Á

nossa direita o grande edificio do Collegio Militar. Estamos no amplo

largo da Luz, com suas alamedas que mereciam mais attenção e cuidado;

a nascente o grande palacio e quinta de Oliveira, vistosa construcção,

e entramos na estrada do Paço do Lumiar. Ha um lanço entre muros e

vallados, logo a estrada alarga: boas vivendas antigas e modernas.

Um modesto terreiro; a meio a egreja ou antes ermida de S. Sebastião

com o seu portal manuelino. Na visinhança boas casas á antiga, a da

quinta do Paço por exemplo. Segue a muito nomeada quinta do sr. duque

de Palmella, principesca vivenda com seus jardins em socalcos, fontes

e lagos, arvoredos antigos, raros exemplares botanicos, e grande

residencia. Fica-nos á direita a egreja parochial de S. João Baptista

do Lumiar, de fundação muito remota. Passa a rua do Prior, a calçada de

Carriche e estamos no campo. Estrada larga, aqui em bom estado, ali em

máo, já uma cova, agora um pedregulho, como todas as estradas do paiz,

onde todos querem estradas e ninguem trata de as conservar. Que eu

tenho grande esperança nos automoveis; os excursionistas de automovel

tanto hão de soffrer e gastar que levantarão celeuma provocando

reparações indispensaveis.

Em alguns pontos a estrada está bem arborisada. Estamos na Povoa

de Santo Adrião: reparei em certo nicho e poço que vi á direita, e

numa pedra lavrada; logo fiz tenção de parar á volta para exame mais

demorado. Dilata-se a varzea de Friellas, bom torrão fecundo. O saloio

é bom agricultor, eximio no hortejo. Aqui, além de trigo e milho,

ha grande cultura de batata e ainda mais da hygienica cebola. Pelos

telhados amarellecem enfileiradas as corpulentas aboboras machadas.

Avisto algumas casas boas, antigas, agora em ruina.

Evidentemente por estes sitios em tempos idos residiram pessoas

abastadas; agora quem tem meios vae para a cidade para gosar e não

trabalhar, nem vigiar. Estamos em Loures, eis a egreja matriz, grande

templo, de fundação mui velha e reconstrucção moderna; contiguo o

antigo cemiterio num abandono vergonhoso, servindo para estendal de

roupas. Mais um pouco de estrada e topa-se á esquerda uma avenida bem

tratada, recatada, com suas filas de oliveiras; entramos na quinta do

Correio-Mór. Ainda uns minutos e chega-se a um portico monumental,

elegante e bem construido, encimado pelo brasão dos _Mattas_, e

entramos em bello páteo, frente e alas do palacio formando os tres

lados.

O palacio está em fundo valle apertado entre altos montes vestidos

de arvoredos e vinhas até meia encosta; a região inferior povoada de

laranjaes, agora um pouco doentes, e de hortejo viçoso. Provavelmente

edificaram o palacio naquelle covão por causa das aguas; e de facto

ha agua corrente em muitos pontos da grande residencia. Um vestibulo

amplissimo; começa a escadaria larga, suave, magistralmente construida;

no primeiro patamar uma fonte artistica, grande taça de um só bloco de

marmore, estatuas, e um lindo medalhão com busto, talvez do _Matta_

fundador do palacio. Está bem conservado o edificio; repararam ainda ha

poucos annos os telhados; não chove agora nas salas; mas antes houve

abandono e perderam-se ou estragaram-se alguns trabalhos preciosos.

No Correio-Mór a construcção é boa a valer, a architectura é elegante;

mas ha ainda a notar nos grandes salões, nas salas e gabinetes, a

variedade e o gosto da ornamentação.

Empregaram-se ali artistas de primeira ordem no seu tempo. Houve

todavia alguns concertos e enxertos de máo gosto e inferior qualidade.

As salas da musica, da dança, a dos apostolos, a capella, o grande

salão de jantar, teem azulejos, estuques, pinturas, e obras de talha

de merecimento. A cosinha é monumental, com as suas chaminés, pias

de lavagem, grandes mesas de marmore, e azulejos decorativos muito

especiaes. O conjuncto é uma raridade. No jardim tambem ha obras de

arte, e o enorme tanque da horta, com sua guarnição de azulejos, merece

ser visto.

Este palacio tem um historia. Luiz Gomes da Matta, homem de fartos

haveres, foi nobilitado por Filippe II que lhe deu brazão:==em campo de

ouro tres mattas verdes em roquette sobre penhascos verdes; timbre uma

das mattas.==

Este Matta comprou tambem o fôro de fidalgo e o officio de correio-mór,

e arvorou a quinta da Matta em solar. Chamaram-lhe depois a quinta da

Matta do Correio-Mór. Hoje toda a gente d’aquelles sitios lhe chama o

_Correio-Mór_. A quinta e palacio pertenceram á Casa Penafiel até ha

poucos annos, e actualmente ao sr. Canha, negociante de Lisboa. Merece

a pena um passeio a essa antiga residencia.

Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa · 第 32 / 72 题