NAUFRAGUS

Deve ser orthographia official. (Este anno, 1905, vi o letreiro já

emendado).

* * * * *

_O facho do peixe._--Se o barco que vem do alto, ou da armação, traz

peixe, arvóra á prôa o _facho_, que é uma japona ou oleado de marujo;

logo que das arribas avistam o reclamo descem homens e mulheres com as

gigas e burrinhos para transporte da mercadoria.

* * * * *

_Aroeira._--É com o suco da aroeira que tingem as redes. A planta verde

é moida num lagar, por galgas movidas a braço. Na Ericeira vi um

lagar, que não trabalhava. É em Ribamar que hoje moem mais. Em Santo

Isidoro encontrei eu umas saloias com seus burrinhos carregados de

aroeira, que iam para Ribamar.

E vi tambem ramos de aroeira ornamentando carros carregados de tojo; o

verde viçoso da aroeira alegrando o tom escuro do tojo secco.

* * * * *

_Phosphorescencia._--Na costa da Ericeira o mar apparece algumas vezes

phosphorescente; acho isto notavel; porque no littoral portuguez

em muitos sitios nunca se dá este phenomeno, na costa do Algarve é

rarissimo.

A gente do mar chama-lhe _ardencia_. Nas noites de 24 e 25 de agosto de

1900 o espectaculo foi admiravel. As grandes ondas luminosas, de brilho

e intensidade differentes, produziam effeito phantastico. Durou muitas

horas o esplendido aspecto do mar, especialmente na arrebentação.

Em setembro de 1902 tambem houve _ardencia_, mas fraca e durando apenas

umas tres horas. No livro de A. F. Simões: _Cartas da beira-mar_,

descreve-se um caso de _ardentia_ ou _ardencia_ observado por elle na

Figueira da Foz no mez de setembro de 1864.

* * * * *

_Cartas nauticas._--Conversando uma vez a respeito de antigas cartas

nauticas, indicaram-me uma senhora que possuia algumas, de parentes

que tinham navegado em largas viagens. Eu pedi o favor de as vêr.

Um dia, na sua casa de jantar, escolhida por ser mais facil na grande

meza desdobrar as cartas maiores, a senhora D. Maria disse á serviçal

que fosse lá acima, ao quarto do Oratorio, buscar as pastas e os rolos,

forrados de linhagem.

A creada voltou ajoujada porque era pesado o fardo da papelada. Eram as

cartas que tinham servido ao avô, ao pae, aos tios e aos irmãos na vida

maritima, porque durante gerações, n’aquella familia, fôra tradicional

a vida do mar; ora de pilotos, ora de capitães de navio, muitos dos

parentes daquella senhora fizeram longas viagens. As cartas usadas,

amarelladas, conservavam o cheiro a breu; tinham as rotas marcadas

a lapis, em linhas onduladas ou em zig-zagues, com pequenas cruzes

e datas, nas mudanças dos rumos ou marcando singraduras; viagens da

Ericeira para Larache ou Casa Branca na costa marroquina, á Terra Nova,

á Irlanda, ou de Lisboa para o Brazil, Açores, Madeira, por essa costa

d’Africa fóra, ou entre o Funchal e Demerára.

Ha coisas d’estas, ás vezes; começa-se por simples curiosidade,

entre phrases banaes e logares communs, e de subito surge o drama.

Se eu visse aquellas cartas n’uma loja nada sentiria, mas lentamente

mostradas pela santa mulher! Eu ia dizendo o que via e lia, e ella

ia lembrando. A carta passou a ser um documento vivo. E quanto mais

recordava mais subia a commoção, avivavam-se saudades, as lembranças de

anciedades passadas, as longas espéras de noticias. Certa cruz marcava

um grande golpe de mar, outra o sitio em que faltou agua de beber, e a

comida; esta agora um incendio a bordo.

De uma vez não houve noticias do parente nem do navio por mais de seis

mezes.

Eu dobrava ou enrolava lentamente a carta, e passava-se a outra. Agora

era a que servira a bordo do palhabote onde o irmão ia por piloto na

sua primeira viagem, e surgiam outras recordações.

Desdobrava-se nova carta, era a de um segundo tio, capitão do navio

tal, que andou trinta annos no mar, soffrendo vendavaes e calmarias, e

terminou em naufragio em longinqua paragem.

E assim estivemos a ver cartas, algumas horas, e a lembrar anciedades

passadas; saudades, receios, que é o manjar de quem tem parentes

queridos no mar. Depois a serviçal foi levar, com muita cautella, como

cousas sagradas, a pasta e os grandes rolos para o quarto de cima, ao

pé do Oratorio.

* * * * *

_Os primeiros christãos._--As duas inscripções romanas que ainda hoje

felizmente se conservam em S. Miguel de Odrinhas teem servido de base

a dissertações de auctores considerados sobre o apparecimento do

christianismo n’esta região a norte de Lisboa. Principalmente a do

Seneca.

O nosso D. Rodrigo da Cunha na _Historia ecclesiastica da egreja de

Lisboa_, disserta sobre a pregação de S. Pedro de Rates pela beira mar

até Cintra, e dá muita attenção ás duas inscripções romanas.

A razão de julgar que taes inscripções commemoram pessoas christans

é porque lhes falta o D. M. S. (consagrado aos deuses manes), inicio

vulgar dos lettreiros pagãos.

Base ou principal ponto de partida a respeito da existencia de

christãos logo no 1.ᵒ seculo, neste extremo da peninsula, é a chronica

de Flavio Dextro, que diz: _Lucius Seneca Centurio verus christianus

Sintriae occumbit_. (_Ann. Chr._ 50).

Numa edição de 1619, vê-se _Senticae_, emendado para _Sintriae_ na

edição de Leão (Lugduni, 1627 pag. 103).

Ora esta chronica de ha muito está mal afamada, mas percorrendo-a quasi

me convenço de que merece alguma attenção; parece-me um texto antigo

muito alterado e interpolado.

Ambrosio de Morales, continuador de Floriam de Ocampo, na _Coronica

general de Hespana_ (Alcalá de Henares, 1575, 2.ᵒ vol. pag. 245 e

segg.) consagra um capitulo a esta questão:==_El tiempo del Emperador

Neron con todo lo de Seneca_ (Lib IX. C. 9) e reproduz a inscripção

grande de Odrinhas. Não acho base alguma para affirmar a existencia

de christãos logo no primeiro seculo no occidente da peninsula; porque

é certo que os lettreiros sepulcraes de individuos christãos começam

muito mais tarde; lendas, tradições devotas, sim; mas é difficil tambem

marcar datas á creação de lendas piedosas.

* * * * *

_Bolos._--As confeiteiras fazem cavacas, pão de ló, esquecidos,

suspiros, biscoitos e marmelada. Tambem fazem queijadas, inferiores

ás de Cintra. A região da queijada é outra, vae de Cintra a Bemfica,

conservando o mesmo typo. Tambem ha queijadas no Alemtejo, excellentes,

mas de esthetica mui diversa. O dominio do pão de ló é ao longo da

costa maritima ao norte do Tejo, e o da cavaca quasi na mesma região,

variando de fórma e densidade, de villa para villa; quasi se póde dizer

cada terra com sua cavaca.

_S. Antonio._--É uma pequena ermida, toda caiada, que está sobre a

muralha da arriba do porto.

Está ahi na parede do occidente voltada ao mar uma cruz formada por

azulejos, e tambem em azulejos as imagens de Nossa Senhora da Boa

Viagem e a de Santo Antonio, e data 1789.

No nicho ardia d’antes uma grande lanterna, guia dos pescadores, e

ainda lá está a sineta que toca quando ha nevoeiro na costa.

_Egreja de S. Pedro_.--Foi restaurada em tempo de D. João v. As

pinturas do tecto teem o caracter d’essa época. O cruzeiro ante a porta

principal está datado de 1782. O prior Manuel Maria Ferreira fez obras

na egreja, e o arcaz da sacristia em 1660.

Creio que a obra d’arte mais antiga que existe nesta egreja é a pequena

estatua de S. Pedro, em marmore, com o seu livro e grande chave, que

está sobre a porta lateral. Proximo a esta porta está o seguinte

letreiro:

* * * * *

--Aqui jazem José Pereira da Cruz e sua mulher Eulalia da Costa e a

filha d’estes Maria Rosa e seu marido o professor Antonio Luiz Delgado

e alguns filhos d’estes, entre elles o padre Octaviano Augusto Pereira

Delgado primeiro e principal promotor do acrescentamento e reforma

d’esta egreja o qual pede por esmola se compadeçam das almas dos que

aqui jazem, 1872.--

Segundo o recenseamento official tem esta freguezia 737 fogos, com

2:519 habitantes.

_Santa Casa da Misericordia._--Foi fundada a irmandade d’esta

Misericordia em 1678.

O Compromisso actual foi approvado por alvará de 4 de outubro de 1886.

O antigo compromisso era de 7 de julho de 1697.

Capital 34:650$000 em inscripções.

Capital 4:500$000 em acções do Banco de Portugal e da companhia das

Lezirias.

Na média entram no hospital uns 70 doentes, annualmente.

Ha pouco teve um legado importante, do sr. Fialho, cavalheiro

respeitabilissimo da localidade.

* * * * *

_S. Julião._--É uma ermida toda branca, com seu alpendre, erguida na

escarpa maritima, a uns tres kilometros a sul da Ericeira. Celebra-se

ahi uma festa annual, em setembro, com arraial, a que concorre muita

gente dos povos mais visinhos. Proximo do pequeno templo ha casas para

os romeiros, para um posto da guarda fiscal, e para venda das offertas.

A disposição da ermida e seus annexos leva-nos a tempos mui antigos. A

influencia do convento de Mafra tambem ali chegou, e algumas reparações

teem o cunho do seculo XVIII.

A porta da ermida tem a data 1768.

Proximo de S. Julião ha uma fonte milagrosa. Tem duas bicas, que deitam

aguas de nascentes diversas, de modo que teem sabôres varios. E seus

azulejos com as imagens de _S. Julião e Santa Basilissa_, e a data 1788.

Teem virtude estas aguas para doenças de olhos, e outras, para todas

creio eu, mas é preciso beber, ou lavar-se com as duas aguas. São

complementares.

Por occasião da festa foram muitas pessoas beber das duas aguas,

outras lavar os olhos nas duas pias, outras com bilhas; mas a virtude

principal das duas aguas combinadas é contra as sezões.

No arraial de S. Julião vendiam-se poucos comestiveis: bolos de S.

Julião, fartes, queijadas, melões e peras, pevides, favas torradas.

Os fartes ou bolos de S. Julião são feitos de massa de trigo com

assucar, me pareceu, e alguma canella. São bolos locaes que segundo me

affirmaram só se fabricam por occasião da festa.

Vi ahi algumas portas com fechadura especial composta de uma haste

grossa, com sua travinca, e que se abre por meio de um páosinho de

feitio vario.

Na Ericeira tambem encontrei essa fechadura que eu não conhecia. Um

popular explicou-me:==isto é fecho com cavilhas e chaveta.

_As pedras de mysterio em S. Julião._--São umas lapides bem trabalhadas

com os nomes de S. Julião, S. Basilisa, e Ave Stella matutina, e outras

phrases piedosas, dispostas caprichosamente.

Assim _Juliam, Basilissa e matutina_, em caracteres capitaes muitas

vezes repetidos enchem quadrados tendo no centro as iniciaes J. B. e M.

e achando-se a palavra lendo para qualquer lado, até aos vertices da

figura.

Proximo da ermida ha um logar, o fojo, grande fenda natural da escarpa,

onde se deu um milagre; ahi numa lapide lavraram um monogramma

que deve significar _Mater Christi_. E no angulo do alpendre,

superiormente, um cubo de marmore com meridiana muito curiosa.

Algum frade engenhoso fez aquelles quebra-cabeças, para maravilha dos

romeiros. A esta ermida se liga a historia do rei da Ericeira.

* * * * *

_A bruxa da Arruda._--A celebre bruxa costuma visitar a Ericeira por

fins de setembro. É muito respeitada; dizem que é rica, a pobres não

leva nada; apresenta-se com muitos oiros. Tem uma filha que já entende

de molestias. Em geral leva 300 réis pela consulta. Receita quasi

sempre esfregas de aguardente e papas de pão de milho ralado. Mas isto

varia em quantidade, tempo, calôr, e no sitio do corpo. Ouvi tambem

chamar-lhe a mulher do Casal das Neves, no termo da Arruda dos Vinhos.

Nem precisa ver o doente, levam-lhe roupa do uso do enfermo, uma camisa

ou camisola, e ella pelo cheiro conhece a molestia e logo receita.

Costuma pousar numa casa do _norte_ da villa, e a sua chegada consta

logo entre a pobre gente que a venéra e teme.

==Já teve questões com padres e medicos, já foi aos tribunaes, me disse

alguem, e ficou sempre victoriosa!==

* * * * *

_O brazão da Ericeira._--Tenho visto representado no brazão da Ericeira

um ouriço cacheiro, e outras vezes um ouriço do mar, inteiro, com

sua armadura de espinhos, visto de lado, o que me parece mais logico.

Na Fonte do Cabo sobre a inscripção está uma pedra esculpida que deve

ser a representação mais antiga das armas da villa, e, se me não

engano, quizeram ali representar a boca do ouriço maritimo, donde

divergem séries de linhas formando cruz, e um lavor ponteado que allude

aos espinhos, admittindo o engano ou convenção das quatro fachas

divergentes que deveriam ser cinco se o canteiro fosse mais cauteloso.

* * * * *

_O primeiro foral da Ericeira._--Do primeiro foral da Ericeira

guarda-se o autographo na Torre do Tombo; está publicado na integra

no Port. Mon. Hist. na parte respectiva a foraes, pag. 620. E por

esta razão não o transcrevo aqui. É da era 1267 que corresponde ao

anno 1229. Foi concedido por D. Fernando mestre da ordem d’Aviz: _Ego

frater F. magister Avis una cum omni meo conventu do atque concedo

populatoribus de Eyrizeira..._ Note-se que a pronuncia local de hoje é

Eiriceira embora toda a gente escreva Ericeira.

Como todos os foraes das povoações da costa maritima este se refere a

barcos, a maritimos e pescadores, á pescaria, e aos impostos especiaes

do pescado: por exemplo aos pescadores do alto mar, e á _baleacion_,

ou pesca da baleia, então commum a todo o mar português. Faz menção

especial de congros, toninhas e golfinhos; e dos apparelhos de

pesca, _bigeiro, udra et rete de costana_; do pescado fresco, recente

e secco. No porto entravam mercadorias: _de tota merchandia que per

mare ad portum venerit et voluerint vendere dent quarentena_. Havia

revendedores de peixe: _de coloneiro qui comparar piscatum pro a

revender det I denarium_.

O mesmo imposto para o _bofon_, ou bufarinheiro.

Á vista do foral a condição dos pescadores não tem variado do seculo

XIII para cá. Os mesmos perigos, egual miseria, e a mesma incuria, a

mesma falta de protecção.

* * * * *

Sentindo a brisa fortemente salgada, alargando o olhar pela magestosa

amplidão do oceano, vem o desejo de saber alguma cousa do que se passa

ahi, no meio aquatico, onde pullula a vida. O dr. Augusto Filippe

Simões fez um livro bem interessante de vulgarisação scientifica com

algumas observações pessoaes, as _Cartas da beira-mar_ (Coimbra, 1867).

Simões era um sabio e um litterato erudito, escrevendo com muita

consciencia. Em linguagem facil, corrente mas cuidada, descreve-nos o

oceano, os seus problemas, a salsugem, os movimentos, as marés; e a

vida que se agita n’essas aguas, a zoologia e a botanica marinhas.

Um livro que recommendo para a temporada da Ericeira é o _Estado actual

das pescas em Portugal_, pelo distincto official da armada, sr. A. A.

Baldaque da Silva (Lisboa, 1892). Tem estampas coloridas representando

peixes, crustaceos, molluscos, muitas gravuras de barcos e apparelhos

de pesca; não olvidando a focinhada ou focinheira ericeirense, e a

antiga rasca que passou á historia; descreve tambem a costa maritima,

tão variada em aspectos e circumstancias.

Recentemente vi um livro bem interessante, de sciencia moderna; é

_L’Océan. Ses lois et ses problèmes_, por J. Thoulet (Paris, Hachette,

1904).

Thoulet é um oceanographo que estuda o mar e sabe expôr com clareza

as muitas questões da sciencia do mar, a oceanographia, tão moderna e

já tão vasta. A chimica do mar, a formação de sedimentos de origens

varias, a temperatura e a pressão nos abysmos, a formação da vaga e a

razão das marés, as correntes, a vida nas grandes profundidades quietas

e sem luz, apparecem-nos tratadas em largos capitulos de leitura que

prende a attenção, sem fatigar o espirito.

No 4.ᵒ volume das _Maravilhas da natureza, segundo o plano de Brehm_,

obra celebre, revista e ampliada na parte relativa a Portugal pelo sr.

dr. Balthasar Osorio, sabio lente da Escola Polytechnica de Lisboa,

trata-se de peixes, em leitura facil e agradavel.

Como tambem desperta a attenção o aspecto raro das arribas, das suas

curvaturas, fendas, aberturas, cavernas, onde apparecem rochas brancas,

vermelhas, negras, esverdeadas, cinzentas, umas cheias de fosseis,

outras sem vestigio de vida animal ou vegetal, eu lembro a leitura

no vol. 2.ᵒ de _La face de la terre_ por Ed. Suess (trad. de E. de

Margerie. Paris, 1900), do capitulo intitulado: _Os contornos do Oceano

Atlantico_.

Pelos suburbios e visinhanças de Lisboa · 第 30 / 72 题