Da ponta da Lamparoeira corre a costa de norte a sul, por mais de 8
milhas, quasi toda de rocha escarpada até á foz da ribeira do Porto. A
1,5 milhas a N. da dita foz fica a Ericeira. A sul da villa uma pequena
enseada com boa praia, a norte outra praia; ambas separadas pela grande
massa de rochedos do portinho onde entram os barcos de pesca. Este
porto é desabrigado dos ventos NNE a SSO por O.
Ha duas luzes de enfiamento, branca e vermelha, a 37,ᵐ7 de altitude.
O monumento de Mafra com suas elevadas torres e zimborio, a 270 metros
sobre o nivel do mar, serve de reconhecimento e marca para este porto,
avistando-se a 30,5 milhas.
Da foz da ribeira do Porto a costa a S 25° O, até ao cabo da Roca, a
10,3 milhas, quasi toda escarpada e elevada, apenas rota na praia das
Maçãs na foz da ribeira de Collares, e na praia Grande a S d’esta. No
Focinho da Roca o rochedo levanta-se a mais de 125 metros; sobre essa
escarpa está o pharol da Roca, a 137 metros acima do nivel do mar. A
meia milha ao mar do cabo está a pedra d’Arca: ha outros recifes que
tornam perigosa a approximação.
A serra de Cintra eleva-se sobranceira ao Cabo, correndo para o
interior na direcção de ENE. A sua maior altitude é no seu estremo E no
castello da Pena, que tem 529 metros de cota.
O convento da Peninha, no extremo SO, está a 488 metros, e deve
avistar-se a 42 milhas. A serra de Cintra é ponto excellente para
reconhecimento da costa. Os pescadores da Ericeira dão nomes ás
saliencias principaes da serra, e pelo enfiamento e aspecto marcam
approximadamente a sua posição no mar.
A pesca na Ericeira chegou a grande decadencia, parece querer
levantar-se agora. Antigamente, ha 50 annos, não só a pescaria tinha
ali grande importancia, mas a Ericeira era um viveiro de homens do mar;
chegou a ser celebre pelos seus maritimos pedidos para os melhores
navios da nossa marinha mercante. Eu conheço a Ericeira ha quatro annos
apenas, em rapidas visitas na época dos banhos. Ha quatro annos havia
uma armação, em frente do porto, e os botes de pesca, as focinheiras,
pouco iam ao mar. Não havia pescada, muitos dias só havia sardinha e
carapau apanhado na armação. Agora ha duas armações, e todos os dias
vão barcos ao alto, que por vezes trazem muito peixe. A exploração da
lagosta tambem augmentou.
Os pescadores das armações são quasi todos estranhos á Ericeira; e
tem vida áparte dos naturaes da villa. É no _norte_, quer dizer no
bairro do norte da villa, em casas abarracadas, caiadas, algumas com o
chão forrado de plantas aromaticas, que habitam os pescadores. Casas
pobres, aceiadas, com estampas de navios e santinhos nas paredes. A
grande embarcação de pesca, antiga, era a _rasca_, que eu vi pintada em
quadros de milagres, na egreja de Santa Martha.
Era um barco seguro e veleiro, de borda alta, pôpa redonda e prôa
arrufada; convez corrido de vante á ré, cinginda em volta do costado
por um espesso cinto com forte pregaria, apparelhando com quatro vélas
latinas triangulares, traquete, véla grande, véla de prôa, e catita;
com tripulação numerosa para a manobra.
O mastro de traquete pendia para vante, o de ré era vertical, da prôa
lançava um páo para amurar a véla de prôa, á ré encostado á amurada um
pequeno mastro para a verga da catita, que caçava no laes de um páo
deitado pela popa servindo de retranca: singrava veloz, chegando-se
muito ao vento, e aguentando-se bem nas borrascas.
A focinheira é typo unicamente usado na Ericeira, para a pesca
costeira, e que vae tambem ao largo. Tem um mastro á prôa que apparelha
com um latino; a prôa e a pôpa da pequena embarcação teem fórma
especial, e no fundo chato e arqueado tem umas reguas ou reforços
longitudinaes. É differente da chata de Cascaes ainda que se lhe
avisinha.
Tenho visto na Ericeira sardinha, fataça, carapau, faneca, goraz,
pargo, capatão, pescada, peixe espada, peixe gallo, cação, moreia,
arraia, polvo e lagosta.
Uma vez entrou na armação um cardume de grandes pargos e capatões; e eu
vi na pequena praia a fila de oitenta grandes peixes vermelhos de que
os menores tinham 7 ou 8 kilos.
Este anno foi fisgado de uma focinheira um grande peixe agulha que
pesou nove arrobas.
Havia muitos annos que não apparecia um peixe agulha na Ericeira, e é
trivial em Setubal.
Quem visitar reparando os mercados de peixe na Ericeira, Cascaes,
Setubal nota singulares differenças; nesse bocado de oceano que se
avista do Cabo da Roca, ha regiões definidas, onde apparecem ou não
determinadas especies de peixe.
O generoso mar dá ainda outro producto que elle traz do seu seio e vem
depôr, arrumar, na areia da praia; chamam-lhe sargaço e moliço ou
golfo; são as algas, os corriões, bodelha, verdelho e sebas, que o
agricultor utilisa para adubo.
Em todas as praias aqui d’esta costa, Baleal, Peniche de cima e de
baixo, Portinho da areia, Consolação, Seixal, Atalaya, Ribamar, Porto
novo, Santa Cruz e Assenta andam os sargaceiros apanhando os vegetaes
arrojados á areia, escolhem um pouco, carregam, formam medas, que
entram em fermentação e se transformam em excellente adubo.
Em outros pontos do paiz a rapeira é uma furia louca que prejudica a
creação do peixe, mas aqui não se dá esse caso, os sargaceiros não
chegam para arrecadar a massa enorme de algas que o mar lhes offerece.
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_Banheiros._--Praia do sul: Antonio Garamanha, Braulio da Silva,
Francisco Piloto, Francisco Jorge Alturas e Servando da Silva.
Praia do norte: Agostinho Alves Camacho, José Alves Camacho, José Coco
e José d’Almeida Rato.
As praias são muito frequentadas nos mezes de agosto, setembro e
outubro. Ha duas series de banhistas: a mais tardia é a que vem depois
da vindima.
Bons typos estes banheiros, nadadores de primeira ordem, valentes sem
precipitação.
Na praia do norte o mar bate um pouco mais; na do sul a força da vaga
é em parte quebrada por uma restinga que surge a pouca distancia, 80 a
100 metros da praia de areia.
Na praia do norte em manhã de vaga um tanto rija vi espectaculo raro;
os banhistas não tomaram banho, e os banheiros resolveram ir brincar
nas vagas; brincadeira um tanto forte.
Eram tritões mythologicos, peixes não, porque estes não caem em taes
experiencias; por vezes sumiam-se no concavo da vaga proxima a desabar,
logo appareciam, o corpo meio fóra da agua, na cabelleira cristallina,
logo destacavam na branca espumarada fervente.
É arriscado, ha movimentos enrolantes na vaga d’arrebentação, e ai do
que se deixar enrolar pela onda.
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No termo da Ericeira, na encosta voltada ao mar, ha grande numero de
pequenas propriedades, e muitos muros de pedra solta. Fazem esses muros
para arrumar a pedra e tambem para defeza contra a rajada do mar, e não
bastam; fazem ainda sebes de urzes, de ramos de pinho, de caniço; e
nesses canteiros vi cepas boas, com bellos cachos.
A phylloxera estragou os vinhedos, mas nos ultimos annos teem
replantado; nas chans da ribeira de Chileiros ha vinhas de importancia.
Para os lados da Fonte dos Nabos, Santo Isidoro, Paço d’Ilhas vi
culturas mimosas. Na Ericeira só as flexiveis hastes das araucarias
resistem á furia do vendaval. Ás vezes quando no temporal as grandes
vagas estouram nas arribas passam flocos de espuma por cima da povoação.
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_Nomes de barcos._--S. Joaquim, vulgo o Bailharito, Feliz Raul, Boa
Viagem, Flor da Ericeira, Pombinho, etc.
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_Pombos-bravos._--São raros nesta costa; numa época vi dois casaes que
pousavam nas altas rochas, sob a villa. Pouco adiante de S. Sebastião
tenho-os visto tambem, poucos. São pardos-escuros, esguios, muito
desconfiados; creio que é na costa algarvia, Sagres, S. Vicente, que
apparecem mais; na costa da Arrabida são raros.
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_Pharoes._--Berlenga. Começou em 1840. Alcance 30 milhas.
Cabo Carvoeiro. Data de 1790. Alcance 9 milhas.
Ericeira. Luzes de direcção, anterior branca, posterior vermelha.
Começaram em 1864. Avistam-se a 5 milhas.
Cabo da Roca. Data de 1772. Alcance 30 milhas.
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_Soccorros a naufragos._--Dizem que existe um posto montado, com
espingarda Delvine para lançamento do cabo de vae-vem.
De barco salva-vidas nunca ouvi fallar, nem de qualquer melhoramento
do acanhado portinho entre bravias rochas, muito pittorescas e
perigosissimas.
Numa das ribas vi uma caixa verde com letreiro branco, assim: