Na Ericeira e seus arredores não vi antiguidades romanas; nem um
signal, nenhuma pedra empregada em muro velho que denunciasse lavor de
alta antiguidade; o trabalho agricola tem sido grande, o mar sabe Deus
quantas escarpas tem demolido, elle que todos os dias está destruindo
e abatendo os rochedos da costa. Mas n’um aro de raio de seis a dez
kilometros surgem vestigios notaveis. As inscripções lapidares romanas
são conhecidas; a região a norte de Cintra e Collares é rica de taes
letreiros. Antiguidades pre-romanas são sabidas tambem. Não podemos
esquecer o collar da Penha Verde, a grande joia prehistorica (que hoje
está ennobrecendo, ao que me dizem, um muzeu inglez), o famoso dolmen
de André Nunes ou Adrenunes, monumentos que provam a existencia por
estes sitios de antiquissima civilisação pre-romana. Estacio da Veiga
estudou as antiguidades d’estes sitios; no _Corpus_ estão transcriptas
em grande numero as inscripções romanas. Na _Cintra pinturesca_ (pag.
192), se diz: «encontram-se com frequencia urnas e lapides sepulcraes
em varios sitios especialmente em S. Miguel de Odrinhas, Morelino,
Montelavar, etc.»
D’essas veneraveis pedras sepulcraes muitas desappareceram, ainda porém
existem algumas importantes. Para as ver dei uns passeios a Odrinhas e
á quinta dos Chãos.
Odrinhas fica a meio caminho entre Cintra e Ericeira. Ha ahi uma venda
onde costumam parar os carros para descanço; abre-se em frente d’essa
venda um caminho de aldeia que leva á egreja, S. Miguel de Odrinhas,
a menos de um kilometro. É filial da parochia de S. João das Lampas.
A porta principal diz a poente, uma alpendrada segue na frente e no
lado sul; atrás da capella mór um espaço que serviu largos annos de
cemiterio; muitas pedras de cabeceira nos seus logares, tendo nos
circulos superiores esculpidas cruzes de varias fórmas, sinos saimões,
e estrellas de seis pontas. Encostado á egreja um ediculo do seculo
XIV. Junto da pequena porta lateral uma casa, talvez de antigo ermitão,
a que chamam a casa dos ratos, que serve para metter medo a rapazes
máos; sob o alpendre a grande mesa de pedra para as offertas. Ao norte
da egreja, uma construcção circular, isolada, em ruina, mostrando ainda
a nascença da abobada, feita de pedra miuda, vestigios de porta, e um
vão na parede, que parece, seria destinado a ter um armario.
--É casa de mouros, disse alguem.
--Era onde guardavam os ossos tirados das covas do cemiterio, o
ossuario, disse outro.
--Dizem que está ahi um thesouro escondido, disse uma mulher.
Parece-me que a causa principal da ruina é esta crença, com a esperança
de achar o metal precioso têm nocturnos exploradores arruinado o
singular edificio. E eu achei no montão de pedregulhos, e fiz destacar,
em marmore lavrado, nada menos que a pedra superior de uma ara romana
com seus ornatos, volutas e folhagens, de bom estylo, com a grande
cavidade destinada ao fogo. No terreno proximo, nos velhos muros de
pedra solta, vi tijolos pequenos, fragmentos de grossas telhas, e
ainda mais cabeceiras de sepulturas com suas cruzes e saimões. É unico
o que ali está, n’aquelle modesto recinto onde se conservam vestigios
antigos, de epocas entre si muito afastadas.
Sob o alpendre, solta, a grande pedra com lettreiro romano onde se
mencionam individuos da tribu Galeria, e entre elles o de Elio Séneca.
Dentro da egreja, á direita da porta principal, a enorme lapide, fixa,
de Plocio Capito. Dizem que era de homem santo, e raspam-na para com
o pó curar enfermidades. Pelo visto temos aqui um exemplo nitido de
cultos continuados no mesmo local desde a antiguidade romana até agora.
Mas ha lendas, velhas tradições aqui. Disse-me um homem que esta egreja
era tão importante em tempos antigos que a gente de Santo Isidóro,
Paço d’Ilhas e Quinta dos Chãos vinha enterrar os seus mortos n’este
cemiterio, fazendo a longa caminhada de quatro leguas. E logo outro
companheiro, um tanto a medo, me perguntou se eu julgava possivel que
uma mulher fosse capaz de trazer ás costas aquella grande pedra, a do
Séneca, desde Santo Isidóro, com o cadaver do filho. É lenda mui velha
que eu vim encontrar agora nesta ultima terra da Europa.
Santo Isidóro é egreja parochial que fica a uma legua além da
Ericeira; fica-lhe a pouca distancia a quinta dos Chãos, que desperta
a curiosidade pelo seu isolamento, a sua represa d’aguas, os pequenos
aqueductos, pateo, jardim, casa de residencia e officinas, um bello
exemplo de habitação rural, modificada pelo tempo e variedade de
usos, mas no todo lembrando uma antiga villa rustica. Ahi, n’uma
varanda sobre um arco, servindo de meza, vi a bella lapide sepulcral
dos Terencianos; e no jardim ha uma pia que me pareceu uma urna ou
sarcophago romano, coberto em parte de cal. Segundo uma tradição
a ribeira de Paço d’Ilhas que corre no profundo valle proximo era
antigamente navegavel, e um velho paredão arruinado seria o resto do
caes.