«A acção, diz o Raphael Francez Nicoláo Pusinno, he a voz da Pintura;

sem ella não ha persuasão. A Arte sublime requer quatro cousas: 1.^a

materia ou argumento: 2.^a conceito: 3.^a estructura ou composição: 4.^a

estilo. O Argumento deve ser grande, heroico, e delle se devem desterrar

as cousas miudas. Conceito he hum pensamento alto, elevado, como o de

Homero para o seu Jupiter, que só com o pensamento _movia a terra, o

Ceo, e o mar irado_. A composição seja natural, e não exaggerada, ou

extravagante. O Estilo he hum modo particular de pintar procedido do

genio de cada hum, e que nasce naturalmente do seu engenho. Muito agrada

a novidade na Pintura; mas esta novidade não consiste em achar assumptos

ou motivos novos, senão em compor os antigos por novo modo. Se o Pintor

quizer que o admirem, não se faça estranhamente singular; mas procure

fazer tudo com prudencia, e perfeição.»

«A composição de hum quadro (diz Richardson) he de grandissima

consequencia; he a primeira cousa que se apresenta á nossa vista, e que

nos póde prevenir em seu favor, ou desgostar-nos delle; por tanto, as

figuras de hum painel, e os seus fundos, devem compôr massas de luz, e

de sombra, que mesmo de longe, sejão gratas á vista.»

«Em cada painel ha de haver hum sitio mais rico, e brilhante; e alli he

o lugar da principal personagem, e da acção mais notavel, aonde tudo

deve ser mais bello, e bem acabado. Os outros objectos sejão todos

subordinados a este; mas cada hum delles ha de ter huma parte que domine

as outras, e se deixe logo ver.»

«Se o Pintor fôr obrigado a collocar alguma das figuras principaes a hum

lado, e em meia luz, faça-a distinguir pela côr viva do vestido, como

fez o Ticiano no Bacco e Ariana; ou de outra maneira discreta, e

artificiosa.»

«O Pintor deve saber perfeitamente a historia que quer pintar, e meditar

depois se póde accrescentar algum incidente de sua invenção, que não

seja inverosimil. Póde tambem ás vezes (mas raras vezes) apartar-se da

verdade natural, e historica, como fez Raphael, muito discretamente, no

Cartão da Pésca miraculosa, onde pintou huma barca muito pequena, á

proporção das figuras, a fim de não encher o painel com hum barco, ou de

não fazer as figuras pequeninas; cousa que tornaria a composição

mesquinha: tambem se apartou o mesmo author da verdade historica, no

outro Cartão do Paralytico, aonde a architectura da entrada para o

Templo he de sua invenção, e não como consta que ella era; mas aquella

licença foi muito feliz, porque deo hum ár mais nobre, e magestoso a

todo o painel. Estas excepções da regra são permittidas; mas poucas

vezes.»

«Cada painel historico ha de representar hum unico instante de tempo, e

seja quelle que for mais vantajoso. Nenhum objecto, por excellente que

seja, interrompa a attenção devida ao heróe. Não se introduzão figuras,

ou ornamentos superfluos; antes pelo contrario, conceda-se alguma cousa

á imaginação, e ao desejo dos espectadores. Em tudo haja grande

variedade.»

«Bardon affirma que o pittoresco de huma composição consiste em huma

singular, e exquisita escolha dos effeitos da Natureza, ajudada pelo

gosto, e espirito sustentados pela razão. O Heroe do quadro deve brilhar

alli, como hum monarca entre os seus cortezãos, e attrahir as vistas do

espectador por algum accidente de luz, ou particular effeito de côr; ou

tambem por alguma privação da mesma luz, manejada com arte.»

«O Pusinno, e Paulo Veronez modelavão a composição inteira, giravão ao

redor della, e escolhião o ponto de vista, e o aspecto mais vantajoso,

para o seguir, e imitar. A luz principal deve ser unica; mas para que o

effeito do quadro não pareça de lanterna, ou luz de noite, hajão alguns

reclamos della nas principaes partes da composição; sempre em marchas

diagonaes.»

André Felibien, tratando da composição, inculca como o mais raro e

perfeito exemplo desta parte essencial da Arte, o precipicio dos

gigantes pintado por Julio Romano no palacio do T. Como Julio era tambem

o architecto daquelle palacio, mandou fazer o salão redondo, e lizo como

hum forno: os mesmos alizares, e a chaminé, erão feitos á vontade da

pintura. Toda a casa parecia hum só painel representando huma vasta

campina por onde muitos gigantes levão montanhas ás costas, e vão

colloca-las em cima d'outras para dar hum assalto ao Olimpo. «A derrota

começa: os gigantes maiores estão no primeiro pavimento já prostrados

por terra: alguns jazem debaixo das montanhas; e Briarêo está quasi todo

soterrado. Pelo rôto de huma gruta se avistão muitos ao longe, que fogem

amedrontados, e são colhidos pelos raios de Jupiter. No mesmo tempo, os

templos, e os grandes edificios cahem arruinados em cima de outros;

ficando a chaminé, entre paredes e columnas precipitadas, fingindo parte

da ruina; e tão artistamente executada, que quando se accende o lume,

parece que ardem os gigantes, e que he huma boca do inferno, por onde

Plutão, em companhia das Furias, se vai precipitar no Tartaro.»

«Quando se compõe, deve-se deixar o genio em plena liberdade; e só

depois de feita a composição he que se ha de consultar a natureza; e

depois o _Antigo_, para emendar por elle os defeitos do natural. He

preciso variar todos os objectos, mas sem violencia nem affectação: ha

de parecer que as figuras se collocárão por si mesmas; e nisto consiste

a graça da _disposição_.»

Antonio Rafael Mengs, a quem os artistas modernos chamão o Raphael

Alemão, ensina «que o Pintor, antes de começar qualquer composição,

deve-se fazer senhor não só daquella passagem historica que quer pintar,

mas tambem de toda a historia que lhe he relativa, para conhecer

perfeitamente as indoles de todas as personagens que ha de pôr na scena;

o que se não poderia fazer com muito acerto sem as conhecer a fundo, e

sem saber com quaes vistas se movêo a acção; por que se deve manifestar,

na pessoa que a está fazendo, e na sua fysionomia, o seu proprio

caracter, e qual seja o motivo porque a faz. He preciso tambem

transferir-se ao tempo, ao lugar, e aos usos das gentes que se

representão; e dar-lhes os vestidos proprios das suas nações, e dos

seculos em que viverão, ou senão constar bem, ao menos os das nações com

quem tratavão, ou donde procedião.»

«Em quanto ás contraposições nas figuras, siga-se como regra geral, que,

se hum braço avançar, a perna daquella parte, e o outro braço devem

recuar: os dois braços nunca hão de avançar, porque ninguem poderá

recuar ambas as pernas sem cahir: a cabeça incline-se para a parte do

braço levantado, e volte-se para onde a mão estiver mais avançada:

nenhum membro deve formar angulo recto; nem dois membros hão de ser

reciprocamente parallelos. Huma das mãos nunca se deve achar defronte da

outra; e nenhuma extremidade esteja na mesma linha vertical, ou

horisontal de outra; nem se encontrem duas mãos e hum pé, ou dois pés e

huma mão, collocados em linha recta.»

«O gruppo he huma união de figuras que se hão de encadear humas com

outras, e em numero impar; como 3, 5, 7, ou ao menos seja composto de

dois numeros impares como 6, 10, 14.[9] A composição do gruppo seja

piramidal, mas de planta redonda, _como huma fogueira_: as grandes

massas hão de estar no meio: os lugares das figuras formem linha curva,

e não recta: não concorrão duas cabeças na mesma linha horisontal ou

vertical: os dois braços ou as duas pernas da mesma figura nunca tenhão

escorço igual; e a que nos mostra a palma de huma das mãos, deixe ver a

costa da outra.»

«Appareção as partes mais bellas dos corpos, como as juntas, o pescoço,

as espaduas, os cotovelos, pulsos, joelhos, costas, e peitos; e isto por

dois motivos; primeiro, porque nas extremidades, e articulações pode-se

deixar ver muita expressão, e muita sabedoria; segundo, porque os peitos

e as espaduas são as partes mais grandiosas do corpo, e as mais capazes,

por isso mesmo, de reunir no gruppo grandes massas de luz, e de côr

agradavel, qual he a das carnes.»

«Nas mulheres, todas as partes nuas, que se podem ver honestamente, são

mui gratas á vista; mas algumas, como os peitos, parecem mais bellas não

estando de todo descubertas.»

«Quando se combinão varios gruppos tambem devem ser em numero impar, ou

hum inteiro no meio do quadro, e duas ametades aos lados. A figura mais

nobre esteja sempre no do meio, e as mais notaveis aproximem-se ao

heróe; mas este esteja no segundo pavimento, e não no primeiro, para ser

como o centro no circulo dos espectadores. A tortuosidade na planta do

gruppo, póde ser concava, ou convexa; porque de ambas as sortes se póde

collocar no meio o objecto principal, e o mais brilhante. Inda que se

deva fazer alardo das mais bellas partes, evitem-se com grande cuidado

as réplicas; porque sem a variedade não ha agrado. Quando fôr possivel,

metão-se na composição pessoas d'ambos os sexos, e de todas as idades; o

que produzirá huma varidade muito grata nas expressões, e nas acções.»

«Corregio distribuia assaz bem os gruppos; mas dispunha-os antes para

produzirem bellas massas de clar'escuro, que para exprimir quaesquer

affectos. Foi admiravel nos escorços, e he de crer que fazia figurinos

de cera para todas as composições dos téctos, a fim de poder observar

bem os contornos, e o clar'escuro das figuras escorçadas; e este era o

forte da sua composição. Fugia de deixar ver nos corpos que pintava, as

partes rectas; e tanto, que raras vezes fez cabeças que não fossem

vistas debaixo, ou de cima; e nunca de frente.»

«O mais egrégio Pintor cujas obras se conhecem, Raphael, foi não só

sublime, mas singular na composição; e esta he a parte da Pintura em que

foi mais sabio. Elle a inventou; porque nem entre os poucos quadros

antigos que pôde ver, nem entre os modernos, achou perfeito modélo para

imitar. A principal cousa que se deve observar em hum quadro he a

invenção; isto he, a expressão verdadeira de hum assumpto: e nisto não

teve igual. Nenhuma das figuras que elle poz em scena poderia servir em

assumpto de diversa expressão. O pensativo, o alegre, o melancolico, o

colerico, todos se achão na sua competente situação: nem a expressão

perfeita se acha só em cada figura; mas todas ellas, e os episodios,

correspondem perfeitamente á paixão da principal personagem. Mostrou

grandissimo talento na variedade com que soube exprimir huma grande

paixão, fazendo ás vezes intervir muitas figuras em hum movimento

parcial; e isto não por acaso, ou por encher o quadro, mas pelo pedir

assim a força da expressão. Nos seus quadros ha de ordinario muita

variedade de cousas, sem contradições; paixões violentas, sem

deformidades; mostrando a expressão algumas vezes, até no movimento de

hum dedo, e no effeito que fazem as paixões sobre as partes tendinosas,

e aponevroticas. Muitas cousas que em outros serião defeitos, erão nelle

grandes bellezas pelo modo com que as accommodava.»

«Entre hum quadro de Raphael, e o de qualquer outro Pintor ha a mesma

differença, que haveria entre hum heróe como Alexandre, e hum comediante

que o quizesse representar; e isto, porque os outros tocão algum dos

extremos nas attitudes, e nas expressões; mas Raphael dava ás suas

figuras os proprios movimentos da alma: para esse fim seguia huma

pratica diversa do costume. Os Pintores põem ordinariamente toda a sua

attenção nos gruppos, e na composição de cada figura, segundo as

contraposições, e as regras da Arte; porem elle começava por figurar na

sua mente o total da sua historia, e todos os objectos que poderião

concorrer para a expressão geral, e depois he que tratava de cada figura

em particular, elegendo os membros que havião de cooperar, segundo as

paixões do animo; deixando mais ou menos quietos os que nellas não

tinhão parte: observando o caracter de cada figura; porque hum Apostolo,

ou hum Filosofo não se ha de mover como hum soldado, nem huma honesta

donzella como huma meretriz. Assim he que demonstrava, tanto as paixões

internas que se indicão pela testa, olhos, nariz, boca, dedos; como as

externas que movem o corpo todo; porque o seu excesso não admitte

moderação. Nunca fazia as acções completas; porque, se hum homem que

caminha não tem acabado de formar o passo, está em movimento, tem vida,

e sabemos o que faz; mas se tivesse acabado o passo não saberiamos o que

tinha feito nem o que hia fazer. O Pintor de Urbino tinha de mais a

louvavel facilidade, e huma certa negligencia apparente, tão difficil de

conseguir; como tambem a arte de occultar com felicidade hum membro,

huma mão, hum pé; ou para não mostrar partes ociosas, ou para não

affrontar as partes principaes, ou em fim para evitar o máo effeito que

poderião alli fazer.»

«A composição he em geral de duas especies; a expressiva, e a de grande

effeito: nesta, que he mais propria para as grandes maquinas, como

cupulas, tectos, etc. forão excellentes o Corregio, o Lanfranco, Pedro

de Cortona, e Lucas Jordão; ella agrada muito, e a muitos. Em quanto á

expressiva, que sem duvida he a mais sabia, bella, e difficultosa,

nenhum chegou a Raphael; mas o Domeniquino, e o Pusinno approximarão-se

muito. Se n'huma composição Raphael fizesse as figuras, Pusino o fundo,

e Domeniquino os rapazes, seria então perfeitamente expressiva. Bem se

vê que a parte principal toca a Raphael, e que elle por consequencia,

foi na expressão o maior de todos os Pintores.»

O Abbade João Baptista Dubós, nas suas _Reflexões criticas sobre a

Pintura_ deixa ver em muitos lugares, que pouco entendia da Arte; mas

como era sabio, e tinha lido bons authores, diz tambem algumas cousas

attendiveis. «Elle observa que ha assumptos excellentes para a Poesia,

que nem por isso são bons para a Pintura. A historia Sagrada, a Grega, e

a Romana fornecem assumptos pittorescos, e interessantes; assim como a

historia Franceza será bem acceita em França, e a Portugueza em

Portugal. O sacrificio de Efigenia não he proprio para figurinhas de

huma paizagem. Venus, e as Graças não se devem fazer colossaes.»

«Le Brun servio-se bem da allegoria mixta quando pintou Luiz XIV. em hum

carro, guiado pela Victoria, atropelando as Cidades e os Rios da

fronteira Hollandeza. A Hespanha, querendo suspender-lhe a marcha;

recebe alguns tiros, e deixa cahir a mascara. A prudencia em taes

composições he mui precisa; porque nada faz dizer tantas tolices como o

excessivo desejo de parecer discreto, e sabio.»

Claudio Watelet compôs hum elegante poema sobre a Pintura: Publicarão

outros dois, o Abbade de Marsy, e o Panegyrista de Pedro Mignard: todos

tres fallarão muito bem na _composição_; mas como o que sobre ella

discorrerão se encontra com o que já temos dito, ou vamos dizer, não

augmentaremos este volume com inuteis repetições. Pelo mesmo motivo

omittiremos tambem o que a este proposito disserão Le Comte, e outros

muitos.

Daniel Webb, era mais versado nas letras humanas, que practico nas boas

artes: em Roma frequentou a casa de Mengs, e aproveitou-se dos seus

dictames: apesar disso, a sua doutrina, inda que corroborada com

sentenças de authores gravissimos, não carece de sofismas. «Elle diz que

a Historia pintada tendo muita correlação com o Poema dramatico podemos

alli considerar a scena, e a poesia. A excellencia da primeira consiste

em huma agradavel disposição das figuras que compõe a acção.»

«Se de noite, prosegue elle, levantarmos os olhos aos Ceos, a nossa

attenção não será attrahida por algumas estrellas espalhadas cá, e lá;

mas recahirá logo sobre aquellas que estão gruppadas em constellações; e

por esse motivo as composições bem gruppadas de Lanfranco, e do Cortona,

agradão muito mais, que as dispersas do Domeniquino; inda que este fosse

maior Pintor que os outros.»

Francisco Xavier Lobo, Pintor Lisbonense, do ultimo seculo, era amigo de

pensar, e dado á leitura e á especulação da Arte: elle escreveo alguns

dialogos criticos sobre a Pintura pratica, e especulativa. Authorisa-se

com Leonardo de Vinci para exigir que o Pintor historico nenhuma cousa

ignore do que pertence á Arte; porque no painel se ha de achar tudo;

figura, architectura, paizagens, fructos, flores, etc.: e por isso aqui

fallarei, diz elle, do que alguns estranharão que eu falle «Quando o

Pintor distribuir as figuras na sua composição deve lembrar-se logo das

luzes, e côres que lhes ha de dar; dando-lhes attitudes, e movimentos

taes, que não embaracem o effeito do clar'escuro. He evidente que huma

cabeça voltada contra a luz não faz o mesmo effeito que voltada para

ella. O objecto principal não se ponha da parte da sombra. Nas figuras

vestidas pareça sempre que ha algum ár entre a carne e as roupas; mas

nas Santas Imagens deve-se usar isto com muita moderação para que não

pareção dançarinos; antes inspirem affectos de devoção.»

«Tem muitos authores feito os seus paineis seguindo dois pensamentos,

ambos possiveis; hum de romper com claro por detras de algum corpo

escuro que esteja no primeiro pavimento; isto he, logo na entrada do

painel; outro de dar a força da luz nesta mesma entrada, e hir por

degraos abatendo os claros para o fundo: o primeiro me parece bom; o

segundo melhor; porque, não affecta sabedoria de arte. Bento Coelho foi

sem duvida hum grande compositor; e com tudo, são raros os seus quadros

que tenhão figuras tenebrosas na entrada, as quaes muitas vezes parece

que furão e recortão o painel.» Atéqui o nosso Lobo; mas a passagem

parece-me digna de algumas observações.

O escuro, diz Mengs, he melhor que o claro para se pôr adiante; porque,

além de outras razões muito attendiveis, por muito claros que se fação

os objectos pintados, sempre parecerão fracos, e pouco brilhantes, em

comparação da luz natural; e por isso, os habeis artistas sempre fizerão

alguma massa escura no primeiro pavimento. Estas regras porém, tem como

todas, bastantes excepções. A regra mais universal que se possa seguir,

he, segundo me parece, que no primeiro pavimento ha de a força da massa

ser toda opposta ao tom do fundo do quadro: se o dito fundo for claro

destacará bem, e parecerá visinha a nós huma massa escura; com tanto que

seja moderada, e suave nos contornos; mas se o fundo fosse escuro, hum

corpo tambem escuro, inda que estivesse no primeiro pavimento, pareceria

estar mui longe, e não faria effeito algum. Bento Coelho, que fazia os

fundos quasi pretos, punha sempre o branco no primeiro pavimento, o

vermelho ou amarello no segundo, e assim hia degradando. Raphael usou

tambem pôr os brancos, e os maiores claros adiante do painel, ainda

mesmo quando os fundos não erão muito escuros; o que se póde ver na

Transfiguração, na Batalha de Constantino, na Escóla de Athenas, e em

quasi todas as suas composições; mas os Venezianos, e muitos Francezes,

como Le Brun, em algumas batalhas de Alexandre, e no Triunfo de

Jerusalem, tem posto a diante corpos sombrios; o que sendo feito em

paineis de muitas figuras, e com sabio artificio, facilita muito o bello

effeito do todo.

«D. José Nicoláo de Azara diz que a Composição he a arte de bem collocar

as partes que compõe hum todo. O Poeta póde representar a sua acção em

varios pontos; mas o Pintor só póde escolher hum unico ponto em toda a

acção, e nelle ha de representa-la precisamente e quasi concentra-la,

sem tratar do que o precede, ou do que o segue. Este ponto deve ser o

mais essencial da historia, pelo qual se entenda facilmente o resto; e,

como dizia Mengs, a historia ha de se explicar pelo quadro, e não o

quadro pela historia.»

«Por expressão entendo a arte de patentear convenientemente os affectos

por meio de toda a sorte de sinaes exteriores. A união da alma com o

corpo, he tal, que não póde nella haver movimento algum, que não excite

nelle o seu movimento correspondente. Devendo pois o Pintor dar acção ás

suas figuras, estas devem exprimir nos seus semblantes, e em todo o

resto dos seus corpos aquellas alterações, que são proprias das paixões

que lhes suppomos; rejeitando porém as que prejudicarião a graça e a

belleza, ou fazendo-as de hum modo agradavel, visto que, entre os

extremos de todas, ha hum grande numero de gradações mais ou menos

violentas. O Laoconte, e seus filhos, exprimem a mais dolorosa situação,

que a humanidade possa soffrer, sem prejudicar com os seus gestos, e

convulsões a belleza das formas: deixando-se ver no pai, huma grande

alma superior á sua desgraça; e nos filhos, que sentem iguaes dores, e

pedem soccorro ao pai sem movimentos, que desfigurem a belleza de seus

corpos, e sem faltar no mesmo tempo á força da expressão. O gruppo da

Niobe he outro exemplo da nobre maneira, com que os Gregos exprimião as

situações mais violentas sem alterar a formosura dos seus objectos:

cousa verdadeiramente grande, e difficil! Os Gregos possuião esta arte

com tal magisterio, que nas suas estatuas, parece que elles não se

occupavão com a expressão; porque lhes davão sempre hum tal repouso, que

mostrão toda a belleza sem alguma alteração; e com tudo, cada huma diz o

que deve dizer, pois que hum suave e doce movimento da boca, dos olhos,

ou sómente a acção, exprime o affecto, encantando a alma, e os sentidos.

Entre os modernos houverão muitos que só tinhão por expressivas as

figuras espritadas; fazendo com muito trabalho muito pouco effeito.»

«O celebre Winckelmann observou que os antigos tinhão adoptado duas

regras principaes de _Composição_, das quaes nunca se affastavão,

primeira a economia das figuras, segunda a moderação nas suas attitudes.

Em quanto á primeira, parece que a regra de Sophocles de nunca pôr na

scena mais de tres figuras, era tambem a regra dos Pintores. Os Antigos

sabião exprimir muito com pouco. Theon pintou a lucta de hum só

guerreiro contra muitos adversarios, sem pôr no painel mais que o

heroe.»

«Do baixo-relevo de Meleagro, e de varias pinturas d'Herculano, consta

que elles sabião bem gruppar quando lhes convinha; mas não gostavão da

confusão: tambem conhecião o contraste ou contraposição, como os poetas,

e oradores conhecião a _antithesis_; mas fazião-a natural, como nascida

do seu assumpto, e não como filha de hum grande esforço do genio, como

fazem muitos artistas d'agora, para os quaes o contraste he tudo, e

desculpa tudo.»

«As Personagens d'huma composição devem, em primeiro lugar, ser

discretas, e tranquillas; e não hão de ter movimentos violentos, e

convulsivos, como as do celebre La Fage: segundo não se ha de nella

introduzir cousa alguma que seja inutil, ou ociosa: terceiro tudo deve

ser diversificado, sem repetição de movimentos, attitudes, etc.»

«Aquelle que escrevendo ao seu amigo, lhe dizia «Eu não tenho tempo para

me exprimir mais laconicamente» sabia bem, que o pouco, e bom, he mais

difficil, que a grande superabundancia. Tiepolo[10] fazia mais em hum

dia, que Mengs em huma semana; mas a obra de Mengs, inda que menor em

quantidade, valia mais.»

«O Juizo final de Miguel Angelo, e a Batalha de Constantino de Rafael,

são duas grandes escólas de _Composição_.»

«A má distribuição dos objectos conduzio o Caravagio, e o Hespanholeto a

huma maneira negra, e mui desagradavel: os que se collocão com

intelligencia, como recebem melhor as luzes, são mais claros e mais

distinctos; porém os máos conhecedores daquelle tempo admiravão aquella

maneira negra, e a preferião á dos Caraches, e á do mesmo Guido, só

porque erão claras.»

«Pedro Mignard examinando huma das Sagradas Familias de Raphael, da

collecção Real de França, observou que sendo a grandeza da expressão a

cousa mais admiravel daquelle Artista, e a que lhe déra o titulo de

Divino, começaria por louvar a grande modestia, e respeito que se admira

no rosto, e gesto de Nossa Senhora; o amor desta Santissima Mãi para seu

filho, e a ternura do Filho para sua Mãi; a veneração de Santa Isabel, e

a profunda humildade de S. João; o repouso de S. José, e o gosto

acompanhado de admiração tão bem exprimido nos semblantes dos dois

Anjos. Elle disse que naquelle quadro se via bem a elevação do espirito,

e o grande juizo do Author, considerando de que maneira elle se

conduzira naquelle trabalho, e a escolha que fizera de quanto ha mais

bello para ornar com decóro as suas Figuras.»

Nova academia de pintura dedicada às senhoras portuguezas que amão ou se applicão ao estudo das Bellas Artes · 第 2 / 3 段