sem ella não ha persuasão. A Arte sublime requer quatro cousas: 1.^a
materia ou argumento: 2.^a conceito: 3.^a estructura ou composição: 4.^a
estilo. O Argumento deve ser grande, heroico, e delle se devem desterrar
as cousas miudas. Conceito he hum pensamento alto, elevado, como o de
Homero para o seu Jupiter, que só com o pensamento _movia a terra, o
Ceo, e o mar irado_. A composição seja natural, e não exaggerada, ou
extravagante. O Estilo he hum modo particular de pintar procedido do
genio de cada hum, e que nasce naturalmente do seu engenho. Muito agrada
a novidade na Pintura; mas esta novidade não consiste em achar assumptos
ou motivos novos, senão em compor os antigos por novo modo. Se o Pintor
quizer que o admirem, não se faça estranhamente singular; mas procure
fazer tudo com prudencia, e perfeição.»
«A composição de hum quadro (diz Richardson) he de grandissima
consequencia; he a primeira cousa que se apresenta á nossa vista, e que
nos póde prevenir em seu favor, ou desgostar-nos delle; por tanto, as
figuras de hum painel, e os seus fundos, devem compôr massas de luz, e
de sombra, que mesmo de longe, sejão gratas á vista.»
«Em cada painel ha de haver hum sitio mais rico, e brilhante; e alli he
o lugar da principal personagem, e da acção mais notavel, aonde tudo
deve ser mais bello, e bem acabado. Os outros objectos sejão todos
subordinados a este; mas cada hum delles ha de ter huma parte que domine
as outras, e se deixe logo ver.»
«Se o Pintor fôr obrigado a collocar alguma das figuras principaes a hum
lado, e em meia luz, faça-a distinguir pela côr viva do vestido, como
fez o Ticiano no Bacco e Ariana; ou de outra maneira discreta, e
artificiosa.»
«O Pintor deve saber perfeitamente a historia que quer pintar, e meditar
depois se póde accrescentar algum incidente de sua invenção, que não
seja inverosimil. Póde tambem ás vezes (mas raras vezes) apartar-se da
verdade natural, e historica, como fez Raphael, muito discretamente, no
Cartão da Pésca miraculosa, onde pintou huma barca muito pequena, á
proporção das figuras, a fim de não encher o painel com hum barco, ou de
não fazer as figuras pequeninas; cousa que tornaria a composição
mesquinha: tambem se apartou o mesmo author da verdade historica, no
outro Cartão do Paralytico, aonde a architectura da entrada para o
Templo he de sua invenção, e não como consta que ella era; mas aquella
licença foi muito feliz, porque deo hum ár mais nobre, e magestoso a
todo o painel. Estas excepções da regra são permittidas; mas poucas
vezes.»
«Cada painel historico ha de representar hum unico instante de tempo, e
seja quelle que for mais vantajoso. Nenhum objecto, por excellente que
seja, interrompa a attenção devida ao heróe. Não se introduzão figuras,
ou ornamentos superfluos; antes pelo contrario, conceda-se alguma cousa
á imaginação, e ao desejo dos espectadores. Em tudo haja grande
variedade.»
«Bardon affirma que o pittoresco de huma composição consiste em huma
singular, e exquisita escolha dos effeitos da Natureza, ajudada pelo
gosto, e espirito sustentados pela razão. O Heroe do quadro deve brilhar
alli, como hum monarca entre os seus cortezãos, e attrahir as vistas do
espectador por algum accidente de luz, ou particular effeito de côr; ou
tambem por alguma privação da mesma luz, manejada com arte.»
«O Pusinno, e Paulo Veronez modelavão a composição inteira, giravão ao
redor della, e escolhião o ponto de vista, e o aspecto mais vantajoso,
para o seguir, e imitar. A luz principal deve ser unica; mas para que o
effeito do quadro não pareça de lanterna, ou luz de noite, hajão alguns
reclamos della nas principaes partes da composição; sempre em marchas
diagonaes.»
André Felibien, tratando da composição, inculca como o mais raro e
perfeito exemplo desta parte essencial da Arte, o precipicio dos
gigantes pintado por Julio Romano no palacio do T. Como Julio era tambem
o architecto daquelle palacio, mandou fazer o salão redondo, e lizo como
hum forno: os mesmos alizares, e a chaminé, erão feitos á vontade da
pintura. Toda a casa parecia hum só painel representando huma vasta
campina por onde muitos gigantes levão montanhas ás costas, e vão
colloca-las em cima d'outras para dar hum assalto ao Olimpo. «A derrota
começa: os gigantes maiores estão no primeiro pavimento já prostrados
por terra: alguns jazem debaixo das montanhas; e Briarêo está quasi todo
soterrado. Pelo rôto de huma gruta se avistão muitos ao longe, que fogem
amedrontados, e são colhidos pelos raios de Jupiter. No mesmo tempo, os
templos, e os grandes edificios cahem arruinados em cima de outros;
ficando a chaminé, entre paredes e columnas precipitadas, fingindo parte
da ruina; e tão artistamente executada, que quando se accende o lume,
parece que ardem os gigantes, e que he huma boca do inferno, por onde
Plutão, em companhia das Furias, se vai precipitar no Tartaro.»
«Quando se compõe, deve-se deixar o genio em plena liberdade; e só
depois de feita a composição he que se ha de consultar a natureza; e
depois o _Antigo_, para emendar por elle os defeitos do natural. He
preciso variar todos os objectos, mas sem violencia nem affectação: ha
de parecer que as figuras se collocárão por si mesmas; e nisto consiste
a graça da _disposição_.»
Antonio Rafael Mengs, a quem os artistas modernos chamão o Raphael
Alemão, ensina «que o Pintor, antes de começar qualquer composição,
deve-se fazer senhor não só daquella passagem historica que quer pintar,
mas tambem de toda a historia que lhe he relativa, para conhecer
perfeitamente as indoles de todas as personagens que ha de pôr na scena;
o que se não poderia fazer com muito acerto sem as conhecer a fundo, e
sem saber com quaes vistas se movêo a acção; por que se deve manifestar,
na pessoa que a está fazendo, e na sua fysionomia, o seu proprio
caracter, e qual seja o motivo porque a faz. He preciso tambem
transferir-se ao tempo, ao lugar, e aos usos das gentes que se
representão; e dar-lhes os vestidos proprios das suas nações, e dos
seculos em que viverão, ou senão constar bem, ao menos os das nações com
quem tratavão, ou donde procedião.»
«Em quanto ás contraposições nas figuras, siga-se como regra geral, que,
se hum braço avançar, a perna daquella parte, e o outro braço devem
recuar: os dois braços nunca hão de avançar, porque ninguem poderá
recuar ambas as pernas sem cahir: a cabeça incline-se para a parte do
braço levantado, e volte-se para onde a mão estiver mais avançada:
nenhum membro deve formar angulo recto; nem dois membros hão de ser
reciprocamente parallelos. Huma das mãos nunca se deve achar defronte da
outra; e nenhuma extremidade esteja na mesma linha vertical, ou
horisontal de outra; nem se encontrem duas mãos e hum pé, ou dois pés e
huma mão, collocados em linha recta.»
«O gruppo he huma união de figuras que se hão de encadear humas com
outras, e em numero impar; como 3, 5, 7, ou ao menos seja composto de
dois numeros impares como 6, 10, 14.[9] A composição do gruppo seja
piramidal, mas de planta redonda, _como huma fogueira_: as grandes
massas hão de estar no meio: os lugares das figuras formem linha curva,
e não recta: não concorrão duas cabeças na mesma linha horisontal ou
vertical: os dois braços ou as duas pernas da mesma figura nunca tenhão
escorço igual; e a que nos mostra a palma de huma das mãos, deixe ver a
costa da outra.»
«Appareção as partes mais bellas dos corpos, como as juntas, o pescoço,
as espaduas, os cotovelos, pulsos, joelhos, costas, e peitos; e isto por
dois motivos; primeiro, porque nas extremidades, e articulações pode-se
deixar ver muita expressão, e muita sabedoria; segundo, porque os peitos
e as espaduas são as partes mais grandiosas do corpo, e as mais capazes,
por isso mesmo, de reunir no gruppo grandes massas de luz, e de côr
agradavel, qual he a das carnes.»
«Nas mulheres, todas as partes nuas, que se podem ver honestamente, são
mui gratas á vista; mas algumas, como os peitos, parecem mais bellas não
estando de todo descubertas.»
«Quando se combinão varios gruppos tambem devem ser em numero impar, ou
hum inteiro no meio do quadro, e duas ametades aos lados. A figura mais
nobre esteja sempre no do meio, e as mais notaveis aproximem-se ao
heróe; mas este esteja no segundo pavimento, e não no primeiro, para ser
como o centro no circulo dos espectadores. A tortuosidade na planta do
gruppo, póde ser concava, ou convexa; porque de ambas as sortes se póde
collocar no meio o objecto principal, e o mais brilhante. Inda que se
deva fazer alardo das mais bellas partes, evitem-se com grande cuidado
as réplicas; porque sem a variedade não ha agrado. Quando fôr possivel,
metão-se na composição pessoas d'ambos os sexos, e de todas as idades; o
que produzirá huma varidade muito grata nas expressões, e nas acções.»
«Corregio distribuia assaz bem os gruppos; mas dispunha-os antes para
produzirem bellas massas de clar'escuro, que para exprimir quaesquer
affectos. Foi admiravel nos escorços, e he de crer que fazia figurinos
de cera para todas as composições dos téctos, a fim de poder observar
bem os contornos, e o clar'escuro das figuras escorçadas; e este era o
forte da sua composição. Fugia de deixar ver nos corpos que pintava, as
partes rectas; e tanto, que raras vezes fez cabeças que não fossem
vistas debaixo, ou de cima; e nunca de frente.»
«O mais egrégio Pintor cujas obras se conhecem, Raphael, foi não só
sublime, mas singular na composição; e esta he a parte da Pintura em que
foi mais sabio. Elle a inventou; porque nem entre os poucos quadros
antigos que pôde ver, nem entre os modernos, achou perfeito modélo para
imitar. A principal cousa que se deve observar em hum quadro he a
invenção; isto he, a expressão verdadeira de hum assumpto: e nisto não
teve igual. Nenhuma das figuras que elle poz em scena poderia servir em
assumpto de diversa expressão. O pensativo, o alegre, o melancolico, o
colerico, todos se achão na sua competente situação: nem a expressão
perfeita se acha só em cada figura; mas todas ellas, e os episodios,
correspondem perfeitamente á paixão da principal personagem. Mostrou
grandissimo talento na variedade com que soube exprimir huma grande
paixão, fazendo ás vezes intervir muitas figuras em hum movimento
parcial; e isto não por acaso, ou por encher o quadro, mas pelo pedir
assim a força da expressão. Nos seus quadros ha de ordinario muita
variedade de cousas, sem contradições; paixões violentas, sem
deformidades; mostrando a expressão algumas vezes, até no movimento de
hum dedo, e no effeito que fazem as paixões sobre as partes tendinosas,
e aponevroticas. Muitas cousas que em outros serião defeitos, erão nelle
grandes bellezas pelo modo com que as accommodava.»
«Entre hum quadro de Raphael, e o de qualquer outro Pintor ha a mesma
differença, que haveria entre hum heróe como Alexandre, e hum comediante
que o quizesse representar; e isto, porque os outros tocão algum dos
extremos nas attitudes, e nas expressões; mas Raphael dava ás suas
figuras os proprios movimentos da alma: para esse fim seguia huma
pratica diversa do costume. Os Pintores põem ordinariamente toda a sua
attenção nos gruppos, e na composição de cada figura, segundo as
contraposições, e as regras da Arte; porem elle começava por figurar na
sua mente o total da sua historia, e todos os objectos que poderião
concorrer para a expressão geral, e depois he que tratava de cada figura
em particular, elegendo os membros que havião de cooperar, segundo as
paixões do animo; deixando mais ou menos quietos os que nellas não
tinhão parte: observando o caracter de cada figura; porque hum Apostolo,
ou hum Filosofo não se ha de mover como hum soldado, nem huma honesta
donzella como huma meretriz. Assim he que demonstrava, tanto as paixões
internas que se indicão pela testa, olhos, nariz, boca, dedos; como as
externas que movem o corpo todo; porque o seu excesso não admitte
moderação. Nunca fazia as acções completas; porque, se hum homem que
caminha não tem acabado de formar o passo, está em movimento, tem vida,
e sabemos o que faz; mas se tivesse acabado o passo não saberiamos o que
tinha feito nem o que hia fazer. O Pintor de Urbino tinha de mais a
louvavel facilidade, e huma certa negligencia apparente, tão difficil de
conseguir; como tambem a arte de occultar com felicidade hum membro,
huma mão, hum pé; ou para não mostrar partes ociosas, ou para não
affrontar as partes principaes, ou em fim para evitar o máo effeito que
poderião alli fazer.»
«A composição he em geral de duas especies; a expressiva, e a de grande
effeito: nesta, que he mais propria para as grandes maquinas, como
cupulas, tectos, etc. forão excellentes o Corregio, o Lanfranco, Pedro
de Cortona, e Lucas Jordão; ella agrada muito, e a muitos. Em quanto á
expressiva, que sem duvida he a mais sabia, bella, e difficultosa,
nenhum chegou a Raphael; mas o Domeniquino, e o Pusinno approximarão-se
muito. Se n'huma composição Raphael fizesse as figuras, Pusino o fundo,
e Domeniquino os rapazes, seria então perfeitamente expressiva. Bem se
vê que a parte principal toca a Raphael, e que elle por consequencia,
foi na expressão o maior de todos os Pintores.»
O Abbade João Baptista Dubós, nas suas _Reflexões criticas sobre a
Pintura_ deixa ver em muitos lugares, que pouco entendia da Arte; mas
como era sabio, e tinha lido bons authores, diz tambem algumas cousas
attendiveis. «Elle observa que ha assumptos excellentes para a Poesia,
que nem por isso são bons para a Pintura. A historia Sagrada, a Grega, e
a Romana fornecem assumptos pittorescos, e interessantes; assim como a
historia Franceza será bem acceita em França, e a Portugueza em
Portugal. O sacrificio de Efigenia não he proprio para figurinhas de
huma paizagem. Venus, e as Graças não se devem fazer colossaes.»
«Le Brun servio-se bem da allegoria mixta quando pintou Luiz XIV. em hum
carro, guiado pela Victoria, atropelando as Cidades e os Rios da
fronteira Hollandeza. A Hespanha, querendo suspender-lhe a marcha;
recebe alguns tiros, e deixa cahir a mascara. A prudencia em taes
composições he mui precisa; porque nada faz dizer tantas tolices como o
excessivo desejo de parecer discreto, e sabio.»
Claudio Watelet compôs hum elegante poema sobre a Pintura: Publicarão
outros dois, o Abbade de Marsy, e o Panegyrista de Pedro Mignard: todos
tres fallarão muito bem na _composição_; mas como o que sobre ella
discorrerão se encontra com o que já temos dito, ou vamos dizer, não
augmentaremos este volume com inuteis repetições. Pelo mesmo motivo
omittiremos tambem o que a este proposito disserão Le Comte, e outros
muitos.
Daniel Webb, era mais versado nas letras humanas, que practico nas boas
artes: em Roma frequentou a casa de Mengs, e aproveitou-se dos seus
dictames: apesar disso, a sua doutrina, inda que corroborada com
sentenças de authores gravissimos, não carece de sofismas. «Elle diz que
a Historia pintada tendo muita correlação com o Poema dramatico podemos
alli considerar a scena, e a poesia. A excellencia da primeira consiste
em huma agradavel disposição das figuras que compõe a acção.»
«Se de noite, prosegue elle, levantarmos os olhos aos Ceos, a nossa
attenção não será attrahida por algumas estrellas espalhadas cá, e lá;
mas recahirá logo sobre aquellas que estão gruppadas em constellações; e
por esse motivo as composições bem gruppadas de Lanfranco, e do Cortona,
agradão muito mais, que as dispersas do Domeniquino; inda que este fosse
maior Pintor que os outros.»
Francisco Xavier Lobo, Pintor Lisbonense, do ultimo seculo, era amigo de
pensar, e dado á leitura e á especulação da Arte: elle escreveo alguns
dialogos criticos sobre a Pintura pratica, e especulativa. Authorisa-se
com Leonardo de Vinci para exigir que o Pintor historico nenhuma cousa
ignore do que pertence á Arte; porque no painel se ha de achar tudo;
figura, architectura, paizagens, fructos, flores, etc.: e por isso aqui
fallarei, diz elle, do que alguns estranharão que eu falle «Quando o
Pintor distribuir as figuras na sua composição deve lembrar-se logo das
luzes, e côres que lhes ha de dar; dando-lhes attitudes, e movimentos
taes, que não embaracem o effeito do clar'escuro. He evidente que huma
cabeça voltada contra a luz não faz o mesmo effeito que voltada para
ella. O objecto principal não se ponha da parte da sombra. Nas figuras
vestidas pareça sempre que ha algum ár entre a carne e as roupas; mas
nas Santas Imagens deve-se usar isto com muita moderação para que não
pareção dançarinos; antes inspirem affectos de devoção.»
«Tem muitos authores feito os seus paineis seguindo dois pensamentos,
ambos possiveis; hum de romper com claro por detras de algum corpo
escuro que esteja no primeiro pavimento; isto he, logo na entrada do
painel; outro de dar a força da luz nesta mesma entrada, e hir por
degraos abatendo os claros para o fundo: o primeiro me parece bom; o
segundo melhor; porque, não affecta sabedoria de arte. Bento Coelho foi
sem duvida hum grande compositor; e com tudo, são raros os seus quadros
que tenhão figuras tenebrosas na entrada, as quaes muitas vezes parece
que furão e recortão o painel.» Atéqui o nosso Lobo; mas a passagem
parece-me digna de algumas observações.
O escuro, diz Mengs, he melhor que o claro para se pôr adiante; porque,
além de outras razões muito attendiveis, por muito claros que se fação
os objectos pintados, sempre parecerão fracos, e pouco brilhantes, em
comparação da luz natural; e por isso, os habeis artistas sempre fizerão
alguma massa escura no primeiro pavimento. Estas regras porém, tem como
todas, bastantes excepções. A regra mais universal que se possa seguir,
he, segundo me parece, que no primeiro pavimento ha de a força da massa
ser toda opposta ao tom do fundo do quadro: se o dito fundo for claro
destacará bem, e parecerá visinha a nós huma massa escura; com tanto que
seja moderada, e suave nos contornos; mas se o fundo fosse escuro, hum
corpo tambem escuro, inda que estivesse no primeiro pavimento, pareceria
estar mui longe, e não faria effeito algum. Bento Coelho, que fazia os
fundos quasi pretos, punha sempre o branco no primeiro pavimento, o
vermelho ou amarello no segundo, e assim hia degradando. Raphael usou
tambem pôr os brancos, e os maiores claros adiante do painel, ainda
mesmo quando os fundos não erão muito escuros; o que se póde ver na
Transfiguração, na Batalha de Constantino, na Escóla de Athenas, e em
quasi todas as suas composições; mas os Venezianos, e muitos Francezes,
como Le Brun, em algumas batalhas de Alexandre, e no Triunfo de
Jerusalem, tem posto a diante corpos sombrios; o que sendo feito em
paineis de muitas figuras, e com sabio artificio, facilita muito o bello
effeito do todo.
«D. José Nicoláo de Azara diz que a Composição he a arte de bem collocar
as partes que compõe hum todo. O Poeta póde representar a sua acção em
varios pontos; mas o Pintor só póde escolher hum unico ponto em toda a
acção, e nelle ha de representa-la precisamente e quasi concentra-la,
sem tratar do que o precede, ou do que o segue. Este ponto deve ser o
mais essencial da historia, pelo qual se entenda facilmente o resto; e,
como dizia Mengs, a historia ha de se explicar pelo quadro, e não o
quadro pela historia.»
«Por expressão entendo a arte de patentear convenientemente os affectos
por meio de toda a sorte de sinaes exteriores. A união da alma com o
corpo, he tal, que não póde nella haver movimento algum, que não excite
nelle o seu movimento correspondente. Devendo pois o Pintor dar acção ás
suas figuras, estas devem exprimir nos seus semblantes, e em todo o
resto dos seus corpos aquellas alterações, que são proprias das paixões
que lhes suppomos; rejeitando porém as que prejudicarião a graça e a
belleza, ou fazendo-as de hum modo agradavel, visto que, entre os
extremos de todas, ha hum grande numero de gradações mais ou menos
violentas. O Laoconte, e seus filhos, exprimem a mais dolorosa situação,
que a humanidade possa soffrer, sem prejudicar com os seus gestos, e
convulsões a belleza das formas: deixando-se ver no pai, huma grande
alma superior á sua desgraça; e nos filhos, que sentem iguaes dores, e
pedem soccorro ao pai sem movimentos, que desfigurem a belleza de seus
corpos, e sem faltar no mesmo tempo á força da expressão. O gruppo da
Niobe he outro exemplo da nobre maneira, com que os Gregos exprimião as
situações mais violentas sem alterar a formosura dos seus objectos:
cousa verdadeiramente grande, e difficil! Os Gregos possuião esta arte
com tal magisterio, que nas suas estatuas, parece que elles não se
occupavão com a expressão; porque lhes davão sempre hum tal repouso, que
mostrão toda a belleza sem alguma alteração; e com tudo, cada huma diz o
que deve dizer, pois que hum suave e doce movimento da boca, dos olhos,
ou sómente a acção, exprime o affecto, encantando a alma, e os sentidos.
Entre os modernos houverão muitos que só tinhão por expressivas as
figuras espritadas; fazendo com muito trabalho muito pouco effeito.»
«O celebre Winckelmann observou que os antigos tinhão adoptado duas
regras principaes de _Composição_, das quaes nunca se affastavão,
primeira a economia das figuras, segunda a moderação nas suas attitudes.
Em quanto á primeira, parece que a regra de Sophocles de nunca pôr na
scena mais de tres figuras, era tambem a regra dos Pintores. Os Antigos
sabião exprimir muito com pouco. Theon pintou a lucta de hum só
guerreiro contra muitos adversarios, sem pôr no painel mais que o
heroe.»
«Do baixo-relevo de Meleagro, e de varias pinturas d'Herculano, consta
que elles sabião bem gruppar quando lhes convinha; mas não gostavão da
confusão: tambem conhecião o contraste ou contraposição, como os poetas,
e oradores conhecião a _antithesis_; mas fazião-a natural, como nascida
do seu assumpto, e não como filha de hum grande esforço do genio, como
fazem muitos artistas d'agora, para os quaes o contraste he tudo, e
desculpa tudo.»
«As Personagens d'huma composição devem, em primeiro lugar, ser
discretas, e tranquillas; e não hão de ter movimentos violentos, e
convulsivos, como as do celebre La Fage: segundo não se ha de nella
introduzir cousa alguma que seja inutil, ou ociosa: terceiro tudo deve
ser diversificado, sem repetição de movimentos, attitudes, etc.»
«Aquelle que escrevendo ao seu amigo, lhe dizia «Eu não tenho tempo para
me exprimir mais laconicamente» sabia bem, que o pouco, e bom, he mais
difficil, que a grande superabundancia. Tiepolo[10] fazia mais em hum
dia, que Mengs em huma semana; mas a obra de Mengs, inda que menor em
quantidade, valia mais.»
«O Juizo final de Miguel Angelo, e a Batalha de Constantino de Rafael,
são duas grandes escólas de _Composição_.»
«A má distribuição dos objectos conduzio o Caravagio, e o Hespanholeto a
huma maneira negra, e mui desagradavel: os que se collocão com
intelligencia, como recebem melhor as luzes, são mais claros e mais
distinctos; porém os máos conhecedores daquelle tempo admiravão aquella
maneira negra, e a preferião á dos Caraches, e á do mesmo Guido, só
porque erão claras.»
«Pedro Mignard examinando huma das Sagradas Familias de Raphael, da
collecção Real de França, observou que sendo a grandeza da expressão a
cousa mais admiravel daquelle Artista, e a que lhe déra o titulo de
Divino, começaria por louvar a grande modestia, e respeito que se admira
no rosto, e gesto de Nossa Senhora; o amor desta Santissima Mãi para seu
filho, e a ternura do Filho para sua Mãi; a veneração de Santa Isabel, e
a profunda humildade de S. João; o repouso de S. José, e o gosto
acompanhado de admiração tão bem exprimido nos semblantes dos dois
Anjos. Elle disse que naquelle quadro se via bem a elevação do espirito,
e o grande juizo do Author, considerando de que maneira elle se
conduzira naquelle trabalho, e a escolha que fizera de quanto ha mais
bello para ornar com decóro as suas Figuras.»