«A Invenção dos outros quadros, que he igualmente poetica, e

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Rita Farinha (Mar. 2008)

NOVA ACADEMIA

DE

PINTURA

DEDICADA

ÁS SENHORAS PORTUGUEZAS

_Que amão ou se applicão ao estudo das Bellas Artes_.

....las Mugeres quando

Talves, applicar se han visto

A las Letras, o las Artes,

Los Hombres han excedido.

LISBOA:

NA IMPRESSÃO REGIA.

ANNO 1817.

_Com Licença_.

PROEMIO.

Quando vou discorrer sobre a Arte da Pintura, parece que deveria começar

pelo seu elogio; mas não o farei, por me parecer cousa superflua, e bem

sabida de todos: observarei sómente, que a Arte por si só, inda que

fosse levada a hum alto gráo de perfeição, não poderia fazer illustre, e

estimavel aquelle que tivesse o odioso, ou ridiculo comportamento de hum

Brouwer,[1] de hum Aleixo Transpadano,[2] ou de hum Bufalmaco;[3] mas se

pelo contrario, algum soubesse ajuntar á honra, e á virtude os talentos

de Rafael, de Corregio, ou de outro grande Pintor, estas raras

qualidades assim reunidas, constituirião (diz Richardson) hum mortal

«cujo esplendor poderia luzir mùito, mesmo em hum mundo ainda melhor de

que este». Na Poesia não se admittem medianias; mas na Pintura ha tantas

e taes difficuldades a vencer, que «O Pintor de segunda ou terceira

classe merece o mesmo gráo de estimação que hum homem de primeira ordem

em qualquer outra Faculdade.»

Mas se esta scientifica Arte, pela sua belleza e profundidade, tem sido

digna da applicação de muitos homens da mais alta esphera, não deixa

ella tambem, de ser igualmente propria, ou talvez mais propria ainda,

para as Senhoras; principalmente naquelles casos em que são mais

necessarias a graça, e a delicadeza: assim, tem feito as Nações

conhecedoras o maior apreço das obras da Sirani, da Sophonisba, da

Rosalba, e de muitas outras, cujos nomes fazem tanta honra ao bello

Sexo, como ás suas patrias.

A Musica he huma arte angelica, e pode entreter deliciosamente qualquer

Senhora, huma ou duas horas cada dia; a leitura a divertirá tres ou

quatro; mas a Pintura faz parecer pequenos os maiores dias de Junho, e

torna amavel e apetecivel a mesma solidão: he huma arte não só imitadora

de toda a Natureza, mas tambem creadora; arte emfim, que sympathisa

grandemente com a vivacidade das pessoas espirituosas, e discretas,

muitas das quaes desejão saber pintar, e nem sempre o conseguem; ou por

viverem em terras aonde não ha quem as ensine, ou por se limitarem nas

lições a huma pratica mui superficial. A Pratica he de absoluta

necessidade, e por ella se deve não só começar, mas avançar muito, sem

nunca a perder de vista; porém ha huma baliza, além da qual senão podem

fazer ulteriores progressos sem estudar a fundamento os preceitos

theoricos.

Os Poetas, e Oradores tem as suas regras fundamentaes, escritas por bons

Authores; nós tambem temos as nossas: o numero dos Escriptores que as

tratão he muito grande; os idiomas em que correm impressas são mui

diversos; e he assaz difficultoso poder fazer dellas huma sufficiente

collecção; e quando se fizesse serviria talvez, mais para confundir a

mente de hum principiante, que para a illustrar. Ha em taes livros

muitas cousas inuteis, e outras que parecem, ou são contradictorias; por

tanto he preciso escolher, resumir, e concordar: he o que nós procurámos

fazer nesta pequena obra, extrahindo de muitas flores, como fazem as

abelhas, só o balsamo que he proprio para compor o mel; pondo de parte

quanto nos pareceo improprio, ou desnecessario.

A Praxe, como dissemos, he indispensavel aos Artistas; mas a theoria he

indispensavel á perfeição da mesma pratica. Ella nos manifesta em pouco

tempo as descobertas de muitos seculos.

Desde que os restaudores da Arte começárão a fazer alguns progressos,

cuidárão logo em ir estabelecendo, como maximas fundamentaes, as

verdades que forão descobrindo; e para que ellas fossem bem apuradas e

debatidas, antes de se adoptarem, e bem interpretadas depois de

estabelecidas, fundárão Academias, compostas dos mais sabios Artistas

daquelles tempos; e ás especulações mais e mais apuradas dos seus

Academicos, he que se deve a perfeição a que chegou a Arte no tempo de

Raphael: e como a doutrina da nossa nova Academia he derivada, e

recopilada das doutrinas de todas ellas, não será fóra de proposito

dizer de passagem alguma cousa a respeito das mais notaveis.

Tendo-se perdido a Arte, nos seculos que as invasões dos Godos fizerão

barbaros, e infelices, só em Constantinopla, aonde elles não entrárão,

se conservou huma sombra della, que no seculo XI. começou a diffundir-se

pela Italia. Pelos annos 1000 forão alguns daquelles chamados Pintores,

fazer de Mosaico, o coro da Igreja de Santa Miniata em Florença: por

1072, sendo Doge de Veneza, Domingos Contarino, forão outros Gregos de

Constantinopla ornar tambem de Mosaico a igreja de S. Marcos: hum seculo

depois o Abbade Joaquim fez pintar sobre a porta do Thesouro, como por

inspiração, os retratos de S. Francisco, e S. Domingos, que ainda não

erão conhecidos: os Annaes de Sena fazem menção de alguns estatutos da

Arte no seculo XIII.; mas huma das mais antigas sociedades de Artistas,

foi a dos Padres Gaudentes, em Florença, no fim do mesmo seculo; muitos

dos quaes bordavão, escrevião bem, miniavão, e pintavão.

Gioto, no principio do seculo XIV. fundou a primeira Academia das tres

Artes, em Florença; e Jacomo Casentino concorreo muito para se erigir a

Irmandade de S. Lucas em Santa Maria a Nova. A Pintura fazia progressos;

e quando as Artes sobem, os discipulos excedem os mestres: Thaddeo Gaddi

excedeo seu mestre Gioto, no colorido, e nas expressões: Paulo Ucéllo

fez grandes progressos na perspectiva: Pedro Cavallini, e Fr. João

Angelico derão hum ár muito devoto ás Santas Imagens:[4] o Massolino[5]

deu grande nobreza ás figuras, e huma certa vida aos olhos; mas o seu

discipulo Massacio excedeu-o tanto, quanto elle havia excedido os

outros; porque deu muita força de relevo, muita correcção, graça, e

bellas attitudes ás personagens que pintava; e póde-se dizer que abrio o

templo da Immortalidade a Miguel Angelo, e a Raphael.

Lourenço de Medicis estabeleceo no seu Palacio, e Jardim, huma destas

Universidades, ou Academias, bem provida de preciosos Cartões, desenhos,

quadros, e estatuas; e dava premios, e pensões aos estudantes mais

aproveitados. Dalli sahio o Buonarota, o Torrigiani, o Ghirlandáro, e

outros sabios.

Fr. João Angelo, que era bom Escultor, obteve o beneplacito, e a

protecção do Grão Duque, para se restabelecer a antiga Academia, e a

Irmandade de S. Lucas, já quasi extinctas, no Convento dos Anjos, e

depois em S. Lourenço.

Em quanto isto se passava em Italia, tambem se fundárão iguaes

estabelecimentos á quem dos seus montes, taes como o de Antuerpia, o de

Nuremberg, o de Bruxellas, etc.; sendo hum dos mais antigos o de Bruges,

aonde João Van-Eych no seculo XIV. inventou a pintura a oleo.

No principio do seculo XVI. erigio em Roma, o divino Raphael, a mais

douta Universidade da Pintura que virão os modernos; mas durou pouco

tempo; porque faltou o Reitor della em 1520, e os alumnos todos se

dispersárão, sete annos depois, quando o exercito do Condestavel Carlos

de Borbon saqueou aquella Capital: porém Gregorio XIII, fundou outra, em

consideração do Musiano, e do Zucaro, que a dotárão. Os seus Academicos

edificárão o Templo de S. Lucas, e Santa Martinha, hum dos mais bellos e

mais sumptuosos de Roma, pelos desenhos do famoso Pintor Pedro de

Cortona; o qual lhe deixou 200$000 cruzados para se construir o Altar

mór, de bronzes e marmores finos, e se lhe erigir hum mausoléo.[6] O

Painel da dita Capella mór, o qual representa S. Lucas retratando Nossa

Senhora, he de Raphael.

Pela Lombardia fez a Arte grandes progressos, e teve boas Academias em

Milão, Veneza, Módena, Parma, Bolonha, etc. A dos Caraches foi a mais

célebre, pela quantidade de grandes homens que della sahio. Alli se

estudavão as tres Artes, a gravura, a perspectiva, e a anatomia: era

provîda de esqueletos, manequins, gessos originaes, vestidos, armas,

arnezes, etc. Alli se distribuião lugares, empregos, e premios, tudo

debaixo da direcção de Luiz Carache. Depois desta houve tambem em

Bolonha a do Guido, que teve 200 discipulos, a do Albani, a do

Pasinelli, a do Conde Cignani, as do Conde e do Senador Ghisiliere, e

outras muitas; mas como todas erão de particulares, depressa se

extinguião. Em Julho de 1706, juntárão-se 80 ou 90 Pintores (entre os

quaes, diz Zanoti, havia alguns que tinhão o seu merecimento) na Galeria

do Conde Fava, que sabia pintar, e tinha boa collecção de pinturas, a

fim de buscarem meios para reprimir a ousadia de certos _artigiani_

intrusos, que abusando da illimitada liberdade da Pintura, em hum paiz

aonde não havia Academia, se incumbião da direcção de grandes emprezas,

e reduzião os habeis artistas a huma abjecta servidão. O resultado foi

que o dito Conde, o General Marsili, e Carlos Maratti obtiverão do Papa

Clemente XI., que se estabelecesse a desejada Academia de Pintura, e

fosse alojada, com a Filosofia, no Palacio do Instituto de Bolonha,

debaixo da Protecção de Santa Catharina de Vigri, religiosa de S.

Domingos, e Pintora Bolonheza.

Os Authores Francezes fallão em desenhos seus, feitos á penna no seculo

XII., com estylo nada inferior ao que depois usou Cimabue:[7] e nos

tempos de Gioto, tinhão já muitos daquelles que alli se chamão

_barbouilleurs_, formado huma corporação, mecanica sim, mas muito

privilegiada pelo Parlamento; e em virtude dos seus privilegios ousárão

incommodar os grandes Pintores, que apparecerão no tempo de Luiz XIV.

Estes, indignados contra a sua audacia, fundárão a Academia Real de

Pintura, e Esculptura, que em 1663 foi dotada com 4$ libras annuaes; mas

Luiz XVI. lhe condeo 10$.

Mr. Urry, director das obras Reaes, em 1737, inventou o chamado Salão;

lugar aonde de dois em dois annos, os Artistas expõem ao Publico as

melhores obras que vão fazendo; cousa que foi mui vantajosa á Arte. Não

lhe forão menos uteis os que se chamão quadros de Maio: os Ourives

começárão em 1449 a offerecer a Nossa Senhora com grande solemnidade,

hum ramo verde, a que chamavão o Maio: depois, juntárão aos ramos certas

maquinetas; e por fins, desde 1630 começárão a offerecer cada anno, hum

painel, feito sempre por algum dos melhores Pintores da França.

Luiz XV. estabeleceo o grande Concurso da Academia Real em París, sendo

o premio dos vencedores, a sustentação em Roma (aonde tem outra

Academia) por tempo de quatro annos, para se aperfeiçoarem.

Na Hespanha fundárão-se tambem varias Academias; mas a mais famosa foi a

de Sevilha, aberta por Morilho em 1660. A de Madrid estabeleceo-se muito

mais tarde pelas dissensões dos mesmos Artistas. O partido dos menos

habeis, que era muito maior, triumphou por mais de 120 annos, até o de

1744; tempo em que Philippe V. mandou absolutamente que se fundasse.

Fernando VI., dois annos depois, a dotou em 12$ pezos; e exaltou-a

extraordinariamente, e aos seus professores.

Inda que estas mimosas Artes sejão mui pouco fecundas nos climas frios,

tem-se estabelecido as suas Academias na Dinamarca, na Russia, e por

todo o Norte da Europa. Os Pintores Inglezes tambem se associárão em _S.

Martin's-lane_ em 1750, a fim de deitarem os fundamentos n'huma especie

de Academia: dez annos depois convierão em fazer huma exhibição publica

das suas melhores obras, em hum salão similhante ao de França, aonde se

entraria por dinheiro. Em 65 obtiverão o beneplacito Regio para se

estabelecerem; e em 68 teve a Sociedade o titulo de Academia Real das

tres Artes. O dote era o producto das exhibições; mas como nos primeiros

annos não chegasse para as despezas, supprio o bolsinho Real a falta de

45$ cruzados.

Os Artistas expõem á venda, ou á censura pública, naquelle Salão, as

obras que querem; e os curiosos que as pertendem ver, pagão pela entrada

hum xelim cada hum: estas entradas produzirão 13 a 14$ cruzados annuaes

até o anno 1779; mas no seguinte, que foi o primeiro da exhibição em

_Somerset-Palace_, subio a receita a 27$ cruzados; e dalli até o anno de

96 andou sempre por 22 a 23$ de sorte que excedendo a receita a despeza,

comprou a Academia huma boa propriedade, e applicou os seus rendimentos

em beneficio dos Artistas precisados. Este estabelecimento, soffreo

tambem, como todos os mais, grandes opposições; porque os não admittidos

em a nova Academia, fundárão outra; e outra exhibição; mas como não

tinhão grande credito, tudo desappareceo em pouco tempo.

De todas estas, e outras famosas Eschólas, he que deriva a Doutrina, que

em compendio vamos ensinar nesta nova Academia: mas antes de começar as

lições, he preciso dar ás nossas illustres Academicas huma idea

verdadeira da Arte.

A Pintura póde ser considerada de duas sortes, ou como natural, ou como

artificial. A Pintura natural he aquella que naturalmente se imprime na

retina dos nossos olhos; e dalli, pelos nervos opticos, se communica á

alma; e a Pintura artificial, he a imitação da Pintura natural. A esta

imitação, se he bem feita, chama-se _Verdade_. A Verdade na Pintura, ou

he simples, ou ideal, ou composta de huma e outra: Verdade simples he a

imitação exacta da Pintura natural, tal como ella se estampa dentro dos

nossos olhos, com todas as suas bellezas, e defeitos: Verdade ideal, he

a imitação daquellas imagens, que se nos representão na imaginação:

Verdade mixta he a imitação da Pintura natural, emendada nos seus

defeitos, pelos modelos de perfeição que o grande Artista concebe na sua

mente. Esta verdade mixta, ou composta, he a que se acha nas obras de

Raphael, e de outros grandes homens; mas principalmente no _Antigo_.[8]

Os que estudão a Arte devem, primeiro que tudo, adquirir a pratica da

verdade simples, costumando-se a imitar perfeitamente tudo quanto se

apresentar diante dos seus olhos; mas podem, e devem faze-lo de sorte

que em virtude da boa escolha dos objectos, achem tambem nos seus

exemplares a verdade composta. As Pinturas do Carache no palacio

Farnesio, e as de Raphael no Vaticano são as duas grandes eschólas de

Desenho. A terceira, e não menos importante para os que estão mais

adiantados, he a das boas estatuas antigas: os que não puderem estudar

pelos originaes, basta que estudem por exactissimas copias.

A Pintura comprehende tudo quanto se póde ver, e imaginar; e como he tão

vasta, divide-se em muitas partes, e em muitos generos. Os generos, são:

1.^o o Historico, ou (como os authores lhe chamão) o grande Genero: 2.^o

o dos Retratos: 3.^o o das Batalhas: 4.^o o das Bambochatas: 5.^o o das

Paizagens e Perspectivas: 6.^o o das Marinhas: 7.^o o dos Animaes: 8.^o

o das cousas inanimadas, como flores, fructos, ornatos, quadraturas,

etc.

As partes de que se compõe a Pintura, são: a Invenção; a Expressão; a

Distribuição, ou Disposição; o Desenho; o Colorido; o Clar'escuro; o

Estylo, ou Pincel; a Graça; a Grandeza; o bello Ideal; etc. etc.: mas

todas estas partes se podem reunir debaixo de tres principaes chefes,

que vem a ser: _Composição, Desenho, e Colorido_. Na ordem dos estudos

praticos, começa-se pelo Desenho; mas na ordem da doutrina theorica

principia-se pela Composição, por ser a primeira cousa que o pintor

habil tem a fazer quando quer começar o seu painel; motivo porque

principiaremos tambem por esta parte o nosso compendio.

NOVA ACADEMIA DE PINTURA

PRIMEIRA PARTE.

_Composição._

«Crear, ou para dizer melhor, reproduzir de novo as obras do Creador;

renovar e perpetuar sobre hum painel os feitos heroicos, os

acontecimentos memoraveis, he o mais nobre emprego do genio pitoresco.

Dispôr as idéas em huma bella ordem, apresenta-las debaixo d'hum aspecto

luminoso, he o grande primor da arte. Desta duplicada operação, da Arte,

e do Genio, nasce a Composição. Os pensamentos são os seus membros. Mas

assim como os materiaes de hum edificio não o poderião formar, se não

estivesse cada hum no seu lugar; assim as idéas não representarião bem

huma passagem historica, senão estivessem distribuidas na composição do

quadro, com sabia economia, e com reflexão magistral. A composição

divide-se em Invenção, e Disposição.»

SECÇÃO I.^a

_Invenção._

«A invenção he a combinação dos pensamentos que concorrem para a

composição de qualquer assumpto: he huma Musa que sendo dotada de todas

as bellas qualidades das suas irmãs, as Musas das Bellas letras, e

inspirada pelo espirito de Apolo, vem por isso mesmo a ser mais elevada,

e a resplandecer com mais viva flamma: he hum talento natural que se não

adquire pelo estudo, nem pela pratica; porque a fonte das invenções está

na faculdade imaginativa, e requer tres cousas, _imaginação_,

_prudencia_, _erudição_.»

«Não ha regras para a Invenção, porque a arte de imaginar não se

communica; mas podem haver conselhos uteis. Racine, quando compunha as

suas tragedias fazia todos os esforços para entrar nos sentimentos que

queria dar a Hippolito, a Phedra, a Athalia, e a Esther.»

«A Invenção he a poesia da Pintura, e a parte mais propria para

descobrir o talento do artista: ella desenvolve a primeira idéa de toda

a obra; e o Pintor não a deve perder de vista até a ultima pincelada.

Não basta que elle encha hum painel com muitas e boas figuras, se estas

não servirem todas para explicar o principal objecto; e se a totalidade

da obra não declarar logo ao espectador qual he o assumpto de que se

trata; preparando, e dispondo a mente de quem vê a pintura, para ser

commovida com as expressões, e affectos das figuras principaes: sem o

que, de nada serviria dar-lhes expressões violentas e exaggeradas, como

fazem aquelles que querem affectar muito espirito. O excesso, ou

affectação he a cousa mais nociva á boa invenção.»

«A Pintura sustenta-se, assim como a Poesia, pela fabula, e vive de

ficções; cada virtude se transforma n'huma divindade: Minerva he a

Prudencia; Venus a formosura; Diana a castidade; Écho não he hum som, he

huma nympha; o cabo das tormentas não he hum promontorio, he o gigante

Adamastor. Assim o Pintor, e o Poeta, ornão e elevão todas as cousas.»

«He tambem importante, associar á escolha dos objectos todas as

circumstancias, e todos os episodios, que podem augmentar o seu

interesse; tendo porém muito cuidado em que os accessorios não

prejudiquem em cousa alguma a acção principal.»

«As particularidades relativas ao _costume_ devem ser exactamente

observadas na Invenção: transportemo-nos em idéa aos diversos paizes;

chamemos á nossa imaginação os passados seculos; occupemo-nos dos usos,

costumes, e trajes de todas as personagens, para não cahir-mos naquelles

anachronismos, que são capazes de tirar o merecimento ao quadro mais

felizmente concebido, e executado.»

«Tudo o que se chama original he inventado; mas nem tudo o que he

inventado merece o titulo de original; porque esta palavra não só dá

idéa de invenção, mas tambem de grande magisterio. Arrojar-se a inventar

sem ter subido todos os degráos da escada optica, he querer

precipitar-se. Alguns desfigurão ás vezes os seus pensamentos querendo

enriquece-los.»

«Lêa o Pintor muitas vezes a historia que ha de compôr, e quando estiver

bem senhor della imagine as personagens: faça o desenho interno na sua

idéa; porque sem isso rascunhará muito, e não fará nada. Depois da

composição mental, querendo passar á execução da obra, retire-se do

tumulto; porque entre rumores, e estrépitos nada se fará com acerto. Não

pinte senão quando se sentir excitado por hum certo impulso; porque a

pezar das Musas não se póde fazer obra louvavel.»

«A _Invenção_ requer muito fogo, e muito genio; e a _Disposição_ muita

fleuma, e prudencia: e como estas cousas tão oppostas raras vezes se

combinão, por isso tem sido raros os grandes Pintores. He porém mais

facil moderar o genio de fogo, que escaldar o de gelo.»

«Nem todos os pensamentos são proprios para formar huma intelligivel e

elegante composição. Lucas Jordão rejeitou as Invenções dos sabios que

por ordem de Carlos II. lhe davão assumptos Theologicos para elle

executar no Escurial. Todos erão orthodoxos, discretos, eruditos; mas

não erão capazes de fazer por elles huma bella e pittoresca composição:

portanto deve-se escolher hum assumpto nobre, e que seja susceptivel de

bom colorido, graça, belleza, instrucção, recreio, etc.: escolhendo,

para o compor, o mais bello de toda a Natureza, segundo o gosto dos

antigos, e dos modernos que melhor os souberão imitar.»

«A escolha das Invenções deve ser analoga aos lugares que ellas vão

ornar. Nas Casas Reaes convem as acções dos Principes, e dos grandes

Capitães; convém triumphos, victorias, e outros assumptos capazes de

levantar o nosso espirito a pensamentos heroicos, e a desejos de honra,

e de gloria. O grande Artista póde, e deve ser grato aos beneficios que

recebe da Patria, dos Principes, e dos grandes Senhores: e se Virgilio

immortalisou os Romanos, Camões os Portuguezes, e Homero os Gregos;

tambem Raphael teve poder para perpetuar a gloria de Julio II., e Leão

X.; Lebrun a de Luiz XIV.; e o Ticiano a de Carlos V.»

«Nos Consistorios ecclesiasticos, tem bom lugar a assembléa dos

Filosofos, ou o concilio dos Theologos; como fez Raphael no palacio

Pontificio: mas nos seculares, não será impropria a pintura do conselho

dos Gregos para a expedição de Troya: a de Licurgo, Demosthenes, etc.

Nos templos claros pode-se pintar S. João prégando á turba; a absolvição

da Adultera; a conversão de S. Paulo; e outras passagens alegres: mas

n'hum tribunal de Justiça será a proposito representar o juizo de

Salomão; aquelles que se dedicárão á morte por amor das leis; e outros

semelhantes.»

«Nos jardins, ao pé das fontes, não serão improprias as metamorphoses de

Acteon, Arethusa, Salmacis, Narciso, e Egeria; mas entre os bosques

Hippomenes, Atalanta, Meleagro, Marsyas, Apollo; os quatro tempos, e os

mezes do anno; bailes de nynfas, e satyros; e tambem algumas

perspectivas, e paizagens, com Cephalo, etc.»

«Sobre as chaminés das salas pintar-se-ha Prometheu furtando o fogo do

Ceo, Hercules na pyra, Ascanio com a flamma nos cabellos, Vulcano,

Phaetonte, Perillo, Scevola, Curcio, Medéa, Ceres procurando a filha, e

outras. Os corredores ou galerias abertas, sendo nobres como são as

lojas de Raphael, ou o Claustro do Escurial, podem ser enfeitados com

elegantes ornatos, e arabescos, compostos de aves, flores, fructos,

medalhas de estuque, paizagens, perspectivas, folhagens, animaes,

insectos, monstros, figuras humanas, e tudo quanto cria a Natureza, e a

idéa póde imaginar.»

«As galerias interiores, bem pintadas, são como preciosos volumes,

sempre abertos, e escriptos em huma linguagem universal, que todos

entendem; onde vemos descriptas as proezas de Luiz XIV.; a protecção

efficaz que elle concedeo ás Artes e Sciencias; as acções de Francisco

I.; e tantas outras cousas nobres, sublimes, e interessantes, executadas

pelo Rosso, pelo Primaticio, pelo divino Raphael, por Le Brun, por

Mignard, e por muitos outros sapientissimos Pintores. Rubens na Galeria

do palacio de Luxemburgo, edificado por Maria de Medicis, tambem deixou

em vinte e quatro paineis immortalisadada a vida daquella heroina. No

primeiro, onde está representado o seu destino, apparecem as tres parcas

fiando os bellos dias da futura Rainha, debaixo dos auspicios de Juno, e

de Jupiter. No segundo está Lucina allumiando com a sua flamma as Graças

da Princeza recem-nascida; e deposita-a entre as mãos da Cidade de

Florença: Os Destinos espalhão sobre ella flores ás mãos cheias: o signo

de Sagittario indica o tempo do seu nascimento: o Genio da felicidade,

deixando ver a coroa, o sceptro, e as flores de liz, claramente

manifesta que aquella menina nasce para ser Rainha de França.»

«A Invenção dos outros quadros, que he igualmente poetica, e pittoresca,

contém: a educação da Rainha: o ajuste do seu casamento com Henrique

IV.: O casamento effectuado: o desembarque da Rainha em Marselha: a

Cidade de Lyão, que lhe sahe ao encontro: o nascimento do Delphim:

Henrique IV. se dispõe a partir para a guerra d'Alemanha, em soccorro

dos Marquezes de Brandeburgo, e de Neuburgo: coroação da Rainha como

Regente: Apotheose de Henrique IV., e Regencia da Rainha: o seu governo:

viagem militar da Rainha á Ponte de Cé, para reprimir a guerra civil: a

troca das duas Rainhas, Isabel de França, que casou com Filippe IV., e

Anna de Austria, com Luiz XIII., em 9 de Novembro de 1615: felicidade da

Regencia: maioridade de Luiz XIII.: fugida da Rainha do Castello de

Blois, onde seu filho a tinha presa: a Rainha acceita a paz, e a conclue

com seu filho: a mesma paz confirmada no Ceo: o tempo descobrindo a

Verdade. Alguns destes assumptos são assaz triviaes, e parecem estereis;

mas o grande e fecundissimo Genio de Rubens soube achar para todos as

mais bellas imagens, que se podião desejar.»

SECÇÃO II.^a

_Disposição._

«A disposição he pôr em boa ordem as idéas achadas pelo genio da

Invenção, a fim de compôr com magisterio a scena de hum painel. Toda a

composição he historica, allegorica, ou mixta: a que he historica tem

por objecto representar hum facto, com as circumstancias allegadas pelos

historiadores: a que he allegórica relata os acontecimentos

metaforicamente; exprimindo debaixo d'hum véo figurado, hum sentido

diverso da expressão literal: a mixta diz a verdade historica, ornada ou

corroborada com alguma agudeza da allegoria, que lhe sirva de commento;

e sem a qual não se poderia entender bem o que se quiz dizer.»

ARTIGO I.

_Da Disposição relativa ao Grande Genero._

«A Invenção, diz Du Fresnoy, acha os convenientes objectos; e a

Disposição os arranja; mas a distribuição ha de fazer-se de sorte, que o

tom, e a scena do quadro, á primeira vista, inspirem a principal paixão

no animo dos espectadores: isto he, que inspire alegria se o assumpto

for alegre; ou que infunda tristeza, e horror, se for triste, e

horroroso.»

«As composições sejão conforme os textos dos bons escriptores, e segundo

os tempos, costumes, e nações: a licença que Horacio concede aos

pintores, e aos poetas, deve ter os limites, que elle mesmo prescreve;

nada de sonhos, ou delirios extravagantes. Aquelles que quizerem fazer

progressos na Pintura historica, deverão familiarisar-se com os livros,

que podem elevar as suas idéas; para, nos seus vôos, não se servirem de

alheias azas, de que não conheção bem o uso, nem a força.»

«Quando se escolherem as attitudes das figuras, devem-se prever os

effeitos e harmonia das luzes, e cores; para collocar tudo de hum modo

natural, e vantajoso, e rejeitar o que póde fazer confusão: imitando a

tragedia, irmã da pintura, a qual emprega todas as forças da sua arte

onde recahe o forte da acção.»

«Para o Heroe, e para as principaes figuras, escolhã-se attitudes cujos

membros sejão grandiosos, amplos, e desiguaes nas suas posituras; de

maneira que os de diante contrastem com os de traz, e todos sejão

balanceados, ou equilibrados no seu centro commum. A principal figura

appareça no meio do quadro, debaixo da mais viva luz, tendo alguma cousa

notavel que a distinga de todas as outras; nem seja affrontada por

alguma dellas.»

«Os gruppos sejão separados por hum vacuo, para não fazerem confusão;

evitando nelles repetições de fysionomias, e movimentos; ou tendencia

para a mesma parte. Entre varias figuras de frente esteja tambem alguma

de lado, ou de costas: advirta-se que o pezo da composição não penda

para hum só lado. Evite-se o grande numero de figuras; mas se o assumpto

o pedir, attenda-se primeiramente á harmonia do todo, e depois se

cuidará em cada objecto; cedendo o interesse de cada hum em particular

ao bem commum de todos.»

«As figuras, que estiverem atraz de outras, não terão graça se os

movimentos das mãos não forem perfeitamente de acôrdo com as expressões

dos semblantes. Evitem-se os escorços, as acções violentas, ou pouco

naturaes, e tudo quanto for desagradavel á vista; como linhas

parallelas, ou figuras geometricas, que pela sua regularidade fação máo

effeito nas composições; porque a boa composição he huma bella

desordem.»

«Não vos sujeiteis tanto á Natureza, que não possais fazer cousa alguma

sem a ter diante dos olhos; nem a abandoneis de modo, que tudo pinteis

de pratica, porque hum tal costume seria huma libertinagem

anti-pittoresca.»

«Quando o quadro tiver huma só figura, deverá ella ser bellissima, e

realçada com vivas cores. As roupagens devem ter simplicidade, e

natureza; tendo sempre attenção ás qualidades das pessoas que as vestem:

as dos Senadores sejão amplas; as das donzellas leves, e suaves; as dos

rusticos grossas e estreitas.»

«Para encadear as luzes, he preciso ás vezes, relevar algumas dobras

sobre espaços mais profundos.»

«As divisas das virtudes, ou distinctivos das sciencias; os instrumentos

de guerra, e dos sacrificios, pela sua nobreza, concorrem muito para o

ornato das figuras; mas o ouro, e as joias sejão raros. Fuja-se dos

ornamentos góticos; porque são outros tantos monstros produzidos nos

seculos infelices. As paizagens, ou architecturas nos fundos dos

quadros, sejão executadas segundo o costume e natureza do seculo, nação,

ou paiz da scena.»

«He mui difficil exprimir bem as paixões d'alma; nem ellas podem ser

naturaes senão nas pessoas verdadeiramente apaixonadas: he onde o

Artista as deve estudar.»

«Fazei o maior esforço para dar a tudo muita graça, e muita nobreza; mas

este dom dimana antes do Ceo, que dos estudos.»

Leonardo de Vinci tambem nos deixou muitos, e optimos documentos sobre a

Composição. «Quando souberdes, diz elle, esboçar bem huma figura por

todos os lados, aprendei a compôr; e começai por dois combatentes de

igual valor, desenhando-os em varios aspectos, e em differentes

attitudes; depois fazei o valente brigando com hum cobarde, tudo bem

estudado: e aproveita-te das manchas casuaes das paredes, e dos

marmores, que representem fórmas de batalhas, e de outras cousas. Estes

acasos suggerem muitas invenções á fertil imaginação.»

«Depois de conheceres bem as partes de cada membro, e a totalidade dos

corpos inteiros, nota, e observa com diligencia os seus particulares

movimentos; mas de modo que as gentes não entendão que as observas, para

que não mudem de affectos: assim podes estudar a cólera, a ira, a dor, a

admiração, etc.; e tudo apontarás no livro de memoria, feito de papel

gessado, com ponteiro de prata; e depois o tirarás a limpo para ser o

teu mestre nas composições.»

«Faze as figuras de modo, que entendamos pelas suas mãos, olhos,

sobrolhos, e por todos os géstos do corpo, o que nos querem dizer; como

farião os mudos, ou os pantomimos para se explicarem: attendendo porém á

mais ou menos gravidade das pessoas que fallão, e á natureza das cousas

que nos dizem. O Principe, ou o sabio, tenhão differença das gentes

vulgares; com tanto, que os tristes sempre pareção mais ou menos

tristes, e os alegres alegres.»

«Nos gruppos misturem-se objectos de todas as sortes; mulheres, homens,

moços, velhos, animaes, arvores, montanhas, edificios, etc., etc.;

observando com tudo, que os membros e géstos d'hum velho sejão de velho,

e os de hum moço sejão de moço: os dos gordos ou magros; preguiçosos ou

diligentes, sejão como convem a cada hum. Não se misturem muitos rapazes

com muitos velhos, nem moços com meninos, nem mulheres com homens, se a

historia o não pedir. Faze poucos velhos, porque os velhos são mais

raros; e separa-os dos moços, de cujo genio não gostão; e onde não ha

uniformidade de costumes, falta a amizade, e esta falta motiva a

separação: mas se o assumpto for de conselho prudente, fação-se poucos

moços, porque não gostão de bons conselhos.»

«Se hum fallar a muitos, em materia persuasiva, sejão os seus géstos

apropriados á mesma materia; mas, se tratar de cousa demonstrativa, tome

com dois dedos da mão direita hum da esquerda, tendo os dois menores

fechados: a boca esteja hum tanto aberta para parecer que falla; e o

rosto voltado para o povo. Se estiver assentado, pareça que se eleva hum

pouco, direito, e com a cabeça inclinada para diante; mas se estiver em

pé, tenha algum tanto o peito e a cabeça inclinados para o povo; o qual

povo tacito e attento olhe para o orador com actos admirativos.»

«Se fizeres huma só figura, para evitar a critica da ignorancia, foge

não só do escorço total, mas tambem dos parciaes; porém na multidão, e

principalmente em batalhas, faze-os de todos os modos. As cousas que

fizeres n'hum quadro, não as repitas em outro. Faze tudo contraposto: o

feio ao bello, o fraco ao forte, o velho ao moço. Observa o decóro; isto

he, a conveniencia da attitude, vestido, sitio, e as demais

circumstancias das cousas que queres representar: hum Rei tenha o ár

magestoso, e esteja n'huma scena bem ornada; e os circumstantes estejão

com reverencia e admiração: mas nos assumptos baixos seja tudo pelo

contrario. As attitudes de hum menino, de hum velho, de hum moço, e de

huma mulher, sejão todas diversas, e apropriadas, cada huma ao seu

actor.»

O Cavalleiro Sir Josué Reynolds, grande Pintor de retratos, e tambem de

historia, do ultimo seculo, ensinava aos seus discipulos que se em hum

quadro de historia entrassem alguns retratos, devia ser de sorte que não

parecessem retratos. «Hum pintor retratista, lhes dizia elle, que quer

fazer algum quadro de historia, e não está bem costumado, entra

insensivelmente nas minucias, e dá hum certo ár de retratos ás suas

cabeças, como fazião os pintores góthicos, antes que as grandes idéas

fossem bem entendidas, e praticadas. Hum pintor historico pinta o homem

em geral; o retratista imita hum particular, e por consequencia

defeictuoso modelo: por tanto, a pratica habitual em algum dos ramos

menos elevados da Arte, póde ser hum obstaculo para possuir

perfeitamente o mais sublime.»

A variedade he huma das cousas mais recommendadas pelos authores: com

tudo, dizia Claudio Coelho, e dizia bem «_que estando já todas as bellas

attitudes achadas, e executadas pelos melhores artistas, nem por isso

deveriamos escolher as más, para evitar as repetições_.»

Gerardo Lairesse, chamado por antonomasia o Raphael Hollandez, diz que o

Artista, para bem compôr, deve ter a mão prompta, e obediente; boa

memoria, e bem exercitada; juizo são, e cultivado.

«Quando occorrerem boas idéas, não se demóre a execução; para evitar o

pesar do esquecimento.»

«Em hum lugar tranquillo traçaremos o plano, e o horisonte do painel, e

marcaremos com linhas os lugares, e as grandezas, que devem ter as

figuras, e os outros objectos, que occuparem o primeiro e o segundo

pavimento. Recomeçaremos depois pela figura principal, considerando qual

he a paixão que lhe compete, a attitude que deve ter, e o que devem

fazer as outras; se voão, se correm, se andão, ou se estão quietas; como

recebem a luz; de que sorte devem contrapôr, e destacar; e tudo isto se

delineará sobre outro papel.»

«Começaremos terceira vez a examinar quaes corpos devem ser nús, ou

vestidos; quaes terão nobre caracter; quaes commum; para depois passar á

eleição das côres locaes.»

«O Pintor não deve ser plagiario; nem contentar-se com ser menos que

Raphael.»

«Faça-se hum esquisso, bosquejo, ou rascunho da historia que se quer

tratar; e depois leão-se os melhores historiadores, que sobre ella

escreverão: e aponte-se no esquisso o que tiver esquecido. Note-se

depois o paiz, o mez, e a hora em que se passou a acção, para abrir, ou

apertar mais a luz, e enriquecer o fundo. O fim da acção deve-se

collocar no primeiro pavimento, e o principio della nos longes. Indicai

tudo no esquisso, e tornai a ler vinte vezes o vosso assumpto. Cada dia

pela manhã imaginai que sois algum dos actores, e que estaes

transportado ao lugar da scena: marcai logo os gruppos, e as attitudes;

escrevendo o nome de cada personagem.»

«Ponde o heróe no centro do quadro, e em lugar superior. O maior defeito

que póde ter hum painel, he o de não deixar ver logo qual he o assumpto

que representa. Se hum orador que quizesse louvar Alexandre, empregasse

as mais bellas figuras da Rhetorica para elogiar o Bucéfalo, seria bem

máo compositor.»

«De ordinario ha no quadro tres pavimentos: no primeiro, que he

luminoso, estão os principaes heroes; o segundo he sombrio; no terceiro,

outra vez claro, estarão os objectos menos importantes: colloquem-se as

grandes figuras atraz das pequenas: a luz opponha-se á sombra, ou ao

menos á côr sombria.»

«Isto feito, fazei novo esquisso: desenhai os nús do natural, e as

roupas de manequins, o mais acabado que fôr possivel, dando a cada

objecto particular a mesma luz geral de todo o quadro, e os mesmos

pontos de vista, e de distancia. Os desenhos, e estampas são utilissimos

para ver, e examinar como os grandes mestres souberão fecundar, e

enriquecer os assumptos, que parecião mais estereis, e pobres.»

«O assumpto heroico deve ser nobre, e grave; o jocoso engraçado; as

bambochatas carregadas. Em hum grande concurso devem haver diversas

fórmas de corpos, e varias proporções. A paixão do heróe faz nascer

muitas: quando hum Filosofo discorre, os discipulos attendem. Deve-se

imaginar, e indicar em cada actor, a acção precedente, a actual, e a

consequente.»

«Pinte-se o que he honesto, e capaz de inspirar virtude; e fuja-se do

que for lascivo, e cruel.»

Entre os bons escriptores da Arte tem João Paulo Lomazo hum dos

primeiros lugares; e lê-se nos seus escriptos que o famoso Leonardo de

Vinci querendo pintar em hum painel muitas figuras rusticas, e alegres,

convidou huns poucos de camponezes engraçados; e em quanto elles comião

e bebião foi-lhes contando as cousas mais loucas e ridiculas do mundo;

de modo tal que os fez rir desatinadamente: elle observou tudo; e

pintando-os depois com os mesmos géstos e attitudes, provocava tanto a

riso a pintura, como os mesmos originaes. Passando depois aos preceitos,

diz.

«O movimento interno he motivado pelas paixões da alma; e o movimento

externo, que exactamente lhe corresponde, faz conhecer que paixões são:

por elle se conhece o que está triste ou alegre, morto ou vivo; por elle

se distinguem o louco e o sabio; o humilde, e o soberbo. O conhecimento

deste movimento he tido na Arte por cousa mui difficil, e estimado como

hum dom celeste: este he o furor pictorico com que deve nascer o Pintor;

mas este furor ou enthusiasmo ha de ter huma medida tal, que não toque

no fogo da impaciencia, nem no gelo da extrema regularidade.»

«Os movimentos naturaes são engraçados, e os contrafeitos são

desengraçados; mas as mesmas paixões fazem effeitos varios em diversas

pessoas segundo os seus temperamentos: os movimentos do melancolico, que

he térreo, serão pendentes e acanhados; mas o colerico todo se retorce,

como o fogo de que he composto. Todo o corpo concorre para a expressão

das paixões; mas principalmente os olhos, que são como as janellas da

alma: elles mostrão o prazer, o abatimento, o enfado, a severidade, a

amenidade, a colera, a admiração, etc. etc. Depois dos olhos e do rosto,

as mãos são as servas, e as interpretes da alma: os seus infinitos

movimentos explicão o desejo, a esperança, a supplica, o horror, os

ameaços, e tantas outras cousas: com as mãos tememos, perguntamos,

approvamos, recusamos, duvidamos; e podemos concluir que assim como as

mãos supprem nos mudos a falta da voz articulada, tambem não devem

contribuir pouco para fallar huma linguagem muda, qual a da Pintura.»

«Não se pódem dar regras precisas para exprimir todas as paixões, e para

as variar sempre; porque a obra seria infinita. Quintiliano he de

parecer que, a pesar da sua difficuldade, póde-se achar hum caminho que

nos conduza a esta parte importantissima da Pintura, e da Rhetorica; e

que este caminho he, como já dissemos, o estudo da Natureza. _O

Domenichino, que foi optimo nas expressões, estudava-as diante do

espelho, depois de entrar elle mesmo nas paixões que queria imitar_.

Horacio he tambem de parecer que os movimentos se exprimirão muito

melhor, e serão mais naturaes, se o Poeta, (ou Pintor, que neste caso he

o mesmo) imaginar que se acha no mesmo estado, em que se deverião achar

as pessoas verdadeiramente apaixonadas. He preciso, diz tambem

Quintiliano, que sejamos os primeiros a sentir huma paixão, se quizermos

commover os corações alheios: mas como? Formando-se fantasmas, e imagens

das cousas ausentes, como se effectivamente as tivessemos diante dos

olhos; e aquelle que conceber mais vivamente aquellas imagens, exprimirá

melhor as paixões.»

Entre os mais celebres escriptores da Arte ha hum Portuguez, de quem os

estrangeiros se tem aproveitado, e nós apenas conhecemos: he Francisco

de Hollanda, que foi Pintor d'El-Rei D. João III. Queixava-se elle, no

seu livro, de que em Portugal não se dava a devida estimação á Pintura,

por culpa talvez dos Pintores, que se contentavão só com a mantença, ou

não sabião exerce-la com primor. Para remediar em parte aquelles

inconvenientes, aponta algumas advertencias, e faz discretas

observações.

«O Pintor para ser perfeito ha de ter, diz elle, o genio dentro em si

mesmo, como a semente tem o fructo. Na puericia o deixará ver; na

adolescencia excederá os outros, e sonhará com pinturas. Deve ter

espirito magnanimo; porque sem elle nunca fará obras sublimes: ha de

estudar muito o _Antigo_ para a grande invenção, graça, decóro; e

escolher do melhor o optimo, sem confusão; ha de evitar os grandes

defeitos, (que os pequenos passão bem) e fazer os erros com o maior

acêrto possivel.»

«A nobreza, e propria casa da Pintura he saber reunir bem a natureza

dispersa, e rejeitar o que não convem; e se esta escolha for bem feita,

terá feito com isso a melhor parte da obra.»

«Antes de começar a empreza ha de ter a idéa da obra, como vista em

sonho, e pintada na fantasia.»

«As figuras não occupem confusamente toda a taboa; mas fiquem

intervallos para darem despejo e clareza á obra; e para os olhos dos

espectadores descançarem. As attitudes sejão graves e modestas; e que

humas figuras não damnem as outras, (antes se possa pôr, que tirar

alguma cousa) e todas fação com efficacia os seus officios. He

necessaria tanta arte para fazer bem as figuras ociosas, como as

occupadas. O menimo seja roliço, o mancebo ousado, o velho prudente, o

doente languido, o morto hirto; o que corre pareça que corre, e o que

anda pareça que se move.»

«Faça as idades, physionomias, cores de carnes, movimentos, mãos, pés,

tudo diverso e contraposto; hum de perfil, outro de costas; este voltado

para baixo, aquelle para cima; aquell'outro deitado, escorçado, etc.

Figuras escorçadas sejão as menos possiveis. As roupas, os edificios, e

os outros accessorios sejão os que competem ao assumpto; mas não pareça

que se poz alli todo o saber.»

«Se o assumpto, ou imagem for triste, não o representemos em jardins, ou

scenas alegres; antes pareça que os mesmos brutos, arvores, penedos, e

até os Ceos sentem a sua tristeza. A dôr da pessoa aflicta não se mostre

com lagrimas; mas no semblante angustiado, no vestido, na solidão. O

doente não pareça são, nem o morto semivivo, nem o que dorme acordado:

escolha-se de tudo o mais formoso, e grave para se imitar; encostando-se

sempre ao _Antigo_.»

«O primor da Pintura consiste tanto no que se faz, como no que senão

quiz fazer; antes no que deixou de fazer se conhece melhor o grande

pintor, assim como o ignorante em encher tudo de arvoredos, rios,

caminhantes, castellos, cidades, e paizagens: o mais santo, e louvavel

he fazer poucas figuras, pouco rumor de paizes, menos ainda de

edificios; mas o pouco seja tal que valha mais que o muito: porque este

he o fazer de avisado e gravissimo mestre, e o outro de obreiro e

aprendiz. O que dizemos do total, appliquemos tambem a cada particular

objecto: nelle não se faça cousa que se não desejasse ver da maneira que

está feita; porque esta he a admiravel doutrina da Arte.»

O mesmo Author escreveo certas maximas sobre o que se deve seguir, e o

que se deve evitar na Arte da Composição. «Para seguir: Despejo de pouca

obra; formosura bem escolhida; decóro; deixar de fazer muitas cousas;

bello ár em todas as cousas; diversidade nas figuras; ousadia nas

sombras; antigas, e escolhidas novidades; escolha de architectura; nû

perfeito, e honesto; bons pannos; bom encaixe de pescoço; mãos tão boas

como o rosto; pés tão bons como a figura; bons animaes; bons cavallos;

gravidade, e magestade; etc. Para evitar: Affectação; confusão; muita

obra; fealdade; desproporção; desár nas figuras; rostos repetidos; o

muito vulgar; máos nûs; muito panno; más mãos; pouca reverencia;

indiscrições; etc.»

Rugério de Piles, amigo de Carlos du Fresnoy, e o melhor commentador do

seu poema de _Artegraphica_, tambem enriqueceo a biblioteca da Arte com

doutas observações suas: «A boa disposição, diz elle, forma os gruppos;

e o verdadeiro modo de gruppar acha-se em Raphael, Julio Romano,

Polidoro, e outros grandes mestres. A escolha das bellas attitudes faz a

maior parte das bellezas do gruppo: a contraposição faz o resto. Deve

haver contraste não só nas figuras, mas tambem nas cousas inanimadas;

havendo em todos os objectos huma opposição de linhas, e contornos, pela

qual elles se fação valer huns os outros, e augmentem a graça, que he

tão necessaria em tudo.»

«O modo de deitar as prégas tambem pertence á composição dos gruppos: o

primeiro requisito das roupas he que indiquem o que ellas cobrem, de

sorte que se conheção as proporções, e a elegancia das fórmas das

pessoas, que as vestem; por tanto convem que antes de vestir a figura se

desenhe toda nûa. As dobras que se encruzão com os membros do corpo não

pareção, por fortes, tão profundas que possão penetrar as carnes. As

pregas sejão poucas, e grandes; mas se alguma vez se fizerem miudas,

siga-se a maxima dos antigos, que em tal caso as collocavão aos lados

dos membros, e não em cima delles. As grandes não só hão de contrastar o

nû, mas tambem humas as outras, para terem vida, e movimento: a

contraposição he huma especie de guerra, que anima tudo; mas he

necessaria muita prudencia, principalmente nas figuras em pé, aonde as

contraposições são muitas vezes inverosimeis, porque o peso da roupa a

faz cahir direita.»

«A ordem das pregas, sendo hum effeito dos movimentos do corpo, tambem

dá vida aos mesmos membros, que parecem move-las: huma discreta

repetição de pregas, em ordem circular, ajuda muito o bom effeito dos

escorços. As roupas devem-se sempre estudar do natural: as do manequim

parecem immoveis, e he preciso que se lhes tire aquella apparencia: os

pequenos figurinos vestidos de papel molhado podem servir para o todo de

huma composição, e não para cada objecto de persi.»

Leão Baptista Alberti affirma que no compôr, ou distribuir bem os

objectos consiste todo o engenho. «A varidade deleita tanto a vista,

como o ouvido, e o paladar. Os espectadores n'hum quadro, inda que

estejão quietos, exprimão os seus sentimentos. A cabeça, a fronte, e

todos os membros do que está triste descahem.»

«De sete modos se inovem os corpos: para cima, e para baixo; para a

direita, e para a esquerda; para diante, e para traz; e em fim girando

ao redor: todos estes movimentos entrem nas composições: huns vão,

outros venhão. Os movimentos sejão naturaes e suaves: os artistas

fogosos cuidão que as attitudes violentas são mais vivas, e enganão-se.

Os cabellos, e as roupas tenhão tambem os sete movimentos; mas os ramos

das arvores, agitados pelo vento, correndo todos para a mesma parte, são

bellissimos. Quando quizeres compôr, pensa, lê, esquissa, modéla, e pede

conselho aos amigos» _e talvez aos inimigos, porque não lisongeão_.

«O Pintor deve ser bom, honesto, civil, e douto nas bellas Artes; deve

ler poetas, historiadores, oradores, e sabios, para poder bem inventar.»

Nova academia de pintura dedicada às senhoras portuguezas que amão ou se applicão ao estudo das Bellas Artes · 第 1 / 3 段