Produced by Pedro Saborano
Notas de transcrição:
O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em
1885. Foi mantida a grafia usada nessa edição, tendo sido corrigidos
apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a interpretação
do texto, e que por isso não foram assinalados.
No livro há algumas referências a um mapa, que acompanhava a edição
original. Não foi possível localizar uma cópia desse mapa para
acompanhar esta edição digital.
RELATORIO
DE UMA
VIAGEM ÁS TERRAS DOS LANDINS
POR
JOAQUIM CARLOS PAIVA DE ANDRADA
CAPITÃO DE ARTILHERIA
LISBOA
IMPRENSA NACIONAL
1885
RELATORIO
DE UMA
VIAGEM ÁS TERRAS DOS LANDINS
POR
JOAQUIM CARLOS PAIVA DE ANDRADA
CAPITÃO DE ARTILHERIA
LISBOA
IMPRENSA NACIONAL
1885
RELATORIO
DE UMA
VIAGEM ÁS TERRAS DOS LANDINS
FEITA NOS
MEZES DE DEZEMBRO DE 1884 E JANEIRO E FEVEREIRO DE 1885
Motivos da viagem
Pela portaria expedida pela secretaria d'estado dos negocios da marinha
e ultramar, com data de 30 de junho de 1884, incumbindo-me de auxiliar a
installação do governo de Manica, e por instrucções communicadas por s.
ex.ª o director geral do ultramar, relativas ao cumprimento da
mencionada portaria, fui tambem encarregado de visitar os regulos
vizinhos e de procurar estreitar com elles relações de commercio e amisade.
Ao chegar ao Zambeze com o pessoal do novo governo constou-me que se
achavam nas povoações que o sr. Manuel Antonio de Sousa, capitão mór de
Manica e Quiteve, tem formado na serra da Gorongosa, dois grupos de
landins; um d'elles com o fim de visitar o mencionado capitão mór e o
outro o capitão mór de Senna, o sr. Anselmo Ferrão, unicas pessoas que
para os landins representam a auctoridade, e os brancos ou mosungos de
Senna.
Logo que o pessoal vindo de Lisboa, com destino ao districto de Manica,
chegou commigo a Magagade, povoação ou logar na margem do Zambeze
pertencente ao prazo Gorongosa e portanto ao referido districto, parti
para o Chire, onde se achava nas operações da guerra do Matacanha o
capitão mór de Manica, para combinar com elle na maneira como, com a
menor demora possivel, se poderiam fazer seguir das margens do Zambeze
para a saluberrima serra da Gorongosa os europeus recemchegados; e,
referindo-me aos landins, lhe disse que, apesar do improprio da estação,
em que iria encontrar os rios em cheia, e muita palha no mato, me
parecia muito conveniente aproveitar a occasião de se acharem na
Gorongosa as duas embaixadas, para ir com ellas visitar o Musila e dar
cumprimento a uma parte da minha missão, o que, a não se dar esta
circumstancia, só mais tarde tencionava realisar.
Concordando Manuel Antonio de Sousa com a provavel importancia da minha
viagem n'esta occasião, obtive delle que sustasse a sua partida para
Moçambique, onde tencionava ir logo que terminasse a guerra do Chire, e
fosse com a sua presença e extraordinaria influencia sobre os indigenas
apressar a reunião dos machileiros e carregadores em Magagade, e me
acompanhasse até aqui para resolvermos com os landins ácerca da minha
desejada viagem. Os landins consentiram logo em voltar para traz e
acompanhar-me até junto do Musila. Antes, porém, de eu partir chegou á
Gorongosa a noticia de que o Musila, que os landins tinham deixado de
boa saude, morrêra quasi de repente. Esta circumstancia difficultava a
viagem, por causa das guerras e estado de agitação que quasi sempre
seguem á morte de um grande potentado africano; mas pensei tambem que
por causa d'ella poderia vir a tornar-se mais util e a proposito a
visita, e confirmei-me na primeira resolução. Poucos dias depois de
começada a viagem soube que Mudungase, um dos filhos do Musila que os
landins na Gorongosa indicavam como provavel successor, tinha
effectivamente como tal sido reconhecido, e que elle, receiando que seu
irmão Mafumana, o mais guerreiro e mais para temer dos filhos do Musila,
não se conformasse com a opinião geral e conspirasse para subir ao
poder, o mandára matar, com a mulher e todos os filhos machos, e que, no
mais, tudo e todos estavam e tinham estado no mais completo socego.
Paiz percorrido; suas condições geographicas, politicas, economicas
e militares
Junto a este relatorio está um esboço do paiz ao sul do Zambeze,
desenhado pelo secretario do governo do districto, o sr. tenente Moraes
Pinto, e coordenado com o fim de mostrar a area que me parece dever
desde já ser destinada á acção do novo governo de Manica. Indica elle a
direcção geral dos grandes rios que cortam o paiz, e os pontos a que
tenho que me referir n'este relatorio, dando algumas informações que
mais se approximam da verdade do que as que se encontram em mappas já
publicados. Com mais vagar tenciono coordenar um mappa em maior escala,
no qual introduzirei as informações que tenho dos pequenos rios
affluentes dos que vão marcados, montanhas, prazos e territorios de
differentes regulos e povoações.
Hydrographia
O referido esboço mostra que o Zambeze se acha em communicação fluvial,
talvez interrompida n'algum ponto, durante a estiagem, com a costa de
Sofalla. O rio Zangue, affluente do Zambeze e limite dos prazos Caia e
Inhamunho, vem de uma lagoa, que, por banhar o prazo Absinta, tem
este mesmo nome, e que communica por meio da serie de lagoas ou canal
chamado Mucua, com uma grande depressão de terreno, mais ou menos cheia
de agua, conforme a estação, chamada Tandora Zungue. N'esta grande lagoa
desembocam varios rios vindos da serra da Gorongosa, os quaes, durante
uma parte do anno, poderão ser empregados como meios de communicação por
pequenas embarcações até quasi á base da serra; d'esta lagoa nasce o rio
Urema, navegavel todo o anno, e que juntando-se ao rio Pungue, ou antes
ao seu novo braço Mudinquidinqui, causado por uma cheia, vae lançar as
suas aguas na costa de Sofalla. O rio Urema separa o prazo Gorongosa do
prazo Cheringoma, e por isso é hoje limite entre os districtos de
Quelimane e de Manica.
No itinerario seguido, a partir da serra Gorongosa para as terras dos
landins, o primeiro rio de importancia que se encontra é o Vunduse,
affluente do rio Pungue; este affluente, que tem um leito de uns 100
metros de largo, mas não é navegavel, é limite do prazo Gorongosa e do
reino do Barue. Depois do rio Vunduse encontra-se o rio Aruangua, que
desde aqui até á foz é mais conhecido com o nome de Pungue,
representando os dois nomes o mesmo rio.
Na altura em que o atravessei, na minha viagem a Manica em 1882, tem o
rio Pungue muita agua, mas corre sobre um leito irregular de grandes
rochas, que o torna inteiramente improprio para a navegação; no ponto
onde agora o atravessei por duas vezes, com uma vara de 14 pés, ou mais
de 4 metros, não encontrei fundo; mas ainda n'essa altura do rio ha
grandes rochas, e a agua, dizem-me, baixa na estiagem a ponto de
permittir a passagem a vau entre ellas. Um pouco, porém, mais abaixo,
logo a jusante da foz do Vunduse, as rochas desapparecem e o rio
continua até á foz sobre leito só de areia e com uma altura de agua, que
o torna em toda esta extensão navegavel por qualquer vapor fluvial ou
por vapores costeiros, como o _Soutiene_ e _Lion_, que ultimamente têem
frequentado alguns pontos da provincia. Todas as informações que tenho
colhido me fazem suppor que na foz do Pungue, e até em frente do logar
chamado Bangue, no prazo Cheringoma, ha um porto capaz de dar abrigo a
navios de grande tonelagem.
Passado o Pungue é o Revue o primeiro rio importante que se encontra. É
este affluente do rio Busi, o rio que passa junto á antiga villa de
Manica, a tiro de pistola da arruinada fortaleza. No ponto em que o
atravessei tem o leito do rio uns 100 metros de largura, e, na viagem de
ida, com uma vara de 12 pés, ou mais que 3m,5, não encontrei fundo;
ouvi, porém, pouco a jusante, o ruido de uma grande quéda de agua em
rocha, e sei que o rio não póde ser navegavel até esta altura; mas
disseram-me que o era em toda a epocha do anno, pelo menos por pequenas
embarcações, como as que se empregam no Zambeze, até junto de umas
rochas chamadas _Inharumirua_, que ficam a menos de duas horas de
caminho a jusante d'este ponto. Para baixo nem o Revue nem o Busi
apresentam embaraço algum á navegação, a partir da costa.
Ao Revue seguem-se, na direcção que eu percorria, successivamente o
Mussapa e o Mufomose. Atravessei os dois rios seguidamente na altura
da confluencia do primeiro no segundo. O Mussapa tem uns 30 metros de
largura de agua e o Mufomose uns 60 metros; quando os passei, na ida,
tinha o primeiro 5 pés de agua e o segundo 10 pés. Na viagem da volta a
agua tinha baixado, a ponto de poderem alguns dos carregadores
atravessar a vau, embora com difficuldade; mas disseram-me que conservam
os dois rios normalmente a altura de agua a que tinham chegado, sendo o
Mufomose sempre navegavel por almandias até um ponto a montante d'este,
onde me disseram se encontra a primeira obstrucção causada por umas
rochas chamadas Papuquenchofo.
O Mufomose é affluente do Lusite, rio que em seguida atravessei, com uns
50 metros de largura e 10 pés de profundidade, na viagem de ida,
reduzidos a 5 pés, na viagem de volta. Este rio Lusite é navegavel até
muito a montante do ponto em que eu o atravessei, e constitue, combinado
com o Busi, uma importante via de communicação até uma grande distancia
no interior. Infelizmente esta grande via fluvial Busi Lusite, está,
como a via Busi (Lusite) Mufomose, interrompida em um ponto. O arco
natural sobre o rio, marcado na carta do sr. marquez de Sá sobre o Busi,
e que tem o nome de Inhambimbe, está situado exactamente na confluencia
do Lusite com o Busi, atravez dos dois rios, cortando a continuidade das
communicações. Actualmente, na pouca navegação local entre as povoações
que estão a montante e a jusante d'este ponto, procede-se como se faz no
Quaqua, na altura de Mopeia, para todo o movimento do Zambeze; cargas e
embarcações são passadas por terra até vencer o obstaculo. So o arco
fosse isolado, visto como ha effectivamente um arco, debaixo do qual
corre a agua, mas que não dá passagem a embarcações, alguma dynamite
remediaria logo tudo; mas é provavel que haja mais algumas rochas no
proprio leito dos dois rios. Como porém, em todo o caso, é um phenomeno
isolado e pouco extenso no centro de uma planicie, sem pedras em que os
dois rios por ali correm, muito facil seria abrir um ou dois pequenos
canaes lateraes na altura d'esta obstrucção. Não se tratará de certo por
algum tempo de resolver esta questão.
O que me parece importante que fique bem sabido é que o primeiro
obstaculo á navegação no Busi só se encontra no arco Inhandimbe; que a
foz do Revue fica a jusante d'este ponto e que os dois rios são
navegaveis até ás rochas ou rapidos de Inharumirue, que se encontram no
segundo, e que distam apenas, como direi, um dia de viagem do territorio
e minas do Bandire, onde, pela via a que me estou referindo, poderá
chegar com facilidade todo o material pesado necessario para a sua lavra.
Passado o Lusite atravessei o proprio Busi, mas n'uma altura em que elle
nunca será empregado como via de communicação. Não tenho a mencionar
n'este trabalho os mais rios que atravessei, valiosissimos para
irrigação, mas inuteis como meios de communicação.
Condições geraes do paiz
Entre o Zambeze e o Aruangua ou Pungue
Esta região contém antigos prazos da corôa e o reino do Barue.
Durante muito tempo os prazos da corôa da margem direita do Zambeze, a
jusante da serra da Lupata, todos sujeitos á jurisdicção de Senna, eram
invadidos annualmente pelos landins. Estes levantavam pesados tributos,
não só nos prazos, mas na propria villa de Senna, onde ao principio, se
não havia coragem e meios sufficientes para resistir ao pagamento
d'estes tributos, havia a riqueza necessaria para a elles satisfazer. Os
landins, com que agora viajei, disseram-me que um antigo modo de os
tributar consistia em abrir um furo no alto da cobertura conica de
palhotas circulares, e obrigar a deitar por esta abertura fazendas até
que a palhota se recusasse a receber mais. Custa a comprehender como tal
exagero podia realisar-se. Por estes motivos os prazos invadidos foram
successivamente abandonados e a villa de Senna chegou ao miseravel
estado de que não mais se levantará.
Cabe ao sr. major Braga, actual governador do districto de Tete, o
merecido elogio de, entre muitos serviços que fez como commandante
militar de Senna, ter sido levado pelo seu caracter valente e decidido a
auxiliar quanto podia os intentos do cidadão Manuel Antonio de Sousa,
natural de Goa, negociante sertanejo, sobrinho de um antigo residente no
districto, que pretendia repellir pela força as correrias dos landins
aos prazos de Senna. Manuel Antonio de Sousa, chamado pelos cafres
_Gouveia_, foi nomeado capitão mór de Manica e Quiteve, e veiu assentar
a sua casa na serra da Gorongosa, em uma posição naturalmente
fortificada por tal modo, que um homem resolvido a defender-se não tinha
mais a temer n'esta base de operações os ataques dos landins. A serra da
Gorongosa estava absolutamente deserta quando Manuel Antonio aqui chegou
com os pretos que reuniu a si; nas mesmas condições quasi se achava todo
o prazo d'este nome. Foram duros os primeiros tempos em que toda esta
gente tinha que ir buscar, com os meios que Manuel Antonio tinha obtido
e ia obtendo com o seu commercio, mantimento aos prazos limitrophes,
todos muito afastados d'este ponto, ao reino do Barue e ainda á Maganja,
no outro lado do Zambeze, quando houve fome em toda a margem direita do
rio. Hoje muitos milhares de pessoas habitam em centenas de povoações a
serra e os territorios que a rodeiam, tanto na Gorongosa como no reino
do Barue. Desde que Manuel Antonio para aqui veiu como barreira, todos
os prazos cobertos pelo da Gorongosa começaram a gosar de não
interrompido socego e a verem desenvolver-se n'elles a cultura dos
generos de exportação, com proveito dos indigenas, até ao presente os
unicos agricultores, bem como dos que com elle negoceiam e em geral do
paiz.
Se a villa de Senna se não resentiu da mudança de circumstancias, a não
ser pelo descanso dos que n'ella continuam a vegetar, é porque se acha
em situação e condições taes, que a obrigam forçosamente a
desapparecer. De ha muito que pela variação do leito do rio deixou Senna
de ser um bom porto de abordagem para os que navegam no Zambeze,
qualidade que antigamente motivára a creação e grandeza d'esta villa,
apesar da bem merecida fama de insalubridade que sempre teve.
O actual talweg do rio correrá a mais do 2 kilometros da villa, e na
estiagem é necessario atravessar a descoberto um ardente areal d'esta
largura para chegar da margem acostavel ás primeiras casas. O areal
porém não é plano, e quando não está todo descoberto na estiagem ou
coberto pelas grandes cheias, periodo em que as aguas do rio voltam a
correr junto ás muralhas da velha praça de S. Marçal, formam-se n'esta
zona de 2 kilometros varios _mucurros_, cujas aguas deixam muitas vezes
de correr, e que não só augmentam a insalubridade da villa pelas suas
emanações, mas tornam na maior parte do anno a villa do Senna um dos
pontos da margem do Zambeze de mais difficil accesso.
N'este trabalho só desejo dizer que sou de opinião que a villa de Senna,
como tem sido proposto, deve sair da margem direita do rio, passando com
todo o commando militar d'este nome para a outra margem; pois não devo
demorar-me a mostrar as grandes vantagens que este commando militar,
pertencente ao districto de Quelimane, quando tiver a sua séde em ponto
escolhido, ou nas alturas em frente de Senna, onde as casas Regís e
Hollandeza têem já grandes edificios, ou um pouco mais sobre o Zioé
Zioé, ha de ter no desenvolvimento da nossa acção na valiosissima região
limitada pela margem direita do Chire, pelo Zioé Zioé e pela margem
esquerda do Zambeze até á Lupata no ponto onde vier a terminar o
districto de Tete.
Comquanto o prazo Gorongosa siga ao longo do Aruangua até avistar o mar,
não chega elle até á costa, porque a confluencia do Urema na bacia que
supponho ser um bom porto de mar, traz com a margem esquerda d'este rio
uma porção do grande prazo Cheringoma a interpôr-se entre a Gorongosa e
o Oceano. É nesta altura que os landins que se desacostumaram de pisar
como conquistadores o prazo Gorongosa, passam hoje para os terrenos ao
norte do Pungue atravessando o deserto prazo Cheringoma (onde julgo que
tambem deixam algum destacamento) para, graças ao terror que inspira o
seu nome e o apparecimento de _um só_ de entre elles entre os pontos da
foz do Zambeze, irem sugar alguns d'estes pretos e mesmo mosungos que
estejam nos prazos marginaes a jusante do Gorongosa, isto é, os prazos
Caia, Inhamunho, Chupanga, Luabo e Melambe.
Quando em 1881 vim pela segunda vez á Zambezia e fiz o conhecimento do
Manuel Antonio de Sousa, disse-me elle que se o governo do districto de
Quelimane lhe desse de arrendamento os prazos de Chupanga e Cheringoma,
pelo preço rasoavel que então quizesse marcar, mas com a condição de que
os não poria em praça durante nove annos, tempo por que andavam
arrendados os prazos do districto de Tete, a fim de evitar que passados
tres ou quatro annos de despezas, trabalhos e perigos, outros viessem
concorrer em igualdade de condições para o goso dos resultados obtidos,
elle, assim como tinha fechado aos landins a villa de Senna e os prazos
envolvidos pelo da Gorongosa, se compromettia a pôr no prazo
Cheringoma uma barreira que evitasse para sempre a passagem dos landins
para os prazos Caia, Inhamunho, Luabo e Melambe: disse-me mais que já
tinha proposto ao arrendatario do Cheringoma que se oppozesse aos
landins, mas que este apenas se contentava em aproveitar o prazo para
mandar caçar alguns elephantes ou apanhar borracha que n'elle abunda,
pagando successivamente ao Musila os tributos de fazenda que a este
fossem contentando. Não apreciei então devidamente o grande poder que a
rara intelligencia ou perspicácia especial, a actividade, a coragem, o
amor do trabalho, a generosidade e a acção absoluta que estas qualidades
exerciam sobre milhares de indigenas davam a Manuel Antonio, nem o
grande valor que para o paiz tinha a sua proposta, e não a communiquei a
pessoa alguma.
No meu diario, 20 de dezembro de 1884, encontro umas palavras que
escrevi ao chegar á margem do rio Pungue, quando me via em frente de um
poderoso obstaculo que exercitos munidos com bons trens de pontes não
deixariam de respeitar. Espero fazer bem transcrevendo-os: «O terreno na
ultima parte percorrida é _park-like_ como todo o que precede, mas ainda
tem melhores pastagens e melhores terras para agricultura,--terras
soltas que serviriam para mendobim--grés e muitos filões de quartzo, nas
margens granito. Póde-se considerar verdadeiramente sujeita á soberania
portugueza, ou a Manuel Antonio, com relação ao Barue, toda a vasta area
comprehendida entre o Zambeze e o Aruangua. Vejo que todos os que me
rodeiam assim o reconhecem; assim como consideram como terras de landins
as dos regulos da margem direita do rio. É necessario e urgente occupar
aqui um ponto na margem esquerda do Aruangua. Estou certo, agora, que as
nossas relações com os landins vão ser muito boas, e espero alcançar
alguma cousa para o sul do Aruangua; só um acto de hostilidade declarada
é que os poderia trazer em massa ao que elles consideram nossas terras,
apesar de costumados a fazer com meia duzia de homens o que n'ellas
fazem; mas a este acto _nas circumstancias em que estamos_ podiamos bem
resistir. Assim, por um modo ou por outro, Cheringoma, Luabo[1],
Melambe, Chupanga, Inhamunho e Caia ficarão de futuro abertos
com segurança aos nossos pretos e em breve se acharão habitados.»
Esta riquissima região proximo da costa, que por si só, quando
aproveitada, póde render bem mais do que toda a actual provincia de
Moçambique, acha-se deserta e de todo desaproveitada, só pelo terror que
causa o nome dos landins e a chegada annual de uns vinte ou trinta
pretos adornados com pelles e pennas, e armados com um escudo e duas
pequenas zagaias. Em dias, que é de esperar não estarão longe, custará a
acreditar que um tão aviltante estado de cousas se possa ter continuado
por tantos annos n'uma tal localidade.
Alem dos prazos da corôa de que tenho fallado, ha mais, entre o rio
Zambeze e o Quelimane para leste do Aruenha, uns muito pequenos prazos
juntos ao prazo Gorongosa ou mesmo n'elle encravados, arrendados por
Manuel Antonio; alguns pequenos prazos nas proximidades de Senna
arrendados por diversos, o muito povoado prazo Chemba, arrendado por
Manuel Antonio e d'onde elle tirou mais de dois mil cypaes que levou á
guerra do Matacanha (pois para esta guerra não teve que tocar na gente
da Gorongosa); o prazo Amoesa, o prazo Chiramba marginal, como o Chemba
o é, do Zambeze, tambem arrendado por Manuel Antonio, mas parte invadido
por gentes do Bonga, o grande prazo Tambára, de ha muito sertão
abandonado, e os prazos todos occupados pela gente do Bonga, incluindo o
prazo Masangano.
Em toda a valiosa região de que estou fallando, comprehendida entre o
Zambeze e o Aruangua encoutrâmos apenas dois obstaculos ao seguro
desenvolvimento dos seus grandes recursos naturaes. O primeiro, pouco
importante, é o Bonga; o segundo são os landins. Ha dois unicos homens,
dedicados ao paiz, que têem poder sobre os indigenas que habitam a maior
parte das terras da antiga capitania dos Rios de Senna. São os dois
homens que com toda a probabilidade salvaram ha poucos mezes a soberania
portugueza na Zambezia. São Manuel Antonio de Sousa e Anselmo Ferrão.
Este, comquanto capitão mór de Senna, habita hoje a margem esquerda do
Zambeze e tem d'este lado um vasto campo onde empregar utilmente a sua
acção. Fica Manuel Antonio de Sousa _e é só_ contando com o auxilio
d'este capitão mór que praticamente se poderão remover, _dentro da area_
de que trato, estes dois obstaculos. O centro de acção, a base de
operação de Manuel Antonio de Sousa, é a serra da Gorongosa, e é na
serra da Gorongosa que se acha provisoriamente a séde do governo de
Manica; por este motivo e pelo mais que fica dito parece natural e
conveniente que os territorios desde o ponto de resistencia á passagem
dos landins no prazo Cheringoma, até á aringa do Bonga na foz do Aruenha
façam parte do districto de Manica.
Assim, parece que o limite norte a recommendar para o districto seria
toda a margem esquerda do Zambeze desde a costa até á foz do rio Aruenha.
O conhecimento porém, que hoje temos da importancia do porto do
Inhamissengo, os resultados que se prevêem da fundação da villa
Mesquita, proposta pelo sr. capitão-tenente Augusto de Castilho, fazem
esperar um tal desenvolvimento á importação e exportação directas de
todo o commercio da Zambezia, a realisar de futuro por esta via e porto,
que dar toda a margem direita do Zambeze, dar a villa Mesquita e o porto
do Inhamissengo ao districto de Manica causaria um grande abalo no
systema financeiro de Quelimane. Evita-se de todo este inconveniente,
conservando no districto de Quelimane os dois prazos Luabo e Melambe,
que têem parte dos seus terrenos no delta do rio, passando agora para
Manica por inteiro os restantes prazos, ficando para mais tarde a
rectificação da fronteira dos dois districtos desde a margem do Zambeze
até á costa, se se encontrar uma linha de separação mais natural do que
o poderão ser as para nós desconhecidas confrontações dos prazos Luabo e
Melambe com os prazos Chupanga e Cheringoma.
D'aqui resulta que o commando militar já creado na Chupanga ficaria
pertencendo ao governo de Manica, o que teria a vantagem de fazer abrir
caminho da séde de commando, ou forte que se fez ou está fazendo no
antigo Luane do Prazo (a mais solida casa da Zambezia) para villa
Gouveia, devassando e rasgando um paiz compacto, cheio de recursos, hoje
deserto, e que não tardaria a ir sendo habitado ao longo da linha de
communicação.
O commandante militar de Chupanga, dependendo do governo de Manica,
havia de vir á séde do seu governo e atravessar a area do seu commando;
dependendo de Quelimane, fará geralmente, como geralmente fazem os
commandantes militares de Senna, que chegam ao seu commando vindo de
Quelimane, navegando pelo Zambeze acima, desembarcando proximo de casa,
e não saíndo mais da villa de Senna senão para voltar a Quelimane.
A adopção dos limites, que proponho, imporia a realisação previa ou
simultanea da, tantas vezes proposta, mudança do commando militar de
Senna, e da villa d'este nome para a margem fronteira; pois seria
absolutamente impossivel, a querer trabalhar-se para resultados
praticos, o introduzir desde já no nascente districto de Manica, a
aperfeiçoada legislação, mais perfeita que a de qualquer colonia de
qualquer outro paiz, que vigora nos restantes districtos da provincia, e
portanto na actual villa de Senna.
Provisoriamente a praça, e só a praça de S. Marçal, deveria ficar sob as
ordens do commandante militar de Senna, que n'ella poria um fiel e os
homens necessarios para a arrecadação do material que n'ella se quizesse
guardar.
Não é possivel, porém, conservar como occupadas enormes areas com um
numero de auctoridades como o que até ao presente temos tido na
provincia de Moçambique; e por isso o commando militar de Senna,
passando para a margem esquerda do rio para ficar no districto de
Quelimane, não deve deixar de ser substituido por um outro, com a séde
não longe da actual villa de Senna, mas em logar mais recommendavel pela
sua salubridade e facil acostamento. Parece-me que facilmente satisfará
a estas condições algum ponto escolhido no muito povoado prazo Chemba,
pouco a montante da foz do rio Musingase.
O terreno, que eu bem conheço, é elevado e saudavel. Ha n'elle
formosissimas arvores de grande sombra, nas quaes se deveria pensar ao
escolher o logar para as habitações e limitar os jardins que as rodeiem.
O novo commando militar poderia receber o nome de commando militar de
Chemba.
Chemba seria uma excellente testa de estrada para o centro do Barue e
para os importantissimos campos de oiro do Alto Aruenha e dos seus
affluentes, estrada que podia ser para nós muito util, quer nós mesmos
vamos occupar estes campos, quer deixemos tranquillamente os
estrangeiros d'elles se apoderarem, pois uma das soluções em breve terá
logar.
Os campos de oiro a que me refiro, e que ficam ao sul de Tete, estão
mais proximos desta villa que de Senna, mas o caminho para elles
partindo de Tete passa por serras muito cansosas de atravessar,
parte das quaes eu conheço desde que fui ao Rio Mazoe; e por isso quando
os _Campos de Oiro do Imperador Guilherme_ e outras minas vizinhas eram
trabalhadas pelos nossos antepassados, era de Senna que elles partiam
para ellas.
O caminho de Chemba torneará a serra da Lupata e todas as que rodeiam
Tete, seguindo como o de Senna por terrenos planos até ás origens dos
rios, e tem sobre este decidida vantagem por causa das condições
relativas em que se acham as duas testas de estrada, e que eu indiquei.
Reino do Barue
Com os prasos da corôa da antiga capitania de Rios de Senna, e ainda nos
terrenos ao norte do Aruangua, de que me estou occupando, confinam os
extensissimos territorios do reino do Barue, seguindo-se-lhes para
sudoeste e oeste, e ao sul do districto de Tete, territorios de outros
regulos, que se consideravam vassallos do Macombe, o fallecido rei do
Barue; territorios valiosissimos pelas incontestaveis riquezas em minas
de oiro, que em si contêem.
Não me é possivel indicar os contornos do reino do Barue; só direi que a
villa Gouveia está na margem direita do rio Inhandue, e que as colinas
fronteiras na margem esquerda pertencem ao Barue; que para vir de Senna
ou de Chemba pelo caminho mais curto para este ponto se atravessa o
Inhandue quasi em frente da villa, e portanto se passa pelo Barue; e que
nos dois itinerarios, que tenho seguido para ir ha tres annos a Manica e
agora ao Gunguneana, passei o rio Vunduse, que sei ser, até á sua
confluencia no Aruangua, limite do praso Gorongosa e do reino do Barue.
Os reis do Barue eram antigamente coroados por uma auctoridade
portugueza, mas nunca auctoridade portugueza exerceu jurisdicção sobre
este reino. Mesmo durante a grande prosperidade da nossa feira e villa
de Manica, os negociantes que transitavam entre esta villa e a de Senna,
e eram obrigados a atravessar o reino do Barue, soffriam vexames dos
baruistas, aos quaes tinham sempre que pagar algum tributo.
Nos tempos do fallecido Macombe, Senna recebeu muitas embaixadas
insolentes, foi muitas vezes obrigada vergonhosamente a responder a
ellas, mandando grandes tributos em fazenda, e, satisfazendo
favoravelmente á exigencia de que mandasse um certo numero de pretos,
com suas familias, para escravos do Macombe.
Manuel Antonio do Sousa, a quem a villa de Senna deve o ter cessado de
pagar tributo aos landins, depois de ter antigamente negociado no Barue
e trazido de lá uma das filhas do rei, com quem teve relações, das quaes
resultaram os dois rapazes, que por conta do governo estão sendo
educados em Lisboa na escola academica, tendo sido victima de varios
roubos e vexames, que a elle e a outros negociantes faziam os baruistas,
começou, como particular, só por si e com despeza unicamente sua, uma
lucta com o Macombe, que durou muitos annos, e terminou ha pouco mais de
um anno com o tomar elle posse do reino do Barue e ser reconhecido
como seu chefe ou rei, e seu filho, neto do Macombe, como seu successor.
* * * * *
A região entre o Zambeze e o Aruangua, comprehendendo os antigos prasos
e o reino do Barue, constitue só por si uma importantissima colonia, com
todos os elementos necessarios para ter um rapido desenvolvimento.
Os prazos Cheringoma e Chupanga são riquissimos em madeira e borracha, e
tanto estes prasos como as terras marginaes do Zambeze se prestam a toda
a cultura tropical.
A serra da Gorongosa, onde a vinha brava rebenta por toda a parte, pede
o immediato ensaio da cultura da vinha. Se os resultados forem, como
parece deverem ser, ter-se-ha introduzido, só por este ramo, uma grande
fonte de conforto, de commercio e de riqueza na provincia.
No Barue e na Gorongosa, onde ha uma quantidade prodigiosa de excellente
agua, facilmente se encontram terrenos, onde o milho cresce e produz por
modo que na Europa não poderá facilmente acreditar-se, onde a cultura de
todos os cereaes deveria ser ensaiada e a do trigo provavelmente poderia
ser emprehendida em larga escala.
Finalmente é nas terras de um pequeno regulo, que sempre se considerou
vassallo do Barue, terras que, occupado este reino, viriam a constituir
novos commandos militares do oeste do districto de Manica, que se
encontram visiveis provas dos extensos trabalhos mineiros feitos pelos
antigos portuguezes nos campos de oiro, que Mauch visitou e achou tão
importantes, que os designou com o nome de Campos de Oiro do Imperador
Guilherme, chamando Bismarck e Moltke ás duas serras entre as quaes
elles se acham situados. Dahi para o norte e para o oeste até ao Zambeze
continua a extensa região aurifera, a que o proprio Mauch se refere, e
que os nossos trabalharam em varios pontos nas minas de Tete e do Zumbo.
Para sueste, diz Mauch, _a serra Moltke commanda o jazigo aurifero de
Manica, conhecido já de ha seculos, e certo é que os tres jazigos
auriferos_ (do Mogoe, dos Campos do Imperador Guilherme e da Manica)
_vão rivalisar_.
Os Campos de Oiro do Imperador Guilherme estão comprehendidos na area da
concessão, que me foi feita em 1878. Nunca os poude visitar.
Portugal está ainda hoje em condições de se apoderar de grandes centros
de riqueza, de prosperidade, de força, de prestigio, empregando
limitadissimos esforços; d'estes centros poderá depois expandir-se do
que é seu para o que não é seu, sem que estrangeiros tenham a intervir.
Deixar porém attingir esses centros de vida e pretender depois
fechar-lhe as communicações é cousa que hoje se tornou absolutamente
impossivel.
Direi ainda que n'esta admiravel provincia, comprehendida entre o
Zambeze e o Aruangua, onde milhões de homens poderiam empregar-se em
trabalhos de agricultura, trabalhos de minas e em todos os ramos da
actividade humana, onde ha regiões tão sadias e proprias para o
desenvolvimento da raça branca, como as mais sadias da Europa, onde
temos a assegurar e desenvolver a nossa occupação, não haverá alem dos
empregados do governo umas seis pessoas brancas!
Tudo convida a colonisar, com portuguezes e portuguezas misturados com
hespanhoes, este paiz. Em parte alguma das nossas possessões poderão
colonos encontrar mais auxilio para a sua installação, maior numero de
braços indigenas promptos a empregar em seu serviço por uma modestissima
remuneração. Com segurança poder-se-ia mandar já da Europa uns dez ou
vinte colonos nas condições em que até ao presente o governo tem mandado
colonos para a Africa, porque com os poucos recursos disponiveis do
governo do districto e outros recursos locaes, estes homens poderão
receber o necessario amparo até que o producto do seu trabalho os possa
sustentar e lhe dê a independencia. Com não menos segurança de resultado
favoravel poderia o governo mandar em viagens successivas, e com
sufficiente aviso previo, alguns centenares de colonos, se, por meio de
uma combinação qualquer, lhes assegurasse, ou por intervenção de uma
empreza particular, por adiantamentos a serem mais tarde reembolsados
pelos colonos, meios efficazes de trabalho, em terrenos, ferramentas e
braços dos indigenas e sustentação durante pelo menos o espaço de dois
annos.
Não é porém nas margens do Zambeze que convem colonisar com gente
branca, e o trazer colonos de Quelimane até á serra da Gorongosa, pelo
Zambeze, emquanto não houver estradas e meios de transportes
convenientes tanto fluviaes como terrestres, é despendioso e não póde
deixar de offerecer perigo. Assim, se não houver a possibilidade, ou
empregando o pequeno vapor que a empreza de navegação é obrigada a ter
sempre em serviço na provincia, ou por qualquer outro meio, de fazer
desembarcar os colonos na margem do Aruangua ou do Urema, para onde
desde já o governo do districto trata de abrir bons caminhos, a partir
da villa Gouveia, será preferivel não mandar colono algum.
Entre o Aruangua e o Revue
Passando o Aruangua ou Pungue para a margem direita entra-se no Quiteve
ou Utévé, como se diz ahi. O paiz que do Aruangua ao Revue percorri é
encantador; não é plano, nem muito montanhoso; geralmente com arvores
nem muito grandes, nem muitos densas, tem de espaço a espaço pequenos
bosques muito fechados ao lado dos quaes se passa. Por toda a parte
campinas admiraveis para a creação de gado, e excellentes terrenos para
agricultura.
Está o Quiteve dividido por differentes regulos todos sujeitos aos
landins. Estes não habitam parmanentemente o paiz, não têem ahi
povoações suas, mas por um ou outro motivo percorrem-o constantemente,
sustentando-se á custa das povoações indigenas. Qualquer que seja o
numero de landins que chegue a uma povoação ou grupo de povoações, por
mais miseraveis e pequenas que ellas sejam, é necessario que appareça
farinha para fazer massa e cabritos ou gallinhas para _quissâo_ para
todos. Isto sempre e sempre. Mais ainda, se os landins têem cargas,
ao chegar ao Quiteve nunca mais pegam n'ellas, e são os habitantes que
as levam de uma para outra povoação.
Qualquer preto landim, por mais baixa que seja a sua categoria entre os
seus, procede assim com os povos de Quiteve. Se o indigena por troca ou
por presente possue um panno ou um lenço, o landim que passa junto a
elle não deixa de lh'o levar. Todas as raparigas de regular apparencia
são obrigadas a viajar para o sul para serem lá mães de landins nas suas
terras.
Comprehende-se assim como a degeneração da raça dos quitevistas progride
rapidamente e o estado de infelicidade e de miseria de todas as
povoações, apesar dos verdejantes campos e das extraordinariamente
bellas varzeas de milho e outros cereaes de que as vi rodeadas.
Alem d'estas rapinas individuaes feitas pelos landins que acontece
passarem, ha-as feitas por outros que vem, como os dos destacamentos que
tributam os nossos prazos da margem do Zambeze, encarregados de receber
dos regulos tributos de fazenda, que apesar de pequenos não sei como
ainda possam continuar a ser pagos.
Os regulos não se distinguem facilmente dos seus subditos. Em certas
terras é praxe antiga que o regulo seja mulher, que se diz não ser
casada. Muitos d'estes regulos só conservam o nome por tradição; não
penso que tenham a menor acção sobre as povoações que se acham
espalhadas nas vastas areas que dizem pertencer-lhes.
Assim o regulo mulher Mahongo, cujo nome se vê nas antigas cartas, e
deve ter tido grande prestigio, possue ainda nominalmente extensas
terras. Passei por muitas povoações relativamente consideraveis, de
grandes de Mahongo. A povoação da propria Mahongo ficava-me no caminho;
naturalmente suppunha encontrar centro mais importante do que as
povoações que tinha visto, e foi com grande estranheza que um dia,
chegando a uma meia duzia de miseraveis palhotas espalhadas n'um vasto
campo soube que a palhota isolada junto á qual, por acaso, eu me achava
era a do regulo, e que a velhinha quasi nua que estava sentada á porta
era a propria Mahongo.
O regulo mais importante do Quiteve, entre o Pungue e o Revue é a rainha
Gomani. Comquanto passasse por muitas povoações dos seus grandes e não
longe da sua propria povoação e lhe mandasse alguns presentes, não me
desviei do caminho que seguia para a ir ver, e não a posso comparar com
a Mahongo.
Os regulos do Quiteve que limitam com o Aruangua a partir da foz do rio,
são: o regulo Pica, nas terras do qual estão as minas de oiro que dizem
muito ricas, de Inhaoxo.
A região das minas está hoje abandonada e é de muito facil accesso,
podendo-se chegar ás minas com pequena marcha por terra, se se aproveita
o rio Pungue e o seu affluente rio Muda.
Todo o baixo Quiteve, ou região do Quiteve junto á costa é uma perfeita
planicie á excepção do logar onde se levanta a serra isolada da Chiruvo,
onde estão as minas de Inhaoxo e de onde sáe o rio Muda, que dizem
navegavel até quasi á base da serra.
Por informações mais recentes parece que Inhaoxo é uma pequena serra
contigua á de Chiruvo, mas d'ella separada justamente pelo rio Muda que
vem de mais longe no Quiteve.
N'estas condições comprehende-se quanto nos seria facil a occupação da
serra Chirua e o dar absoluta segurança a um sitio que dizem conter
riquezas importantes, que é elevado e deve ser sadio, e onde se estaria
tão proximo da costa, e com ella em tão facil communicação. A occupação
de Inhaoxo teria ainda uma grande importancia para a execução de
qualquer projecto tendente á reoccupação de algumas terras, ou antigos
prazos para o districto de Sofalla.
A montante do regulo Pica, seguo-se o regulo Guenjere, a montante de
Guenjere o regulo Chaurumba, a montante do Chaurumba o regulo Ganda. As
terras d'este confinam, junto ao Aruangua, com as do do reino de Manica.
Foi com grande surpreza que fui vendo que o extraordinario poder de
Manuel Antonio se estende ao Quiteve. O regulo Pica propõe-lhe fazer
entrega de todas as suas terras que vão do Aruangua até ao Busi, e, por
pouco que o governo podesse fazer, a occupação da Chiruvo e terras
vizinhas em breve estaria realisada.
O regulo Guenjere abandonou ha pouco as suas terras, e passou com a sua
gente para a Gorongosa.
O regulo Chaurumba, rapaz forte e de aspecto valente, parece ser um
homem inteiramente dedicado a Manuel Antonio, e ás escondidas dos
landins tem muitas armas por este fornecidas. O regulo Ganda actual é
que não está bem com Manuel Antonio. Ha não sei bem que desavenças de
familias n'estas terras; o que sei é que Manuel Antonio já o bateu e que
Ganda, cujas terras muito extensas se estendem até ao Revue, abandonou
as proximidades do Aruangua e acha-se no alto das grandes montanhas que
n'essa longitude já existem entre os dois rios. Dois filhos ou sobrinhos
de Ganda estão em Gorongosa, talvez sendo preparados para mais tarde
substituir o pae ou o tio.
Os landins servem-se da gente do Quiteve como de cousa sua, e é claro
que no caso, pouco provavel, de um ataque feito por elles ás terras da
margem esquerda do Aruangua, elles mandariam na sua frente com a zagaia
nos rins, como primeiras tropas landinas toda a gente que encontrassem
no Quiteve e não tivesse tido tempo de fugir como amiga para este lado.
Todas estas circumstancias, e as relações que em substituição de Manuel
Antonio, convem que as auctoridades do governo de Manica tenham com os
regulos do Quiteve, mostram a necessidade de fazer comprehender legal,
embora theoricamente, no districto de Manica todo o territorio
comprehendido entre o Pungue e o Revue.
Disse que o reino de Manica limita com as terras do regulo Ganda, junto
ás margens do Aruangua. Junto ao Aruangua o reino de Manica póde
considerar-se como deserto, e facil será chegar com o rei a um accordo
para nos ceder esta porção do seu territorio que elle não occupa.
O reino de Manica estende-se muito para o sul e é para o sul do Revue e
já na margem de um afluente do rio Save que está a aringa do Mutaça, rei
de Manica.
O antigo territorio portuguez de Manica está no valle do Revue, e a
velha villa, junto á margem esquerda d'este rio, e portanto
comprehendido entre elle e o Aruangua.
Na viagem que ha tres annos fiz a esta villa segui o itinerario marcado
no esboço junto, atravessando da bacia do Aruangua para a do Revue,
n'uma longitude onde o terreno é muito accidentado e a divisoria das
duas bacias hydrographicas de cota muito elevada.
Desde então a occupação da serra Humbe por Manuel Antonio fez d'este
ponto do Barue, ponto forçado do caminho entre a Gorongosa e Manica; e
comquanto menos directo, poderá ser preferivel ao que eu segui, se alem
do Aruangua houver a subir e a descer serras menos altas e menos asperas.
Não é porém pela Gorongosa o caminho natural entre Manica e a costa. A
viagem que acabo de fazer permittiu-me tomar conhecimento de um caminho
direito, que convenientemente limpo e rectificado permittirá chegar,
vindo da costa a Manica com uns quatro dias de facil viagem a pé. Com
melhor estrada, havendo cavallos, poderia vir a ser vencido em menos de
dois dias. O ponto de partida para a viagem de terra seria a margem
direita do rio Pungue na altura das terras de Guenjere, em ponto onde
sempre poderá chegar o vapor que fizer o serviço do rio.
Não inscrevo aqui o itinerario detalhado. No terceiro dia de viagem por
este caminho é cortado o que eu segui indo ás terras dos landins. No
quinto dia ficam os pretos na margem do rio Musa, affluente do rio
Chimesa, que é affluente do rio Revue.
N'este ponto da margem do Musa disseram-me, que havia ainda hoje ruinas
de um antigo forte, muralhas de altura de homem e vestigios de
importantes trabalhos de minas. A antiga villa e feira de Manica fica a
poucas horas de caminho do rio Musa.
Entre o Revue e o rio Mussapa
Terreno muito elevado e accidentado, coberto de um a outro rio por
continua e densa floresta. Passei a garganta da divisoria, que fica
muito mais proxima do Mussapa que do Revue, n'uma altitude de 2:230 pés,
mas no seguimento do caminho, subindo e descendo sempre, attingi varias
vezes altitudes não muito inferiores a este maximo.
Em parte da floresta encontra-se uma grande quantidade das trepadeiras
de que tiram a borracha e que dão um fructo que, embora bastante acido;
é muito agradavel ao paladar. Cultivar n'uma grande area da floresta
esta trepadeira constituiria sem duvida uma industria consideravelmente
remuneradora. Cruzando o caminho, e sem necessidade de menor pesquiza
vêem-se duzias de grandes filões de quartzo, havendo probabilidades de
que muitos d'elles sejam auriferos. Toda esta região entre o Revue e o
Mussapa fazia parte do alto Quiteve. O paiz que fica junto á margem do
Revue no ponto onde atravessei este rio é o Zauve, e é n'elle, um pouco
a oeste do meu itinerario, que está encravado o antigo territorio
portuguez do Bandire, hoje abandonado, e que contém as valiosas minas
d'este nome.
O chefe do Zauve é o regulo Murinane, que foi antigamente de grande
importancia; apesar de se vestir como os outros pretos, de como elles se
sentar no chão, ainda se apresenta com uma certa grandeza comparado com
todos os mais chefes que eu vi. D'este regulo recebi muitas
informações ácerca das minas, que estão situadas nas montanhas do
Bandire, tanto na vertente do Revue como na do Mussapa.
Não me parece haver ahi um placer aurifero como incontestavelmente o ha
em Manica; o trabalho das minas é todo em rocha, e é por isso que penso
que dos numerosos filões que encontrei entre o Revue e o Mussapa alguns
pelo menos têem probabilidade de ser auriferos. Comquanto Murinane, que
é um preto de cincoenta annos, de bello aspecto, me dissesse tanto como
todos os outros regulos do Quiteve com quem primeiro estive, que muito
desejaria ver-se livre dos vexames dos landins, e escondesse d'aquelles
que me acompanhavam os presentes que lhe dei, notei grande differença
entre o que vi na grande povoação d'este regulo e a miseria das gentes
de áquem Revue.
Na povoação do Murinane nota-se maior independencia; já ahi todos têem
as orelhas rachadas, quasi caracteristicas dos landins; todos, a começar
pelo regulo, fallam bem o vatua, ou a outra lingua dos landins.
As rochas Inharumirua, que offerecem o primeiro obstaculo á navegação no
Revue, desde a costa pelo Busi, ficam a menos de duas horas a jusante da
povoação de Murinane; conversando pela manhã, pelas oito horas com o
regulo a respeito d'esta obstrucção e da distancia ao ponto onde
estavamos, mostrou elle entre os homens que estavam sentados no chão ao
redor do nós, um que me disse ser o chefe de uma povoação mesmo junto a
estas rochas e que n'aquella mesma manhã de lá tinha partido. Para irem
da povoação de Murinane ás minas do Bandire dormem um dia no caminho,
chegando no seguinte de manhã; vê-se portanto a que curta distancia
estas minas estão de uma via fluvial; quando mesmo ella não seja bem
navegavel em todo o tempo, para transporte de pesos muito consideraveis,
e que não ha a remover constantemente, póde-se bem escolher a estação
propria.
O elevado macisso de montanhas que ha entre o Revue e o Mussapa desce
rapidamente do lado d'este ultimo rio, cujo valle é uma larga planicie
verdejante, sem quasi arvore alguma, na qual serpenteia de um e outro
lado o leito do rio.
N'este valle muito cultivado ha já algumas povoações de landins com o
caracteristico _bode_ ou rodella de cêra preta na cabeça. O contraste é
bem notavel entre estas povoações landinas, onde cada um se sente seguro
em sua casa e gosa tranquillamente do que é seu, onde as mulheres e
creanças sabem que não podem ser levadas pelos primeiros que passem, e
as infelizes povoações do Quiteve principalmente as que se acham entre o
Aruangua e o Revue. As povoações landinas da margem esquerda do Mussapa
são muito poucas e só formam, como testas de ponte para as densas
povoações da outra margem; o territorio de Bandire é nosso, e o regulo
Murinane e outros da margem direita do Revue, apesar de obedecerem hoje
aos landins e de deverem marchar contra nós, se a isso forem forçados,
muito prefeririam estar sujeitos directamente e só á soberania
portuguesa. Não vi se, para jusante da foz do Mussapa, na pouca extensão
da margem esquerda do Mufomose e do Lusito que ainda segue até ao Busi,
e em toda a margem esquerda d'este rio, desde a foz do Lusite até á
costa, ha ou não muitas povoações de landins. Os limites do districto de
Manica, se bem que theoricos, não devem ser só fixados com as terras do
Gunguneana, mas, proximo da costa, tambem com o districto de Sofalla.
Pelo que tenho dito parece-me haver decidida vantagem em considerar a
margem esquerda do rio Mussapa e a continuação d'essa margem na altura
do Mufomose, Lusite e Busi até ao mar, como limite sul do districto de
Manica. O districto de Sofalla confinaria ao norte, de leste a oeste,
com o de Manica, e a oeste, de norte a sul, com as terras do rei de
Gasa, com limites a determinar e que restituissem a Sofalla todos os
seus antigos prasos ao sul do Busi, e mais terras hoje invadidas pelos
landins.