Como reagir, esmagar a inverdade, impedir as inoffensivas, porem
irritantes manifestações dos companheiros?...
E eu me affligia atrozmente, sem razão já se vê, pois nenhum aleive
importava, afinal de contas, devendo, ao contrario, lisongear-me a
vaidade, o imaginarem elles ligações amorosas entre um rapaz solteiro na
minha situação e uma bonita viajante, de pouco austéras apparencias.
Felizmente, perto estava o porto de Acapulco, onde Lupe desembarcaria.
Agitavam-me de sorte estes pensamentos, que não me permittiam dormir.
Onze horas bateram n’um relogio proximo, abafadas pelo ruido da helice.
Iam apagar-se todas as luzes do _Colima_, á excepção das regulamentares,
deixadas em determinados pontos.
Insensivelmente, ergui-me do beliche e sahi descalço, pé ante pé.
Urgia-me verificar a verdade das asserções da hespanhola contra
Miss Hedges. Na hypothese negativa, desforçaria a innocencia. Na
affirmativa... oh materia humana quanto és exigente e vil...
Eu ignorava o numero exacto do camarote de Lupe. Sabia que se achava
collocado no meio de um pequeno corredor, para ambos os lados do qual
outros abriam, em linha.
Dirigia-me cauteloso para ahi, quando ouvi passos furtivos atraz de mim.
Mal restou-me tempo de me dissimular. Pesado vulto masculino enfiou pelo
dito corredor, encostou-se no centro d’este a uma porta que promptamente
cedeu, e sumio-se.
Correram dentro um ferrolho.
Approximei-me então, guiado pelo rangido. Na minha frente e nas minhas
costas, frouxamente allumiadas por uma lampada do salão contiguo,
estendiam-se duas séries de portas fechadas, perfeitamente iguaes.
Pareceu-me, comtudo, que o vulto penetrara na de numero 19.
Seria a do beliche de Lupe?
Não se calcula a superexcitação que desassocegou-me o resto da noite.
Desencontradas idéas fervilhavam-me dolorosamente no espirito.
No almoço da manhan seguinte, Lupe apresentou-se fresca e jovial, como
nunca.
Esquadrinhei-lhe ancioso as feições, e, com intima alegria, averiguei que
as embebia, sob a vivacidade costumeira, serena expressão virginal.
Mas as exterioridades illudem. Suspeita horrivel continuava a me torturar.
Subimos ao tombadilho após a refeição e trocamos banalidades sobre o
tempo, a marcha do _Colima_, as nossas respectivas condições sanitarias.
Abruptamente perguntei-lhe:
—Qual o numero de seu camarim?
A moça fitou-me admiradissima, recuando ligeiramente, como prestes a
repellir uma injuria.
—Que tem com isso!?...
—Perdôe-me a indiscreção, Lupe. As superstições de Miss Jackson
principiaram a actuar em meu animo. Quero comprar no primeiro porto um
bilhete de loteria com aquelle algarismo. Trar-me-ha felicidade.
—Ah! que fantasia!—murmurou rindo. Duas duzias menos dois, eis ahi.
—22?!... Quem occupa então o 19!
—Ao decimo-nono, fronteiro ao meu, cabe a honra de hospedar Sua
Adiposidade a Senhora Dona Maria Augusta Gordó de Zorraquinos.
Pequena pausa. Em seguida, com estrondosa gargalhada:
—Mas para que diabo deseja assim informar-se arithmeticamente sobre o
poleiro da pingue castelhana?! Ora essa! Será tambem com a intenção de
alcançar a sorte grande? Ou premeditará acaso (e acertei... acertei...)
fazer concurrencia ao commissario do navio?!...
E, com entonação galhofeiramente reprehensiva, no fundo da qual vibrava
certa magoa:
—Oh! dom brazileiro! que cousa feia... que cousa feia... Nunca o supporia
capaz de tanto. Leia um tratado de esthetica. Aquella posta de carne!
Torne-se vegetaliano... Deixe-se d’isso, pelo amor de Deus!...
Mais tarde verifiquei que Lupe dormia no mesmo camarote que sua mãi. Em
frente a esse, costumava permanecer aberto, depois de todos accommodados,
o da hespanhola, que esperava o seu visinho de meza,—o rubro e alentado
americano!
[Illustration]
Noche triste.
X
Haviamos passado pelas ilhas Carmen e Margherita, parando no cabo de S.
Lucas. Demoramo-nos um dia em Mazatlan, máo porto e regular cidade, sem
nenhum caracteristico relevante. Costeamos Manzanilla. Mais 48 horas e
ancorariamos em Acapulco, ponto terminal da viagem de Lupe.
Esta, á medida que proseguiamos, afigurava-se-me melancholica.
Na vespera da chegada, ao anoitecer, achei-a sósinha no tombadilho,
recostada taciturna na _chaise-longue_.
Tomei assento igual, ao lado d’ella, como em a noite da partida, e
perguntei solicito qual a causa do seu desusado pesar.
—Que quer, dom brazileiro?... sômos todos sujeitos a crises mais ou menos
graves. Sabe a historia de Fernan Cortez, o legendario conquistador do
Mexico. Alma de tão rija tempera, energia mais inflexivel difficilmente
se hão de reproduzir na historia. Sublimes, epicas as suas façanhas;
sobrehumanas as suas faculdades de resistencia e aggressão. Pois o
proprio Cortez desanimou. Na noite fatal de 1 de Julho de 1520, expulso
com os seus da capital revoltada, batido, fugindo, vendo mortos ou
feridos os seus mais possantes camaradas, o heróe deixou-se cahir á
beira da estrada, junto a um cypreste, que ainda hoje existe, e ahi
abandonou-se á morte, duvidoso da sua estrella, renunciando ao porvir. A
arvore funebre conserva o nome com que a tradicção a sagrou,—_cypreste
da noite triste_, pois por _noche triste_ é conhecido aquelle episodio
de nossos annaes. Quem não encontra na vida uma ou muitas _noches
tristes_?... Hoje, dom brazileiro, é a minha.
—Mas Cortez levantou-se, reconstituio-se, venceu...
—Cortez era Cortez. E contava, demais, com um elemento decisivo de
victoria.
—Qual?...
—Malitzin, ou Marina, a formosa india, filha do Cacique de Painallas,
sem a qual talvez naufragasse o temerario emprehendimento do
conquistador; Malitzin, a providencia do exercito de Cortez, a sua
interprete, sentinella infatigavel, conselheira segura, embaixatriz
eloquente e astuta, o principal instrumento da quéda de Montezuma;
Malitzin, que Cortez amava e que adorava frenetica o estrangeiro Cortez...
Houve demorado silencio. Depois, —a voz carinhosa e meiga, qual até então
nunca lhe ouvira, voz ungida de lagrimas represas,—Lupe continuou:
—Fique no Mexico, dom brazileiro. Desembarque amanhan em nossa companhia;
consagre algum tempo ao estudo dos costumes e natureza do meu paiz.
Não se arrependerá, asseguro. Não me disse que viaja para aprender?...
Pois, permanecendo ali, aprenderá muito... Oh! infelizmente eu não
sei descrever a minha patria como _usted_, dom brazileiro, descreveu a
sua,—descripção que eu jámais esquecerei e me fez amar o Brazil a ponto
de sonhar percorrel-o, á semelhança de quem perlustra scismando a região
das chimeras e das maravilhas... Mas fique no Mexico e reconhecerá
que a minha terra instiga tambem inspirações ao poeta, interesse ao
sabio, indeleveis lembranças ao peregrino. Medrou, entre nós, em éras
longinquas, estranha e magnifica civilisação. Vestigios de monumentos
soberbos attestam ainda agora o seu esplendor. Sobre os palacios immensos
dos velhos imperadores aztécas, desfraldavam-se largas bandeiras niveas,
franjadas de ouro. Ouro, prata, pedrarias, thesouros estupendos era
tudo no interior, onde dominavam pomposas etiquetas de metter inveja
ás orientaes. E que arte divina no preparo das pedras ricas! Cortez
apoderou-se de cinco enormes esmeraldas, cujo inaudito trabalho assombrou
os artistas europeus de seu tempo. Representavam uma rosa, uma trombeta
de caça, um peixe com olhos de diamante, uma campainha tendo por badalo
uma perola, e uma taça, gravada de religiosos disticos. Aurea cadeia,
espantosamente cinzelada, concatenava-as. A imperatriz Izabel, esposa de
Carlos V, quiz possuir esse primor; e o monarcha propôz compral-o por
fabuloza quantia. Mas Cortez brindou com elle sua noiva, D. Juana de
Zunia, filha dos duques de Bejar. Mais tarde, levando a Argel as famosas
esmeraldas, o conquistador naufragou e perdeu-as no lodo da praia.
Terriveis, dom brazileiro, as divindades adoradas n’aquella civilisação.
Do altar de Huitzilopochtli, deus da guerra, gottejava perenne o
sangue dos holocaustos. Assignalava-se a coroação de cada soberano
por sacrificios monstruosos. Sustentavam-se guerras sagradas com o
intuito exclusivo de apanhar victimas. Nos alicerces dos templos,
ladeiados de pyramides de craneos, punha-se uma mistura de ouro em pó,
aljofres, plantas magicas e sangue humano. Quando nascia uma creança,
o pai a apertava até que ella gemia de dôr, e então murmurava:—vieste
ao mundo para soffrer; soffre, pois oh! meu filho!—E acreditavam na
metempsychóse; marcavam a giz o caminho percorrido por um enterro, a fim
de que a alma do defunto soubesse volver para se reencarnar em algum
recemnascido; conjuravam os astros; liam a sorte, atravez fragmentos
de crystal... Depois, viéram os hespanhóes, a _gente de razon_, a
conquista, o aniquilamento dos indios. Os descendentes d’estes, porém,
ainda hoje acreditam que o deus redemptor, Qualtzalcoath, dorme no
fundo de uma caverna, á espera do despertar de sua raça. A monarchia
aztéca soube expirar stoicamente. Rutilam, apoz ella, traços heroicos
nos nossos annaes. Luctas homericas sustentamol-as contra a dominação
estrangeira e as classes privilegiadas. Benemeritos da humanidade o
cura Hidalgo e Morelos, iniciadores da nossa independencia. Agostinho
Iturbide, outro heroe d’essa independencia, fizemol-o, em pouco mais de
um anno, generalissimo, acclamamol-o dictador, cingimos-lhe a fronte do
diadema imperial e o banimos e fuzilamos, como desleal á Patria. Novo
imperador, imposto pela França, batida em Puebla, fuzilamol-o tambem. E
foi uma epopeia de denodo e patriotismo, digna da America indomável, a
campanha victoriosa de Juarez! Temos padecido, como nenhum outro povo, os
horrores da olygarchia militar. O general Sant’Anna empolgou o poder seis
vezes por meio de revoluções, governou vinte e tres annos quasi sempre
dictatorialmente e adoptou o titulo de Alteza Serenissima. Os constantes
sobresaltos e perigos em que vive a população tornaram-n’a intrepida,
inaccessivel á fraqueza, idonea para inverosimeis ousadias, fanatica
pela liberdade. Hospitaleira, além d’isso, doce, polida, apresentando
typos de formosura esculptural. Mulheres da plebe, ajoelhadas nos
templos, o busto immovel, o olhar fixo, o peito alto, dão a impressão
cabalistica das esphynges egypcias. E que amorosas essas nossas mulheres,
dom brazileiro!... Que destemidas, quando necessario! Maria Quintana,
uma freira, combateu valorosamente na guerra da emancipação. Catalina
Erazo,—a celebre _monja alferes_ que aos 19 annos fugio do convento e
se disfarçou de homem, levando até aos 28 incrivel vida de aventuras,
duellos e campanhas, conquistando no exercito por actos de bravura o
posto que lhe motivou o apellido, merecendo do papa autorisação para
usar vestuario masculino, e acabando christãmente, recolhida, ainda em
plena mocidade, ao claustro d’onde se escapára,—Catalina Erazo, nasceu em
Hespanha, mas educou-se e praticou no Mexico as suas façanhas lendarias.
Accordes os historiadores em testemunharem a benefica influencia
femenina nos fastos nacionaes. O general Prim casou-se com uma mexicana.
Bazaine igualmente. Condemnado e envilecido pelos seus compatriotas, que
o acoimavam de traidor, o infeliz defensor de Metz só encontrou allivio
ao seu infortunio na dedicação inalteravel da valente esposa, graças á
qual evadio-se da fortaleza de Sainte Marguerite, em Cannes, onde jazia
encarcerado. O amor das mexicanas não o destróem o tempo e o espaço. Se
confiam a alguem o coração, não o reclamam mais nunca. Demore-se em minha
terra, dom brazileiro. Conhecerá ali as manifestações mais grandiosas
da natureza, os volcões. Um d’elles, o Popocatepetl, arroja-se, cingido
de neve, a uma excelsitude de cerca de seis mil metros. A erupção de
outro, o Orizaba, durou vinte annos. De um terreno perfeitamente plano
levantou-se terceiro, o Jorullo, no correr de uma só noite a mil e
duzentos metros de altura, cercado de duas mil boccas que expellem fumo!
N’uma só noite, ouça bem, ergueu-se n’uma planicie lisa esse formidavel
volcão. Curiosissimo, não acha?! E ha sentimentos que brotam de analoga
maneira em corações virgens... Oh! não siga para diante amanhã, dom
brazileiro. Não parta, meu amigo. Que lhe custa sacrificar alguns dias?
No Mexico descobrirá largos materiaes para seus estudos, dilatará os
seus conhecimentos, retemperará a sua experiencia, enriquecerá su’alma
de novas affeicções. E será abençoado, querido, feliz... _Pordioseros_
chamam-se em nossas cidades os mendigos, porque supplicam esmola, _por
Dios_,—em nome de Deus. Considere em mim uma inditosa _pordiosera_,
digna de dó e de todos repellida. Por piedade não parta amanhã; não me
abandone; ampare-me, salve-me, soccorra-me, perdoe-me,—que eu não sei
mais o que digo, nem o que sinto, nem o que vai ser de mim...
E poz-se a soluçar, a face occulta nas mãos.
Quedei acabrunhado diante de explosão tão inesperada. Não me occorria
uma só palavra em resposta. Que significava aquillo? Algum accesso
hysterico?...
Simplesmente absurdo o que ella me propunha. Como interromper a minha
viagem, esquecer a familia, descer e deter-me n’um obscuro porto,
alheio do meu itinerario, em zona diametralmente opposta á do Brazil,
e isso unicamente para satisfazer o subitaneo capricho de uma quasi
desconhecida, sobre cuja reputação tantas ambiguidades pairavam?!
Se eu a attendesse, quantas complicações e contrariedades não poderiam
derivar d’esse passo irreflectido?!...
Decorreram alguns minutos penosissimos. Lupe sempre a soluçar.
Mas, vendo que eu nada dizia, levantou-se altiva, passando dedos
convulsos pela fronte, como quem expelle incommoda visão.
E deixou-me só, em face do eterno mysterio do firmamento e do mar.
[Illustration]