D. Maria Augusta Gordó de Zorraquinos, a nedia esposa do negociante
guatemalteco, em raras occasiões conversava commigo.
De resto, pouco tempo lhe sobejava para outros misteres que não os de
ataviar o rosto, reparando por meio de sabios artificios as deteriorações
recalcitrantes da idade.
Manhans inteiras, levava-as a espremer cravos e extorquir pellos da cara,
untando-a depois de pomadas cheirosas ou caiando-a de pó de arroz.
Merecia-lhe o cabello especial cuidado. Presumia, sem duvida, que, como a
de Samsão, residia nas melenas a sua força.
Alisava-as repetidas vezes ao dia, arrancando-lhes intransigentemente os
fios brancos e gastava horas a confabular com grampos, espelhos e pentes,
imaginando combinações ineditas de cachos, caracóes, pastinhas, topetes,
das quaes aguardava irresistiveis effeitos.
No mais, requebrava os olhos quando falava, tinha melifluidades beatas
na voz, comprazendo-se com a narração de perfidias mansas, de crueldades
hypocritas e frias. Unctuoso tudo nella; dir-se-hia que, em logar de
sangue, rolava-lhe azeite nas veias.
Lupe azoinava-a de epigrammas; appellidou-a madre abbadessa; achava meios
de lhe desmanchar o trabalhoso penteiado, e, descobrindo que nada a
agoniava como qualquer allusão á sua obesidade incipiente, a cada momento
a interpellava:
—Oh! D. Maria Augusta, indubitavelmente as auras marinhas dilatam os seus
tecidos. Não calcula quanto já augmentou. Admira como os seus vestidos,
de certo elasticos, conseguem ainda abrangel-a. Está hyperbolica, minha
rica senhora, o que, aliás, multiplica os seus attractivos, pois todos
elles se ampliaram. Mas, continuando assim, o seu digno marido, ao ter a
gloria de revel-a, correrá o risco de não abarcar nos braços amanteticos
sinão metade de sua cara metade, isto é, se Pythagoras não mente, apenas
a sua quarta parte.
D. Maria Augusta Gordó de Zorraquinos repulsava estas chacótas com um
silencio sobranceiro, dardejando obliquamente sobre a moça odientos
olhares. Evitava, quanto podia, a mexicana. Dirigia-lhe sómente, pela
manhan, ligeira inclinação de cabeça.
Mas Lupe fazia-se de desentendida, voltando á carga sempre que se lhe
propiciava ensejo.
Na meza, a hespanhola palestrava baixinho, muito amavel, com o
commissario de bordo,—americano de pés e mãos enormes, supinamente calvo
e rubicundo. Abaixando-me eu, de uma feita, para levantar o guardanapo
que cahira, pareceu-me entrever o sapatão do commissario idyllicamente
pousado sobre uma das rechonchudas bases da hespanhola, sua vizinha. Não
liguei importancia ao incidente, preoccupado de Lupe e outros assumptos.
Surprehendeu-me vivamente uma manhan o me chamar a gorda senhora para
junto de si. Assumira um ar de confidencia; e foi pausada, com ademanes
protectores, que assim me evangelisou:
—Não se póde negar que dom Alfonso é um guapo mancebo, bem educado e
seguramente de excellente familia. Desculpe se offendo a sua modestia,
mas possúo experiencia da vida e aquelles dotes logo se reconhecem.
Dom Alfonso me inspira sympathia. Demais, costumo fazer bem sem olhar
a quem. Por isso, espontanea e desinteressada, quero lhe prestar um
serviço. Vou abrir-lhe os olhos... Mais tarde me agradecerá. Cuidado
com a mexicana, dom Alfonso. Aquillo é gente mais traiçoeira que Judas.
Está patente que as impudencias da joven desmiolada lhe transtornaram
o coração. Não negue:—basta observar os olhos compridos que lhe lança,
o modo immerecido como a acolhe, o açodamento com que a procura,
desdenhando os mais. E ella o comprehendeu, a patifa, e vai usando
das mil artimanhas do seu repertorio para o embahir. Colher proveitos
positivos da ingenuidade alheia, eis o seu programma. Cautella, dom
Alfonso. Nada de compromettimentos inuteis. Não dispenda tão fina cera
com tão máo defunto. Agora, se pretende simplesmente divertir-se, o
caso muda de figura. Está no seu direito e é proprio da feliz idade
em que se acha. Mas, então, coragem, homem! Ponha á margem timidez e
escrupulos injustificados. Não queira que, em vez de dom Alfonso (um
bonito nome,—o de meu rei e senhor, a quem Deus guarde) o chamem de dom
José, ridiculo não raro perante as mulheres. Nada de luxos n’uma praça
aberta, onde entra quem quer. Trate-a como ella o merece. Caramba! Devia
haver nos paquetes uma classe á parte para certa gente, afim de que
damas immaculadas, como eu e Miss Jackson, não nos vissemos forçadas á
convivencia de desgraçadas d’aquelle jaez. Parece que não acredita, dom
Alfonso?... Noto-lhe geitos de protesto... Pois arrisque uma experiencia
facillima... Passe, depois que apagarem as luzes, pelo camarote d’ella.
Encontrará a porta entre-aberta. Penetre resoluto e abençoará as minhas
caridosas indicações. Não será o primeiro, nem o ultimo. A cousa data de
longe. Informe-se em S. Francisco...
E a castelhana deu-me familiar pancadinha no hombro, revirando as
pupillas oleosas e arreganhando-se n’uma risada maligna.
Menos indignação que tristeza me produziram as insinuações de D. Maria
Augusta. Repugnava-me admittir Lupe como a aventureira descripta. Sem
embargo, as maneiras levianas d’ella, juntas ás informações de Mr.
Randolph e ás que eu acabava de ouvir, projectavam-me no espirito sombras
de duvida. E essa duvida me penalisava inexplicavelmente, como cruel
desillusão.
Tentei a defeza de Lupe, negando sobretudo os sentimentos que a casquilha
matronaça me attribuia. Mas falleciam-me elementos quanto á justificação
d’aquella. Não havia ainda um mez que eu a conhecera, na promiscuidade
de bordo. Onde buscar factos que rebatessem as accusações?...
Nem convinha patenteiar summo calor na advocacia, sob pena de corroborar
as affirmativas concernentes ao estado de meu coração.
D. Maria Augusta abanava a cabeça, prazenteira, não se dignando
contrariar meus argumentos tibios e confusos.
D’essa data em diante entrei a notar que o commandante, o commissario, os
inglezes, o proprio engenheiro hollandez, Herr Pfeiffer, tão circumspecto
e assiduamente entregue a calculos e leituras scientificas, derramavam
sobre Lupe e sobre mim alternativos olhares carregados de malicia,
gryphados, a revezes, de equivocos sorrisos.