Os Christãos por esta vitoria ficaram alegres, e mui esforçados, depois

de consultarem sobre a milhor maneira que teriam para tomar a Villa,

fizeram duas escadas grandes, e com gente darmas que comprio foram logo

juntas ao muro para o entrarem, e comessarem de combater o Castello; mas

os Mouros com a necessidade que tinham de salvar suas vidas, dobráram

suas forças, pelo qual assi com fogo, com pedras, e traves, e setas, que

de cima do muro lançavam, afastaram os Christãos longe do muro, em que

da uma parte, e da outra foram muitos mortos, e feridos, e porque os

Christãos viram que aquella qualidade de combate por a grande fortaleza,

e desposição dos muros lhe não socedia como dezejavam, fizeram logo

cavas, e minas por baixo da terra para as poerem debaixo dos muros, e

postos em contos os derribarem por fogo; mas os Mouros que desto por

avizos, ou por conjeituras foram bem sabedores contraminaram as cavas

dos Christãos, e uns, e outros com peleja mui crua se encontraram, em

que houve muito sangue derramado, e com grandes fogos, e cousas fumosas

que os Mouros fizeram, lançaram os Christãos fora das cavas, e pozeram

sobre si segura guarda, pelo qual vendo os Christãos que alguma cousa

das cometidas de todo lhes não aproveitava, elles, por conselho, e

ordenança do Capitão da frota, que era homem engenhoso, e de bom

esforço, fizeram logo duas bastidas de madeira muito fortes, e tão altas

que cada uma dellas sobejava por cima das mais altas Torres do Castello,

donde os combates que nellas poseram iam seguros, e não temiam os danos

dos Mouros, e com esto, e com outros engenhos que mais ordenaram, e com

muitos bésteiros, e frecheiros commetteram o Castello rijamente por

muitos lanços do muro, por cima do qual os Mouros com a força das setas,

e pedras que lhe lançavam, não ouzavam parecer nem resistir como dantes

faziam, e vendo-se fracos de suas forças, e desesperados já em tudo, de

todo o soccorro, e finalmente porque se não podiam suster, fizeram sinal

que se queriam render, e sobre seguro, que lhes foi dado, vieram á

pratica, e apontamento, em que pediram as vidas, e fazendas, mas as

vidas sómente lhe foram outorgadas com segurança das quaes elles abriram

as portas do Castello, e assi seguros se sahiram, e foram para onde

quizeram, e o Alcaide do Castello, que antre elles era a pessoa mais

principal, não se quiz ir com os outros, mas acha-se que da tomada da

Villa, a tres dias por sua vontade foi bautizado, e tornado Christão, e

os outros Mouros que os Christãos acharam pelas Aldeas, e Lugares de

redor todos, se diz que sem resistencia morreram a ferro, e os grandes

despojos que da batalha passada se recolheram, e na Villa se acharam

foram logo igualmente repartidos sem aventagem dalgum, salvo que ao

Capitão de fóra, porque por seu conselho e ordenança o cerco fora sempre

regido lhe deram mais déz por prezioneiros, que elle tomára.

E porque ao Bispo de Lisboa não foi sobre elles dada alguma avantagem,

que bem merecia, o Capitão da frota a que tal escasseza não pareceo bem,

por seu conforto lhe disse: «Reverendo Bispo, posto que vós aqui pelo

bem recebeis mal, e pela bondade malicia rogo-vos que a estes homens,

que tão mal o conhecem, e fazem sejais paciente, porque o principal

galardão que por este trabalho mereceis Deos nosso Senhor que é bom, e

justo, e porque bem o recebestes volo dará bom no Ceo, e será melhor que

este de cousas da terra». E com esto os Estrangeiros se recolheram a

suas frotas, e se partiram para onde quizeram, e o Bispo com os senhores

Portuguezes, que ao cerco vieram depois de leixarem a Villa

afortalezada, e bastecida, como viram que compria, tambem se tornaram

para suas terras, e cazas, e esta tomada de Alcacere em tempo deste Rei

Dom Affonso II foi em dia de S. Lucas, a dezoito do mez de Outubro da

era de nosso Senhor de mil duzentos e dezasete annos, (1217) e dahi a um

anno este Rei Dom Affonso com a Rainha Dona Orraca sua molher lhe deo

foral que agora tem, como por elle parece.

CAPITULO IX

_Como cinco frades Italianos da Ordem de S. Francisco foram a

Marrocos a prégar a Fé de Christo, e primeiramente chegaram a

Sevilha, que era de Mouros_

Desta tomada Dalcacere até o falecimento Del-Rei Dom Affonso se passáram

seis annos, nos quaes se não acha feito que elle fizesse, nem se

passasse cousa dina de memoria, salvo que depois em sua vida, e da dita

Rainha Dona Orraca sua molher, o Ifante Dom Pedro seu Irmão filho tambem

legitimo del-Rei Dom Sancho trouxe a Coimbra os ossos dos cinco Frades

Menores, que em Marrocos morreram Martyres, cujo caso segundo a Lenda

Santa, que delles se lê, e segundo o que mais delles verdadeiramente se

acha foi brevemente nesta maneira. Na Coronica del-Rei Dom Sancho pai

deste Rei, falando dos filhos que teve sumariamente disse: que o Ifante

Dom Pedro, seu filho, o qual bem acompanhado de nobre gente Despanha

passara em Africa, e estivera em muita estima, e grande authoridade com

Mirabolim de Marrocos, até o tempo do Martyrio destes Santos Frades, dos

quaes se acha por a dita sua Lenda, e por inquirição verdadeira, que o

sobredito Dom Matheus, Bispo de Lisboa, delles, e do seu Martyrio, e

milagres tirou por testemunhos de muitos, dinos de fé, que com o dito

Ifante andaram, e principalmente por um Cavaleiro de Santarem que

chamavam Estevão Pires, homem velho, e honrado, e de louvada vida, e

costumes que ao dito Ifante sempre servio, que na era de nosso Senhor de

mil duzentos e dezanove, (1219) e aos treze annos da primeira conversão

de S. Francisco, elle por vontade de Deos, escolheo em sua vida seis

Frades de sua Ordem por natureza Italianos, e de maravilhosa santidade,

a saber: Frei Vital, e Berardo, Otone, Acurcio, Pedro, e Adjuto, e por

saberem bem a lingoa Arabiga os mandou ao Rei, e Reino de Marrocos, que

naquelle tempo sobre os Mouros Dafrica, e Despanha tinha o mór

Principado, para lhe prégarem, e trabalharem pelo converter á Fé de

Christo.

E destes seis Frades fez maioral, e Prelado a Frei Vital, o qual como

elle com os outros chegassem ao Reino Daragão adoeceo; e porque vio que

sua doença se prolongava por tal que seu mal corporal, o bem, e negocio

espiritual, e de Deos não impedisse, mandou que por comprirem o mandado

de Deos, e de S. Francisco se fossem a Marrocos, os quaes por sua

obediencia o leixaram doente, e se partiram, e chegeram á Cidade de

Coimbra onde a esse tempo era a Rainha Dona Orraca molher deste Rei Dom

Affonso, a qual os fez ir ante si, e como falasse com elles em cousas de

Deos, e nelles visse tão grande desprezo do mundo, e tamanho fervor de

morrer por amor de Jesu Christo, e sem duvida os julgou, e houve por mui

verdadeiros, e prefeitos servos de Deos, e por esso com grande instancia

lhe rogou, que por suas rogações pedissem a Deos que revelasse a ella o

derradeiro termo de sua vida, e posto que elles com sua humildade

confessassem não ser dinos entender nos segredos de Deos: porém vencidos

das devotissimas preces da Rainha, ditas com muitas lagrimas,

prometeram-lhe que assi o pediriam, os quaes orando a Deos com firme, e

pura fé, não sómente o que da vida da Rainha, mas ainda o seu Martyrio,

por revelação de Deos lhe foi tambem senificado, porque logo disseram

que os derradeiros dias da vida da Rainha seriam mui sedo quando seus

corpos depois de seu Martyrio, fossem de Marrocos ali trazidos, e della

mesma Rainha, e de todo o povo com grandes honras recebidos, e assi foi

como se dirá.

Partidos os Frades de Coimbra para seguirem sua santa jornada, vieram

por aviamento da Rainha Dona Orraca á Villa Dalanquer, onde estava a

Ifante Dona Sancha, irmã del-Rei Dom Affonso, que era Senhora da dita

Villa, a que tambem revellaram todo o seu proposito; como ella foi

Princeza mui santa, aprovando seu negocio ella sobre os habitos da sua

Religião que elles traziam lhes deu outras vestiduras seculares, taes,

com que mais livres, e facilmente podessem passar a terra de Mouros, e

assi com seus habitos desimullados foram á Cidade de Sevilha, que então

era de Mouros, onde na pouzada de um Christão, leixados os habitos

leigos, por oito dias estiveram escondidos, e acertou-se que em um dia

fervendo seu espirito para Martyrio, elles sem guia, nem conselho

doutros se foram á principal Mesquita dos Mouros, e como em ella

quizessem entrar os infieis, que os viram, e conheceram, endinados

contra elles com empuxões, brados, e açoutes, que lhe deram, e por

instituto, e costume os não consentiram entrar, e dahi indo-se ás portas

del Rei, e sendo ante as ditas portas dos Paços foram levados ante El

Rei, e perguntados quem eram? Responderam: que vinham a elle Rei por

Embaixadores, e enviados do Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores, que era

Jesu Christo, e como ante El-Rei muitas, e mui dinas cousas da Fé

Catholica proposessem aconselhando-o para sua conversão, e para receber

agoa do santo Bautismo, e com esso muitas couzas feas, e torpes de

Mafamede, e de sua seita descobrissem, El-Rei endinado de grande ira

contra elles lhes mandava cortar as cabeças, mas amançado por palavras

de um seu filho, que era prezente, os mandou meter em uma Torre mui alta

junto dos Paços, de cuja altura aos que entravam, e sahiam da caza

del-Rei, elles não leixavam de prégar em altas vozes a Fé de Christo, e

brasfemar, e mal dizer da Seita de Mafamede, cujos seguidores, e

favorecidos diziam que no inferno seriam com tormentos para sempre

danados, e anojado El-Rei de suas palavras, e para lhe arredar o azo de

as não poderem dizer, os mandou meter no mais profundo da Torre, donde

por concelho dos seus vassallos os mandou tirar, e levar a Marrocos em

companhia de Dom Pedro Fernandes de Castro o Castellão, de que atraz

disse, e ao diante direi, que por odios, e perseguições dos Condes de

Lara, não se pode soster em Castella, e duas vezes se passou aos Mouros,

e desta derradeira para Mirabolim de Marrocos.

CAPITULO X

_Como os Frades chegaram a casa do Ifante Dom Pedro, e do que logo

fizeram, e como foram tornados a Ceyta para virem a terra dos

Christãos, e dahi se volveram outra vez a Marrocos_

Neste tempo estava em Marrocos o Ifante Dom Pedro, filho del-Rei Dom

Sancho, e irmão deste Rei Dom Affonso, a cuja caza os ditos Frades, e o

dito Dom Pedro Fernandes logo chegaram, e o Ifante os recebeo com

humanidade, devação, e bom trato, e os proveo de todo o que haviam

mister, porque era Principe em virtudes mui acabado, e os Frades como

dahi em diante viam quasquer Mouros logo com muito fervor lhes prégavam,

especialmente um dia Frei Berardo, que delles era o mais principal, e

milhor sabia Arabia, sobindo em um carro, ou lugar alto como pulpito, e

prégando a Fé de Christo a muitos Mouros que o ouviam acertou-se que o

Mirabolim ia visitar, como tinha de costume, a sepultura dos Mouros

Reis, que eram fóra da Cidade, e vendo o Frade prégar, e por elle ser

prezente não querer desistir da prégação á sua seita contraria,

estimando o por homem sandeo, e por tirar escandalos mandou, que elle

com todos os Frades fossem logo lançados fora da Cidade, e sem tardança

levados a terras dos Christãos, pelo qual o Ifante Dom Pedro havendo-o

assi por bem lhes deu alguns seus servidores, que seguramente os

levassem, como levaram até a Cidade de Ceyta, para dahi logo passarem a

terra dos fieis.

Mas os Santos Padres não contentes da viagem leixáram as guias, que os

levavam, e tornaram-se outra vez a Marrocos, e como chegasseem á praça

da Cidade logo aos muitos Mouros, que nella acharam começaram de prégar,

louvando os merecimentos da Fé de Christo, e brasfemando dos vicios, e

erros de Mafamede, e sua seita, da qual cousa como El-Rei fosse

certificado os mandou logo meter em um estreito carcere, onde sem alguma

ordenada provizão, nem mantimento dos homens, que houvessem, mas com a

só refeiçao de Deos, que houveram. Vinte dias foram encarcerados

asperamente, e neste tempo, porque em toda aquella terra sobrevieram mui

grandes, e desordenadas quenturas do Sol, e grandes destemperamentos do

Ar, alguns creram que estes males poderiam vir pela injusta prizão dos

Frades, pelo qual por concelho de um Mouro chamado Abotorim, que aos

Christãos tinha amor, e queria bem, El-Rei consentio que fossem livres

do carcere, e trazidos ante elle, mandou aos Christãos que logo sem mais

detença os mandassem a sua terra.

E porém El-Rei com os outros Mouros não ficaram sem grande espanto,

quando viram os Frades tão esforçados dos corpos, e tão constantes das

vontades, havendo vinte dias continos, que sem algum mantimento ordenado

jouveram no carcere, e perguntados por El Rei: quem os mantivera tanto

tempo? Lhe disse Frei Berardo, que como El-Rei bem crece na Fé de Jesu

Christo logo saberia como elles sem beber, e sem comer foram no carcere

manteudos. E com tudo elles como se viram soltos, logo sem algum medo

outra vez quizeram tornar a pregar aos Mouros, mas os outros Christãos,

que com elles estavam, receosos da ira del-Rei que com mortes, e

cruezas, se estenderia nas vidas de todos, como mostrava, lho não

consentiram.

Então lhe ordenaram logo outros homens fieis que os acompanhassem, e

levassem outra vez a Ceyta, para dahi passarem a terra dos Christãos,

mas os ditos Frades sospirando por seu Martyrio, despedindo-se daquelles

que os levavam se tornaram outra vez a Marrocos, onde o Ifante os mandou

logo recolher, e encerrar em sua caza com guardas, e defeza estreita,

que os não leixassem sahir, porque receava segundo El-Rei de suas

pregações se escandalizava, que não sómente mandaria matar os Frades,

mas a elle, e a todos os christãos que houvesse na Cidade.

CAPITULO XI

_De um milagre que se fez por causa de Frei Berardo, e como foram

presos e atormentados os outros Frades_

E acertou-se que o Mirabolim a este tempo mandou o Ifante Dom Pedro com

outros muitos nobres homens de Christãos, e Mouros, que delle tinham

soldo fazendo guerra, e sogigar a uns senhores Mouros seus vassallos,

que se lhes rebelaram, apoz os quaes Frei Berardo, e os outros Frades,

que tiveram maneira de se soltar, logo seguiram, e foram devolta onde se

diz, que disputando Frei Berardo com um Mouro ante elles o mais letrado,

e venceo, e confundio, e que este Mouro, com vergonha nunca mais tornou

a Marrocos, nem depois não pareceo, e tornando o Ifante com os outros

Mouros da conquista, que lhes fora encomendada, vieram por uma terra tão

seca que por tres dias para si, nem pera seus cavallos não poderam achar

em nenhuma parte agoa para beber, e como a estreiteza da sede

desesperasse todos das vidas, Frei Berardo era na companhia, feita

primeiro sua dovota oração, tomou na mão um piqueno pao com que cavou um

pouco na terra mui seca donde milagrosamente logo arrebentou, e sahio

uma grande fonte de agoa doce, e mui singular de que não sómente os

homens, e alimarias bebiam, e se abastaram, mas ainda encheram muitos

odres, que levaram para o caminho.

E como esta necessidade dagoa foi satisfeita, logo a fonte se sarrou, e

secou, e por tão grande, e tão manifesto milagre, que de todos foi

visto, e Deos por Frei Berardo fizera, todos os do exercito dahi em

diante o tiveram em grande devação, e reverencia, e muitos por Santo lhe

beijaram os pés, e as vestiduras, e como estes Santos Frades tornassem a

Marrocos, e em caza do Ifante fosse por elles posta grande guarda, para

não sahirem, e elles toda via sairam, e em uma Sexta feira, que o

Mirabolim ia visitar os sepulchros dos Reis Mouros, os Frades sem algum

temor, e com grande ousadia se apresentaram ante elle, e sobindo Frei

Berardo em um tezo começou de lhe prégar mui sem receio, e como El-Rei

os visse, cheo de ira contra elles, mandou a um seu Capitão Mouro que

vira o milagre dagoa, que logo lhes cortasse as cabeças, pelo qual os

Christãos, que eram prezentes, com temor de suas proprias mortes, logo

fugiram dahi, e fechadas, e trancadas bem as portas de suas pouzadas,

nellas sem sair jaziam escondidos, mas o Principe Mouro mandou aos

homens da justiça que trouxessem os Frades ante elle, e como por duas

vezes o não achassem os tornaram a levar a mais aspero carcere com

golpes, e bofetadas com que os feriam, e com esso os ditos Frades assi

aos Christãos, que se lhe offereciam não leixavam de prégar a palavra de

Deos.

E sendo outra vez trazidos ante o dito Principe, e com tanta constancia

os visse prégar, e confessar a fé Catholica, e reprovar, e reprehender

com muita ouzadia as couzas de Mafamede, e sua seita, acezo da ira

contra elles os mandou logo atormentar com muitas, e mui desvairadas

maneiras de tromentos, e depois apartar uns dos outros, e em desvairadas

cazas onde cruamente os mandou açoutar, e aquelles maos, e crueis

ministros atados os pés, e as mãos dos Santos, e com cordas asperas

lançadas aos colos delles, e arrastando-os de uma parte a outra pela

terra, assi continuadamente, e tão sem piedade os açoutavam, que as

tripas lhe apareciam, e sobre as chagas recebidas por acrescentarem mais

dor lhe lançavam vinagre, e azeite fervendo, e assi foram por toda a

noite atormentados, e açoutados de trinta Mouros, que nelles se

arrevezavam, na qual noite daquelles que os guardavam foi visto, que um

grande resplandor decendia dos Ceos, e com uma companha sem conto os

arrebatavam, e levantavam para cima, e maravilhados desso os Mouros, e

de todo espantados, chegando ao corcere acharam os Santos Frades

devotamente orando.

CAPITULO XII

_Como El-Rei de Marrocos fallou com estes Frades, e por os não

poder converter a sua seita por si mesmo os matou, e como foram

mortos tambem Pedro Fernandes, e Martim Affonso Telo, sobrinho do

Ifante_

As quaes couzas ouvindo El-Rei de Marrocos, acezo com maior sanha contra

elles, mandou que logo lhe fossem levados com as mãos atadas, e

descalços dos pés, e depois dos corpos continuadamente açoutados, e

espancados, os quaes como El Rei na Fé de Christo os visse tão firmes,

mandou dentro meter comsigo certas molheres fermozas, e lançados todos

fóra disse: «Convertei-vos a nossa fé, e dar-vos-hei estas por vossas

molheres, e com ellas muito dinheiro, e sereis em meu Reino muito

honrados.» A que os Frades logo responderam: «Tuas molheres, e teu

dinheiro não queremos; porque tudo esto desprezamos por amor de

Christo». É então El-Rei arrebatado de maior ira, e sanha, apartados os

Santos um do outro, por suas proprias e mui cruas mãos a cada um per si

talhou as cabeças por meio das fontes, e apertando na mão tres cutellos,

juntamente com uma crueza de besta féra os degolou, os quaes compriram

este seu Martyrio a dezaseis dias de Janeiro do anno de Christo de mil

duzentos e vinte, (1220) em tempo do Papa Honorio III, em o quarto anno

de seu Pontificado, e quasi sete annos antes da morte de S. Francisco.

E depois disto lançados fóra os corpos dos Martyres por as molheres, que

comsigo tinham: estes perros barbaros e maos, atando cordas a seus pés,

e mãos, os arrastaram para fóra da Cidade, em torno da qual com grandes

brados, e pregões os trouxeram, e espedaçados de todos os membros, os

leixaram no campo, pelo qual os Christãos, que os assi viram,

alevantadas as mãos aos Ceos, louvando a Deos por seu tão glorioso

Martyrio, comessaram de apanhar, e recolher as Riliquias dos ditos

Santos escondidamente, a qual couza como os Mouros vissem, todos como

cães raivosos, tanta multidão de pedras lançaram nos Christãos, que

parecia tempestade de sua raiva, mas os Christãos defezos já pelos

merecimentos dos Santos, fugindo da ira dos Mouros a suas cazas se

recolheram, donde com temor da morte, que antre si traziam, escondidos

por tres dias não pareciam, principalmente, porque neste tempo o Ifante

mandou a Dom Pedro Fernandes de Castro, o Castellão, que lá era lançado,

e a Martim Affonso Tello, seu sobrinho, nobres homens, que com outros

muitos andavam em sua companhia, que de noite secretamente fossem ver

onde jaziam os corpos dos Martyres para se recolherem, porque foram

vistos, e achados dos Mouros, logo os mataram.

CAPITULO XIII

_Como os corpos dos Martyres foram queimados, e despedaçados, e

emfim recolhidos por devação, e industria do Ifante Dom Pedro_

Depois desto em um grande fogo, que foi feito no campo, os corpos dos

Santos se lançaram por tal, que de todo fossem queimados, mas o fogo por

virtude Divina das santas Reliquias assim se apartava, e apagava, como

que a materia muito lhe fosse contraira com junto, antes a cabeça de um

dos Martyres lançada muitas vezes no fogo, nem nos seus cabelos não

pareceo algum sinal de queimadura, a qual assi com a pelle, e cabellos

foi mostrada sem alguma corrupção no Moesteiro de Santa Cruz de Coimbra,

mas dos Mouros alguns por amizade, e outros por dinheiro, e proveito, e

assi os Christãos, que na Cidade eram cativos, apanhando as Reliquias

dos Santos as offereciam ao Ifante, que recebendo-as com grande devação

as mandou secretamente cozer, e depois que as carnes se gastaram, e os

ossos ficaram limpos, os mandou secar, e encomendou a guarda principal

delles a João Roberto, Conego de Santa Cruz, homem em virtudes acabado,

e a tres innocentes, moços honestos, seus moços da Camara, dos quaes um

foi o Estevão Pires de que atraz disse, que deu este estromento, ca não

era algum ouzado entrar onde as sagradas Reliquias estavam em guarda,

porque a só sua consciencia de qualquer crime ocultamente commetido logo

o reprendia, e acuzava.

E neste tempo um Cavalleiro chamado Pedro da Roza, tendo uma manceba por

nome Maria da Roza, como sobisse a um sobrado onde as Reliquias se

guardavam logo elle sem se poder mover, e tolheito, bradou fortemente

dizendo: «Acorrei-me, acorrei-me, dai-me confissão. A qual como o Conego

lha deu, em que de todo renunciou a manceba, logo foi livre dos membros,

e pode decer, mas não pode falar até que o mesmo Conego por mandado do

Ifante lhe poz sobre o peito a cabeça de um Martyre, com que de todo

recobrou as forças, e fala, assi como dantes as tinha, e dahi em diante,

assi o Ifante como todos os seus tiveram as Reliquias em maior honra, e

devação, das quaes mandou meter as cabeças em uma arca, e os ossos em

outra, e as tinham em grande veneração na sua Capela, e ás santas Almas

dos Bemaventurados Martyres, cujas Reliquias tinha continua, e

devotamente pedia, que de Deos lhe ganhassem graça para sem perigo de

sua pessoa, e dos seus, se poder vir para sua terra de Christãos, porque

já havia muitos dias que na dos Mouros contra sua vontade se detinha, e

estava forçado.

CAPITULO XIV

_Como o Ifante D. Pedro foi tornado a Espanha, e trouxe consigo os

ossos, e Reliquias dos Martyres, e as mandou a Santa Cruz de

Coimbra, e dos milagres que houve no caminho_

Esta graça pelas preces dos Martyres, foi da piedade de Deos brevemente

empetrada, porque estando o Ifante desta sua liberdade assás

desconfiado, o Mirabolim de sua propria vontade, e sem requerimento

dalguem o mandou chamar, e alegremente lhe deu licença, que para sua

terra se viesse quando quizesse, descobrindo-lhe logo as muitas vezes

que para sua morte fora de seus principaes aconselhado, e induzido; mas

por seus merecimentos, e bons serviços, que fielmente sempre lhe fizera,

merecia outro galardão. E com esta licença lhe deu mais suas cartas de

passos, para elle, e os seus seguramente poderem passar, com as quaes

partiram de Marrocos, e depois de um dia, e uma noite, vieram no caminho

dormir a Azora, que era lugar despovoado onde de ferozes brados dos

muitos Liões, que ahi ha foram postos em temor de que logo foram livres,

como ante si, e os Liões pozeram com devação, e confiança as santas

Reliquias, que por sua santidade fizeram tudo quieto, e ao outro dia

chegaram a um Lugar em que se apartavam muitos caminhos, e duvidosos de

qual era o melhor que tomariam, e o Ifante sospenço, e confiado na santa

guia das Reliquias que acompanhava mandou dar a dianteira a uma Azemala

que as levava, e houve por bem que aquelle caminho que ella tomasse,

todos por milhor o seguissem esperando que elle seria o milhor, e mais

seguro.

O que foi assi feito, e a Azemala se desviou de um caminho para que a

gente se mais inclinava, onde o Ifante soube depois em certo que Mouros

o esperavam para o matar, e roubar, e da hi em diante em dezertos e

montes porque passáram sempre déram a guia ás santas Reliquias, que com

a graça de Deos levaram o Ifante, e os seus a salvamento atè Ceita, onde

embarcando logo em uma nao, que o Divino favor lhe tinha prestes, e

aparelhada para terra de Christãos, partiram, e navegaram logo com vento

prospero, que em poucas horas, com grande escuridão se mudou o

contrairo, e algumas outras naos que se acertaram em sua conserva, por

uma respiração divina faziam daquella do Ifante Capitaina, por quem se

regiam, e com a grande sarração que sobreveio temendo de ir á Costa se

encomendaram devotamente aos rogos, e merecimentos dos Santos Martyres,

cujas sagradas Reliquias levavam, para que em salvamento os guiassem, e

logo supitamente derramada a escuridão, em que andavam, veo a grande

claridade, e bonança, com que bem viram, e conheceram o caminho de sua

perdição, que levavam, e desviados delle aportaram na Aljazira, daquem

Despanha, e dahi a Tarifa, e logo a Sevilha, que era de Mouros, onde por

os Christãos que ahi eram, o Ifante foi avizado, que logo se partisse,

porque El-Rei de Sevilha o mandava prender.

Chronica de El-Rey D. Affonso II · 第 2 / 3 段