Conclusão

Lancemos os olhos para o espaço que rapidamente percorremos. Encontramos

a sciencia antiga desvelando maravilhosamente alguns dos segredos mais

importantes da cosmographia, mas estacionada n’uma solução do grande

problema que se lhe affigurara satisfatorio, e que era comtudo um

obstaculo invencivel para todo o progresso geographico. Depois de mil

conjecturas phantasistas, pode-se dizer que um grande resultado se

obtivera: o reconhecimento da esphericidade da terra. Mas o orgulho

humano oppunha-se invencivelmente á hypothese que désse a essa Terra, e

portanto á raça pensadora que a habitava, um logar inferior no concerto

do universo. O sol continuou a girar acompanhado por todo o systema

planetario e por todo o mundo stellar em torno da terra immovel e

soberana. Era comtudo esse um terrivel escravo, porque bastava a sua

ausencia para que fenecesse a vegetação e definhasse a vida; por isso

tambem era natural que nos pontos onde o seu contacto fosse mais proximo

o excesso do calor produzia o effeito contrario, e désse tal intensidade

á vida que a fizesse desapparecer na conflagração do abrazo. O mytho de

Zeus e de Semele parecia traduzir este pensamento.

Quando a terra mãe, a Terra que o deus terrivel fecundava, o queria ver

de perto com todo o explendor do seu vulto, com toda a grandeza da sua

omnipotencia, bastava a presença do amante para a reduzir a cinzas. Era

em torno da zona média da terra que o sol descrevia o seu giro, era

ahi portanto que se approximava da terra, e ahi forçosamente a vida

desappareceria no incendio dos seus raios.

Assim era a Sciencia que vedava o caminhar do homem. O mundo civilisado

dilatava-se, graças aos esforços e á audacia dos Phenicios, mas, por mais

audaciosos que fossem, considerariam uma insania suprema transpor os

limites das zonas defezas.

Para essas regiões que os mortaes não podiam pisar transportava a

phantasia humana a residencia d’aquelles, que, libertos dos laços da vida

mortal, podiam existir em condições negadas á fraca humanidade. Foi pois

assim que para além do terminus da sciencia positiva, ou para o norte,

ou para o sul, a imaginação collocou as regiões da bemaventurança.

Veiu a edade média, em que uma sociedade barbara procurando reatar o

fio da civilisação, tomou como ideal supremo da sua sabedoria a sabia

antiguidade.

Se Ptolomeu e os outros eram respeitados pelos seus contemporaneos como

eximios sabedores, para os seus novos discipulos eram perfeitamente

oraculos, e a Sciencia continuou, mais do que nunca, a deter o homem

dentro dos limites consagrados. Assim como os Phenicios, fundeados por

assim dizer á beira da Syria, sondaram o Mediterraneo primeiro e depois

o Atlantico, o infante D. Henrique de pé no posto mais avançado da costa

europeia sentiu o desejo ardentissimo de sondar o grande mysterio.

Realisou-lhe a audacia dos seus navegadores o seu sonho querido,

quebrou-se a barreira da zona torrida, e ampliou-se para o occidente o

conhecimento do Oceano. As affirmações da sciencia antiga iam caindo uma

a uma sem que os navegadores ousassem comtudo desmentil-as, senão nos

pontos em que a experiencia mostrava definitivamente a sua fallibilidade.

A Africa foi tomando os seus contornos verdadeiros, dobrou-se a sua

ponta meridional, seguiu-se para o oriente, sem se encontrar o mar

mediterraneo das Indias, a peninsula indostanica foi tambem reintegrada

na sua verdadeira fórma, o Cathay da narrativa semi-legendaria de Marco

Polo appareceu na figura extranha d’essa China immobilisada, apesar de

rica e sabia, o Cipango transformou-se no archipelago japonez, e as ilhas

do meio-dia asiatico começaram a apparecer disseminadas nos mares como

as pérolas dispersas de um collar que se despedaçasse. Foi essa a obra

gigante dos Portuguezes.

Mas a elles tambem se devia o encontro de um novo posto de observação,

de uma atalaya estimulante perdida no seio do Oceano. Como os Phenicios

em Tyro, como o infante D. Henrique em Sagres, ia Colombo mais adeante

sonhar mundos desconhecidos nos penhascos dos Açores. Era d’alli que via

as caravelas de outros sonhadores como elle, a quem só faltava o genio e

a perseverança, demandar alguma ilha mysteriosa para além do Oceano, ou

os restos d’aquella mysteriosa Atlantida, que fôra um dos vagos sonhos

da antiguidade. O alargamento da terra seguiu a sua ordem logica; os

Phenicios chegavam de Tyro a Carthago, e desvendavam o Mediterraneo,

de Carthago a Cadiz e descobriam o Atlantico, os Portuguezes de Sagres

desvendavam o segredo do Oceano para o sul e chegavam ao Cabo da Boa

Esperança, do Cabo da Boa Esperança quebravam o mysterio do mar oriental,

e aportavam a Calicut e a Goa, e de Goa irradiavam para o sul e para

o oriente as investigações finaes. De Sagres tambem, singrando para

o occidente, iam poisar nos Açores; estava reservado aos Hespanhoes,

guiados por Colombo, a audaciosa investigação que ia dar a America ao

mundo.

O que era necessario, porém, era ligar essas duas grandes emprezas. Por

circumstancias verdadeiramente providenciaes foram os representantes

dos dois povos ligados na mesma empreza, que ataram as fitas soltas das

grandes explorações oceanicas, e esse enlace supremo foi Magalhães que o

começou, foi Elcano que o concluiu.

Assim nas descobertas como em todas as emprezas do espirito humano é a

evolução que se manifesta. Não procede por saltos a natureza, tudo se

liga e se concatena. A missão dos grandes homens está exactamente em

serem os elos d’essa cadeia. As tentativas infructiferas, dispersas,

quasi inconscientes dos Catalães de Jayme Ferrer, dos Normandos de

Bethencourt, dos Genovezes de Vivaldi, e dos pescadores e marinheiros

portuguezes que procuravam arcar com o cabo Não ou devassar o Atlantico

unia-as o infante D. Henrique, dava-lhes o nó que as aproveitava, o

cabo Bojador dobrava-se e os Açores e a Madeira sahiam do seio das

ondas. As tentativas infructuosas tambem dos Açorianos e dos Madeirenses

ligava-as a mão poderosa de Colombo, e dava assim um novo fusil á cadeia

dos descobrimentos e a America apparecia. E por isso os povos quando

encontram na sua historia um d’esses homens insignes, sem renegar os

seus esforços collectivos, nem deixar de lhes reconhecer a importancia,

saudam n’esses grandes vultos uns entes extraordinarios que souberam dar

uma realidade positiva aos seus sonhos e ás suas aspirações, e foram

n’esse tumultuar de pensamentos desconnexos e inconscientes, as radiosas

incarnações da Consciencia da humanidade.

Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo: Tentativa de coordenação historica · 第 20 / 21 题