«Portuguezes! descendentes d'aquellcs heroicos e sublimes martyres que

com tanto sangue implantaram e regaram n'este abençoado torrão a virente

arvore da liberdade, ergamos-nos todos como um só homem!--dizem as

folhas. Ergamo-nos, sem distincção de campo nem de facção, para sacudir

o jugo a que pretende fazer-nos dobrar a cerviz um falso discipulo do

augusto martyr do Golgotha, esquecendo que seu mister é todo de paz e

d'amor, renegando escandalosamente a doutrina amantissima do

Crucificado, calcando a pés os preceitos evangelicos do Redemptor.

Cessem n'este momento solemnissimo todas as divergencias que por ventura

hajam desunido a grande familia liberal! Unamo-nos todos em amplexo

fraternal para quebrarmos as algemas do fanatismo com que anhelam

arroxear-nos os pulsos! Unamo-nos para expulsar do templo sacrosanto de

Jesus o vendilhão infamissimo, para desafrontarmos, alfim, a religião de

nossos paes, a religião de nossas mães, a religião de nossas filhas, a

religião de nossas sobrinhas, de nossas tias, de nossas sogras, de

nossas primas, senhores, e de nossas cunhadas!--a nossa sublime

religião, finalmente, tal como ella é em sua excelsa pureza, que ora

vemos torpemente desvirtuada pelo proprio representante d'aquelle mesmo

Redemptor, cujas cinco chagas são o mais augusto emblema da bandeira da

nação portuguesa!»

* * * * *

Os jornaes d'hoje, os d'hontem e os d'antes de hontem veem cobertos

d'artigos do teor do pequeno extracto concentrado que temos a honra de

offerecer ao leitor como ligeira amostra do genero.

O periodico legitimista a _Nação_ foi o unico que ousou tomar a defesa

do odioso Nuncio, mas o _Diario da Manhã_ d'hoje agarra-se pelas orelhas

á _Nação_ e escaca-a com um d'estes artigos que inutilisam o adversario

por espaço de seis dias, porque é preciso andar a procurar-lhe os

bocados dispersos no raio de uma legoa em redondo para o tornar a pôr em

pé outra vez.

Imaginem que o _Diario da Manhã_, desde que começou a questão até hoje,

se tinha conservado silencioso, a ver correr o marfim. Eis senão quando

a _Nação,_ imprudente, se sae com um artigo insolito a dizer que os

unicos prelados portuguezes verdadeiramente no espirito de Deus são os

tres prelados de Angra, do Funchal e de Gôa.

Nós tínhamos lido o artigo da _Nação_ e confessamos mesmo que no

primeiro repente gostamos d'elle.

Comprehende-se, de resto, a nossa ingenuidade. Como a _Nação_ é

geralmente considerada o periodico que mais entende d'esta coisa de

bispos--especialidade em que somos completamente leigos--desde que ella

affirmou que os unicos bispos bons eram os d'Angra, do Funchal e de Gôa,

nós, na boa fé, appressámo-nos logo a tomar nota do documento, e cá

ficamos com mais essa informação devidamente registrada para algum dia

em que por acaso viessemos a ter precisão de bispos maus para nosso uso.

Mas o _Diario da Manhã_, o qual, pelo que se vê agora, é doutorado

n'esta materia, e conhece tão bem todos os bispos como nós outros

conhecemos os nossos dedos, o _Diario da Manhã_, que, segundo parece,

estava calado e á coca, exactamente á espera de que lhe bolisscm com os

bispos, apenas a _Nação_ disse que os unicos tres bispos com geito eram

os do Funchal, d'Angra e de Gôa, ah! pae do ceu!

Nada menos de cinco columnas na primeira pagina do jornal ocupa a

desanda tremenda applicada á _Nação_ pelo _Diario da Manhã_ d'hoje! E é

preciso lêl-a toda, de principio a fim, essa tunda, para ahi aprendermos

a tristissima verdade de que não póde um homem hoje em dia fiar-se em

ninguem.

Ficamos sabendo agora que os taes tres excelentissimos prelados com que

a _Nação_ nos queria espigar como afiançados, são precisamente os

peiores de todos!

Prelados bons, segundo o _Diario da Manhã_, prelados desenganados,

prelados que se podem dar a contento seja para onde fôr, restituindo-se

o seu importe caso não agradem, são o bispo de Coimbra, o bispo de Evora

e o arcebispo de Bragança.

O bispo de Coimbra, sim scnhores! fallem-me no bispo de Coimbra! isso é

que é fazenda.

Bispo de Bragança, bom bispo tambem: as ovelhas que o levarem irão tão

bem servidas como levando o de Coimbra, ou melhor.

O arcebispo d'Evora egualmente se lhes garante a todos os respeitos: é

gallinha!

Emquanto aos outros tres sujeitinhos recommendados da _Nação_ diz o

_Diario da Manhã_ que elles não são outra coisa senão os _soldados do

exercito das trevas_.

Tomo nota, e cá dou ordem que não estou em casa para nenhum d'esses tres

melros. Rua, que é a sala dos cães!

Para _soldados do exercito das trevas_ bastam-nos os persevejos,

escusa-se de bispos.

Supponham porém que o benemerito _Diario da Manhã_ nos não prevenia e

que eu, por exemplo, ovelha innocente posto que velha e mesmo já um

pouco pellada no lombo--abria o meu seio incauto aos persevejos ... quero

dizer, aos bispos ... da, _Nação_!... Que tal estava a rascada, heim?

E vamos agora nós a outra coisa, que nos está a lembrar.... Vamos nós

agora que o proprio _Diario da Manhã_....--Não queremos melindrar

ninguem, e pedimos ao _Diario da Manhã_ que o não leve a mal pelo amor

de Deus.... Perguntamos apenas uma coisa: o homem é infallivel? Não é.

Infallivel é unicamente o papa, o homem não. _Humanum est errare_...--

Vamos pois, como iamos dizendo, que o mesmo _Diario da Manhã_ não seja

tão forte em escolher os bispos como a Vicencia o é em escolher os

melões. Ha certeza absoluta de que este amavel confrade não possa

incorrer no mesmo erro grosseiro e lastimabilissimo em que cahiu a

_Nação?..._

Decididamente pedimos licença para ampliar um tanto mais as instrucções

que ha pouco demos á nossa cosinheira:

--Gertrudes! não estou em casa para bispo nenhum.

* * * * *

Todos os jornaes, exceptuada apenas a refalsada _Nação,_ pedem ao

governo que sem perda de tempo restitua as suas credenciaes ao nuncio.

O _Seculo_ vae mais longe e acreseenta ser preciso que ao nosso

representante junto ao Vaticano se enviem instrucções terminantes para

impedir que monsenhor Masella receba n'esta occasião o barrete

cardinalicio que lhe está promettido por Sua Santidade.

No _Seculo_, um jornal republicano e livre pensador, é talvez um pouco

estranhavel a pretensão de influir com o seu voto sobre o momento mais

propicio para cardinalisar Masella.

Se se tratasse simplesmente de cardinalisar um camarão--operação a que

se procede cosendo-o--o parecer do _Seculo_ junto da tia Pincha,

encarregada de lhe confeccionar uma salada de mariscos, seria até certo

ponto admissivel e opportuno. Mas quando é o papa Leão XIII e não a

propria tia Pincha que opera, cuida por ventura o _Seculo_ que a coisa é

a mesma, e que lhe basta bater na mesa com a ponteira da bengala para

que a Curia Romana lhe sirva um cardeal ou para que lh'o não sirva?...

Oh! não.

Para intervir na distribuição dos barretes cardinalicios o _Seculo_ tem

exactamente os mesmos direitos que assistem ao papa para influir na

distribuição dos barretes phrygios.

O partido republicano do Brazil impõe ás vezes solemnemente o barrete

symbolico da Republica aos seus membros mais illustres. Ainda ha pouco o

sympathico agitador Lopes Trovão recebeu no Rio de Janeiro, no momento

de partir para a Europa, essa honrosa investidura, sendo-lhe adjudicado

então um bello barrete, de luxo, bordado a ouro de lei, com galões e

borla de canotilho do mesmo vil e precioso metal.

Outro tanto--com algum ferro o dizemos mas sem canotilho algum--não

temos nós que agradecer á obzequiosidade da mocidade avançada e generosa

de Lisboa. O barrete phrygio do nosso uso pessoal, aquelle que nos cobre

a fronte invejosa nos dias em que embarcamos no Tejo para ir ao largo

pescar o pargo ou a abrotida, adquirimol-o na Ribeira Velha por oito

tostões e meio.

De lã e vermelho, do matiz radical denominado _rebenta-boi_, é com esse

barrete carregado á banda sobre um olho, com o monoculo expectante da

critica no outro olho, e com um nicker-bockar nas pernas, que o que

traça estas regras se presa de ter servido a causa, já sobre as aguas do

mar, já em terra firme, nas praias de banhos durante as estações

balnearias, fazendo ranger de despeito higlifico os dentes das

instuições caducas, representadas nas villegiaturas maritimas pela musa

do constitucionalismo D. Guimar Torresão, dama tão illustre em fins do

seculo XIX quanto o foi Rosalia por meiados do seculo XVII, segundo o

affirma o mui culto Doutor Jardim ... de S. Pedro d'Alcantara.

Se o _Seculo_ segue porém as boas praticas do republicanismo brazileiro,

presenteando alguma vez com barretes os personagens mais distinctos do

seu partido, que diria o _Seculo_ se, usando da reciprocidade de um

direito que elle proprio reconhece, Sua Santidade o Papa lhe viesse

dizer em tal conjuntura:

--Alto lá! não dêem isso a Trigueiros de Martel, que estou politico com

esse sujeito por uma partida que elle me fez. Colloquem antes o barrete

sobre a cabeça do martyr Gomes Leal, cabeça de genio e bem assim do

turco, cabeça até hoje inteiramente despremiada, não constando que até

agora tivesse ainda tido outra coisa, além da caspa propria, senão galos

e brechas feitas pelos socos monarchicos do inimigo.

* * * * *

Foi só no momento preciso a que escrevemos esta pagina depois de varios

dias de estudo retroactivo atravez das declamações da imprensa, que

emfim conseguimos--por um acaso--descobrir os elementos do conflicto

entre o governo portuguez e o representante de sua santidade em Lisboa.

Eis o caso:

* * * * *

Sua excellencia o nobre ministro da justiça, usando d'aquella apreciavel

franqueza que tanto agrada entre amigos verdadeiros e sinceros, mostrou

a Sua Eminencia o nuncio a lista dos novos bispos que o governo se

propunha nomear, pedindo ácerca d'elles a opinião do mesmo snr nuncio.

Sua Eminencia, usando por seu turno da mesma franqueza com que tão

benevolamente fora tratado pelo snr ministro, respondeu que achava

pessimos alguns dos bispos propostos.

--Como assim!?--volveu, acidulado e surpreso, o das justiças

humanas.--Como cavalheiro que me preso de ser, eu dirijo-me

amistosamente a Vossa Eminencia pedindo-lhe a sua opinião franca,

desassombrada e sincera, e Vossa Eminencia, em vez de me dar a opinião

que eu tão bisarramente lhe peço, dá-me pelo contrario a opinião

precisamente opposta á que eu tenho!?...

--Perdão...---interrompe o ecclesiastico--eu pensei que, desde que v.

ex.ª me consultava....

-Nada de sophismas, eminentissimo senhor!... Não me force Vossa

Eminencia a ser um pouco mais acre e a ter de accrescentar: nada de

cavilações! Não queira Vossa Eminencia levar-me ao desgosto acerbo de

ter de recordar-lhe, que Vossa Eminencia se acha, mercê de Deus, no

gremio de um paiz livre e constitucional, onde o governo se não exerce

por sophisticações capciosas, antes versa sobre formas parlamentares

baseadas nas ficções mais engenhosas e mais lucidas. Uma d'essas ficções

fundamentaes do systema que felizmente nos rege consiste no principio

sagrado da discussão, da consulta e do voto. Para bem se comprehender

toda a belleza d'este profundo principio cumpre observar--e para isto

chamo particularmente a attenção de Vossa Eminencia--que, toda a vez que

um estadista, chamado aos conselhos da corôa pela augusta confiança do

principe, pede ácerca dos seus actos a opinião de qualquer dos poderes

do Estado, a obrigação d'esses poderes, quaesquer que elles sejam,

_quaesguer que elles sejam_--repito-o--é abundarem approvativamente e

jubilosamente no sabio parecer do ministro preopinante. Assim o exigem

as sabias praxes de longo tempo estabelecidas e firmadas no feliz e

liberrimo governo da nação portugueza.

--Mas então,--obtemperou o sacerdote romano--o systema governativo, de

cujo elencho V. Ex.ª é tenor applaudido, vem a ser realmente a farça

mais divertida _(la piu piacevole)_ que se conhece! O pundonoroso luso

da pasta da justiça, apenas o roupeta lhe fallou em farça, meu amiguinho

e snr, agora, o vereis!

_--Farça!_ bradou s.ex.ª com o gesto nobre mais recommendado pela

rhetorica para os grandes lances da indignação suprema. _--Farça!_ O

forasteiro ousa chamar _farça_ ao sublime governo constitucional,

monarchico-representativo da patria do fallecido marquez de Pombal! do

chorado Santos e Silva! e do arrojado tribuno José Estevão Coelho de

Magalhães, cognominado por antonomasia o _Deus da Palavra_!!... Cuidará

então o snr, por acaso, que seja uma coisa séria a curia! mais o

pontificado! mais a infallibílidade do papa! mais as indulgencias para

ir para o ceu a trez vintens por cabeça! mais a bulla para misturar

carne com peixe a pataco por familia! mais as dispensas, a tanto por

incesto e a tanto por divorcio, para se casarem ou descasarem primos

carnaes com primos carnaes, genros com sogros e bisnetos com bisavós!...

Cuida o snr que ainda alguem toma a serio n'este mundo uma chirinola

d'essas?! Uma das coisas com que os snrs nos andam sempre a massar é a

sua famosa _vinha do senhor:--Vimos da vinha do senhor! Vamos para a

vinha do senhor! Trabalhamos na vinha do senhor!_ Suppoem os snrs

porventura que ainda ha no orbe taberneiro, baiuqueiro, tasqueiro, ou

bodegueiro convencido de que o senhor tem vinhas?! Os snrs intitulam-se

a si mesmos _sal da terra_; ora vamos a saber uma coisa: os snrs estão

efectivamente persuadidos de que são sal?... Vive o snr, por exemplo, na

convicção profunda e inabalavel de que é medido ás razas pelos almotacés

sempre que passa ás portas, e que paga 10 réis de direitos em alqueire

sempre que penetra nas zonas fiscaes das deoceses em que circula? Tem o

snr, na sua qualidade de sal, a intima certeza de que lhe baste

abraçar-se de arripio a uma pescada fresca para que essa pescada fique

pronta para se deitar á panella com cebola e batatas?! No dito estado de

sal, nutre o snr a austera e firme convicção profissional de que lhe

assiste o poder de resequir as hervas e de revivificar os espiritos?...

Está o snr bem certo de que não tenha senão a sentar-se no bucho verde

para que elle ganhe caruncho, ou a pôr a benta mão sobre os sermões de

Garcia Diniz ou sobre os artigos da _Nação_ para que essas producções

literarias cessem para logo de ser a mais ensosa e a mais dissaborida

coisa que Deus permitte a fazer aos seus ministros em toda a vastidão

da crusta terrachea?!... E, então, com tudo isto, os snrs é que são os

sérios, e nós é que havemos de ser os farçantes, heim?

Emquanto o ministro, arrebatado e fluente, proseguia no seu discurso,

que não hesitamos um só momento em qualificar de sacrilego e de

perverso, o pastor da Egreja, o procurador de Pedro, havia chamado a si

o baculo que deixara atraz da porta do gabinete de s.ex.ª, e

experimentava-lhe a elasticidade da fibra, apoiando-se-lhe á cacheira e

drobando-o e redobrando-o de ferrão fixado ao solo.

* * * * *

Até ahi chegam as nossas conjecturas formuladas sobre as informações

dispersas que podemos recolher ácerca d'este memoravel incidente. D'esse

ponto por deante ignoramos como é que os factos precisamente se

passaram. Lemos porem no _Diario de Portugal_ uma phrase reveladôra, que

se nos figura perfeitamente clara e definitiva. Diz aquella auctorisada

folha:

_O nuncio desacatou sua excellencia_.

Os boatos das secretarias esclarecem ainmais essa affirmativa de um dos

periodicos ministeriaes.

_Sua excelencia_--segredam as vozes familiares da burocracia--_apanhou

um calor_.

* * * * *

Dilucidada assim a secreta verdade dos factos, entendemos que o snr

nuncio andou admiravelmente bem. E não podemos de modo algum attingir as

causas do geral descontentamento que invadiu os periodicos liberaes por

occasião d'este jubiloso successo.

* * * * *

E' indespensavel que de uma vez e para todo o sempre a gente acabe de se

compenetrar bem de uma coisa. E vem a ser: Que os governos não entendem,

nem podem entender nada, pela palavra, acerca de bispos.

Os bispos--dizem-o todos os textos canonicos--são os pastores das almas,

incumbidos pelo Espirito Santo de governar a Egreja de Deus. E' n'elles

que reside a plenitude do sacerdocio, a posse inteira dos poderes

confiados por Jesus Christo aos apostolos. Elles não podem ser

considerados senão como puros e legitimos delegados do chefe supremo da

Egreja, por elle encarregados de manter a continuidade do sagrado

ministerio, de presidir, de governar e de julgar em seu nome e em nome

de Deus, de quem o papa é o representante visivel na terra.

Ora, se são effectivmnente as ideias, os sentimentos, as aspirações, os

interesses do Summo Pontifice e não os do snr Julio de Vilhena que os

bispos teem de representar, de deffender e de servir, como é que querem,

de boa fé e francamente, que seja o snr Julio de Vilhena e que não seja

o papa quem escolha os individuos encarregados de similhante missão?

* * * * *

Que os bispos saiam melhores ou saiam peiores, escolhidos pelo nuncio de

Sua Santidade ou escolhidos pelo ministro de sua magestade fidelissima,

que é que teem com isso os jornalistas republicanos e livres

pensadores?...

Pergunta-se uma coisa a estes jornalistas:

Foi para intervir nos mais perfeitos methodos de fazer padres, de dar

ordens, ou, de ministrar sacramentos, que suas excelencias se fizeram

livres pensadores? Mas escusavam então de se incommodar para isso,

prejudicando-se consideravelmente nos meios de acção, de que para tal

fim disporiam continuando a ser mesarios da freguesia das Chagas ou

irmãos do Senhor dos Passos da parochia das Mercês!

Teem, por ventura, estes philosophos democratas e materialistas

pretenções secretas pendentes do governo das deoceses do reino?

Vejamos, sinceramente:

Os snrs querem chrismar-se? querem tomar prima-tonsura ou subdiacono?

querem parochiar? querem dizer missas? querem cantar responsos? querem

confessar mulheres?...

Se querem, digam-o! Desce-se um veu sobre a questão e não se torna mais

a fallar n'isso.

Se, pelo contrario, os snrs não pretendem coisa nenhuma dos bispados,

que diabo então lhes importam, aos snrs, os bispos?

Parece-nos ouvir uma voz replicar-nos, dizendo:

--Mas ha um facto extra-ecclesiastico e extra-religioso que obriga os

republicanos livres pensadores a tomarem interesse e fogo na questão dos

bispados, e esse facto vem a ser que é o governo da nação quem paga os

bispos.

Muito bem, voz! muitissimo bem! Quem paga os bispos é com effeito o

governo. E é por essa razão que nós applaudimos com enthusiasmo o snr

Nuncio, ao termos a grata noticia de que sua eminencia, _desacatou_ o

governo:--para ver se o governo aprende a não ser tolo!

* * * * *

A corveta _Stephania_ acaba de dar da sua incapacidade como instrumento

beligerante o testemunho mais eloquente, mais triste e mais solemne.

Mandada á ilha da Madeira para o fim de resolver em favor do governo o

empate de uma eleição de deputado, a dita corveta de tal modo manobrou

que a eleição de desempate recahiu em massa sobre o candidato

republicano de opposição ao governo.

Considerada pelos poderes publicos como incapaz do real serviço, consta

que este vaso de guerra vae ser aposentado e recolhido debaixo do leito

do Arsenal na qualidade de vaso de paz.

Para substituir a _Stephania_ nas campanhas navaes das futuras eleições

pensa-se em mastrear em corveta o compadre Tavares. Para esse fim

estão-se já colligindo nas estações competentes os mexilhões precisos

para guarnecer a quilha d'este distincto cavalheiro.

Parabens a sua excellencia!

* * * * *

Agora invocamos a protecção dos anjos para que, com sua assistencia,

passemos a narrar em resumido discurso e em florida linguagem, propria

da alteza do assumpto, como foi que o milagre se deu no povo do

Carnaxide.

Era por uma formosa tarde do cálido mez de agosto. O astro do dia se

inclinava ao occaso, onde o oceano parecia attrahil-o com as argentadas

presas de suas ondas. Sobre a verde alfombra alvos cordeiros, conduzidos

pelos zagaes, pasciam as tenras hervas, ao passo que no umbroso bosque o

bando alado entoava os louvores do Eterno em doces e bem concertados

gorgeios.

Debaixo de uma virente faia se achavam alguns camponezes dando alento ao

fatigado corpo e discreteando em ameno convivio ácerca de seus bucolicos

lavores e bem assim da vida e prendas de Santa Rosa de Lima por ser esse

o milagroso dia de tão prodigiosa santa.

Eis senão quando, volvendo os olhos, como que tocados por um

presentimento divino, para o lado em que se acha a egreja parochial de

Carnaxide, viram os ditos camponezes apropinquar-se um vulto em tudo

magestoso acima do narravel.

Com a mão direita se apoiava esse vulto a um bordão de peregrino, em

quanto que com a mão esquerda ora comprimia a fronte pensativa coroada

de um pastoril chapeu de palha, ora fazia um gesto cortez para o

horisonte como que convidando o mesmo vulto a proseguir na senda da

vida em direcção á faia virente.

Conjecturaram os camponezes que fosse S. Basilio Magno, S. Pedro Nolasco

ou S. Praxedes, e logo viram que não era Santo Antão--por não ter porco

ao lado.

Junto da faia, aquelle que os camponezes haviam tomado de longe por

Praxedes, collocou a mão sobre o coração e arremetendo com a fronte para

as nuvens, exclamou:

Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

Era s.ex.ª o snr Thomaz Ribeiro, ministro da poesia lyrica e dos

negocios do reino.

Ao reconhecel-o, os camponezes cahiram em giolhos.

--Guarde-vos Deus, bons rusticos!--disse s.ex.ª acommodando o stylo á

rude e acanhada comprehensão do auditorio--E que a senhora Santa Rosa de

Lima, que é hoje seu dia, vos tenha de sua bemdita mão!

E em seguida, descriminando a um par um os individuos no grupo

campesino a que nos referimos, s.ex.ª proseguiu continuando a

exprimir-se em prosa:

--Que fizestes do vosso cordeiro favorito, ó Tityro?--Trazeis comvosco a

vossa avena, Melibeu?--Onde a vossa pastora Anarda, amigo Silvano?

Todos os camponeses se acercaram então de s.ex.ª, ficando suspensos da

facundia de seu labio, pois nunca jamais, nem na freguesia de Carnaxide

nem em duas legoas em redondo, se ouvira tanta gentilesa e amenidade de

lingoagem como a que sahia em jorras da bôcca d'esse portentoso homem de

penna e de governação.

Felizes e volozes devolviam as horas em pratica tão discreta quão

matizada de piericos primores, quando s.ex.ª, alongando a dextra n'um

brando meneio para o pendôr da collina, perguntou:

--Que vetustas ruinas são aquellas que alem descortino alvejando na

quebrada da serra?

E, como houvesse em resposta que essas ruinas eram a antiga egreja de

Nossa Senhora Apparecida,

--Corramos prestes ao templo!--bradou s.ex.ª--Dirijamo-nos pressurosos a

elevar nossas preces e a depor nossas modestas offerendas no altar

d'essa Virgem Senhora Nossa que tão galhardamente denominaes

_Apparecida!_ Vinde, Silvano! Vinde Melibeu! Tityro, Aleixo, Frondelio,

Belmiro e Castalio! Vinde todos, ó pastores! Eia!... Ao templo! ao

templo!...

Os pastores, então, plangentes e lacrimosos, explicaram voz em grita que

Nossa Senhora Apparecida de longo tempo desapparecera. Mão impia de

infames governos despoticos a arrebatara do seu templo de Carnaxide para

a transportar para a Sé no meio da indignação geral dos povos e das

patronas minazes da real melicia. De sorte que, já no tempo em que o

feroz usurpador do throno de Lysia se apegára com a Senhora Apparecida

para sarar da perna que quebrou ao ir a quatro sollas de Queluz para

Cacilhas, no logar do Moinho de Cavallinhos, cantavam os cegos na via

publica:

D. Miguel foi á Sé,

Sentou-se n'uma cadeira,

E disso para os malhados:

Esta perna está inteira!

Ao ouvir taes vozes, já soltas, já metreficadas, s.ex.ª extrahiu a lyra

que trazia ao tiracollo em um saco, juntamente com a pasta da publica

governação, e sobre o mavioso instrumento jurou que antes que a casta

Phebe voltasse por seis vezes a sorrir do ceu ao terno Endymion, ou--por

outra--que dentro, de seis mezes contados, a milagreira imagem de Nossa

Senhora Apparecida volveria da Sé a Carnaxide, reapparecendo pela

segunda vez aos povos em todo o esplendor do seu excelso vulto.

Vendo os camponezes que por meio de um tão manifesto e prodigioso

milagre assim lhes era restituida sua Senhora, outra vez cahiram

submissos em giolhos.

E foi só depois de s.ex.ª se haver retirado pela mesma vereda por onde

viera; foi depois de lhe terem ouvido ao longe e pela derradeira vez

repetir aos montes e ás hervinhas:

Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena!

que os camponezes, reunidos em honesto convivio sob a faia, regressaram

a suas pousadas, tangendo alegres tibias e entoando lôas festivaes em

honra d'aquelle que tão grande capricho punha em lhes restituir a

Senhora Apparecida quão grande era a pena que alimentava em seus carmes

de nunca ter visto Lisboa.

Gloria pois a s.ex.ª!

* * * * *

Outrora o portuguez de volta do Brazil, com fortuna, com papagaios e com

pedras no peito da camisa e na bexiga, comprava invariavelmente, ao

desembarcar, um acommenda, dois cães de faiança e um bilhete da imperial

na malaposta de Braga. Depois do que, passava a usofruir n'uma quinta

minhota o producto do seu trabalho d'emigrante, representado em

molestias sedentarias, em graças regias e em quadrupedes de louça.

A patria explorava-o e ria-se d'elle.

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-11/12) · 第 3 / 4 段