--Depois da camelice tremenda que fez, desviando dos interesses

agricolas das nossas regiões vinhateiras a quantia de réis 1:600$000,

para os entregar á nefanda tavolagem, que mais pode appetecer o meu bom

e desregrado amigo do que uma d'essas monumentaes sovas, com que os

rispidos anciãos, de ouvidos cerrados á misericordia pelo mau genio e

pelo muito cabello, costumam assignalar para o respeito dos vindouros os

diversos membros da sua prole? Qual coisa mais saudavelmente efficaz

para o restabelecimento normal do seu equilibrio nervoso, no momento

presente, do que a applicação lombar da bengala de um antepassado, ou a

justaposição da abençoada sola e vira de uns bons sapatos paternos ás

partes carnudas do seu organismo apostemado pelo estupido remorso da

mais colossal e irremediavel asneira?! Aqui estou eu, que matei esta

noite o rei.....Não sei se o snr m'o viu matar?... Matei-o como quem

mata um pôrco.....Craque! Pois bem; sabe por quanto me ficou esse

regicidio? Ficou-me por 176$000 réis. A recordação amarga d'este

luctuoso successo converte todo o meu ser n'uma insondavel cloaca de

semsaboria, e só uma felicidade invejo: a que se antolha ao meu amigo na

doce perspectiva de poder encontrar quem lhe ponha os ossos n'um feixe.

--Pois olhe--exclamou o Chico arregalando para mim os olhos illuminados

de um repentino jubilo--dou-lhe a minha palavra d'honra que tambem a

modo que me está a appetecer isso, a mim!

E trocadas entre nós estas profundas e memoraveis palavras,

remergulhamos em intimas e silenciosas cogitações, eu e o Chico.

Ao longe o duro bronze, a que os espiritos despreoccupados e felizes dão

vulgarmente o nome galhofeiro de sino, tangia seis horas. Damas

encapuchadas em rendas de lã desciam de suas mansões á praia para se

entregarem aos exercicios balnearios, emquanto outras, mais madrugadoras

ainda, volviam da praia a suas mansões, com narizes arrebitados e

vermelhos, avidas de pão quente com manteiga e de café com leite.

Duas horas depois o meu amigo partia para a Regoa, onde seu extremoso

pae, prevenido pelo telegrapho, o esperava, no alto dos Padrões da

Teixeira, de braços abertos e um marmeleiro em cada braço. Eu voltava

taciturno a refazer com tardigrados e arrastados folhetins a somma que o

vil e mercenario ensinho do Pêra Tisica n'essa noite desviára de seu

natural destino para fins que a meus olhos tinham de ficar para todo o

sempre velados pelo mysterio.

* * * * *

Tal é, em sua natureza e em seus effeitos, a simples coisa chamada

batota!

Temos visto do jogo muitas e mui variadas definições. A unica, porém,

que inteiramente nos satisfaz é a seguinte: O jogo é uma asneira.

Reduzida assim a questão aos seus verdadeiros termos, não podemos deixar

de perguntar ao governo com que direito elle intervem para o fim de

castigar as asneiras em que cada um incorre? Procurar evital-as ainda se

lhe poderia permitir, mas punil-as!? Se tivessem de ser presos todos

aqueles que fazem asneiras, o proprio governo seria uma coisa

impossivel, porque ha muito não haveria ministro nenhum que andasse

solto.

E, por cima de tudo, procuram ainda impingir-nos a explicação sophistica

de que é para o fim de salvar o povo da ruina que a policia maternal

assalta e sequéstra as batotas!

Ora sempre quero que me digam, no caso pessoal que acima narrei, se eu

teria perdido menos do que perdi, dado o facto accidental de terem ido

para o rei de Portugal os 176$000 réis que eu dei para o rei de copas? E

outrosim quereria saber, no caso que o rei de copas, por meio da sua

policia, fizesse ao principe reinante a bonita partida que o principe

lhe faz abotoando-se com o que elle ganha, se sua magestade gostaria da

chalaça!

* * * * *

Noticiam de Braga que n'aquella cidade apparecerão brevemente dois novos

jornaes, um delles intitulado _Supplicantibus_, e intitulado o outro

_Frei Bandalho_.

Os dois appetitosos titulos d'esses periodicos bastam para caracterisar

bem, em duas unicas pennadas, a elevação intellectual que, não só em

Braga como em todo o reino, está presidindo n'este momento á

vulgarisação da litteratura jornalistica.

Guimarães, Barcellos e Vianna não quererão por certo deixar-se

ultrapassar pelos desenvolvimentos literarios do espirito bracarense, e

cremos mesmo não ser indiscretos revelando desde já que, estimulados

pela mais nobre emulação, os grandes centros intellectuaes do Minho

preparam, para concorrer vantajosamente com os novos periodicos

braguezes, a apparição proxima d'outros jornaes intitulados o _Reles_, o

_Bisborria_ e o _Pulha_.

A unica coisa que nos inquieta no meio desta opulentissima exuberancia

intellectual é o secreto receio de que, não obstante, os incansaveis

esforços empregados para esse fim pelos sabios estadistas gerentes da

educação nacional, venham por ventura a escacear um dia, para fazer face

com suas auctorisadas pennas a um tão vasto labor mental, os escriptores

borra-botas, os troca-tintas e os manécôcos indispensaveis para o caso.

* * * * *

S.ex.ª o snr Luiz Jardim, professor de direito na Universidade de

Coimbra e genro do capitalista Lopes dos Anjos, acaba de dar o nome de

_Rosalia_ a uma creança de quem foi padrinho.

Um jornal, interprete dos altos sentimentos do snr Luiz Jardim, diz que

s.ex.ª escolhera este nome «por elle ser o de uma illustre dama

portugueza que floresceu em meiados do seculo XVII.»

Inclinemo-nos com reverencia!

Elle poz-lhe o nome de Rosalia....

Tornemos a inclinar-nos!

E poz-lh'o, porque esse foi o nome de uma illustre dama portugueza dos

meiados do decimo setimo seculo.....

Prostremo-nos por terra!

* * * * *

D. Guiomar Torrezão, do _Diario Illustrado,_ dedilhando com mão d'anneis

n'aquella folha o cavaquinho da critica amena, diz-nos o seguinte:

«Já alguma vez experimentaram a impressão que se sente entrando-se em um

boudoir, em uma especie de _bonbonniere_ capitonada de setim azul,

impregnada de ixoria, mergulhado em uma meia luz mysteriosa, peneirada

por umas cortinas de renda suissa, com arabescos de flores caprichosas e

aves raras, de plumagens ondeantes, e ouvindo-se ahi, com as palpebras

semi-cerradas e a cabeça enterrada em uma almofada de setim macio e

luminoso, um nocturno de Chopin, que vem de longe em longe, evolando-se

das teclas de um piano ou das cordas gementes de um violoncello,

pousar-nos no ouvido um longo beijo feito de melancolias, vagamente

sonhadoras e de harmonias verdadeiramente divinas?...

«E' esta mesma impressão que se experimenta lendo-se os poemetos do

conde de Sabugosa.»

É talvez ligeiramente complicado, como mobilia, o processo critico de

D. Guiomar. Uma vez, porem, que elle dá a impressão perfeita da obra de

um tão sympatico poeta como o conde de Sabugosa, parece-nos que vale a

pena de experimentar....

De resto consta-nos que o armador Alcobia se encarrega do fornecer por

preço modico todos os trastes precisos para a comprehensão das

differentes obras poeticas, havendo peneiras de renda suissa para todos

os preços, já em flores caprichosas, já em plumagens ondulantes, a todos

os gostos d'horta ou de capoeira.

O mesmo Alcobia se incumbe egualmente de inculcar pianista idoneo para

massacrar ao longe os nucturnos de Chopin emquanto o freguez estiver com

a cabeça enterrada na almofada de setim phosphorecente.

Se, ainda depois de enterrado na almofada, e collocado o pianista ao

longe, o paciente se queixar de não desfructar sufficientemente a

musica, Alcobia, sem por isso exigir augmento de remuneração, facultará

duas buxas de algodão em rama para se lhe introduzirem nas orelhas.

Folgamos de veras ao ver assim tão harmonicamente alliadas em proveito

da poesia lyrica as duas importantes industrias de fazer critica nos

jornaes e de pôr cortinados da Suissa nas casas.

* * * * *

Entre os mimosos e ricos brindes offerecidos a Leopoldo de Carvalho na

noite da sua festa artistica no theatro do Gymnasio, lêmos no _Diario de

Noticias_ que sobresahiam em primeira linha dois formosissimos quadros

devidos á pericia de uma joven menina da nossa melhor sociedade e feitos

de escamas de corvina.

Tambem folgamos muito com isto.

Em todas as exposições de quadros celebradas nos principaes centros

artisticos do mundo durante este derradeiro quarteirão do seculo, se

notava com lastima geral que o simples oleo, a tinta de aguarella, o

lapis e o esfuminho, eram elementos insufficientissimos para com elles

se constituir o quadro a toda a altura das enormes exigencias da

esthetica contemporanea. A joven admiradora de Leopoldo, lançando mão

genial das escamas da corvina e arrojando-as valorosamente á tela, vem

prehencher uma lacuna immensa nos recursos até hoje tão estreitos das

artes do desenho.

Gloria eterna a tão benefica e prestante menina, honra da patria e do

peixe fresco, alegria de seus carinhosos paes, e satisfação completa de

suas boas mestras!

Nada mais lisongeiro para um luso, em face dos tremendos esforços de

processo empregados pelos artistas modernos em lucta com a invencivel

perfeição, do que ver essa joven compatriota, inspirada do alto,

apartar-se repentinamente da grande legião dos atormentados, empunhar a

faca de amanhar o peixe, cahir sobre a corvina, empolgal-a pelo rabo, e

escamar em seguida duas obras primas sobre os laureis do festejado actor

Leopoldo!

Só nos resta agora, para inteira consagração d'este grande facto

artistico, que D. Guiomar, empunhando mais uma vez o luminoso facho da

critica, nos queira dizer de que côr é que devemos capitonar as casas e

que peça de musica temos de mandar tanger por Macario, para o fim de bem

nos compenetrarmos das impressões que são chamados a produzir nas

organisações accessiveis á comprehensão do bello os novos effeitos

estheticos introduzidos no sublime pelas escamas dos peixes.

* * * * *

Antes d'hontem, 3, nova rusga ás casas de jogo. Em uma batota

assaltada, cincoenta jogadores presos, e cincoenta mil réis

aprehendidos.

O _Correio da Noite_ refere sobre este assumpto que na batota alludida

se não jogava depois de algum tempo a esta parte com receio de uma

visita policial. A policia porem, com a mais louvavel lisura, fez correr

no bairro o boato semi-official de que não havia mais rusgas ás batotas.

Os jogadores então, julgando-se ao abrigo carinhoso e paternal da lei,

reuniram-se outra vez, a policia vigilante cahiu-lhes em cima, e

batoteou-se a si mesma, em nome de el-rei, com todo o dinheiro que

empalmou do bolo.

A opinião mostra-se satisfeita com este exemplar procedimento da

policia, que anima sagazmente os mal intencionados á pratica do crime

para o fim politico de pechinchar com os resultados pecuniarios d'elle.

E os jornaes continuam a chamar _uma rusga_ a cada uma d'estas

diligencias destinadas a reprimir o vicio funesto da tavolagem.

Se os jornaes conhecessem melhor a technologia dos jogos de parar, não

chamariam a estes lances _uma rusga_; chamar-lhe-hiam--mais

propriamente--uma _vacca_.

* * * * *

Os jogadores até hoje presos teem sido todos condemnados;--coisa que

naturalmente produz nas massas um saudavel terror, levando-as ou a não

mais jogarem senão nas batotas officiaes, como a Bolsa, a Loteria e as

Eleições, ou a jogarem mais reconditamente.

Para não desmamarem os povos, violentamente de mais, da saborosa pratica

dos crimes a que elles, coitadinhos, estão habituados, os tribunaes,

implacaveis com o jogo, mostram-se benignamente contemporisadores com

outros erros menos funestos á moral e ao proximo do que o manejo dos

baralhos.

Ha dias, por exemplo, foi carinhosamente absolvido um cavalheiro que

tinha arrancado um olho da cara a uma mulher.

O juri tomou em consideração as circumstancias attenuantes que revestiam

esse pretendido crime, ou, para que melhor o digamos, _innocente

gracejo_.

O juri attendeu principalmente a este facto, que não póde deixar de

inspirar a mais profunda piedade a todos os corações ternos:--aquelle a

quem por um momento pedimos venia para chamar _reu,_ se assim nos é

licito exprimir-nos, amava aquella a quem tirou o olho.

O movel do crime,--digo--o movel da pilheria, de que o innocente é

accusado, foi o amor que lhe inundava o peito.

Ai d'aquelle que nunca amou! esse é um bruto, que jamais deverá ser

chamado a resolver questões d'olhos.

Os que uma vez amaram esses comprehenderão bem todos os thesouros de

ternura que trasbordaram da alma do anjo supracitado, ao praticar o acto

que o levou, incomprehendido, á barra dos tribunaes humanos.

O cherubins do empireo! sacudi sobre o nosso tinteiro as asas candidas e

luminosas, para que com uma das vossas pennas possamos pintar a scena

que entre esses dois amantes se passou!

O cavalheiro principiou naturalmente por pedir á sua doce amada que ella

mesma lhe desse o ôlho, em prenda, ou em troca talvez, por um de vidro.

Ella responderia primeiro por uma timida recusa, entre reprehensiva e

ironica:

--Ora, para que queres tu o ôlho?... Importas-te tu bem com o meu ôlho!

se me amasses, sim, comprehendo que quizesses um ôlho meu, o ôlho da tua

Bébé, para o pôres n'um medalhão. Mas oh! tu não me amas....

--Ah! eu não te amo? Eu é que te não amo?! Eu é que te não quero um ôlho

para um berloque?!... Ora espera, que já te mostro se te adoro ou não!

E, em seguida, por um d'esses actos de paixão profunda que muitas vezes

transformam o homem n'um deus, o cavalheiro abriria um canivete e,

delicadamente, apoderar-se-hia do ôlho da creatura.

Oh! amor!... amor!

Um jornal pareceu não saborear competentemente toda a doçura d'este

breve e delicioso idyllio, opinando que deveria ser condenmado á cadeia

um malandro tão garantidamente bestial como mostrava ser para o dito

jornal o serafim a que nos reportamos.

Um dos membros do juri dirigiu á folha alludida uma bella carta

patenteando as altas razões juridicas que os levaram, elle e os seus

collegas, a absolver o colleccionador d'olhos, cujo amor se debatia em

juizo.

Diz o jurado:

_Se o reu houvesse sido condemnado, teria isso por ventura restituido o

ôlho á queixosa?_

Nós já acima nos prostramos no chão junto ás plantas eruditas com que o

Dr. Luiz Jardim palmilha as veredas historicas percorridas no seculo

XVII pelas damas illustres.

Outra vez nos vemos agora forçados a estender-nos ao comprido. Sempre

que personagens d'este quilate apparecem ao critico, a restricta

obrigação d'este é por-se de rôjos.

* * * * *

Na sessão inaugural do novo centro legitimista, ultimamente fundado na

cidade de Braga, o mui ardente ecclesiastico snr Senna Freitas,

terminando um enthusiastico discurso, tirou do seio uma bandeira branca,

e n'um rapto de eloquencia obrigou todos os assistentes a jurarem sobre

essa bandeira fidelidade eterna ao legitimo rei snr D. Miguel de

Bragança Junior.

Referindo este facto o _Diario de Noticias_ accresccnta, reprehensivo e

severo, que «não se devem fazer comedias partidarias com a independencia

da patria.»

Julgamos do nosso dever pacificar o justo melindre patriotico do _Diario

de Noticias_, affirmando-lhe que depois de haver desfraldado do seio a

bandeira branca sobre que se fez a jura, Senna--como consta por pessoas

fidedignas--se assoou commovido a essa mesma bandeira. Pelo que se veio

a descobrir que ella era unicamente um lenço.

Pela parte que nos toca não podemos deixar de applaudir absolutamente a

attitude firme e energica que o reverendo Senna assumiu no gremio do

venerando partido legitimista, levando pela persuasão oratoria os seus

correligionarios politicos a acceitarem como symbolo sacrosanto das suas

crenças o moderno lenço d'assoar, em vez de continuarem a seguir

servilmente as tradições partidarias da velha côrte toireira e

cavalhariçal de Queluz; onde, entre os amigos intimos do snr D. Miguel

I, taes como o picador João Sedvem e o caceteiro José da Policia, exigia

o uso que nem os juramentos nem os defluxos se depozessem jamais sobre

outro qualquer symbolo que não fosse unicamente a mão de cada um.

* * * * *

Na casa Cordeiro, ao Chiado, leilão de louças, de antiguidades e do

moveis artisticos.

Tentámos adquirir n'essa venda um espelho com moldura de faiança

portugueza e dois bules francezes, stylo da China, em ramagens azues

sobre fundo branco. Estes dois lotes foram-nos arrebatados por um

licitante mais forte, o qual soubemos, mais larde ser um agente de sua

magestade a rainha, encarregado de comprar por conta d'aquella augusta

senhora.

O negro despeito pela privação dos referidos objectos obriga-nos ao

desafogo de alguns commentarios.

* * * * *

A tendencia geral para o bric-à-brac é o grande escolho dos progressos

de algumas das artes industriaes n'este seculo. O gosto das mobilias

antigas acabou, assim se póde dizer, com a moderna marcenaria artistica.

Em Lisboa, por exemplo, todos os entalhadores de talento se fizeram

restauradores, atamancadores, renovadores de trastes antigos. Ninguém se

dá já ao trabalho de inventar o mais elegante leito, o mais decorativo

armario, o mais gracioso sofá. Contentamo-nos, como suprema realisação

das nossas aspirações no conforto e na graça da habitação, em metter a

roupa branca nas mesmas gavetas em que os antepassados dos outros

guardavam os seus calções curtos de veludo de Utrecht, e de fazermos

sentar as nossas mulheres nos mesmos canapés em que se entufaram outrora

as cabaias e os guarda-infantes das damas contemporoneas do snr rei D.

João v.

Pelos vestigios que na arte da mobilia deixa da originalidade do seu

gosto, o seculo XIX figurará na historia como o seculo--dos

ferros-velhos.

* * * * *

É aos reis que compete attenuar este desdouro, imprimindo nas formas

artisticas do seu tempo o cunho esthetico do seu reinado. É isso de

resto o que sempre se vê na historia do movel. A cada uma das

modificações caracteristicas por que successivamente vae passando a

linha e a côr na alfaia dos tempos modernos corresponde invariavelmente

o nome de um soberano, desde Luiz XIII até Napoleão I, o qual, apesar de

não ter passado nunca em questões de gosto da sua primeira patente de

cabo de esquadra, conseguiu ainda assim dar ao mobiliario da sua epocha

o typo da mesma emphase cezarea que o imperial _parvenu_ aprendera na

convivencia e nas lições do comediante Talma, encarregado de lhe ensinar

a traçar a purpura, e do rhetorico Champagny incumbido de lhe fazer os

rascunhos dos «improvisos» para as proclamações de guerra.

Os trez grandes decoradores Boule, Gouthière e Riesner, cujas obras

obtiveram recentemente no leilão do duque de Hamilton os mais fabulosos

preços que podem attingir as materias preciosas, eram os fornecedores

dos Bourbons, e foi para as residencias reaes de França que elles

fabricaram as suas mais delicadas e primorosas obras.

O celebre Boule tinha, como se sabe, as suas officinas estabelecidas no

proprio palacio do Louvre, onde estava alojado na categoria de

fornecedor privilegiado de Luiz XIV.

Riesner era, ainda em 1791, um dos fornecedores de Marie Antoinette.

Os nomes d'esses principes, refractarios por outros titulos á

consideração e á estima do mundo moderno, viverão por muito tempo

immortalisados nas collecções democraticas das artes decorativas,

alliados á memoria da doce e benefica influencia que exerceram sobre os

progressos do gosto artistico, que são ao mesmo tempo os progressos da

elevação do espirito e da dignidade domestica do homem civilisado.

* * * * *

Sua magestade a rainha senhora D. Maria Pia, comprando os seus moveis

nos leilões dos seus subditos, em vez de os mandar fazer pelos artistas

mais talentosos do seu reino, não se nos figura que esteja no caminho

mais directo para que o seu augusto nome chegue a ter um logar

proeminente nos futuros annaes do bom gosto. E nada nos punge mais

melancolicamente do que a perspectiva do futuro vacuo em torno da

influencia esthetica d'esta princeza de uma elegancia tão distincta

quanto talvez ephemera.

Ficando-nos os nossos dois lotes n'esse leilão e arrebatando-os pela

quantia de mais tres tostões e meio com que cobriu o nosso ultimo lance,

sua magestade a rainha vibrou, com fina mão ganhosa, o derradeiro golpe,

definitivo e mortal, no estremecido prestigio com que a artistica

sumptuosidade suprema dos antigos principes se impunha ainda hoje á

fascinação dos miseros burgueses enriquecidos.

Que os adelos se barbeassem deante das elegantes _psychés_ das Maintenon

e das Pompadour, e que almoçassem nas taças _pâte tendre_, das Dubarry

ou das Marie Antoinette, coisa era já bem desconsoladora, bem triste e

bem dissolvente!

Mas, depois do ultimo leilão, em que nós fomos batidos por sua magestade

a rainha, o facto é mil vezes mais grave. Porque--comprehendem bem esta

_nuance_--agora é a mais distincta, a mais elegante, a mais

aristocratica das princezas, que revê os candidos e impolutos arminhos

do seu real manto no mesmo espelho a que na vespera fez a barba o

Villas! e é a mesma augusta soberana que, descendo do seu throno com a

esvelta graça altiva e triumphante de uma Diana vencedora, vae ella

mesma tomar o chá no mesmo bule por cujo bico almoçou dois dias antes o

Agostinho, da rua do Alecrim!... Oh! minha senhora! minha senhora!

* * * * *

Despeitados, como naturalmente sahimos do leilão Cordeiro, imaginem se

nos daria prazer ou não a noticia da morte violenta e affrontosa de que

foi victima o mais bello gato de sua magestade!

Escolhido em Paris, expressamente para a senhora D. Maria Pia, pela

competencia unica do grande especialista o pintor Lambert, esse gato

de, uma belleza e de uma magestade digna dos versos de Beaudelaire,

contrahira em palacio uma especie de tinha, que obrigou os physicos da

real camara a raparem-o á escovinha.

Foi n'esse estado de tonsura, desfigurando o aristocratico animal até o

ponto de o fazer confundir com um simples individuo de telhado, que um

dos vigilantes e zelozos camareiros de sua majestade, surprehendeu ha

dias o interessante enfermo no acto de tasquinhar na copa uma costelleta

destinada ao inviolavel almoço do monarcha. Ora todas as pessoas

versadas nas praticas da côrte, por mais perfunctoriamente que seja,

sabem muito bem que para todos os fins da etiqueta e da devoção ás reaes

pessoas, uma costelleta destinada á refeição do principe é absolutamente

a mesma coisa que seria o proprio principe, panado, e posto n'um prato

com uma rodella de limão em cima, tão real e perfeitamente como estaria

no solio com a sua corôa na cabeça e o seu sceptro em punho.

O camareiro pois, vendo seu augusto amo tão vil e perversamente

mordiscado por aquelle que Lambert escolhera para fins de certo mais

abstinentes e mais respeitosos, o camareiro--dizemos--acceso em zelo

pela inviolabilidade da real pessoa encarnada na especie eucharistica de

costelleta, foi pé ante pé, e, de surpreza, apoderando-se do inimigo

pela ponta da cauda, rejeitou-o por uma janella á distancia kilometrica

que em todas as monarchias solidamente constituidas deve sempre medear

entre o cheiro das saborosas costelletas dos principes e os appetites

caprichosos dos gatos das princezas. Bem feito!

* * * * *

Aquelle que com amargo fel traça estas linhas colericas, movido

unicamente pelo baixo despeito de não haver pechinchado n'um leilão um

espelho e dois bules, incorre d'est'arte para com a pessoa da augusta

soberana em um reprehensivel excesso de ira plebeia. Elle porem se

promtifica desde já a ser mais tarde, elle proprio, o primeiro a

reconhecel-o e a lamental-o.

* * * * *

Andámos tres dias sem poder entender bem qual a causa do conflicto entre

o governo de sua magestade e Monsenhor Masella, nuncio apostolico e

representante diplomatico de Sua Santidade em Lisboa.

O rancor de todo o jornalismo, empenhado na critica d'este incidente,

diluiu a historia d'elle n'uma tal quantidade de fel verboso que a

menção do facto perde-se inteiramente na onda biliosa dos commentarios.

Sahiram para este effeito do fundo do velho guardaroupa da rhetorica

liberal todos os atiributos empoeirados e carunchosos da indignação

classica, e mais uma vez vimos á luz do dia, expostas em andôr, como

n'uma procissão solemne, as reliquias venerandas de um stylo de guerra

que, desde o tempo ominoso dos Cabraes, suppunhamos definitivamente

morto, empalhado, camphorado e recolhido para sempre nas collecções

archeologicas.

* * * * *

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-11/12) · 第 2 / 4 段