E porque El-Rei de Portugal não foi desta terçaria do Reino do Algarve

muito contente, e dice por outros desvairos que houve com Castella sobre

partições, e termos dos Reinos, foram estes Reis desacordados de que

El-Rei de Castella se sentia mais aggravado, mas por meo da Rainha Dona

Breatiz, que como virtuosa, e prudente procurou logo antre elles boa

paz, e concordia, vieram logo por Embaxadores a Portugal o dito Dom Payo

Correa Mestre de San-Tiago, de que já dice, e Dom Martim Nunes, Mestre

da Cavallaria do Templo nos tres Reinos Despanha, e Dom Affonso Garcia,

Adiantado mór no Reino de Murcia, os quaes pozeram antre elles taes

convenças, com que perderam todo o dezamor, e escandalo, que antre elles

havia, e ficou assentado, que El-Rei de Portugal livremente, e para

sempre despozesse de todalas terras, e Villas, e couzas do Algarve todo

o que quizesse sem embargo de todalas outras promessas e condições que

antre elles fossem postas, salvo da ajuda dos cincoenta Cavalleiros de

que o não revelou, e com esto os Embaxadores se tornaram, e acharam

El-Rei de Castella em Badalhouse, que logo enviou suas provizões ao dito

João de Boim, e Pedro Anes seu filho, porque lhe mandou que entregassem

a El-Rei Dom Affonso seu genro todalas Villas e Castellos do Algarve, e

se elle fosse fallecido, que as entregassem a El-Rei Dom Diniz seu

filho, e lhas alevantou com todalas crauzolas, e solenidade, e todo

preito, e menagem, que por quaisquer obrigações, e couzas do Algarve

tiveram feito a elle, ou a outrem em seu nome, e por Carta asselada

feita em Badalhouse Mercoles dezaseis dias andados de Fevereiro da era

de mil e duzentos e sessenta e sete annos, e sobscrita por o Secretario

Millão Paes, que por mandado del-Rei a fez escrever.

CAPITULO XIV

_Como El-Rei Dom Affonso de Castella quitou ao Ifante D. Diniz seu neto

a obrigação do Algarve, e a soltou a Portugal levemente para sempre_

E porque a este tempo o Ifante D. Diniz herdeiro filho del-Rei de

Portugal, posto que fosse moço era já em idade para poder caminhar,

El-Rei, e a Rainha seus padres acordaram de o enviar, como enviaram

muito honradamente a Castella a visitar El-Rei Dom Affonso seu avô, para

lhe ter em mercê a doação, e avenças passadas, e assi para lhe pedir

relevamento das mais obrigações, e serviço dos cincoenta Cavalleiros, e

assi com mui nobre companhia chegou a Sevilha onde achou El-Rei, que o

recebeo, e agazalhou com muitas festas, e honras, e com sinaes de grande

amor, a quem o Ifante Dom Diniz passados os comprimentos, e visitações,

e bem ensinado da instrução, que levava pedio por mercê a El-Rei seu

avô, que daquella obrigação dos cincoenta Cavalleiros, e assi de

qualquer outra que tocasse ao Algarve, quizesse para sempre relevar a

El-Rei Dom Affonso seu padre, e a elle, e aos que delle decendessem, na

qual cousa segundo a Coronica de Castella conta, El-Rei esteve algum

pouco suspenso, e com os grandes de seu Reino quiz poer o caso em

Conselho, no qual por só Dom Nuno de Lara com rezões que pareciam

onestas, e de bem de seus Reinos ouve alguma contradição, mas os outros,

que logo conheceram a vontade del-Rei, que era satisfazer em todo a seu

neto, todos lhe aprovaram, e louvaram, e sobre este assento andando o

Ifante Dom Diniz com El-Rei seu avô foram a Jaem, donde houve por bem

que o Ifante se tornasse, como tornou a Portugal, e lhe mandou dar uma

carta que trouxe para El-Rei seu padre, escrita em pergaminho em

palavras Castelhanas, e asselada de seu selo pendente das Armas de

Castella, e de Lião, que tornadas fielmente em Portuguez por mim

Coronista, que a propria Carta vi, diziam nesta maneira.

«Saibam quantos esta Carta virem, como eu Dom Affonso pola graça de Deos

Rei de Castella, e de Toledo, e de Lião, de Galiza, de Sevilha, de

Cordova, de Murcia, e de Jaem, quito para sempre a vós Dom Affonso per

essa mesma graça Rei de Portugal, e do Algarve, a menagem que fizestes a

mim por carta, ou por cartas, e a Dom Luis meu irmão, em meu nome, para

fazer a mim comprir os preitos, e posturas, e as convenças, que foram

postas antre mim, e vós, e Dom Diniz, e os outros vossos filhos, e

vossos herdeiros, por rezão dos cincoenta Cavalleiros, que a mim deviam

ser feita em meus dias pelo Algarve, a qual ajuda, e os quaes preitos, e

posturas, e menagens em qualquer maneira que fossem feitas assi por

Cartas, como sem Cartas, eu quito para sempre a voz, e Dom Diniz, e aos

outros vossos filhos, e herdeiros que nunca por esso a mim, nem a outrem

por mim, vós nem elles, nem outrem por vós sejaes, nem sejam teudos de

nhuma couza por rezão dos Castellos, nem da terra do Algarve, que vos

dei, e outorguei, que se alguma Carta, ou Cartas parecer, ou parecerem

sobre a menagem, ou menagens, ou sobre preitos, ou posturas, ou avenças,

ou sobre o serviço, ou ajuda que a mim devesse ser feito, ou feita pelos

Castellos, ou pola terra do Algarve, que desdaqui em diante nunca

valham, e sejam quebrados, e de nhuma formidão, e renuncio, e quito todo

o direito, e toda demanda, que eu haveria, ou haver poderia por esta

Carta, ou por essas Cartas contra vós ou contra Dom Diniz, ou contra os

outros vossos filhos, ou vossos herdeiros, ou contra os Cavalleiros que

tivessem, ou tiveram os Castellos do Algarve em tal guiza, que nunca a

mim essa Carta, ou Cartas possa nem possam preitar, nem a outrem por

mim, nem a vós, nem Dom Diniz, nem a vossos filhos, nem a vosssos

herdeiros, nem aos sobreditos Cavalleiros empecer, e em testemunho da

sobredita couza, dou a vós sobredito Rei de Portugal e do Algarve esta

minha Carta aberta asselada de meu selo de chumbo, que tenhais em

testemunho, feita a Carta em Jaem por nosso mandado Sabbado sete dias do

mez de Maio de mil e duzentos e sessenta e sete annos, e eu Milão Peres

a fiz escrever».

CAPITULO XV

_Da morte do mestre Dom Payo Correa, e das causas que houve para El-Rei

D. Affonso de Castella, pai da Rainha de Portugal ser desobedecido, e

como foi ajudado de Portugal, que foi fundamento para se acrecentarem a

Portugul os Lugares de riba Dodiana_

Com esta Carta, e com grandes davidas que o Ifante D. Diniz recebeo

del-Rei Dom Affonso seu avô se tornou a Portugal com que El-Rei seu

padre foi muito alegre, e com elle veo o Mestre Dom Payo Correa, que

depois de tornado a Castella não soube mais delle, nem o que depois fez,

salvo que no fim de seus dias se recolheo á Villa de Ucles, que era

Cabeça do Convento do seu Mestrado de San-Tiago em Castella, onde se diz

que bem, e catolicamente acabou sua vida já velho a dés dias de

Fevereiro de mil e duzentos setenta e cinco annos, (1275) e que mandou

que morto o trouxessem a Tavilla, que elle ganhara dos Mouros, de que

escondidamente foi ahi trazido, e sepultado na Egreja de Santa Maria

antre o Altar mór, e a parede da Egreja.

E passados depois alguns annos andando a era de mil duzentos e setenta e

um, havendo contenda na jurdição do Imperio de Roma, que vagara por

morte de Federico o segundo, que foi mao, e erege Emperador dos Romãos,

e grande perseguidor das cousas da Santa Egreja, alguns Eleitores

elegeram a Rodufo Conde de Cambra, irmão del-Rei de Inglaterra, e outros

elegeram, e chamaram logo para o Imperio este Rei Dom Affonso de

Castella, o qual mui poderoso de armas, e gentes, e assi mui abastado de

riquezas, depois que leixou em Castella jurado por Rei, e seu sobcessor

ao Ifante D. Fernando de Lacerda seu filho primogenito, logo passou em

França esperando de ser logo no dito Imperio sem contradição confirmado

por o Papa Gregorio decimo, ao tempo em Lião Sola nova de França fez

Concilio geral, onde o dito Rei D. Affonso achou já eleito e confirmado

o dito Rodufo com quem competia, e agravando-se desso ao Papa, que

encontrou na Villa de Belicaudo em França junto com Avinhão, finalmente

confortado de Sua Santidade, e rogado, que por se evitar cisma, e

guerras antre os Christãos, que renunciasse o direito que no dito

Imperio tinha, e elle o fez, e tornou-se em Espanha onde achou falecido

de peste o dito Ifante Dom Fernando, seu filho maior, que por assossego

da sobceção de Castella, e de Lião sobre que os Reis de França, e de

Castella competiram, fora cazado com a Ifante Dona Branca filha del-Rei

S. Luis a que pertencia ter direito nos ditos Reinos Despanha por ser

filho da Rainha Dona Branca filha del-Rei Dom Affonso o noveno, que

venceo a batalha das Navas de Toloza, e desta Ifante Dona Branca o dito

Ifante Dom Fernando tinha já havido dous filhos, a saber Dom Affonso, e

Dom Fernando de Lacerda, a que muito mais claramente dizem da guedelha,

porque este apelido de Lacerda não é de alguma geração, nem memoria

passada dos seus progenitores de uma parte, nem da outra, mas sómente

lhe foi posto nome aventicio, porque o dito Ifante Dom Fernando, que

primeiramente se chamou de Lacerda, quando naceo trouxe do ventre da

Rainha Dona Violante Daragão sua madre uma guedelha de cabelos nos

peitos a que chamam Lacerda, e este Dom Affonso por contrato do

cazamento, e por direito comum pertencia mais a sobcessão de Castella

que outro algum.

Mas ao tempo que o dito Ifante Dom Fernando faleceo era tambem em

Castella o Ifante Dom Sancho seu irmão lidimo, que a auzencia del-Rei

Dom Affonso seu padre, e por morte do irmão tomou logo posse da

governação, e defenção do Reino, em que trabalhou de ser como singular

Principe, porque resistio com batalhas, e grandes forças aos Reis de

Grada, e Marrocos, que entraram em Espanha, e não consentio que Dom

Affonso de Lacerda seu sobrinho fosse jurado, nem obedecido por

sobcessor de Castella, e El-Rei Dom Affonso em chegando de França,

procurou logo que o dito Ifante Dom Sancho por todolos Estados do Reino

fosse, como foi jurado, e havido por seu sobcessor, sem embargo doutro

juramento, que ao dito Ifante Dom Fernando por si, e por seus filhos, e

sobcessores era feito, e a Rainha Dona Violante molhar del-Rei Dom

Affonso de Castella anojada por se denegar a sobcessão a seus netos, e

principalmente a Dom Affonso o primeiro com receo que houve de os

matarem em Castella, se foi com elles para El-Rei Dom James deste nome o

primeiro, e dos Reis Daragão o decimo, que era padre della, donde enviou

pedir a El-Rei Dom Affonso seu marido depois que veo de França, que pois

elle por si ganhara dos Mouros o Reino de Murcia, que o désse ao Ifante

Dom Affonso seu neto, com que para sua honra, e estado seria satisfeito,

e renunciaria por esso todo o direito que tivesse na sobcessão de

Castella, no que El-Rei levemente, e com san vontade consentia, mas o

Ifante Dom Sancho em todo o contrariou, que com ameaças de morte, que

fez não leixou ir ao Papa os Embaxadores que El-Rei seu padre sobre esso

lhe mandava, dizendo que como o Ifante Dom Fernando seu irmão falecera,

logo o Deos leixara por herdeiro de todolos Reinos, e couzas de que

El-Rei seu padre era Rei, e Senhor.

E querendo El-Rei por Cortes, e prazer dos povos remedear esta denegação

do Ifante seu filho, e para que seu neto houvesse toda via o Reino de

Murcia, fez ajuntar os procuradores dos Concelhos do Reino, a que o

Ifante Dom Sancho requereo com muitas rezões, que faziam por elle, que

por alguma maneira não consentissem no requerimento del-Rei, e assi

descontente o Ifante antes de se tomar alguma concruzão, se foi para

Cordova, e El-Rei depois de declarar aos povos as muitas cauzas, e

razões porque de direito podia dar o Reino de Murcia a Dom Affonso seu

neto, os Procuradores para no cabo responderem com madura deliberação,

como elle requeria, pediram espaço dalgum tempo, para lhe tornarem

reposta, os quaes sem lha darem se foram logo com medo ajuntar com o

Ifante Dom Sancho em Cordova, onde sendo delle bem recebidos,

concordaram, que por quanto em Valhadolid sobre este cazo se faria

ajuntamento dos mais principaes Lugares, e grandes do Reino, elles dahi

a certo tempo fossem, como foram ahi juntos, salvo os Concelhos

Dandaluzia, que sempre tiveram com El-Rei Dom Affonso, os quaes assi

juntos em Valhadolid era hi o Ifante Dom Sancho filho del-Rei, e o

Ifante Dom João seu irmão, e o Ifante Dom Manoel seu tio, e Dom Lopo

Senhor de Biscaya, e Dom Diogo seu irmão, e depois de muitas praticas, e

apontamentos, que antre si fizeram leixaram todos a determinação da

sentença ao dito Ifante Dom Manoel, o qual alevantado em pé, pronunciou

a sentença, e dice, que por quanto El-Rei Dom Affonso seu irmão matara o

Ifante Dom Fadrique tambem seu irmão, e a Dom Simão Rodrigues dos

Cameyros seu sogro, e outros nobres do seu Reino sem cauza, que perdesse

por esso a justiça, e porque se dezaforaram os Fidalgos, e os Concelhos

com dano, e perda delles, que não comprissem suas Cartas, nem lhe

pagassem os foros, e porque despertara a terra, e fizera más moedas, que

não houvesse do Reino preitas, nem serviços, nem martineguas, nem moedas

foreiras, e que dahi em diante o dito Ifante se podesse chamar Rei de

Castella, e de Lião.

E preguntados os Procuradores, e povos se aprovavam esta sentença,

respondeo por todos um Diogo Affonso Alcaide mór de Toledo, que a todos

parecia bem a determinação do Ifante Dom Manoel, por as rezões que

dicera, e mais por a prodigalidade del-Rei Dom Affonso, que para o

resgate do Emperador de Constantinopla dera das rendas de Castella

cincoenta quintaes de prata, e mais por dar o Algarve a seu genro El-Rei

Dom Affonso de Portugal, e lhe quitar ajuda, e o serviço dos cincoenta

Cavalleiros em que era obrigado, e porém que lhe parecia couza honesta,

se ao Ifante Dom Sancho assi bem parecesse, que elle em vida del-Rei seu

Padre senão chamasse Rei, no que o Ifante consentio; e com esto a

obediencia de todos os Lugares logo foi alevantada a El-Rei, salvo a de

Sevilha, onde El-Rei se recolheo; e perseguido de muitas necessidades

enviando rogar, e encomendar aos Prelados, e pessoas de auctoridade do

Reino, que pozessem concordia, e boa paz antre elle, e seu filho, elles

segundo alguns dizem o não fizeram, antes o contrariavam.

Com esta tamanha necessidade enviou a pedir ajuda a El-Rei Dom Affonso

seu genro, que por em tempo de tanta fortuna ser agardecido ás boas

obras, e graças que delle tinha recebidas, lhe mandou trezentos

Cavalleiros Portuguezes pagos á sua custa por muito tempo, que por

honra, e serviço del-Rei o fizeram de maneira em Castella, que sua fama,

e bom nome será sempre lembrada, e as Coronicas Despanha, que eu vi dão

desso craro testemunho, e destes trezentos Cavalleiros de Portugal, que

vieram, e andaram em serviço del-Rei Dom Affonso, creo que se tomou a

opinião errada, que em alguns livros vi, em que tem, que a obrigação de

que este Rei Dom Affonso relevou a El-Rei de Portugal seu genro, e a

El-Rei Dom Diniz seu neto, era de trezentos Cavalleiros com que era

obrigado de o ajudar, e servir quando lhe comprisse, a tal sentença, e

opinião são errados, porque a obrigação, que El-Rei Dom Affonso, e

Ifante Dom Diniz seu filho tomaram por a sobcessão do Algarve, do que

foram relevados, era sómente de cincoenta Cavalleiros, que em vida

del-Rei Dom Affonso de Castella, contra todolos Reis Despanha lhe haviam

de dar, e a verdade desto eu Coronista verdadeiramente a vi nas proprias

doações, quitações, e privilegios assellados, e auctorizados, que

sobresso se concederam, os quais estão no Castello de Lisboa, na Torre

do Tombo de Portugal, de que eu sou Guarda mór, e outros semelhantes

deve haver nos Cartorios de Castella.

E porém a guerra, e desavença antre El-Rei Dom Affonso de Castella, e o

Ifante Dom Sancho seu filho durou muitos annos, nem cessou, salvo por

morte del-Rei, em cuja vida padeceo muitas necessidades, e foi sempre

perseguido de mui contrairas fortunas, por as quaes meteo por sua ajuda

em Espanha Abençaf Rei de Marrocos, e seus filhos a que se diz, que

antes de entrarem empenhou sua Coroa por sessenta mil dobras, o qual com

grandes gentes, e poder de Mouros correo a terra dos Christãos, e sem

aproveitarem ao dito Rei de Castella fazendo primeiro nellas muitos

danos, e estragos se volveo em Africa, como na Coronica de Castella esto

milhor, e com mais particularidade se declara.

CAPITULO XVI

_Do falecimento del-Rei D. Affonso de Portugal, como antes de seu

falecimento deu Caza ao Ifante Dom Diniz seu filho herdeiro_

A este tempo chegada a era de mil duzentos setenta e oito, (1278) El-Rei

Dom Affonso de Portugal sendo já velho de setenta annos, e perseguido de

dores, e paixões de velhice, por descançar em alguma parte dos

trabalhos, e cuidados do Reino, ao Ifante Dom Diniz seu filho, que era

de dezoito annos, e não era cazado, deu-lhe Caza em Lisboa a dezaseis

dias de Junho do anno sobre dito, e de seu assentamento alem doutras

couzas, lhe ordenou logo mais em dinheiros quarenta mil livras de moeda

antiga, que valiam a respeito dos preços, e valor do ouro, e da prata

dagora dezaseis mil cruzados, porque naquella tempo, segundo é bem

verificado, uma livra valia vinte soldos, e duas livras e meia faziam

cincoenta soldos, que valiam um maravedi douro, que no preço, e pezo

eram os maravedis douro como agora são os cruzados, e ducados.

E do dia que El-Rei deu assi Caza ao Ifante seu filho, e a nove mezes

primeiros seguintes, tendo já feito em mui inteiro acordo seu solene

Testamento, arrependido de seus peccados recebendo como bom Catholico, e

fiel Christão todolos Sacramentos para bem de sua alma, em Lisboa a

vinte dias de Março de mil e duzentos setenta e nove, (1279) acabou sua

vida, e deu sua alma a Deos, em idade de setenta annos, dos quais Reino

trinta e dous, e foi logo soterrado no Moesteiro de São Domingos de

Lisboa, que elle novamente fez, e depois na era de mil e duzentos e

oitenta e nove, foi tresladado seu corpo ao Moesteiro Dalcobaça, pela

Rainha Dona Breatiz sua molher, que ficou viva, e se mandou depois

enterrar com elle no dito Moesteiro Dalcobaça, onde ambos jazem.

Este Rei Dom Affonso fez de novo o dito Moesteiro de S. Domingos de

Lisboa, o qual começou aos tres annos primeiros depois que foi Rei, e o

acabou em déz annos, e assi fez o Moesteiro de Santa Clara de Santarem,

e povorou, e fez a Villa Destremoz, e reformou, e povorou a Villa de

Beja, que dos tempos dos Mouros era de todo destroida, mas não fez a

torre grande do Castello, por que esta fez seu filho, El-Rei Dom Diniz,

e assi deu bons foraes a muitos Lugares do seu Reino, e em umas grandes

fomes, que nelle houve em seu tempo, se acha que uzou de grande piedade

com seus vassalos, a que proveo com devidos mantimentos, trazidos de

muitas partes de fóra do Reino á custa de suas rendas, e a penhor das

ricas joias de seu tesouro, e foi o primeiro que se intitulou Rei de

Portugal, e do Algarve, e que primeiro por esta cauza poz a bordadura

dos Castellos, como atraz é já dito.

DEO GRATIAS

INDEX

DAS COUSAS NOTAVEIS

*A*

Abenafaam Rei mouro é vencido na batalha de Silves onde morreo afogado

em um rio pag. 40 a 42

Affonso III (D.) Onde, e quando foi levantado Rei de Portugal, pag. 16.

Foi casado segunda vez com Dona Breatiz sua sobrinha, filha natural

del-Rei D. Affonso X de Castella, pag. 17. Foi o primeiro que se

intitulou Rei de Portugal e dos Algarves, e pôz no Escudo além das

Quinas os Castellos, pag. 17. Foi muito amante da Justiça, e grande

reedificador, pag. 18. Sendo casado com Dona Matildes, Condessa de

Bolonha a deixou, e vindo a Portugal se recebeu com sua sobrinha Dona

Breatiz, pag. 19. Não admitte a Embaixada dos Cavalleiros que vieram a

Portugal com a Condessa Dona Matilde para que a recebesse em sua

companhia, antes partem injuriados da sua presença, pag. 21.

Estranha-lhe o Papa este procedimento, e lhe manda intimar censuras pelo

Arcebispo de S. Tiago, e não cede da sua pertinacia pag. 23. Dos filhos

que teve de Dona Breatriz, pag. 24. Amou muito a sua filha a Infanta

Dona Branca a quem deu a Villa de Monte-mór-o-velho, e em testamento lhe

deixou mais de dés mil livras, pag. 25. Das diversas terras que juntou á

Corôa com o casamento de Dona Breatiz, pag. 26. Como alcançou o Reino do

Algarve, e se intitulou Rei delle, pag. 45. Conquista gloriosamente a

Villa de Faro, pag.^s 46 a 50. E' exhortado pelo Papa para conquistar a

Terra Santa, pag. 53. Manda trezentos Cavalleiros em soccorro de seu

sogro, que lho pedira por estar dessapossado do Reino, pag. 63. Em que

dia e anno morreo, pag. 65. Onde foi enterrado, e para que parte foi

tresladado o seu corpo, pag. 66. Edificios que fez, ibi.

Affonso X (D.) De Castella, teve de Dona Mayor Guilhelme de Gusmão sua

manceba e Dona Breatiz que cazou com D. Affonso III de Portugal, pag.

19. Amou excessivamente a esta filha e lhe deu um grande dote quando se

recebeo com aquelle Principe, ibi. Deixou a sua neta a Infanta Dona

Branca, grande copia de dinheiro, pag. 26. Sucedeu nos reinos de

Castella, e de Lião a seu Pae D. Fernando, pag. 28. Doa a El-Rei D.

Affonso III o Reino do Algarve, e com que condições, pag. 45. Concede á

petição de seu neto o Infante D. Diniz a izenção dos cincoenta

Cavalleiros com que doara a seu pae o Reino do Algarve, pag. 56 e 57.

Sendo eleito Emperador dos Romanos, parte a França para ser confirmado

pelo Papa, e acha já de posse do Imperio a Rodulpho, e volta para

Castella, pag.^s 59 e 60. Por ter morto seu irmão o Infante D. Fadrique,

e a seu sogro D. Simão Rodrigues Cameiros é dessapossado do Reino por

sentença de seu irmão o Infante D. Manuel, pag. 62. Pede soccorro a seu

genro D. Affonso III para rebater esta violencia, e lho manda, pag. 63.

Affonso (Infante D.) Filho de Affonso III de Portugal, e Dona Breatiz,

casou com Dona Violante filha do Infante D. Manuel de Castella, e da

Infanta Dona Constancia de Aragão, pag. 25.

Affonso Garcia (D.) Adiantado-mór do Reino de Murcia, é mandado por

Embaixador de Castella a pacificar ao seu Principe com D. Affonso III,

pag. 55.

Albofeira. E' conquistada esta Villa por D. Lourenço Affonso Mestre de

Aviz, pag. 52.

Algarve. Como foi conquistado por D. Payo Corrêa, e das gloriosas

vitorias que alcançou dos Mouros, pag.^s 29 a 32. Com que condições foi

doado por El-Rei de Castella a El-Rei D. Affonso III de Portugal, pag.

45. Que terras comprehendia quando era possuido dos Mouros, e quaes

sejam as que tem depois que o dominaram os Portuguezes, pag. 52.

Aljustrel. Foi conquistado por D. Payo Corrêa, e depois de ser entregue

a D. Sancho II de Portugal, o deu este Principe á Ordem de San-Thiago,

pag. 28 e 29.

Aljuzur. Foi conquistado por D. Payo Corrêa, pag. 52.

Alvaro Garcia. Cavalleiro de San-Thiago, é morto pelos Mouros em Tavira,

e honorificamente sepultado, pag. 39.

Alvor. E' couquistado por D. Payo Corrêa, pag. 40.

Arcebispo de San-Thiago. E' mandado pelo Papa que admoestasse a D.

Affonso III que largasse a Dona Breatiz por estar viva sua primeira

mulher a Condessa Dona Matilde, e que repugnando o emprazasse para que

em quatro mezes apparecesse pessoalmente na sua prezença, pag. 23.

*B*

Beja. Foi reformada, e povoada por D. Affonso III, pag. 60.

Beltram de Caya, cavalleiro alentado é morto pelos Mouros em Tavira, e

como foi honorificamente sepultado, pag. 39.

Branca (Rainha Dona) filha del-Rei D. Affonso Noveno que venceo a

batalha das Navas de Toloza, foi mãe de S. Luis Rei de França, pag. 60.

Branca (Infanta Dona) filha de Affonso III de Portugal, e da Rainha Dona

Breatiz se recolheo no Mosteiro de Lorvão, e foi Senhora das Olgas de

Burgos onde sem cazar faleceo, pag. 25. Possuio grandes terras em

Castella, como em Portugal, ibi.

Branca (Infanta Dona) filha de S. Luis Rei de França, foi mulher do

Infante D. Fernando de Lacerda, filho primogenito de D. Affonso X de

Castella de quem teve dous filhos, pag. 60.

Breatiz (Rainha Dona) filha natural de D. Affonso X de Castella, foi

casada com seu tio D. Affonso III de Portugal, pag. 17 e 18. Mandou

tresladar o corpo de seu marido para o Convento de Alcobaça, onde foi

enterrada, pag. 66.

*C*

Campo Maior. Foi dada esta Villa por El-Rei D. Diniz a sua irmã a

Infanta Dona Branca, pag. 24.

Castellos. Os que se vêm no Escudo das Armas de Portugal, foram postos

por D. Affonso III, quando lhe foi dado em dote o Algarve, e não por

serem do Condado de Bolonha, pag. 17.

Constança (Infanta Dona). Filha de D. Affonso III e Dona Breatiz, foi

com sua mãi a Sevilha a ver seu pai, que assistia naquella Cidade, onde

faleceo, e foi conduzida ao Convento de Alcobaça, e nelle está

sepultada, pag. 26.

Cordova. Quando foi esta cidade ganhada por El-Rei D. Fernando de

Castella, pag. 26.

*D*

Infante D. Diniz. Foi filho primogenito de D. Affonso III de Portugal, e

D. Breatiz, que depois sucedeo no Reino a seu pai, pag. 24. Onde e

quando naceo, ibi. Edificou o Mosteiro de Odivelas onde está sepultado,

ibi. Sendo Rei deu a sua irmã a Infanta Dona Branca a Villa de Campo

Maior, pag. 24. Parte a Castella para pedir a seu avô D. Affonso X,

exima ao Reino de Portugal da obrigação dos cincoenta Cavalleiros com

que lhe doara o Algarve, e depois de algumas contradições o alcança,

pag. 56. Em que dia e anno lhe fez casa seu pai, pag. 56. Edificou a

Torre do Castello de Beja, ibi.

Chronica d'El-Rei D. Affonso III · 第 3 / 4 段