E por esso cerraram bem suas portas, que não quizeram abrir aos seus que

vinham fogindo, e sómente lhe abriram um postigo pequeno, e escuro, que

está contra a mouraria, sobre que deu o Mestre e os ferio tão rijo, e

com tanta braveza, que não tendo elles acordo para se defenderem, nem de

cerrar a porta entrou por ella o Mestre de volta com elles, e cobrou a

Villa, e apoderou-se della dentro da qual, e fóra della o Mestre, e os

seus fizeram nos Mouros grande estrago. E era neste tempo senhor de

Tavilla Abenfalula, Mouro que não se sabe se morreo nestas pelejas, se

ficou no lugar, como outros alguns ficaram. E esta batalha, e os

Cavalleiros mortos, e a Villa tomada foi tudo a nove dias de Junho de

mil e duzentos e quarenta e dous (1242). E o Mestre como de todo foi

apoderado da Villa, e a leixou com boa segurança, com alguma gente

darmas tornou ás Antas onde os Cavalleiros mortos jaziam, e chorando por

elles muitas lagrimas, e dando grandes gemidos e tristes sospiros os

mandou apartar dantre os corpos dos Mouros que elles mataram, e cheos

todos de muito sangue das grandes feridas de que morreram, os fez levar

á Villa, e na mesquita, que o Mestre fez consagrar em Egreja da

Envocação de Nossa Senhora mandou logo fazer um grande Moimento de

pedra, em que se pintaram sete Escudos, todos com as vieiras de

San-Tiago, e nelles os seis Cavalleiros, e Gracia Rodrigues com elles

foram todos sete sepultados, e seus nomes são estes, Pedro Rodrigues

Commendador mór, Mem do Vale, Durão Vaz, Alvaro Gracia, Estevam Vaz,

Beltram de Caya, e o Mercador Gracia Rodrigues, cujos corpos foram

depois havidos em grande reverencia, e devação, e piedosamente não era

sem cauza, porque como Martyres espargeram seu sangue, e como fieis

Catholicos perderam as vidas pela Fé de Jesu Christo N. Senhor.

CAPITULO IX

_Como o Mestre tomou Selir, e Alvor, e a Cidade de Silves, porque

partidos a leixou dos Mouros_

O Mestre Dom Payo Correa por tomar Tavilla dos Mouros, como é dito, por

ella ser Cabeça, e a principal cousa do Algarve, foi mui alegre, e deu

por esso muitas graças a N. Senhor, e porque sentio que elle com sua

graça, e ajuda nesta sua empreza sempre o favorecia, não quiz estar por

longo tempo ocioso, mas fez prestes suas gentes, e depois de leixar

Tavilla em boa guarda, e segurança, sahio della, e foi sobre Selir, e o

tomou por força, e assi Alvor outra vez, dahi foi logo cercar Paderne,

que era Castello mui forte, e tinha boa Comarca, que é antre Albofeira,

e a Serra, e estando em cerco sobre elle apartou de si algumas gentes,

que mandou ao termo de Silves, onde tomaram outra vez a Torre Destombar,

que já fora sua, e Abenafaam, que era Rei daquella terra estava em

Silves, quando soube que os Christãos tomaram Estombar, crendo que seria

hi o Mestre, ajuntou tambem as mais gentes que pode, e sahio com

proposito de vir sobre elle, e dar-lhe batalha. Da qual cousa sendo o

Mestre logo avizado alevantou o cerco de sobre Paderne, e por caminho

desviado se veio lançar sobre Silves, e o Rei Mouro indo para Estombar,

como soube que na terra não havia outras gentes, salva as que tomaram, e

defendiam, receando-o ser acommettido dalgum ardil do Mestre, fez logo

volta com grande trigança sobre Silves, onde o Mestre lhe tinha feita

cilada, que sabendo de certo recolhimento que o Rei Mouro havia de fazer

lhe tomou todalas portas da Cidade, em cada uma das quaes pôs gentes

assás que as guardasse, e El-Rei Abenafaam, quando ao recolher achou

embargo, e resistencia em todalas portas, commetteo de por força entrar

pela porta, que dizem _Dazoya_, que lhe pareceo mais despejada, que

todalas outras, onde se encontrou com o Mestre, que de fóra tinha a

guarda della.

E em um campo junto da Villa em que está a Egreja de Santa Maria das

Martes houveram ambos mui travada, e ferida peleja, em que o Mestre pola

pouca gente que comsigo tinha se vio em grande pressa, porque os Mouros

eram muitos, e mui juntos, e feriram-no mui rijamente, e punham todas

suas forças por cobrar a entrada da porta, que o Mestre defendia, e

procuravam os Mouros de se meter debaixo da Torre Dazoia que é saída em

arcos para fóra, por tal que os Mouros de cima os defendessem, mas não o

poderam fazer, e porque os Mouros de dentro quando viram o Rei Mouro á

porta, e com grande avantagem de gente sobre o Mestre, sahiram alguns

cuidando de o meter, e salvar por ella, e ao recolher, que quizeram

fazer, foram dos Christãos tão apertados, que de volta se meteram com

elles dentro na Cidade, e não sem crua peleja, e grande perda de homens

de uma parte, e da outra, que ali ficaram mortos.

E segundo se diz, mais Christãos morreram nesta entrada, que em outro

Lugar do Algarve que se tomasse, e El-Rei Mouro vendo que a Cidade era

já por aquella porta entrada, andou correndo a cavallo em torno della

experimentando todolos lugares convenientes para sair, e quando não

achou remedio quiz-se lançar por um postigo da treição do alcacer, que

era seu apozentamento, onde morava, e porque o achou empedido commetteo

outra porta em que tambem achou contradição, pelo qual já como

desesperado da honra, e da vida ferio apressadamente seu cavalo das

esporas, e fogio, e passando por um pego do rio afogou-se nelle, onde

depois o acharam morto, e deste cazo accidental chamam áquelle Lugar _o

pego de Benefaam_. Os Mouros que na Cidade ficaram vivos, se acolheram

ao alcacer, e mostravam suas forças para o defender, mas o Mestre não o

quiz combater, antes lhes deu segurança, que vivessem na Villa se

quizessem, e aproveitassem suas Cidades, e com obediencia, e tributos

lhe conhecessem aquelle Senhorio, que conheceram a El-Rei Mouro, e elles

Mouros assi o concordaram, e foram do partido contentes, e esta maneira

se diz que o Mestre sempre teve nos Lugares do Algarve, que tomou, cujos

alcaceres não combateo, e deu segurança aos Mouros porque as Villas

fossem milhor aproveitadas, e senão despovorassem, e não tardou muito

que nesta cidade foi fundada Sé, e Egreja Catedral, e Bispo della a que

foi dada toda a jurdição Ecclesiastica daquelle Reino.

CAPITULO X

_Como o Mestre tornou a cercar Paderne, e o tomou, e do fundamento que

houve para El-Rei D. Affonso de Portugal haver para si o Reino do

Algarve, e se intitular delle, e com que obrigação lhe foi dado_

Tanto que o Mestre pôs em Silves suas gentes, que a guardassem, e

defendessem, e a proveo das outras cousas que a ella eram necessarias,

se partio, e tornou a poer o cerco que alevantara de sobre Paderne, e

porque logo os Mouros se não quizeram dar a bom partido que lhe

cometiam, elle os combateo, e por força tomou a Villa e o alcacere sem

os receber a concordia, nem algum partido de piedade, antes por dous

bons Cavalleiros que lhe ali mataram da Ordem, mandou que todolos Mouros

da Villa andassem, como andaram á espada, e a gente desta Villa de

Paderne, cujos grandes edeficios ainda parecem, alguns dizem, por sua má

disposição se mudou depois á Villa de Albofeira, que o Mestre Daviz

depois tomou como adiante vai, e atraz deixei apontado.

Como a Conquista do Algarve que primeiramente fez D. Payo Correa Mestre

de San-Tiago de Castella, por nação e linhagem Portuguez, foram em dous

tempos, a saber, em tempo del-Rei D. Fernando de Castella, e depois em

tempo del-Rei Dom Affonso seu filho, e agora declaro que os Lugares, que

até qui se ganharam pelo dito Mestre foram em tempo del-Rei Dom

Fernando, e antes da tomada, e cerco de Sevilha, porque claramente

consta, que este Mestre de San-Tiago era com El-Rei ao tomar della, e

para tal feito foi havido, e estimado por mui principal, e para feitos

darmas mui asinado, e estes Lugares do Algarve estiveram da mão do

Mestre á obediencia del-Rei Dom Fernando até o tempo del-Rei Dom Affonso

seu filho, que como Reinou teve grande afeição ao dito Mestre, e lhe deu

de si muita parte, e o mandou tornar ao Algarve, para nelle estar por

segurança dos Lugares que ganhara, porque ainda nelles havia muitos dos

Mouros. E neste tempo era já cazado este Rei Dom Affonso Conde de

Bolonha com a Rainha Dona Breatiz, filha do dito Rei Dom Affonso de

Castella, e a maneira porque depois seu marido, e ella houveram este

Reino do Algarve é a seguinte.

El-Rei Dom Affonso Conde de Bolonha, sendo assi cazado com a filha

del-Rei de Castella, sabendo que o Mestre de San-Tiago tinha ganhado dos

Mouros as ditas Villas, e Lugares do Reino do Algarve, que eram da

conquista, e Senhorio de Castella, e estavam pela parte do Campo

Dourique mui conjuntos ao Reino de Portugal, e vendo que contra os

Mouros Despanha já não tinham livre alguma propria conquista dezejando

acrecentar em seu Reino, e em sua honra, e assi por ter em que servir a

Deos em semelhante guerra piadosa, dezejou para si esta terra, sobre a

qual falou com a Rainha Dona Breatiz sua molher, e sendo ambos em um

dezejo e tenção conformes, ella por seu prazer, e por concelho de seu

marido, foi logo a El-Rei D. Affonso de Castella, seu pai, que estava em

Toledo, a qual elle recebeo com muita honra, e alegria, porque como

aigumas vezes já dice sempre por palavras, e obras, elle mostrou que lhe

tinha muito amor, e grande dezejo de lhe fazer bem, e havendo depois

tempo, e lugar para o cazo conveniente, a Rainha com as palavras, e

rezões que seu dezejo e necessidade lhe aprezentaram, dice a seu pai a

cauza principal de sua ida, pedindo-lhe muito por mercê, em nome del-Rei

seu marido, e seu, que désse a elles, e a seus netos, que cada dia

creciam a Conquista do Reino do Algarve, e assi os Lugares, que por o

Mestre de San-Tiago eram já nelle tomados, e porque o Reino de Portugal,

que tinham, era para elles muito pequeno, e a este tempo o Ifante Dom

Diniz, que a poz seu padre Reinou, e assi outros Ifantes seus filhos já

eram nacidos, e os Lugares de riba Dodiana, e de riba de Coa, ainda não

eram de Portugal; porque depois se houveram, como nesta Coronica, e na

del-Rei Dom Diniz ao diante se dirá.

Deste requerimento prouve muito a El-Rei Dom Affonso, que por Reaes

condições que muitos lhe entrepetraram a vaidades, e desordenada cobiça

de gloria foi o mais nobre Rei de Castella, e querendo em todo

satisfazer á Rainha sua filha, lhe mandou logo passar sua Carta patente,

e selada de seu selo de chumbo, por a qual fez solenne, e firme doação

ao dito Rei Dom Affonso Conde de Bolonha, seu genro, e ao Ifante D.

Diniz seu filho, e a todolos filhos, e filhas que delles decendessem

para sempre do Reino do Algarve com seu inteiro Senhorio, e com todolos

Lugares delles ganhados, e por ganhar, com tal condição que o sobredito

Rei de Portugal, e seus filhos, fossem obrigados a dar de ajuda ao dito

Rei Dom Affonso de Castella em sua vida sómente cincoenta Cavalleiros,

quando lhos requeressem, contra todolos Reis Despanha, e além desta

doação El-Rei de Castella mandou fazer outras Cartas para o Mestre Dom

Payo Correa, e para outros grandes Cavalleiros, que com elle andavam no

Algarve, porque lhe notificou esta doação, que tinha feita, e lhes

mandou que a comprissem, e porque El-Rei Dom Affonso folgava com a

vista, e conversação da Rainha sua filha pola grande afeição que a ella

tinha não lhe deu lugar que logo se tornasse a Portugal como ella

quizera, pelo qual elle mandou as sobreditas Provisões a El-Rei Dom

Affonso seu marido, que como as recebeo alegre com tamanha, e tão

honrada, e tão dezejada doação, notificou tudo ao Mestre Dom Payo

Correa, a que desso prouve muito, porque tinham antre si muito

conhecimento, e grande amizade.

E El-Rei se intitulou logo de primeiramente Rei de Portugal, e do

Algarve, e ao Escudo dos cinco Escudos de Portugal, que seu bisavô

El-Rei Dom Affonso Anriques primeiro tomou, e trouxe elle por titolo, e

posse deste Reino em adeo Orla, e borladura dos Castellos douro em campo

vermelho, como depois até gora sempre os Reis de Portugal trouxeram, e

trazem, segundo atraz brevemente dice.

CAPITULO XI

_Como El-Rei Dom Affonso de Portugal depois de lhe ser dado o Algarve,

tomou aos Mouros a Villa de Farão, em que foi em sua ajuda o mestre D.

Payo Correa_

E por El-Rei Dom Affonso não estar ouciozo de fazer alguma parte

verdadeira a tenção com que pedira esta terra, mandou com grande

diligencia preceber a gente de seu Reino, com a qual junta, e para logo

ir ao Algarve, elle a gram pressa se foi a Beja, e da hi a Almodovar do

Campo Dourique, e passou a serra, pelas Cortiçadas, e da hi levou seu

caminho direito para a Villa de Farão, que era do Senhorio de Miramolim,

que era Rei de Marrocos, e tinha a Villa por elle um seu Alcaide mór,

que chamavam Aloandro, que era seu Alxarife, outro Mouro principal dito

Abombarram, aos quaes para sua segurança não faleciam dentro grandes

percebimentos de muita gente, armas, e mantimentos, e mais no alcacer da

Villa tinham uma fusta, que por um arco, que era feito no muro a

lançavam ao mar quando queriam, e nella enviavam seus recados ao seu

Rei, quando delle, e de suas ajudas tinham alguma necessidade, e por

esta cauza, e porque a Villa era mui forte os Mouros della estavam muito

esforçados, e com pouco medo dos Christãos, e o Mestre Dom Payo Correa,

que por prazer del-Rei de Castella era já Vassallo del-Rei Dom Affonso

de Portugal, sabendo de sua ida o foi com suas gentes aguardar na Villa

de Selir antre Loulé, e Almodovar, e ali se viram, e o Mestre lhe fez

sua devida reverencia, e acatamento, e El-Rei a elle muita honra, com

sinaes de grande amor, porque eram Compadres, e dali com suas gentes

concertadas foram logo cercar a Villa de Farão, sobre que pozeram fortes

estancias, e repartiram seus ordenados combates por esta maneira, a

saber, o primeiro combate tomou El-Rei para si no alcacer, e um lanço do

muro da Villa até a porta, que agora dizem dos _Freires_, e o segundo

combate do Mestre de San-Tiago com toda sua gente, foi desta porta dos

Freires com outro lanço do muro até a porta da Villa, e ca um rico

homem, e bom Cavalleiro, que havia nome Pedro Estaço, mandou El-Rei dar

outro lanço do muro até uma terra que depois chamaram _de João de Buim_,

e a este mesmo João de Buim, que era pessoa de grande estima, foi dado

outro lanço desta sua terra até o alcacer, onde era o primeiro combate

del-Rei.

E além destes Capitães aqui nomeados, eram com El-Rei outros

Cavalleiros, e pessoas mui principaes do Reino de Portugal, a saber, Dom

Fernão Lopes, Prior do Esprital, e o Mestre Daviz, e o Chançarel Dom

João Davinhão, e Mem Soares, e João Soares, e Egas Coelho, e outros, e

por estes lugares, e lanços mandou El-Rei combater a Villa, ca tão

aturadamente o fizeram, que de dia, e de noite nunca os combates, e

afrontas cessavam, nem davam aos Mouros algum lugar, e repouzo, e porque

perdessem a grande esperança, e ajuda, e socorro, que tinham no mar,

El-Rei lha tirou; porque mandou sua frota de Navios grossos estar no

mar, e assi ordenou que no canal do Rio se atraveçassem outros Navios

fortes, e bem armados, e forrados de couros da banda do mar, por tal,

que se por cazo algumas Galés de Mouros viessem contrairas, e entrassem

no Rio, que ellas com fogo, ou com outros engenhos não denificassem os

Navios dos Christãos, e desta maneira o Lugar ficou cercado em torno por

mar, e por terra, pelo qual vendo os Mouros que o mar onde tinham o

ponto principal de sua salvação e socorro era de todo impedido, e

atalhado, e assi não podendo já sofrer os aficados, e perigosos combates

que com grande seu dano sempre recebiam dos Christãos, e que posto que

bem, e esforçadamente se defendessem, como faziam, não tinham emfim

esperança de se salvarem, ouveram por bem commetter partido, a El-Rei

para que sahiram de dentro os sobreditos Alcaides, e Alxarife, que na

Villa eram dos Mouros as maiores cabiceiras.

E andando elles nestre trato sem amostrarem aos do Arraial, que era

acabado, El-Rei foi falando com elles até o alcacer, onde por concerto

já antre elles praticado, e prometido, El-Rei foi delles recolhido no

dito Castello com os que elle quiz, que seriam até dez Cavalleiros, e

como El-Rei entrou, porque assi era corcordado, logo o alcacer foi livre

de todolos Mouros que nelle estavam, e se recolheram para a Villa, e por

mais segurança, o alcacer foi logo buscado e despejado por aquelles

Cavalleiros del-Rei, de maneira, que dentro delle não ficaram dos Mouros

salvo os sobreditos Alcaides, e Alxarife, e porque El-Rei por cumprir

aos Mouros sua verdade, e para se fazer o trato com mais assecego não

deu desta parte ao Mestre de San-Tiago, nem aos outros Cavalleiros, que

tinham os combates, e estes achando menos El-Rei, e sabendo que era

dentro no alcacer, não sendo certos de sua vida, e segurança, antes

vendo, que contra sua vontade, e por seu mal o retinham, foram por esso

anojados, e por esse cazo foi no arraial feito grande alvoroço com que

(posposto todo o perigo) determinaram os Christãos combater a Villa, que

sem embargo da resistencia, e setas, e pedras dos Mouros, que o

contrariaram passaram, e ajuntaram-se com os Mouros, e as gentes do

Mestre trouxeram logo muita lenha, e outros materiaes ás portas da Villa

para com o fogo as queimaram, e entrarem por ellas, e por este dezavizo,

de que não sabia a verdade morreram nestes cometimentos, que poderam ser

escuzados muitos Mouros, e mais Christãos.

El-Rei depois que ouvio os grandes rumores do arraial, e soube a causa

delles, logo com grande trigança se sobio em uma torre, e dando-se a

conhecer alçou o braço direito, e na mão amostrou a todos as chaves do

alcacer, que já tinham a seu serviço, e com esso mandou o Mestre, e a

todolos outros Capitães, que logo cessassem de seus combates, e porque

já era em concerto com os Mouros, e assi o Alcaide Mouro Abembarram

sahio do alcacer, e dice aos Mouros da Villa, que fossem seguros, e não

fizessem algum mal aos de fóra, e com esto ficaram todos assossegados, e

El-Rei mandou lançar pregões pelo raial que algum Christão não fizesse

nojo aos Mouros, posto que antre os Christãos andassem, nem entrassem

pelas portas da Villa; posto que abertas as achassem, salvo o Mestre, e

outros Capitães, porque estes entrariam com aquelles, que quizessem, e

que os outros Christãos estivessem sobre as portas dos combates, e

estancias, que lhe foram ordenadas.

E o concerto que El-Rei fez com os Mouros foi, que elles Mouros da Villa

lhe fizessem, dessem e pagassem juntamente aquelle mesmo foro, e

serviço, e todalas outras cousas, que faziam, e pagavam ao seu Rei

Amiramolim, e que com elles ficassem todas suas cazas, vinhas, e Cidades

assi como dantes as tinham, e que El-Rei os amparasse, e deffendesse

assi de Mouros como de quaesquer outras gentes, e nações, que lhe mal, e

nojos quizessem fazer, e que aquelles que para alguns Lugares de Mouros

se quizessem ir, que livremente com todas suas cousas o podessem fazer,

e andassem com El-Rei quando lhe comprisse, e que lhe fizesse por esso

bem, e mercê. E por esta maneira cobrou El-Rei a Villa de Farão no mez

de Janeiro de mil duzentos e setenta (1270).

CAPITULO XII

_Como El-Rei D. Affonso cercou, e tomou Loulé, e como a Aljasur tomou o

Mestre de San Tiago, e o Mestre Daviz Albufeira, e da declaração que se

fez deste nome Algarve, e dos Lugares que agora nelle cabem_

Como El-Rei cobrou a Villa de Farão, como é dito, logo a poucos dias

elle, e o Mestre foram com suas gentes cercar a Villa de Loulé, e sem

prolongado cerco, ainda que fosse com dano dos Christãas em breve a

cobrou; e porque o Mestre de San-Tiago trazia em sua companhia bons

Cavalleiros, e mui esforçados, destes se acertavam, que nos combates das

Villas, e pelejas dos Mouros que por sua bondade não receavam de

commetter, muitos morriam, e havendo El-Rei desso piedade, e sentimento

se diz, que em acabando de tomar esta Villa de Loulé dice ao Mestre, que

lhe pezava muito de tão bons Cavalleiros como eram os seus, morrerem

assi nestes combates, por quanto eram homens singulares, escolheitos, e

que o Mestre lhe respondeo.

«Senhor não vos anojeis das mortes destes, que acabaram suas vidas em

seu proprio officio, e de tanto seu merecimento, pois é em serviço de

Deos, e por honra, e louvor de sua Fé, e se o haveis, porque são

Cavalleiros eu posso logo fazer outros tantos». E de Loulé cavalgou o

Mestre, e correndo a terra dos imigos contra o Cabo, houve avizo certo

que muitos Mouros juntos iam a via Daljazur, e uns dizem, que este

ajuntamento faziam para com outros consultarem sobre o que fariam por

Silves, e Tavilla, e os outros Lugares, que eram tomados, e outros

affirmam que iam para uma voda para que eram convidados, e esta parece a

cauza, e rezão mais conforme, porque os Mouros Daljazur sahiram a uma

legoa a receber os do Cabo, e uns, e outros vinham mais de festa, que de

guerra, ca muitos delles foram achados sem armas, e com elles saltou o

Mestre de que matou, e cativou os que quiz, e alguns que se quizeram

salvar na Villa para que foram fogindo perseguidos do Mestre não tiveram

acordo de çarrar as portas, por quaes o Mestre entrou de volta com

elles, e tomou o Lugar sem algum partido dos Mouros.

E Dalbofeira se acha por mais certa opinião, que em tempo deste Rei foi

tomada dos Mouros por o Mestre Daviz Dom Lourenço Affonso, e assi parece

rezão, porque elle foi sempre, e é hoje da dita Ordem. E por estes

lugares, que dos Mouros se tomaram se acabou de conquistar toda a terra,

que nós os Portuguezes chamamos Algarve, mas para deste nome não virem

duvidas, e confuzão aos que as Estorias antigas Dafrica, e Despanha

lerem, é de saber, que Algarve é nome Arabico, e o Reino, e Senhorio,

que os Mouros chamavam do Algarve era mui grande, e de grandes

potencias, porque começava no Cabo de São Vicente, e seguia pela costa

Despacha até Almiria, e pela banda Dafrica se estendia até Tremecem, em

que entravam Fez, e Cepta, e Tangere, que diziam de Benamarim, porque os

Lugares, que os Reis de Portugal até agora tem na parte do Algarve

daquem már, que é em Hespanha são estes, a saber, Estombar, Alvor, Villa

nova de Portimão, Cacella, Paderne, Tavilla, Farão, Loulé, Silves, e

Albufeira, Aljazur, e Alcoutim, e Castro Marim, e Lagos, e destes alguns

são Lugares novos, que em tempo dos Reis de Portugal novamente depois se

fizeram, e reformaram.

E destes Lugares do Algarve depois que os El-Rei Dom Affonso houve a seu

poder, e Senhorio se acha, que com suas Galés, e outros muitos navios

fez sempre de continuo crua guerra aos Mouros Dafrica, que em seus

corpos e fazendas recebiam grandes danos e prezas, e El-Rei Dom Affonso

por seu grande esforço, e bons feitos, tinha antre os Reis principais

Christãos mui louvado nome, pelo qual se acha que o Papa por esta

honrada fama del Rei lhe mandou por meo dum Frei Payo, Ministro da

ministração dos Freires de San-Tiago rogando-lhe que em remissão de seus

peccados, quizesse tomar a Cruz de Jesu Christo contra os Mouros dultra

már, que tiranamente tinham a Caza Santa em desprezo da Fé, e da

Religião e que El-Rei respodeo, que se El-Rei de França a esta conquista

passasse em pessoa, que lhe prometia, que elle tambem com a sua

passasse, salvo se alguma outra guerra, ou tamanha necessidade o

impedisse, porque o não podesse fazer, e por esso ambos não foram,

porque o derradeiro Rei de França, que por recobrar a Caza Santa passou

a ultra már, foi El-Rei São Luis de França primo com irmão deste Dom

Affonso de Portugal, filhos de duas Irmãs, quando levou comsigo a Rainha

Dona Margarida sua molher, e elle, e dous Irmãos seus foram dos infieis

prezos, e cativos na grande, e crua batalha, que ouveram com o gram

Soldam, junto com Damiata do Egypto, como em outras partes já dice, o

que foi muito antes do tempo deste requerimento do Papa, segundo está na

Coronica de França, e em outras mais largamente se contem.

CAPITULO XIII

_Como o Reino do Algarve por divisões que houve foi posto em terçaria de

Cavalleiros Portuguezes, e o que sobre esso se fez_

Como El-Rei de Portugal foi em posse pacifica, o Mestre Dom Payo Correa

se tornou a seu Mestrado, e deu conta a El-Rei Dom Affonso de Castella

de todo o que era passado, o qual para mais firmeza, e maior seguridade

das condições com que a El-Rei seu genro fizera sua doação do Algarve,

houve por bem, que o dito seu genro as prometesse, e segurasse com

menagem, e juramento em sua propria pessoa, para que o dito Rei Dom

Affonso de Castella enviou a Portugal com seu poder abastante ao Ifante

D. Luis seu irmão, que diceram de Pontes, filho del-Rei Dom Fernando, e

da Rainha Dona Joana sua segunda molher, filha do Conde Dom Simão de

Pontes, e sobrinha del-Rei Dom Luis de França, o qual álem de tomar

del-Rei de Portugal todas as seguridades conforme as condições de sua

doação, ainda o dito Ifante para maior seguridade, e mais honesta escuza

del-Rei D. Affonso de Castella, para os de seu Reino, que o reprendiam,

e acuzavam por tal doação, quiz que todas estas Villas e Castellos

fossem, como foram logo entregues a João de Boim, e Pedro Annes, seu

filho, Vassallos e naturaes del-Rei de Portugal, que eram pessoas de

limpo e nobre sangue de grandes cazas, para que por elles os tivessem de

fieldade com menagem de juramento que fizeram, que quando el-Rei de

Portugal não comprisse a condição dos cincoenta Cavalleiros, que a

El-Rei de Castella em sua vida havia de dar, que elles com suas pessoas,

e com as ditas Villas e Castellos servissem a El-Rei de Castella, e

comprissem inteiramente tudo o que El-Rei de Portugal era neste cazo

obrigado a cumprir.

Chronica d'El-Rei D. Affonso III · 第 2 / 4 段