_De como El-Rei levou comsigo o Principe seu filho, e como
embarcaram, e com que gente e frota_
Determinou El-Rei a requerimento do Principe seu filho, e contra
conselho dos mais principaes do reino de o levar n'esta passagem
comsigo, e leixou por inteiro governador, e com nome de governador do
reino o duque de Bragança, que escusando-se por sua velhice de tal
cargo, se convidava para ir com elle á guerra dos mouros, porque seu
coração e devoção não enfraquecia; porque a ella foi sampre mui
inclinado. E porque El-Rei era sabedor que entre alguns grandes e
pessoas principaes de seus reinos, que para sua passagem eram
percebidos, havia odios e dissensões, e outros jaziam em publicas
excommunhões, El-Rei com a só pena que pôs de os não levar comsigo se
não se concordassem e asolvessem, elles por não ficarem se concordaram e
satisfezeram e se reconciliaram.
Encommendou El-Rei o cargo da gente d'entre Doiro e Minho, e da frota do
Porto ao duque de Guimarães, que se ajuntou com El-Rei em Lisboa no
começo do mez d'Agosto do anno do nascimento de nosso Senhor Jesus
Christo de mil e quatrocentos setenta e um, em que El-Rei houvera de
partir, e por ventos que não terçavam de viagem, suspendeu sua partida
até dia da Asumção de Nossa Senhora, que é aos quinze dias do dito mez,
em que depois de elle e o Principe entrarem no mar com mui solemne
procissão, e com maravilhoso e grande triumpho, sobreveiu vento prospero
e desejado, com que partiu de Restello e chegou a Lagos, onde o já
esperavam os navios e gente do Algarve. E assi o conde de Valença que
viera d'Alcacere, com que sua real frota refez por todas numero de
quatrocentas e setenta e sete vellas, e até trinta mil homens. E alli
depois de ouvir missa, e para o caso uma devota pregação, e revellar a
todos sua ida sobre Arzilla, foram elle e o Principe com uma devota
procissão e grande estrondo de trombetas e manistreis altos e baixos,
mettidos nos bateis, e de hi aos navios que logo fizeram vella, que com
vento bonançoso chegaram d'Avante á dita villa d'Arzilla, onde sua frota
ancorou aos XX dias do dito mez, já sobre tarde, os mouros da qual como
de dia houveram vista d'ella; porque da passagem d'El-Rei tinham já
muitos avisos, adivinhando com receio seu mal, se começaram de prover
como para tal necessidade e afronta cumpria.