_De como tendo El-Rei determinado passar em Africa, convertia a
armada contra os inglezes pela tomada, das náos de Portugal, e
desistiu d'isso pela morte do conde Baroique, e se ordenou a ida
sobre Arzilla_
E n'este anno e assi no passado determinou El-Rei de passar em Africa,
para que teve em pessoa, e assi mandou ter praticas e conselhos em
Lisboa nas casas do conde de Monsanto.
E o primeiro desejo e movimento d'El-Rei foi ir sobre Tangere. Mas
porque para cercar e combater tamanha cidade, por então não se achou no
reino o soprimento que era necessario, desistiu El-Rei d'este proposito,
e com fundamentos de bom conquistador, e com evidentes razões que lhe
foram apontadas, de que se tambem ao diante não perdia a esperança do
cobramento de Tangere, assentou ir sobre Arzilla, que logo por Vicente
Simões, homem nas cousas do mar bem esperto e entendido, e por Pero
d'Alcaçova seu escrivão da fazenda e de que muito fiava, mandou muitas
vezes espiar e vêr, assim no que cumpria para o ancorar e desembarcar do
mar como para o assento da terra. Em que com fingidos negocios com que
os mouros tratavam, acabaram de ser certificados de todo o que para uma
cousa e para a outra era necessario, de que perfeitamente avisaram
El-Rei, que logo mandou fazer no reino e fóra d'elle os percebimentos de
navios, armas e mantimentos para trinta mil homens, com que determinou
passar, e estando El-Rei já casi prestes, foi certificado que doze náos
grossas de seus reinos vindo em canal de Frandes foram tomadas, e suas
mercadorias roubadas por Facumbrix, cosairo, capitão e sobrinho do conde
Baroique, que a este tempo governava o reino de Inglaterra.
E sobre os agravos e lamentações que os mercadores e povo d'estes reinos
acerca de seus damnos e perdas fizeram a El-Rei, elle teve logo conselho
com os principaes de sua côrte. E assi o enviou pedir aos grandes e
senhores do seu reino, que lh'o enviaram por escripto. Dos quaes
sustancialmente foi pela mór parte aconselhado, que a armada d'Africa
que era voluntaria, e convertesse por muitas razões esta contra os
inglezes, que era obrigatoria e necessaria. E que fosse grossa e de
muito e boa gente, para que d'algum castigo d'estes nascesse receio aos
outros muitos, que a seus vassallos não fizessem no mar os males e
damnos que cada dia e sem emenda lhe faziam. Á qual parte El-Rei mais
inclinado, ordenou armar grossamente, e dava por capitão d'armada D.
João filho do duque, que depois foi Condestabre e marquez de
Montemór-o-Novo, e com elle carracas e muitas náos grossas, e outros
navios pequenos em grande numero.
E estando tudo já quasi prestes, veiu certidão a El-Rei estando em
Lisboa, no mez de Junho, que o dito conde Baroique, e o Rei porque
governava Inglaterra, eram em batalha mortos por El-Rei Duarte, que
depois pacificamente reinou, pelo qual El-Rei foi logo movido cessar da
dita armada, que para emenda e vingança do dito conde fazia, e a mudar
no primeiro proposito de passar em Africa, sobre que primeiro se
fundara. E que a entrega das náos e mercadorias de seus reinos
remedeasse como remedeou, e procurou por embaixadas, que com pessoas
d'autoridade a Inglaterra e a Borgonha muitas vezes depois enviou. E
assi mandou pelo reino suas cartas de percebimentos, com aviso que os
condes e senhores sómente levassem cavallos.