CAPITULO CLXII

_De como tendo El-Rei determinado passar em Africa, convertia a

armada contra os inglezes pela tomada, das náos de Portugal, e

desistiu d'isso pela morte do conde Baroique, e se ordenou a ida

sobre Arzilla_

E n'este anno e assi no passado determinou El-Rei de passar em Africa,

para que teve em pessoa, e assi mandou ter praticas e conselhos em

Lisboa nas casas do conde de Monsanto.

E o primeiro desejo e movimento d'El-Rei foi ir sobre Tangere. Mas

porque para cercar e combater tamanha cidade, por então não se achou no

reino o soprimento que era necessario, desistiu El-Rei d'este proposito,

e com fundamentos de bom conquistador, e com evidentes razões que lhe

foram apontadas, de que se tambem ao diante não perdia a esperança do

cobramento de Tangere, assentou ir sobre Arzilla, que logo por Vicente

Simões, homem nas cousas do mar bem esperto e entendido, e por Pero

d'Alcaçova seu escrivão da fazenda e de que muito fiava, mandou muitas

vezes espiar e vêr, assim no que cumpria para o ancorar e desembarcar do

mar como para o assento da terra. Em que com fingidos negocios com que

os mouros tratavam, acabaram de ser certificados de todo o que para uma

cousa e para a outra era necessario, de que perfeitamente avisaram

El-Rei, que logo mandou fazer no reino e fóra d'elle os percebimentos de

navios, armas e mantimentos para trinta mil homens, com que determinou

passar, e estando El-Rei já casi prestes, foi certificado que doze náos

grossas de seus reinos vindo em canal de Frandes foram tomadas, e suas

mercadorias roubadas por Facumbrix, cosairo, capitão e sobrinho do conde

Baroique, que a este tempo governava o reino de Inglaterra.

E sobre os agravos e lamentações que os mercadores e povo d'estes reinos

acerca de seus damnos e perdas fizeram a El-Rei, elle teve logo conselho

com os principaes de sua côrte. E assi o enviou pedir aos grandes e

senhores do seu reino, que lh'o enviaram por escripto. Dos quaes

sustancialmente foi pela mór parte aconselhado, que a armada d'Africa

que era voluntaria, e convertesse por muitas razões esta contra os

inglezes, que era obrigatoria e necessaria. E que fosse grossa e de

muito e boa gente, para que d'algum castigo d'estes nascesse receio aos

outros muitos, que a seus vassallos não fizessem no mar os males e

damnos que cada dia e sem emenda lhe faziam. Á qual parte El-Rei mais

inclinado, ordenou armar grossamente, e dava por capitão d'armada D.

João filho do duque, que depois foi Condestabre e marquez de

Montemór-o-Novo, e com elle carracas e muitas náos grossas, e outros

navios pequenos em grande numero.

E estando tudo já quasi prestes, veiu certidão a El-Rei estando em

Lisboa, no mez de Junho, que o dito conde Baroique, e o Rei porque

governava Inglaterra, eram em batalha mortos por El-Rei Duarte, que

depois pacificamente reinou, pelo qual El-Rei foi logo movido cessar da

dita armada, que para emenda e vingança do dito conde fazia, e a mudar

no primeiro proposito de passar em Africa, sobre que primeiro se

fundara. E que a entrega das náos e mercadorias de seus reinos

remedeasse como remedeou, e procurou por embaixadas, que com pessoas

d'autoridade a Inglaterra e a Borgonha muitas vezes depois enviou. E

assi mandou pelo reino suas cartas de percebimentos, com aviso que os

condes e senhores sómente levassem cavallos.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. III) · 第 36 / 127 题