XX

--O senhor conego? Quero-lhe fallar. Depressa!

A criada dos Dias indicou ao padre Amaro o escriptorio, e correu acima

contar a D. Josepha que o senhor parocho viera procurar o senhor conego,

e com uma cara tão transtornada que decerto tinha succedido alguma

desgraça!

Amaro abrira abruptamente a porta do escriptorio, fechou-a de repellão,

e sem mesmo dar os bons dias ao collega, exclamou:

--A rapariga está gravida!

O conego, que estava escrevendo, cahiu como uma massa fulminada para as

costas da cadeira:

--Que me diz vossê!?

--Gravida!

E no silencio que se fez o soalho gemia sob os passeios furiosos do

parocho da janella para a estante.

--Está vossê certo d'isso? perguntou emfim o conego com pavor.

--Certissimo! A mulher já ha dias andava desconfiada. Já não fazia senão

chorar... Mas agora é certo... As mulheres conhecem, não se enganam. Ha

todas as provas... Que hei de eu fazer, padre-mestre?

--Olha que espiga! ponderou o conego atordoado.

--Imagine vossê o escandalo! A mãi, a visinhança... E se suspeitam de

mim?... Estou perdido... Eu não quero saber, eu fujo!

O conego coçava estupidamente o cachaço, com o beiço cahido como uma

tromba. Representavam-se-lhe já os gritos em casa, a noite do parto, a

S. Joanneira eternamente em lagrimas, toda a sua tranquillidade extincta

para sempre...

--Mas diga alguma coisa! gritou-lhe Amaro desesperado. Que pensa vossê?

Veja se tem alguma idéa... Eu não sei, eu estou idiota, estou de todo!

--Ahi estão as consequencias, meu caro collega.

--Vá p'r'ó inferno, homem! Não se trata de moral... Está claro que foi

uma asneira... Adeus, está feita!

--Mas então que quer vossê? disse o conego. Não quer decerto que se dê

uma droga á rapariga, que a arrase...

Amaro encolheu os hombros, impaciente com aquella idéa insensata. O

padre-mestre, positivamente, estava divagando...

--Mas então que quer vossê? repetia o conego n'um tom cavo, arrancando

as palavras do abysmo do thorax.

--Que quero!? quero que não haja escandalo! Que hei de eu querer?

--De quantos mezes está ella?

--De quantos mezes? Está d'agora, está d'um mez...

--Então é casal-a! exclamou o conego com explosão. Então é casal-a com o

escrevente!

O padre Amaro deu um pulo:

--C'os diabos, tem vossê razão! É de mestre!

O conego affirmou gravemente com a cabeça que era «de mestre».

--Casal-a já! Emquanto é tempo! _Pater est quem nuptiæ demonstrant_...

Quem é marido é que é pai.

Mas a porta abriu-se, e appareceram os oculos azues, a touca negra de D.

Josepha. Não se pudera conter em cima, na cozinha, tomada d'um phrenesi

agudo de curiosidade; descera na ponta das chinelas e collára o ouvido á

fechadura do escriptorio; mas o grosso reposteiro de baetão estava

cerrado por dentro, um ruido de lenha que se descarregava na rua abafava

as vozes. A boa senhora então decidiu-se a entrar, «a dar os bons dias

ao senhor parocho».

Mas debalde, por detraz dos vidros defumados, os seus olhinhos agudos

esquadrinharam anciosamente o carão espesso do mano e a face pallida

d'Amaro. Os dois sacerdotes estavam impenetraveis como duas janellas

fechadas. O parocho mesmo fallou ligeiramente do rheumatico do senhor

chantre, da notícia que corria sobre o casamento do senhor secretario

geral... Ao fim d'uma pausa ergueu-se, contou que tinha n'esse dia uma

famosa orelheira para o jantar--e a snr.^a D. Josepha, roendo-se, viu-o

abalar depois de ter dito já por detraz do reposteiro ao conego:

--Então até á noite em casa da S. Joanneira, padre-mestre, hein?

--Até á noite.

E o conego, muito grave, continuou a escrever. D. Josepha então não se

conteve; e depois de arrastar um momento as chinelas em torno da banca

do mano:

--Ha novidade?

--Grande novidade, mana! disse-lhe o conego, sacudindo os bicos da

penna. Morreu o senhor D. João VI!

--Malcriado! rugiu ella rodando sobre os sapatões, cruelmente perseguida

por uma risadinha do mano.

Foi á noite, em baixo, na saleta da S. Joanneira, emquanto Amelia em

cima, com a morte n'alma, martellava a _Valsa dos dois mundos_, que os

dois padres, muito chegados no canapé, de cigarro nos dentes, por

debaixo do tenebroso painel onde a vaga mão do cenobita se estendia em

garra sobre a caveira, cochicharam o seu plano:--antes de tudo era

**necessario** achar João Eduardo, que desapparecera de Leiria; a

Dionysia, mulher de faro, ia bater todos os recantos da cidade para

descobrir a toca em que a fera se acoutava; depois, immediatamente,

porque o tempo urgia, Amelia escrever-lhe-hia... Só quatro palavras

simples: que soubera que elle fôra victima d'uma intriga; que nunca

perdera nada da amizade que lhe tinha; que lhe devia uma reparação; e

que **viesse** vêl-a... Se o rapaz hesitasse agora, o que não era

provavel (o conego affirmava-o), fazia-se-lhe reluzir a esperança do

emprego no governo civil, facil d'obter pelo Godinho, inteiramente

governado pela mulher, que era uma escravasinha do padre Silverio...

--Mas o Natario, disse Amaro, o Natario que detesta o escrevente, que

dirá elle a esta revolução?

--Homem, exclamou o conego com uma grande palmada na côxa, que me tinha

esquecido! Pois vossê não sabe o que aconteceu ao pobre Natario?...

Amaro não sabia.

--Quebrou uma perna! Cahiu da egoa!

--Quando?

--Esta manhã. Eu soube-o agora à noitinha. Eu sempre lh'o disse: homem,

esse animal ferra-lhe alguma! Pois senhores, ferrou-lh'a. E têsa! Tem

p'ra pêras... E eu que me tinha esquecido! Nem as senhoras lá em cima

sabem nada.

Foi uma desolação, em cima, quando souberam. Amelia fechou o piano.

Todos lembraram logo remedios que se lhe devia mandar, foi uma gralhada

de offerecimentos--ligaduras, fios, um unguento das freiras d'Alcobaça,

meia garrafinha d'um licôr dos monges do deserto d'ao pé de Cordova...

Era necessario tambem assegurar a intervenção do céo: e cada uma se

promptificou a usar do seu valimento com os santos da sua intimidade: D.

Maria da Assumpção, que ultimamente praticava com Santo Eleuterio,

offereceu a sua influencia; D. Josepha Dias encarregava-se d'interessar

Nossa Senhora da Visitação; D. Joaquina Gansoso afiançou S. Joaquim...

--E lá a menina? perguntou o conego a Amelia.

--Eu?...

E fez-se pallida, n'uma tristeza de toda a sua alma, pensando que ella,

com os seus peccados e os seus delírios, perdera a util amizade de Nossa

Senhora das Dôres.--E não poder ella tambem concorrer com a sua

influencia no céo para restabelecer a perna de Natario, foi uma das

amarguras maiores, talvez a punição mais viva que sentira desde que

amava o padre Amaro.

Foi em casa do sineiro, d'ahi a dias, que Amaro participou a Amelia o

plano do padre-mestre. Preparou-a, revelando-lhe primeiro que o conego

sabia tudo...

--Sabe tudo em segredo de confissão, acrescentou para a socegar. Além

d'isso elle e tua mãi têm culpas em cartorio... Tudo fica em familia...

Depois tomou-lhe a mão, e olhando-a com ternura, como compadecendo-se já

das lagrimas afflictas que ella ia chorar:

--E agora escuta, filha. Não te afflijas com o que te vou dizer, mas é

necessario, é a nossa salvação...

Ás primeiras palavras, porém, do casamento com o escrevente, Amelia

indignou-se com espalhafato.

--Nunca, antes morrer!

O quê? Elle punha-a n'aquelle estado e agora queria descartar-se d'ella

e passal-a a outro? Era ella porventura um trapo que se usa e que se

atira a um pobre? Depois de ter posto fóra de casa o homem, havia de

humilhar-se, chamal-o e cahir-lhe nos braços?... Ah, não! Tambem ella

tinha o seu brio! Os escravos trocavam-se, vendiam-se, mas era no

Brazil!

Enterneceu-se então. Ah, elle já não a amava, estava farto d'ella! Ah,

que desgraçada, que desgraçada que era!--Atirou-se de bruços para a cama

e rompeu n'um chôro estridente.

--Cala-te, mulher, que te podem ouvir na rua! dizia Amaro desesperado,

sacudindo-a pelo braço.

--Não me importa! Que ouçam! P'r'á rua vou eu gritar que estou n'este

estado, que foi o senhor padre Amaro, e que me quer agora deixar!...

Amaro fazia-se livido de raiva, com um desejo furioso de lhe bater. Mas

conteve-se; e com uma voz que tremia sob a sua serenidade:

--Tu estás fóra de ti, filha... Dize lá, posso eu casar comtigo? Não!

Bem, então que queres? Se se percebe que estás assim, se tens o filho em

casa, vê o escandalo!... Por ti, estás perdida, perdida p'ra sempre! E

eu, se se souber, que me succede? Perdido tambem, suspenso, mettido em

processo talvez... De que queres tu que eu viva? Queres que morra de

fome?

Enterneceu-se tambem áquella idéa das privações e das miserias do padre

interdicto.--Ah, era ella, era ella que o não amava, e que depois d'elle

ter sido tão carinhoso e tão delicado, lhe queria pagar com o escandalo

e com a desgraça...

--Não, não! exclamou Amelia em soluços, lançando-se-lhe ao pescoço.

E ficaram abraçados, tremendo no mesmo **enternecimento**,--ella

molhando de pranto o hombro do parocho, elle mordendo o beiço com os

olhos todos turvos d'agua.

Desprendeu-se brandamente, emfim, e limpando as lagrimas:

--Não, filha, é uma desgraça que nos succede, mas tem de ser. Se tu

soffres, imagina eu! Vêr-te casada, a viver com outro... Nem fallemos

n'isso... Mas então, é a fatalidade, é Deus que a manda!

Ella ficára aniquilada, á beira do leito, tomada ainda de grandes

soluços. Tinha chegado emfim o castigo, a vingança de Nossa Senhora, que

ella sentia preparar-se ha tempos no fundo dos céos, como uma tormenta

complicada. Ahi estava, agora, peor que os fogos do Purgatorio! Tinha de

se separar de Amaro que imaginava amar mais, e ir viver com o outro, com

o excommungado! Como poderia ella nunca reentrar na graça de Deus,

depois de ter dormido e vivido com um homem que os canones, o Papa, toda

a terra, todo céo consideravam maldito?... E devia ser esse seu marido,

talvez o pai d'outros filhos... Ah, Nossa Senhora vingava-se de mais!

--E como posso eu casar com elle, Amaro, se o homem está excommungado?!

Amaro então apressou-se a tranquillisal-a, prodigalisando os argumentos.

Era necessario não exagerar... O rapaz, verdadeiramente, excommungado

não estava... Natario e o conego tinham interpretado mal os canones e as

bullas... Bater n'um sacerdote que não estava revestido não era motivo

d'excommunhão _ipso facto_, segundo certos auctores... Elle, Amaro, era

d'essa opinião... De mais a mais podiam levantar-lhe a excommunhão.

--Tu comprehendes... Como disse o santo concilio de Trento, e como

sabes, _nós atamos e desatamos_. O moço foi excommungado?... Bem,

levantamos-lhe a excommunhão... Fica tão limpo como d'antes. Não, isso

não te dê cuidado.

--Mas de que havemos de viver, se elle perdeu o emprego?

--Tu não me deixaste dizer... Arranja-se-lhe o emprego. Arranja-lh'o o

padre-mestre. Está tudo combinadinho, filha!

Ella não respondeu, muito quebrada e muito triste, com duas lagrimas

persistentes ao comprido das faces.

--Dize cá, tua mãi não desconfia de nada?

--Não, por ora não se percebe, respondeu ella com um grande ai.

Ficaram calados: ella limpando as lagrimas, serenando para sahir; elle

de cabeça baixa, trilhando lugubremente o soalho do quarto, pensando nas

boas manhãs d'outr'ora, quando só havia alli beijos e risadinhas

abafadas; tudo mudára agora, até o tempo que estava todo nublado, um dia

de fim de verão, ameaçando chuva.

--Percebe-se que estive a chorar? perguntou ella, compondo ao espelho o

cabello.

--Não. Vaes-te?

--A mamã está á minha espera...

Deram um beijo triste, e ella sahiu.

No emtanto a Dionysia farejava pela cidade na pista de João Eduardo. A

sua actividade desenvolvera-se, sobretudo, mal soubera que o conego

Dias, o ricaço, estava interessado na «pesquiza». E todos os dias, á

noitinha, esgueirava-se cautelosamente pelo portão d'Amaro a dar-lhe as

novidades: já sabia que o escrevente estivera ao principio em Alcobaça

com um primo boticario; depois fôra para Lisboa; ahi, com uma carta de

recommendação do doutor Gouvêa, empregára-se no cartorio d'um

procurador; mas o procurador, passados dias, por uma fatalidade, morrera

de apoplexia; e desde então o rasto de João Eduardo perdia-se no vago,

no cahos da capital. Havia, sim, uma pessoa que lhe devia saber a morada

e os passos: era o typographo, o Gustavo. Mas infelizmente o Gustavo,

depois d'uma questão com o Agostinho, deixára o _Districto_ e

desapparecera. Ninguem sabia para onde fôra; por desgraça, a mãi do

typographo não a podia informar--porque morrera tambem.

--Oh, senhores! dizia o conego quando o padre Amaro lhe ia levar estes

fios d'informação. Oh, senhores! mas então n'essa historia toda a gente

morre! Isso é uma hecatombe!

--Vossê graceja, padre-mestre, mas é sério. Olhe que um homem em Lisboa

é agulha em palheiro. É uma fatalidade!

Então, afflicto já, vendo passar os dias, escreveu á tia, pedindo-lhe

que esquadrinhasse por toda a Lisboa, a vêr se por lá apparecera «um tal

João Eduardo Barbosa...» Recebeu uma carta da tia em garatujas de tres

paginas, queixando-se do Joãosinho, do seu Joãosinho, que lhe fizera a

vida um inferno, embebedando-se com genebra a ponto que não lhe paravam

hospedes em casa. Mas estava agora mais tranquilla: o pobre Joãosinho

havia dias jurára-lhe pela alma da mamã que d'ahi por diante não beberia

senão gazosa. Emquanto ao tal João Eduardo perguntára na visinhança e ao

snr. Palma do ministerio das obras publicas, que conhecia toda a gente,

mas nada averiguára. Havia, sim, um Joaquim Eduardo que tinha uma loja

de quinquilherias no bairro... E se fosse o negocio com elle bem ia, que

era um homem de bem...

--Lérias! lérias! interrompeu o conego impaciente.

Resolveu-se elle então a escrever. E instado pelo padre Amaro (que não

cessava de lhe representar o que a S. Joanneira e elle mesmo, conego

Dias, soffreria com o escandalo) chegou a auctorisar ao seu amigo da

capital as despezas necessarias para empregar a policia. A resposta

demorou-se, mas veio emfim, promettedora e magnifica! O habil policia

Mendes descobrira João Eduardo! Somente não lhe sabia ainda a morada,

avistára-o apenas n'um café; mas em dois ou tres dias o amigo Mendes

promettia informações precisas.

O desespero dos dois sacerdotes, porém, foi grande quando, d'ahi a dias,

o amigo do conego escreveu que o indivíduo, que o habil policia Mendes

tomára por João Eduardo, n'um café da Baixa, sobre signaes incompletos,

era um moço de Santo Thyrso que estava na capital a fazer concurso para

delegado... E havia tres libras e dezesete tostões de despeza.

--Dezesete demonios! rugiu o conego, voltando para Amaro furioso. E no

fim de contas foi o senhor que gozou, que se refocillou, e sou eu que

estou aqui a arrasar a minha saude com estas andadas, e a fazer

desembolsos d'esta ordem!

Amaro, dependente do padre-mestre, vergou os hombros á injuria.

Mas não estava nada perdido, graças a Deus. A Dionysia lá andava no

faro!

Amelia recebia estas noticias com desconsolação. Depois das primeiras

lagrimas, a irremediavel necessidade impuzera-se-lhe, muito forte. Por

fim que lhe restava? D'ahi a dois ou tres mezes, com aquelle seu

desgraçado corpo de cinta fina e quadris estreitos, não poderia esconder

o seu estado. E que faria então? Fugir de casa, ir como a filha do tio

Cegonha para Lisboa, ser espancada no Bairro Alto pelos marujos

inglezes, ou como a Joanninha Gomes, que fôra a amiga do padre Abilio,

levar pela cara os ratos mortos que lhe atiravam os soldados? Não.

Então, tinha de casar...

Depois vir-lhe-hia um menino ao fim dos sete mezes (era tão frequente!),

legitimado pelo sacramento, pela lei e por Deus Nosso Senhor... E o seu

filho teria um papá, receberia uma educação, não seria um engeitado...

Desde que o senhor parocho lhe affirmára, em juramento, que o escrevente

_não estava realmente excommungado_, que com algumas orações se lhe

levantaria a excommunhão, os seus escrupulos devotos esmoreciam como

brazas que se apagam. No fim, em todos os erros do escrevente, ella só

podia descobrir a incitação do ciume e do amor: fôra n'um despeito de

namorado que escrevera o _Communicado_, fôra n'um furor de paixão

trahida que espancára o senhor parocho... Ah! não lhe perdoava esta

brutalidade! Mas que castigado fôra! Sem emprego, sem casa, sem mulher,

tão perdido na miseria anonyma de Lisboa que nem a policia o achava! E

tudo por ella. Pobre rapaz! No fim não era feio... Fallavam da sua

impiedade; mas vira-o sempre muito attento á missa, rezava todas as

noites uma oração especial a S. João que ella lhe dera impressa n'um

cartão bordado...

Com o emprego no governo civil podiam ter uma casinha e uma criada...

Porque não seria feliz, por fim? Elle não era rapaz de botequins, nem de

vadiagem. Tinha a certeza de o dominar, de lhe impôr os seus gostos e as

suas devoções. E seria agradavel sahir aos domingos de manhã para a

missa, arranjada, de marido ao lado, comprimentada de todos, podendo, á

face da cidade, passear o seu filho muito vistoso na sua touca de rendas

e na sua grande capa franjada! Quem sabe se, então, pelos carinhos que

désse ao pequerrucho e pelos confortos de que cercasse o homem, o céo e

Nossa Senhora se não abrandariam! Ah! para isso faria tudo, para ter

outra vez no céo aquella amiga, a sua querida Nossa Senhora, amavel e

confidente, sempre prompta a curar-lhe as dôres, a livral-a de

infortunios, occupada a preparar-lhe no paraiso um luminoso conchego!

Pensava assim horas inteiras, sobre a sua costura; pensava assim, mesmo

no caminho para casa do sineiro; e depois de ter estado um momento com a

Tótó, muito quieta agora, extenuada da febre lenta, quando subia ao

quarto, a primeira pergunta a Amaro era:

--Então, ha alguma novidade?

Elle franzia a testa, rosnava:

--A Dionysia lá anda... Porquê, tens muita pressa?

--Tenho muita pressa, tenho, respondia ella muito séria, que a vergonha

é para mim.

Elle calava-se; e havia tanto odio como amor nos beijos que lhe

dava--áquella mulher que se resignava assim tão facilmente a ir dormir

com outro!

Tinha ciumes d'ella--que lhe tinham vindo ultimamente desde que a vira

conformar-se áquelle casamento odioso! Agora, que ella já não chorava,

começava a enfurecer-se da falta das suas lagrimas; e secretamente

desesperava-se d'ella não preferir a vergonha com elle á rehabilitação

com o outro. Não lhe custaria tanto se ella continuasse a barafustar, a

fazer um alarido de prantos; isso seria uma prova séria de amor, em que

a sua vaidade se banharia deliciosamente; mas aquella aceitação do

escrevente agora, sem repugnancia e sem gestos d'horror, indignava-o

como uma traição. Viera a suspeitar que a ella no fundo não lhe

_desagradava a mudança_. João Eduardo por fim era um homem; tinha a

força dos vinte e seis annos, os attractivos d'um bello bigode. Ella

teria nos braços d'elle o mesmo delirio que tinha nos seus... Se o

escrevente fosse um velho consumido de rheumatismo, ella não mostraria a

mesma resignação. Então, por vingança do padre, para «lhe desmanchar o

arranjo», desejava que João Eduardo não apparecesse: e muitas vezes,

quando a Dionysia lhe vinha dar conta dos passos, dizia-lhe com um mau

sorriso:

--Não se canse. O homem não apparece. Deixe lá... Não vale a pena ganhar

dôr de peito...

Mas a Dionysia tinha o peito forte--e uma noite veio, triumphante,

dizer-lhe que estava na pista do homem! Vira emfim o Gustavo, o

typographo, entrar para a casa de pasto do tio Osorio. Ao outro dia

ia-lhe fallar, e havia de se saber tudo...

Foi uma hora amargurada para Amaro. Aquelle casamento, por que anciára

no primeiro momento de terror, agora, que o sentia seguro, parecia-lhe a

catastrophe da sua vida.

Perdia Amelia para sempre!... Aquelle homem que elle expulsára, que elle

supprimira, alli lhe vinha, por uma d'estas peripecias malignas em que a

Providencia se compraz, levar-lhe a mulher legitimamente. E a idéa que

elle ia tel-a nos braços, que ella lhe daria os beijos fogosos que lhe

dava a elle, que balbuciaria _oh, João!_--como agora murmurava _oh,

Amaro!_--enfurecia-o. E não podia evitar o casamento; todos o queriam,

ella, o conego, até a Dionysia com o seu zêlo venal!

De que lhe servia ser um homem com sangue nas veias e as paixões fortes

d'um corpo são? Tinha de dizer adeus á rapariga,--vêl-a partir de braço

dado com o _outro_, com o marido, irem ambos para casa brincar com o

filho, um filho que era seu! E elle assistiria á destruição da sua

alegria de braços cruzados, esforçando-se por sorrir, voltaria a viver

só, eternamente só, e a relêr o Breviario!... Ah! se fosse no tempo em

que se supprimia um homem com uma denuncia d'heresia!... Que o mundo

recuasse duzentos annos, e o snr. João Eduardo havia de saber o que

custa achincalhar um sacerdote e casar com a menina Amelia...

E esta idéa absurda, na exaltação da febre em que estava, apoderou-se

tão fortemente da sua imaginação que toda a noite a sonhou--n'um sonho

vivido, que muitas vezes depois contou rindo ás senhoras. Era uma rua

estreita batida d'um sol ardente; entre as altas portas chapeadas, uma

populaça apinhava-se; pelos balcões, fidalgos muito bordados retorciam o

bigode cavalheiresco; olhos reluziam, entre as pregas das mantilhas,

accêsos n'um furor santo. E pela calçada, a procissão do auto-de-fé

movia-se devagar, n'um vasto ruido, sob o tremendo dobre a finados de

todos os sinos visinhos. Adiante os flagellantes semi-nus, de capuz

branco sobre o rosto, dilaceravam-se, uivando o _Miserere_, com as

costas empastadas de sangue: sobre um jumento ia João Eduardo, idiota de

terror, com as pernas pendentes, a camisa alva sarapintada de diabos côr

de fogo, tendo ao peito um rotulo em que estava escripto--POR HEREJE;

por traz um medonho servente do Santo Officio espicaçava furiosamente o

jumento; e ao pé um padre, erguendo alto o crucifixo, berrava-lhe aos

ouvidos os conselhos do arrependimento. E elle, Amaro, caminhava ao lado

cantando o _Requiem_, de Breviario aberto n'uma mão, com a outra

abençoando as velhas, as amigas da rua da Misericordia que se agachavam

para lhe beijar a alva. Ás vezes voltava-se para gozar aquella pompa

lugubre, e via então a longa fila da confraria dos Nobres: aqui era um

personagem pansudo e apopletico, além uma face de mystico com um bigode

feroz e dois olhos chammejantes; cada um levava uma tocha accêsa, e na

outra mão sustentava o chapéo cuja pluma negra varria o chão. Os

capacetes dos arcabuzeiros reluziam; uma cólera devota contorcia as

faces esfomeadas do populacho; e o prestito ondeava nas tortuosidades da

rua, entre o clamor do canto-chão, os gritos dos fanaticos, o dobrar

aterrador dos sinos, o tlim-tlim das armas, n'um terror que enchia toda

a cidade,--aproximando-se da platafórma de tijolo onde já fumegavam as

pilhas de lenha.

E o seu desengano foi grande, depois d'aquella gloria ecclesiastica do

sonho, quando a criada o veio acordar cedo com agua quente para a barba.

Era pois n'esse dia que se ia saber do snr. João Eduardo, e

escrever-se-lhe!... Devia encontrar-se com Amelia ás onze horas; e foi a

primeira coisa que lhe disse, atirando a porta do quarto com mau modo:

--O homem appareceu... Pelo menos appareceu o amigo intimo, o

typographo, que sabe onde a bêsta pára...

Amelia, que estava n'um dia de desalento e terror, exclamou:

--Ainda bem, que se acaba este tormento!

Amaro teve um risinho repassado de fel:

--Então agrada-te, hein?

--Se te parece, n'este susto em que ando...

Amaro teve um gesto desesperado, d'impaciencia. Susto! Não estava má

hypocrisia! Susto de quê? Com uma mãi que era uma babosa, que lhe

consentia tudo... O que era, era que queria casar... Queria outro! Não

lhe agradava aquelle divertimento pela manhã, de fugida... Queria a

coisa commodamente, em casa. Imaginava a menina que o illudia a elle, um

homem de trinta annos e quatro annos de experiencia de confissão? Via

bem através d'ella... Era como as outras, queria mudar d'homem.

Ella não respondia, muito pallida. E Amaro, furioso com o seu silencio:

--Calas-te, está claro... Que has de tu dizer? Se é a verdade pura!...

Depois dos meus sacrificios... Depois do que tenho soffrido por ti...

Apparece-te o outro, larga para o outro!

Ella ergueu-se, e batendo o pé, desesperada:

--Foste tu que quizeste, Amaro!

--Pudera! Se imaginas que me havia de perder por tua causa! Está claro

que quiz!...--E olhando-a d'alto, fazendo-lhe sentir um desprezo d'alma

muito recta:--Mas nem vergonha tens de mostrar a alegria, o furor de ir

para o homem!... És uma desavergonhada, é o que é...

Ella, sem uma palavra, branca como a cal, agarrou o mantelete para

sahir.

Amaro, exasperado, segurou-a violentamente pelo braço:

--P'ra onde vaes? Olha bem p'ra mim. És uma desavergonhada... Estou-te a

dizer. Estás morta por dormir com o outro...

--Pois acabou-se, estou! disse ella.

Amaro, perdido, atirou-lhe uma bofetada.

--Não me mates! gritou ella. É o teu filho!

Elle ficou diante d'ella, enleado e tremulo: áquella palavra, áquella

idéa do seu filho, uma piedade, um amor desesperado revolveu todo o seu

sêr: e arremessando-se sobre ella, n'um abraço que a esmagava, como

querendo sepultal-a no peito, absorvel-a toda só para si, atirando-lhe

beijos furiosos que a magoavam, pela face e pelos cabellos:

--Perdôa, murmurava, perdôa, minha Ameliasinha! Perdôa, que estou doido!

Ella soluçava, n'um pranto nervoso;--e toda a manhã foi no quarto do

sineiro um delirio d'amor a que aquelle sentimento da maternidade,

ligando-os como um sacramento, dava uma ternura maior, um renascimento

incessante de desejo, que os lançava cada vez mais ávidos nos braços um

do outro.

Esqueceram as horas; e Amelia só se decidiu a saltar do leito quando

ouviram em baixo na cozinha a muleta do tio Esguelhas.

Emquanto ella se arranjava á pressa diante do bocado d'espelho que

ornava a parede, Amaro diante d'ella contemplava-a com melancolia,

vendo-a a passar o pente nos cabellos--nos cabellos que elle dentro em

breve não tornaria a vêr pentear; deu um grande suspiro, disse-lhe

enternecido:

--Estão a acabar os nossos bons dias, Amelia. És tu que queres... Has de

te lembrar algumas vezes d'estas boas manhãs...

--Não digas isso! fez ella com os olhos arrazados d'agua.

E atirando-se-lhe de repente ao pescoço, com a antiga paixão dos tempos

felizes, murmurou-lhe:

--Hei de ser sempre a mesma para ti... Mesmo depois de casada.

Amaro agarrou-lhe as mãos sôfregamente:

--Juras?

--Juro.

--Pela hostia sagrada?

--Juro pela hostia sagrada, juro por Nossa Senhora!

--Sempre que tenhas occasião?

--Sempre!

--Oh, Ameliasinha! oh, filha! não te trocava por uma rainha!

Ella desceu. O parocho, dando uma arranjadella ao leito, ouvia-a em

baixo fallar tranquillamente com o tio Esguelhas; e dizia comsigo que

era uma grande rapariga, capaz d'enganar o diabo, e que havia de fazer

andar n'uma roda viva o pateta do escrevente.

Aquelle «pacto», como lhe chamava o padre Amaro, tornou-se entre elles

tão irrevogavel que já lhe discutiam tranquillamente os detalhes. O

casamento com o escrevente consideravam-no como uma d'estas necessidades

que a sociedade impõe e que suffoca as almas independentes, mas a que a

natureza se subtrae pela menor fenda, como um gaz irreductivel. Diante

de Nosso Senhor, o verdadeiro marido d'Amelia era o senhor parocho; era

o marido da alma, para quem seriam guardados os melhores beijos, a

obediencia intima, a vontade; o outro teria quando muito o _cadaver_...

Já ás vezes mesmo tramavam o plano habil das correspondencias secretas,

dos logares occultos de _rendez-vous_...

Amelia estava de novo, como nos primeiros tempos, em todo o fogo da

paixão. Diante da certeza que em algumas semanas o casamento ia tornar

«tudo branco como a neve», os seus transes tinham desapparecido, o mesmo

terror da vingança do céo calmára-se. Depois, a bofetada que lhe dera

Amaro fôra como a chicotada que esperta um cavallo que preguiça e se

atraza: e a sua paixão, sacudindo-se e relinchando forte, ia-a de novo

levando no impeto d'uma carreira fogosa.

Amaro, esse regosijava-se. Ainda ás vezes, decerto, a idéa d'aquelle

homem, de dia e de noite com ella, importunava-o... Mas, no fundo, que

compensações! Todos os perigos desappareciam magicamente, e as sensações

requintavam. Findavam para elle aquellas atrozes responsabilidades da

seducção, e ficava-lhe a mulher mais appetitosa.

Instava agora com a Dionysia para que acabasse emfim aquella fastidiosa

campanha. Mas a boa mulher, decerto para se fazer pagar melhor pela

multiplicidade d'esforços, não podia descobrir o typographo--aquelle

famoso Gustavo que possuia, como os anões de romance de cavallaria, o

segredo da torre maravilhosa onde vive o principe encantado.

--Oh, senhor! dizia o conego, isso até já cheira mal! Ha quasi dois

mezes á busca d'um patife!... Homem, escreventes não faltam. Arranje-se

outro!

Mas emfim, uma noite em que elle entrára a descansar em casa do parocho,

a Dionysia appareceu; e exclamou logo da porta da sala de jantar, onde

os dois padres tomavam o seu café:

--Até que emfim!

--Então, Dionysia?

A mulher, porém, não se apressou: sentou-se mesmo, com licença dos

senhores, porque vinha derreada... Não, o senhor conego não imaginava os

passos que se vira obrigada a dar... O maldito typographo lembrava-lhe a

historia, que lhe contavam em pequena, d'um veado que estava sempre á

vista e que os caçadores a galope nunca alcançavam. Uma perseguição

assim!... Mas, finalmente apanhára-o... E tocadito, por signal.

--Acabe, mulher! berrou o conego.

--Pois aqui está, disse ella. Nada!

Os dois sacerdotes olharam-na mystificados.

--Nada quê, creatura?

--Nada. O homem foi p'r'ó Brazil!

O Gustavo recebera de João Eduardo duas cartas: na primeira, onde lhe

dava a morada, para o lado do Poço do Borratem, annunciava-lhe a

resolução de ir para o Brazil; na segunda dizia-lhe que mudára de casa,

sem lhe indicar a nova _adresse_, e declarava que pelo proximo paquete

embarcava para o Rio; não dizia nem com que dinheiro, nem com que

esperanças. Tudo era vago e mysterioso. Desde então, havia um mez, o

rapaz não tornára a escrever, d'onde o typographo concluia que ia a essa

hora nos altos mares...--«Mas havemos de vingal-o!» tinha elle dito a

Dionysia.

O conego remexia pausadamente o seu café, embatocado.

--E esta, padre-mestre? exclamou Amaro, muito branco.

--Acho-a boa.

--Diabo levem as mulheres, e o inferno as confunda! disse surdamente

Amaro.

--Amen, respondeu gravemente o conego.

O crime do padre Amaro, scenas da vida devota · 第 38 / 45 题