Uma circumstancia inesperada veio estragar aquellas manhãs da casa do
sineiro. Foi a extravagancia da Tótó. Como disse o padre Amaro, «a
rapariga sahia-lhes um monstro»!
Tinha agora por Amelia uma aversão desabrida. Apenas ella se aproximava
da cama, atirava a cabeça para debaixo dos cobertores, torcendo-se com
phrenesi se lhe sentia a mão ou a voz. Amelia fugia, impressionada com a
idéa de que o diabo que habitava a Tótó, recebendo o cheiro que ella
trazia da igreja nos vestidos, impregnados d'incenso e salpicados d'agua
benta, se espolinhava de terror dentro do corpo da rapariga...
Amaro quiz reprehender a Tótó, fazer-lhe sentir, em palavras tremendas,
a sua ingratidão demoniaca para com a menina Amelia que vinha
entretel-a, ensinal-a a conversar com Nosso Senhor... Mas a paralytica
rompeu n'um chôro hysterico; depois, de repente, ficou immovel, hirta,
esbugalhando os olhos em alvo, com uma escuma branca na bôca. Foi um
grande susto; inundaram-lhe a cama d'agua; Amaro, por prudencia, recitou
os exorcismos... E Amelia desde então resolveu «deixar a fera em paz».
Não tentou mais ensinar-lhe o alphabeto, nem orações a Sant'Anna.
Mas, por escrupulo, iam sempre ao entrar vêl-a um instante. Não passavam
da porta da alcova, perguntando-lhe d'alto «como ia». Nunca respondia. E
elles retiravam-se logo aterrados com aquelles olhos selvagens e
brilhantes, que os devoravam, indo d'um a outro, percorrendo-lhes o
corpo, fixando-se com uma faiscação metallica nos vestidos d'Amelia e na
batina do padre, como para lhe adivinhar o que estava por baixo, n'uma
curiosidade avida que lhe dilatava desesperadamente as narinas e lhe
arreganhava os beiços lividos. Mas era a mudez, obstinada e rancorosa,
que os incommodava sobretudo. Amaro, que não acreditava muito em
possessos e endemoninhados, via alli os symptomas de _loucura furiosa_.
Os sustos d'Amelia augmentaram.--Felizmente que as pernas inertes
cravavam a Tótó alli na enxerga! Senão, Jesus, era capaz de lhes entrar
no quarto e mordêl-os n'um accesso!
Declarou a Amaro que nem lhe sabia bem o prazer da manhã, «depois
d'aquelle espectaculo»; e decidiu então, d'ahi por diante, subir para o
quarto sem fallar á Tótó.
Foi peor. Quando a via atravessar da porta da rua para a escada, a Tótó
debruçava-se para fóra do leito, agarrada ás bordas da enxerga, n'um
esforço ancioso para a seguir, para a vêr, com a face toda descomposta
do desespero da sua immobilidade. E Amelia ao entrar no quarto sentia
vir de baixo uma risadinha sêcca, ou um _ui!_ prolongado e uivado que a
gelava...
Andava agora aterrada: viera-lhe a idéa que Deus estabelecera alli, ao
lado do seu amor com o parocho, um demonio implacavel para a escarnecer
e apupar. Amaro, querendo-a tranquillisar, dizia-lhe que o nosso santo
padre Pio IX, ultimamente, declarára peccado crêr em _pessoas
possessas_...
--Mas para que ha rezas, então, e exorcismos?
--Isso é da religião velha. Agora vai-se mudar tudo isso... Emfim a
sciencia é a sciencia...
Ella presentia que Amaro a enganava--e a Tótó estragava a sua
felicidade. Emfim Amaro achou o meio de escaparem «á maldita rapariga»:
era entrarem ambos pela sacristia: tinham apenas a atravessar a cozinha
para subir a escada, e a posição da cama da Tótó, na alcova, não lhe
permittia vêl-os, quando elles cautelosamente passassem pé ante pé. Era
facil, de resto, porque á hora do _rendez-vous_, entre as onze e o meio
dia, nos dias de semana, a sacristia estava deserta.
Mas succedia que, quando elles entravam em pontas de pés e mordendo a
respiração, os seus passos, por mais subtis, faziam ranger os velhos
degraus da escada. E então a voz da Tótó sahia da alcova, uma voz rouca
e aspera, berrando:
--Passa fóra cão! passa fóra cão!
Amaro tinha um desejo furioso de estrangular a paralytica. Amelia
tremia, toda branca.
E a creatura uivava de dentro:
--Lá vão os cães! lá vão os cães!
Elles refugiavam-se no quarto, aferrolhando-se por dentro. Mas aquella
voz d'um desolamento lugubre, que lhes parecia vir dos infernos,
chegava-lhes ainda, perseguia-os:
--Estão a pegar-se os cães! estão a pegar-se os cães!
Amelia cahia sobre o catre, quasi desmaiada de terror. Jurava não voltar
áquella casa maldita...
--Mas que diabo queres tu? dizia-lhe o padre furioso. Onde nos havemos
de vêr então? Queres que nos deitemos nos bancos da sacristia?
--Mas que lhe fiz eu? que lhe fiz eu? exclamava Amelia, apertando as
mãos.
--Nada! É doida... E o pobre tio Esguelhas tem tido um desgosto...
Emfim, que queres que lhe faça?
Ella não respondia. Mas em casa, quando se ia aproximando o dia de
_rendez-vous_, começava a tremer á idéa d'aquella voz que lhe atroava
sempre nos ouvidos e que sentia em sonhos. E este terror ia-a
despertando lentamente do adormecimento de todo o sêr, era que cahira
nos braços do parocho. Interrogava-se agora: não andaria commettendo um
peccado irremissivel? As affirmações de Amaro, assegurando-lhe o perdão
do Senhor, já não a tranquillisavam. Ella bem via, quando a Tótó uivava,
uma pallidez cobrir o rosto do parocho, como correr-lhe no corpo um
calefrio do inferno entrevisto. E se Deus os desculpava--porque deixava
assim o demonio atirar-lhes, pela voz da paralytica, a injuria e o
escarneo?
Ajoelhava então aos pés da cama, arremessava orações sem fim para Nossa
Senhora das Dôres, pedindo-lhe que a alumiasse, que lhe dissesse o que
era aquella perseguição da Tótó, e se era sua intenção divina mandar-lhe
assim um aviso medonho. Mas Nossa Senhora não lhe respondia. Não a
sentia como outr'ora descer do céo ás suas orações, entrar-lhe na alma
aquella tranquillidade suave como uma onda de leite que era uma
visitação da Senhora. Ficava toda murcha, torcendo as mãos, abandonada
da graça. Promettia então não voltar a casa do sineiro;--mas quando o
dia chegava, á idéa d'Amaro, do leito, d'aquelles beijos que lhe levavam
a alma, d'aquelle fogo que a penetrava, sentia-se toda fraca contra a
tentação; vestia-se, jurando que era a ultima vez; e ao toque das onze
partia, com as orelhas a arder, o coração tremendo da voz da Tótó que ia
ouvir, as entranhas abrazando-se no desejo do homem que a ia atirar para
cima da enxerga.
Ao entrar na igreja não rezava, com medo dos santos.
Corria para a sacristia para se refugiar em Amaro, abrigar-se á
auctoridade sagrada da sua batina. Elle então, vendo-a chegar tão
pallida e tão transtornada, galhofava para a tranquillisar. Não, era uma
tolice, se iam agora estragar o regalosinho d'aquellas manhãs, porque
havia uma doida na casa! Promettera-lhe de resto procurar outro sitio
para se vêrem: e mesmo com o fim de a distrahir, aproveitando a solidão
da sacristia, mostrava-lhe ás vezes os paramentos, os calices, as
vestimentas, procurando interessal-a por um frontal novo ou por uma
antiga renda de sobrepelliz, provando-lhe, pela familiaridade com que
tocava nas reliquias, que era ainda o senhor parocho e não perdera o seu
credito no céo.
Foi assim que uma manhã lhe fez vêr uma capa de Nossa Senhora, que havia
dias chegára de presente d'uma devota rica d'Ourem. Amelia admirou-a
muito. Era de setim azul, representando um firmamento, com estrellas
bordadas, e um centro, de lavor rico, onde flammejava um coração d'ouro
cercado de rosas d'ouro. Amaro desdobrára-a, fazendo scintillar junto da
janella os bordados espessos.
--Rica obra, hein? centos de mil reis... Experimentamol-a hontem na
imagem... Vai-lhe como um brinco. Um bocadito comprida, talvez...--E
olhando Amelia, n'uma comparação da sua alta estatura com a figura
atarracada da imagem da Senhora:--A ti é que te havia de ficar bem.
Deixa vêr...
Ella recuou:
--Não, credo, que peccado!
--Tolice! disse elle adiantando-se com a capa aberta, mostrando o forro
de setim branco, d'uma alvura de nuvem matutina. Não está benzida... É
como se viesse da modista.
--Não, não, dizia ella frouxamente, com os olhos já luzidios de desejo.
Elle então zangou-se. Queria talvez saber melhor do que elle o que era
peccado, não? Vinha agora a menina ensinar-lhe o respeito que se deve
aos vestuarios dos santos?
--Ora não seja tola. Deixe vêr.
Poz-lh'a nos hombros, apertou-lhe sobre o peito o fecho de prata
lavrada. E afastou-se para a contemplar toda envolvida no manto,
assustada e immovel, com um sorriso cálido de gozo devoto.
--Oh filhinha, que linda que ficas!
Ella então, movendo-se com uma cautela solemne, chegou-se ao espelho da
sacristia--um antigo espelho de reflexo esverdeado com um caixilho negro
de carvalho lavrado, tendo no topo uma cruz. Mirou-se um momento,
n'aquella sêda azul celeste que a envolvia toda, picada do brilho agudo
das estrellas, com uma magnificencia sideral. Sentia-lhe o peso rico. A
santidade que o manto adquirira no contacto com os hombros da imagem
penetrava-a d'uma voluptuosidade beata. Um fluido mais dôce que o ar da
terra envolvia-a, fazia-lhe passar no corpo a caricia do ether do
paraiso. Parecia-lhe ser uma santa no andor, ou mais alto, no céo...
Amaro babava-se para ella:
--Oh filhinha, és mais linda que Nossa Senhora!
Ella deu uma olhadella viva ao espelho. Era, decerto, linda. Não tanto
como Nossa Senhora... Mas com o seu rosto trigueiro, de labios rubros,
alumiado por aquelle rebrilho dos olhos negros, se estivesse sobre o
altar, com cantos ao orgão e um culto susurrando em redor, faria
palpitar bem forte o coração dos fieis...
Amaro então chegou-se por detraz d'ella, cruzou-lhe os braços sobre o
seio, apertou-a toda--e estendendo os labios por sobre os d'ella,
deu-lhe um beijo mudo, muito longo... Os olhos d'Amelia cerravam-se, a
cabeça inclinava-se-lhe para traz, pesada de desejo. Os beiços do padre
não se desprendiam, avidos, sorvendo-lhe a alma. A respiração d'ella
apressava-se, os joelhos tremiam-lhe: e com um gemido desfalleceu sobre
o hombro do padre, descórada e morta de gozo.
Mas endireitou-se de repente, fixou Amaro batendo as palpebras como
acordada de muito longe; uma onda de sangue escaldou-lhe o rosto:
--Oh Amaro, que horror, que peccado!...
--Tolice! disse elle.
Mas ella desprendia-se do manto, toda afflicta:
--Tira-m'o, tira-m'o! gritava, como se a sêda a queimasse.
Então Amaro fez-se muito sério. Realmente não se devia brincar com
coisas sagradas...
--Mas não está benzida... Não tem duvida...
Dobrou o manto cuidadosamente, envolveu-o no lençol branco, collocou-o
no gavetão, sem uma palavra. Amelia olhava-o petrificada: e só os seus
labios pallidos se moviam n'uma oração.
Quando elle lhe disse, emfim, que eram horas d'irem a casa do
sineiro--recuou, como diante do demonio que a chamasse.
--Hoje não! exclamou, implorando-o.
Elle insistiu. Era levar realmente muito longe a pieguice... Ella bem
sabia que não era peccado, quando as coisas não estavam benzidas... Era
ser muito pobre d'espirito... Que demonio, só meia hora, ou um quarto
d'hora!
Ella, sem responder, ia-se aproximando da porta.
--Então não queres?
Ella voltou-se, e com uns olhos supplicantes:
--Hoje não!
Amaro encolheu os hombros. E Amelia atravessou rapidamente a igreja, de
cabeça baixa e olhos nas lages, como se passasse entre as ameaças
cruzadas dos santos indignados.
No dia seguinte de manhã, a S. Joanneira, que estava na sala de jantar,
sentindo o senhor conego subir soprando forte, veio encontral-o á escada
e fechou-se com elle na saleta.
Queria contar-lhe a afflicção que tivera de madrugada. A Amelia acordára
de repente aos gritos, que Nossa Senhora lhe estava a pousar o pé no
pescoço! que suffocava! que a Tótó a queimava por detraz! e que as
labaredas do inferno subiam mais alto que as torres da Sé!... Emfim um
horror!... Viera encontral-a em camisa a correr pelo quarto, como doida.
D'ahi a pouco cahira para o lado com um ataque de nervos. Toda a casa
estivera em alvoroço... A pobre pequena lá estava de cama, e em toda a
manhã apenas tocára n'uma colher de caldo.
--Pesadêlos, disse o conego. Indigestão!
--Ai, senhor conego, não! exclamou a S. Joanneira, que parecia
acabrunhada, sentada diante d'elle na borda d'uma cadeira. É outra
coisa: são aquellas desgraçadas visitas á filha do sineiro!
E então desabafou, com a effusão labial de quem abre os diques a um
descontentamento accumulado. Nunca quizera dizer nada, porque emfim
reconhecia que era uma grande obra de caridade. Mas, desde que aquillo
começára, a rapariga parecia transtornada. Ultimamente, então, andava de
todo. Ora alegrias sem razão, ora umas trombas de dar melancolia aos
moveis. De noite sentia-a passear pela casa até tarde, abrir as
janellas... Ás vezes tinha até medo de lhe vêr o olhar tão exquisito:
quando vinha de casa do sineiro era sempre branca como a cal, a cahir de
fraqueza. Tinha de tomar logo um caldo... Emfim, dizia-se que a Tótó
tinha o demonio no corpo. E o senhor chantre, o outro que tinha morrido
(Deus lhe falle n'alma), costumava dizer que n'este mundo as duas coisas
que se pegavam mais ás mulheres eram tisicas e demonio no corpo.
Parecia-lhe, pois, que não devia consentir que a pequena fosse a casa do
sineiro, sem estar certa que aquillo nem lhe prejudicava a saude nem lhe
prejudicava a alma. Emfim, queria que uma pessoa de juizo,
d'experiencia, fosse examinar a Tótó...
--N'uma palavra, disse o conego que escutára d'olhos cerrados aquella
verbosidade repassada de lamuria, o que a senhora quer é que eu vá vêr a
paralytica e saber á justa o que se passa...
--Era um allivio p'ra mim, riquinho!
Aquella palavra, que S. Joanneira, na sua gravidade de matrona,
reservava para a intimidade das séstas, enterneceu o conego. Fez uma
caricia ao pescoço gordo da sua velhota, prometteu com bondade ir
estudar o caso...
--Ámanhã, que a Tótó está só, lembrou logo a S. Joanneira.
Mas o conego preferia que Amelia estivesse presente. Podia assim vêr
como as duas se davam, se havia influencia do espirito maligno...
--Que isto que eu faço é d'agradecer... É por ser p'ra quem é... Que bem
me bastam os meus achaques, sem me occupar dos negocios de Satanaz.
A S. Joanneira recompensou-o com uma beijoca sonora.
--Ah, sereias, sereias!... murmurou o conego philosophicamente.
No fundo aquelle encargo desagradava-lhe: era uma perturbação nos seus
habitos, toda uma manhã desarranjada; ia decerto fatigar-se, tendo
d'exercitar a sua sagacidade; além d'isso odiava o espectaculo de
doenças e de todas as circumstancias humanas relacionadas com a morte.
Mas, emfim, fiel á sua promessa, d'ahi a dias, na manhã em que fôra
prevenido que Amelia ia á Tótó, arrastou-se contrariado para a botica do
Carlos; e installou-se, com um olho no _Popular_ e outro na porta, á
espera que a rapariga **atravessasse** para a Sé. O amigo Carlos estava
ausente; o snr. Augusto occupava os seus vagares sentado á escrivaninha,
de testa sobre o punho, relendo o seu Soares de Passos; fóra, o sol já
quente dos fins de abril fazia rebrilhar o lageado do largo; não passava
ninguem; e só quebravam o silencio as martelladas nas obras do doutor
Pereira. Amelia tardava. E o conego, depois de ter considerado longo
tempo, com o _Popular_ cahido nos joelhos, o medonho sacrificio que
fazia pela sua velhota, ia cerrando as palpebras, já tomado da
quebreira, n'aquelle repouso calado do meio dia proximo--quando entrou
na botica um ecclesiastico.
--Oh, abbade Ferrão, vossê pela cidade! exclamou o conego Dias
despertando do seu quebranto.
--De fugida, collega, de fugida, disse o outro collocando
cuidadadosamente sobre uma cadeira dois grossos volumes que trazia,
amarrados n'um barbante.
Depois voltou-se e tirou com respeito o seu chapéo ao praticante.
Tinha o cabello todo branco; devia passar já dos sessenta annos; mas era
robusto, uma alegria bailava sempre nos seus olhinhos vivos, e tinha
dentes magnificos a que uma saude de granito conservava o esmalte; o que
o desfigurava era um nariz enorme.
Informou-se logo com bondade se o amigo Dias estava alli de visita ou
infelizmente por motivo de doença.
--Não, estou aqui á espera... Uma embaixada de truz, amigo Ferrão!
--Ah, fez o velho discretamente.--E emquanto tirava com methodo d'uma
carteira atulhada de papeis a receita para o praticante, deu ao conego
noticias da freguezia. Era lá, nos Poyaes, que o conego tinha a fazenda,
a Ricoça. O abbade Ferrão passára de manhã diante da casa e ficára
surprehendido vendo que lhe andavam a pintar a fachada. O amigo Dias
tinha algumas idéas d'ir lá passar o verão?
Não, não tinha. Mas como trouxera obras dentro e a fachada estava uma
vergonha, mandára-lhe dar uma mão d'oca. Emfim era necessario alguma
apparencia, sobretudo n'uma casa que estava á beira da estrada, onde
passava todos os dias o morgadelho dos Poyaes, um parlapatão que
imaginava que só elle tinha um palacete decente em dez leguas á roda...
Só para metter ferro áquelle atheu! Pois não lhe parecia, amigo Ferrão?
O abbade estava justamente lamentando comsigo aquelle sentimento de
vaidade n'um sacerdote; mas, por caridade christã, para não contrariar o
collega, apressou-se a dizer:
--Está claro, está claro. A limpeza é a alegria das coisas...
O conego então, vendo passar no largo uma saia e um mantelete, foi á
porta affirmar-se se era Amelia. Não era. E voltando, retomado agora da
sua preoccupação, vendo que o praticante fôra dentro ao laboratorio,
disse ao ouvido do Ferrão:
--Uma embaixada da fortuna! Vou vêr uma endemoninhada!
--Ah, fez o abbade, todo sério á idéa d'aquella responsabilidade.
--Quer vossê vir commigo, abbade? É aqui perto...
O abbade desculpou-se polidamente. Viera fallar ao senhor vigario geral,
fôra depois ao Silverio para lhe pedir aquelles dois volumes, vinha alli
aviar uma receita para um velho da freguezia, e tinha d'estar de volta
aos Poyaes ao toque das duas horas.
O conego insistiu; era um instante, e o caso parecia curioso...
O abbade então confessou ao caro collega que eram coisas que não gostava
d'examinar. Aproximava-se sempre d'ellas com um espirito rebelde á
crença, com desconfianças e suspeitas que lhe diminuiam a
imparcialidade.
--Mas emfim ha prodigios! disse o conego.--Apesar das suas proprias
duvidas, não gostava d'aquella hesitação do abbade, a proposito d'um
phenomeno sobrenatural, em que elle, conego Dias, estava interessado.
Repetiu com seccura:--Tenho alguma experiencia, e sei que ha prodigios.
--Decerto, decerto ha prodigios, disse o abbade. Negar que Deus ou a
Rainha do céo possa apparecer a uma creatura é contra a doutrina da
Igreja... Negar que o demonio possa habitar o corpo de um homem, seria
estabelecer um erro funesto... Aconteceu a Job, sem ir mais longe, e á
familia de Sara. Está claro, ha prodigios. Mas que rarissimos que são,
conego Dias!
Calou-se um momento olhando o conego, que tapava o nariz com rapé em
silencio--e continuou mais baixo, com o olho brilhante e fino:
--E depois não tem o collega notado que é uma coisa que só succede ás
mulheres? É só a ellas, cuja **malicia** é tão grande que o proprio
Salomão não lhes pôde resistir, cujo temperamento é tão nervoso, tão
contradictorio que os medicos não as comprehendem. É só a ellas que
succedem prodigios!... O collega já ouviu de ter apparecido a nossa
Santa Virgem a um respeitavel tabellião? Já ouviu d'um digno juiz de
direito possuido do espirito maligno? Não. Isto faz reflectir... E eu
concluo que é malicia n'ellas, illusão, imaginação, doença, etc... Não
lhe parece? A minha regra n'esses casos é vêr tudo isso d'alto e com
muita indifferença.
Mas o conego, que vigiava a porta, brandiu subitamente o guardasol,
fazendo para o largo:
--Pst, pst! Eh lá!
Era Amelia que passava. Parou logo, contrariada d'aquelle encontro que a
ia ainda retardar mais. E já o senhor parocho devia estar desesperado...
--De modo que, disse o conego á porta abrindo o seu guardasol, vossê,
abbade, era lhe cheirando a prodigio...
--Suspeito logo escandalo.
O conego contemplou-o um momento, com respeito:
--Vossê, Ferrão, é capaz de dar quinaus a Salomão em prudencia!
--Oh, collega! oh, collega! exclamou o abbade, offendido com aquella
injustiça feita á incomparavel sabedoria de Salomão.
--Ao proprio Salomão! affirmou ainda o conego da rua.
Tinha preparado uma historia habil para justificar a sua visita á
paralytica; mas durante a sua conversação com o abbade ella
escapára-lhe, como tudo o que deixava um momento nos reservatorios da
memoria; e foi sem transição que disse simplesmente a Amelia:
--Vamos lá, tambem quero ir vêr essa Tótó!
Amelia ficou petrificada. E o senhor parocho, naturalmente, já lá
estava! Mas sua madrinha Nossa Senhora das Dôres, que ella invocou logo
n'aquella afflicção, não a deixou enleada no embaraço.--E o conego, que
caminhava ao lado d'ella, ficou surprehendido ouvindo-lhe dizer com um
risinho:
--Viva, hoje é o dia das visitas á Tótó! O senhor parocho disse-me que
tambem talvez hoje apparecesse por lá... Talvez lá esteja até.
--Ah! O amigo parocho tambem? Está bom, está bom. Faremos uma consulta á
Tótó!
Amelia então, contente da sua malicia, tagarellou sobre a Tótó. O senhor
conego ia vêr... Era uma creatura incomprehensivel... Ultimamente, ella
não tinha querido contar em casa, mas a Tótó tomára-lhe birra... E dizia
coisas, tinha um modo de fallar de cães e d'animaes, d'arripiar!... Ai,
era um encargo que já lhe pesava... Que a rapariga não lhe escutava as
lições, nem as orações, nem os conselhos... Era uma fera!
--O cheiro é desagradavel! rosnou o conego entrando.
Que queria! A rapariga era uma porca, não havia tel-a arranjado. O pai,
esse, um desleixado tambem...
--É aqui, senhor conego, disse, abrindo a porta da alcova--que agora, em
obediencia ás ordens do senhor parocho, o tio Esguelhas deixava sempre
fechada.
Encontraram a Tótó meio erguida sobre a cama, com a face accêsa n'uma
curiosidade, áquella voz do conego que não conhecia.
--Ora viva lá a snr.^a Tótó! disse elle da porta, sem se aproximar.
--Vá, comprimenta o senhor conego, disse Amelia, começando logo, com uma
caridade desacostumada, a compôr a roupa da cama, a arrumar a alcova.
Dize-lhe como estás... Não te faças amuada!
Mas a Tótó permaneceu tão muda como a imagem de S. Bento que tinha á
cabeceira, examinando muito aquelle sacerdote tão gordo, tão grisalho,
tão differente do senhor parocho... E os seus olhos, mais brilhantes
todos os dias á medida que se lhe cavavam as faces, iam, como de
costume, do homem para Amelia, n'uma anciedade de perceber porque o
trazia ella alli, aquelle velho obeso, e se ia tambem subir com elle
para o quarto.
Amelia agora tremia. Se o senhor parocho entrasse, e alli, diante do
cónego, a Tótó, tomada do seu phrenesi, rompesse aos gritos, tratando-os
de cães!... Com o pretexto de dar uma arrumadella foi à cozinha vigiar o
pateo. Faria um signal da janella, apenas Amaro apparecesse.
E o conego, só na alcova da Tótó, preparando-se para começar as suas
observações, ia perguntar-lhe quantas eram as pessoas da Santissima
Trindade,--quando ella, adiantando a face, lhe disse n'uma voz subtil
como um sôpro:
--E o outro?
O conego não comprehendeu. Que fallasse alto! Que era?
--O outro, o que vem com ella!
O conego chegou-se, com a orelha dilatada de curiosidade:
--Que outro?
--O bonito. O que vai com ella p'ró quarto. O que a belisca...
Mas Amelia entrava: e a paralytica calou-se logo, repousada, com os
olhos cerrados e respirando regaladamente, como n'um allivio repentino
de todo o seu soffrimento. O conego, esse, immobilisado d'assombro,
permanecia na mesma postura, dobrado sobre a cama como para ascultar a
Tótó. Ergueu-se por fim, soprou como n'uma calma d'agosto, sorveu
d'espaço uma pitada forte; e ficou com a caixa aberta entre os dedos, os
olhos muito vermelhos cravados na colcha da Tótó.
--Então, senhor conego, que lhe parece cá a minha doente? perguntou
Amelia.
Elle respondeu, sem a olhar:
--Sim senhor, muito bem... Vai bem... É exquisita... Pois é andar, é
andar... Adeus...
Sahiu, resmungando que tinha negocios,--e voltou immediatamente á
botica.
--Um copo d'agua! exclamou, cahindo em cheio sobre a cadeira.
O Carlos, que voltára, apressou-se, offerecendo flôr de laranja,
perguntando se sua excellencia estava incommodado...
--Cansadote, disse.
Tomou o _Popular_ de sobre a mesa, e alli ficou, sem se mexer, abysmado
nas columnas do periodico. O Carlos tentou fallar da politica do paiz,
depois dos negocios d'Hespanha, depois dos perigos revolucionarios que
ameaçavam a Sociedade, depois da deficiencia da administração do
concelho de que era agora um adversario feroz... Debalde. Sua
excellencia grunhia apenas monosyllabos soturnos. E o Carlos, emfim,
recolheu-se a um silencio chocado, comparando, n'um desdem interior que
lhe vincava de sarcasmo os cantos dos beiços, a obtusidade soturna
d'aquelle sacerdote à palavra inspirada d'um Lacordaire e d'um Malhão!
Por isso o Materialismo em Leiria, em todo o Portugal erguia a sua
cabeça d'hydra...
Batia uma hora na torre quando o conego, que vigiava a Praça pelo canto
do olho, vendo passar Amelia, arremessou o jornal, sahiu da botica sem
dizer uma palavra e estugou o seu passo d'obeso para casa do tio
Esguelhas. A Tótó estremeceu de medo ao vêr de novo aquella figura
bojuda apparecer á porta da alcova. Mas o conego riu-se para ella,
chamou-lhe Tótósinha, prometteu-lhe um pinto para bolos; e mesmo
sentou-se aos pés da cama com um _ah!_ regalado, dizendo:
--Ora vamos nós agora conversar, amiguinha... Esta é que é a pernita
doente, hein? Coitadita! Deixa que te has de curar... Hei de pedir a
Deus... Fica por minha conta.
Ella fazia-se ora toda branca ora toda vermelha, olhando aqui e além,
inquieta, na perturbação que lhe dava aquelle homem a sós com ella tão
perto que lhe sentia o halito forte.
--Então, ouve cá, disse elle chegando-se mais para ella, fazendo ranger
o catre com o seu peso. Ouve cá, quem é o outro? Quem é que vem com a
Amelia?
Ella respondeu logo, atirando as palavras d'um fôlego:
--É o bonito, é o magro, vêm ambos, sobem p'r'ó quarto, fecham-se por
dentro, são como cães!
Os olhos do conego injectaram-se para fóra das orbitas:
--Mas quem é elle, como se chama? O teu pai que te disse?
--É o outro, é o parocho, o Amaro! fez ella impaciente.
--E vão p'r'ó quarto, hein? lá p'ra cima? E tu que ouves, tu que ouves?
Dize tudo, pequena, dize tudo!
A paralytica então contou, com um furor que dava tons sibilantes à sua
voz de tisica,--como ambos entravam, e a vinham vêr, e se roçavam um
pelo outro, e abalavam para o quarto em cima, e estavam lá uma hora
fechados...
Mas o conego, com uma curiosidade lubrica que lhe punha uma chamma nos
olhos mortiços, queria saber os detalhes torpes:
--E ouve lá, Tótósinha, tu que ouves? Ouves ranger a cama?
Ella respondeu com a cabeça affirmativamente, toda pallida, os dentes
cerrados.
--E olha, Tótósinha, já os viste beijarem-se, abraçarem-se? Anda, dize,
que te dou dois pintos.
Ella não descerrava os labios; e a sua face transtornada parecia ao
conego selvagem.
--Tu embirras com ella, não é verdade?
Ella fez que sim n'uma affirmação feroz de cabeça.
--E vistel-os beliscarem-se?
--São como cães! soltou ella por entre os dentes.
O conego então endireitou-se, bufou outra vez com o seu grande sôpro
d'encalmado, e coçou vivamente a corôa.
--Bem, disse, erguendo-se. Adeus, pequena... Agasalha-te. Não te
constipes...
Sahiu; e ao fechar com força a porta exclamou alto:
--Isto é a infamia das infamias! Eu mato-o! eu perco-me!
Esteve um momento considerando e partiu para a rua das Sousas, de
guardasol em riste, apressando a sua obesidade, com a face apopletica de
furor. No largo da Sé, porém, parou a reflectir ainda; e rodando sobre
os tacões, entrou na igreja. Ia tão levado que, esquecendo um habito de
quarenta annos, não dobrou o joelho ao Santissimo. E arremessou-se para
a sacristia--justamente quando o padre Amaro sahia, calçando
cuidadosamente as luvas pretas que usava agora sempre para agradar á
Ameliasinha.
O aspecto descomposto do conego assombrou-o.
--Que é isso, padre-mestre?
--O que é? exclamou o conego de golpe, é a maroteira das maroteiras! É a
sua infamia! é a sua infamia!...
E emmudeceu, suffocado de cólera.
Amaro, que se fizera muito pallido, balbuciou:
--Que está vossê a dizer, padre-mestre?
O conego tomára fôlego:
--Não ha padre-mestre! O senhor desencaminhou a rapariga! Isso é que é
uma canalhice mestra!
O padre Amaro, então, franziu a testa como descontente d'um gracejo:
--Que rapariga!? O senhor está a brincar...
Sorriu mesmo, affectando segurança; e os seus beiços brancos tremiam.
--Homem, eu vi! berrou o conego.
O parocho, subitamente aterrado, recuou:
--Viu!?
Imaginára n'um relance uma traição, o conego escondido n'um recanto da
casa do tio Esguelhas...
--Não vi, mas é como se visse!--continuou o conego n'um tom tremendo.
Sei tudo. Venho de lá. Disse-m'o a Tótó. Fecham-se no quarto horas e
horas! Até se ouve em baixo ranger a cama! É uma ignominia !
O parocho, vendo-se pilhado, teve, como um animal acossado e entalado a
um canto, uma resistencia de desespero.
--Diga-me uma coisa. O que é que o senhor tem com isso?
O conego pulou.
--O que tenho!? o que tenho!? Pois o senhor ainda me falla n'esse tom!?
O que tenho é que vou d'aqui immediatamente dar parte de tudo ao senhor
vigario geral!
O padre Amaro, livido, foi para elle com o punho fechado:
--Ah, seu maroto!
--Que é lá? que é lá? exclamou o conego de guardasol erguido. Vossê
quer-me pôr as mãos?
O padre Amaro conteve-se; passou a mão sobre a testa em suor, com os
olhos cerrados; e depois de um momento, fallando com uma serenidade
forçada:
--Ouça lá, senhor conego Dias. Olhe que eu vi-o ao senhor uma vez na
cama com a S. Joanneira...
--Mente! mugiu o conego.
--Vi, vi, vi! affirmou o outro com furor. Uma noite ao entrar em casa...
O senhor estava em mangas de camisa, ella tinha-se erguido, estava a
apertar o collete. Até o senhor me perguntou «_quem está ahi?_» Vi, como
estou a vêl-o agora. O senhor a dizer uma palavra, e eu a provar-lhe que
o senhor vive ha dez annos amigado com a S. Joanneira, á face de todo o
clero! Ora ahi tem!
O conego, já antes esfalfado dos excessos do seu furor, ficou agora,
áquellas palavras, como um boi atordoado. Só pôde dizer d'ahi a pouco,
muito murcho:
--Que traste que vossê me sae!
O padre Amaro então, quasi tranquillo, certo do silencio do conego,
disse com bonhomia:
--Traste porquê? Diga-me lá! Traste porquê? Temos ambos culpas no
cartorio, eis ahi está. E olhe que eu não fui perguntar, nem peitar a
Tótó... Foi muito naturalmente ao entrar em casa. E se me vem agora com
coisas de moral, isso faz-me rir. A moral é para a escóla e para o
sermão. Cá na vida eu faço isto, o senhor faz aquillo, os outros fazem o
que podem. O padre-mestre que já tem idade agarra-se á velha, eu que sou
novo arranjo-me com a pequena. É triste, mas que quer? É a natureza que
manda. Somos homens. E como sacerdotes, para honra da classe, o que
temos é fazer costas!
O conego escutava-o, bamboleando a cabeça, na aceitação muda d'aquellas
verdades. Tinha-se deixado cahir n'uma cadeira, a descansar de tanta
cólera inutil; e erguendo os olhos para Amaro:
--Mas vossê, homem, no começo da carreira!
--E vossê, padre-mestre, no fim da carreira!
Então riram ambos. Immediatamente cada um declarou retirar as palavras
offensivas que tinha dito; e apertaram-se gravemente a mão. Depois
conversaram.
O conego, o que o tinha enfurecido era ser lá com a pequena de casa. Se
fosse com outra... até estimava! Mas a Ameliasinha!... Se a pobre mãi
viesse a saber estourava de desgosto.
--Mas a mãi escusa de saber! exclamou Amaro. Isto é entre nós,
padre-mestre! Isto é segredo de morte! Nem a mãi sabe de nada, nem eu
mesmo digo á pequena o que se passou hoje entre nós. As coisas ficam
como estavam, e o mundo continua a rolar... Mas vossê, padre-mestre,
tenha cuidado!... Nem uma palavra á S. Joanneira... Que não haja agora
traição!
O conego, com a mão sobre o peito, deu gravemente a sua palavra d'honra
de cavalheiro e de sacerdote que aquelle segredo ficava para sempre
sepultado no seu coração.
Então apertaram ainda uma outra vez affectuosamente a mão.
Mas a torre gemeu as tres badaladas. Era a hora de jantar do conego.
E ao sahir, batendo nas costas de Amaro, fazendo luzir um olho
d'entendedor:
--Pois seu velhaco, tem dedo!
--Que quer vossê? Que diabo... Começa-se por brincadeira...
--Homem! disse o conego sentenciosamente, é o que a gente leva de melhor
d'este mundo.
--É verdade, padre-mestre, é verdade! É o que a gente leva de melhor
d'este mundo.
Desde esse dia Amaro gozou uma completa tranquillidade d'alma. Até ahi
incommodava-o, por vezes, a idéa de que correspondera ingratamente á
confiança, aos carinhos que lhe tinham prodigalisado na rua da
Misericordia. Mas a tacita approvação do conego viera tirar-lhe, como
elle dizia, aquelle espinho da consciencia. Porque emfim, o chefe de
familia, o cavalheiro respeitavel, o cabeça--era o conego. A S.
Joanneira era apenas uma concubina... E Amaro mesmo, às vezes agora, em
tom de galhofa, tratava o Dias de _seu caro sogro_.
Outra circumstancia viera alegral-o: a Tótó adoecera de repente: o dia
seguinte ao da visita do conego, passára-o soltando golfadas de sangue:
o doutor Cardoso, chamado á pressa, fallára de tisica galopante, questão
de semanas, caso decidido...
--É d'estas, meu amigo, tinha elle dito, que é trás... trás...--Era a
sua maneira de pintar a morte, que, quando tem pressa, conclue o seu
trabalho com uma fouçada aqui, outra além.
As manhãs na casa do tio Esguelhas eram agora tranquillas. Amelia e o
parocho já não entravam em pontas de pés, tentando esgueirar-se para o
prazer, despercebidos da Tótó. Batiam com as portas, palravam forte,
certos que a Tótó estava bem prostrada de febre, sob os lençoes humidos
dos suores constantes. Mas Amelia, por escrupulo, não deixava de rezar
todas as noites uma salve-rainha pelas melhoras da Tótó. Ás vezes mesmo
ao despir-se, no quarto do sineiro, parava de repente, e fazendo um
rostinho triste:
--Ai, filho! até me parece peccado, nós aqui a gozarmos, e a pobre
pequena lá em baixo a luctar com a morte...
Amaro encolhia os hombros. Que lhe haviam elles de fazer, se era a
vontade de Deus?...
E Amelia, resignando-se á vontade de Deus em tudo, ia deixando cahir as
sáias.
Tinha agora d'aquellas pieguices frequentes que impacientavam o padre
Amaro. Em certos dias apparecia muito murcha; trazia sempre algum sonho
lugubre a contar, que a torturára toda a noite, e em que ella pretendia
descobrir avisos de desgraças...
Perguntava-lhe ás vezes:
--Se eu morresse, tinhas muita pena?
Amaro enfurecia-se. Realmente era estupido! Tinham apenas uma hora para
se verem, e haviam d'estar a estragal-a com lamurias?
--É que não imaginas, dizia ella, trago o coração negro como a noite.
Com effeito as amigas da mãi estranhavam-na. Ás vezes durante serões
inteiros não descerrava os labios, pendida sobre a sua costura, picando
mollemente a agulha; ou então, muito cansada mesmo para trabalhar,
ficava junto da mesa fazendo girar devagar o _abat-jour_ verde do
candieiro, com o olhar vazio e a alma muito longe.
--Ó rapariga, deixa esse _abat-jour_ em paz! diziam-lhe as senhoras
nervosas.
Ella sorria, dava um suspiro fatigado, e retomava muito lentamente a
sáia branca que havia semanas andava abainhando. A mãi, vendo-a sempre
tão pallida, pensára em chamar o doutor Gouveia.
--Não é nada, minha mãi, é nervoso, passa...
O que provava a todos que era nervoso eram os sustos subitos que a
tomavam--a ponto de dar um grilo, quasi desmaiar, se de repente uma
porta batia. Certas noites mesmo, exigia que a mãi viesse dormir ao pé
d'ella, com medo de pesadêlos e de visões.
--É o que diz sempre o senhor doutor Gouveia, observava a mãi ao conego,
é uma rapariga que necessita casar...
O conego pigarreava grosso.
--Não lhe falta nada, resmungava. Tem tudo o que precisa. Tem de mais,
ao que parece...
Era com effeito a idéa do conego, que a rapariga (como elle dizia só
comsigo) «andava-se a arrasar de felicidade». Nos dias em que sabia que
ella fôra vêr a Tótó, não se fartava de a estudar, cocando-a do fundo da
poltrona com um olho pesado e lubrico. Prodigalisava-lhe agora as
familiaridades paternaes. Nunca a encontrava na escada sem a deter, com
coceguinhas aqui e alli, palmadinhas na face muito prolongadas. Queria-a
em casa repetidas vezes pela manhã; e emquanto Amelia palrava com D.
Josepha, o conego não cessava de rondar em torno d'ella, arrastando as
chinelas com um ar de velho gallo. E eram entre Amelia e a mãi conversas
sem fim sobre esta amizade do senhor conego, que decerto lhe deixaria um
bom dote.
--Seu maganão, tem dedo!--dizia sempre o conego quando estava só com
Amaro, arregalando os olhos redondos. Aquillo é um bocado de rei!
Amaro entufava-se:
--Não é mau bocado, padre-mestre, é um bom bocado.
Era este um dos **grandes** gozos d'Amaro--ouvir gabar aos collegas a
belleza d'Amelia, que era chamada entre o clero «a flôr das devotas».
Todos lhe invejavam aquella confessada. Por isso insistia muito com ella
em que se ajanotasse nos domingos, á missa; zangára-se mesmo ultimamente
de a vêr quasi sempre entrouxada n'um vestido de merino escuro, que lhe
dava um ar de velha penitente.
Mas Amelia, agora, já não tinha aquella necessidade amorosa de contentar
em tudo o senhor parocho. Acordára quasi inteiramente d'aquelle
adormecimento estupido d'alma e do corpo, em que a lançára o primeiro
abraço de Amaro. Vinha-lhe apparecendo distinctamente a consciencia
pungente da sua culpa. N'aquelles negrumes d'um espirito beato e
escravo, fazia-se um amanhecimento de razão.--O que era ella no fim? A
concubina do senhor parocho. E esta idéa, posta assim descarnadamente,
parecia-lhe terrivel. Não que lamentasse a sua virgindade, a sua honra,
o seu bom nome perdido. Sacrificaria mais ainda por elle, pelos delirios
que elle lhe dava. Mas havia alguma coisa peor a temer que as
reprovações do mundo: eram as vinganças de Nosso Senhor. Era da perda
possivel do paraiso que ella gemia baixo; ou de mais medonho ainda,
d'algum castigo de Deus, não das punições transcendentes que acabrunham
a alma além da tumba, mas dos tormentos que vêm durante a vida, que a
feririam na sua saude, no seu bem-estar e no seu corpo. Eram vagos medos
de doenças, de lepras, de paralysias ou de pobrezas, de dias de fome--de
todas essas penalidades de que ella suppunha prodigo o Deus do seu
catecismo. Como em pequena, nos dias em que se esquecia de pagar á
Virgem o seu tributo regular de salve-rainhas, temia que ella a fizesse
cahir na escada ou levar palmatoadas na mestra, arrefecia de medo agora,
á idéa de que Deus, em castigo d'ella se deitar na cama com um padre,
lhe mandasse um mal que a desfigurasse ou a reduzisse a pedir esmola
pelas viellas. Estas idéas não a deixavam, desde o dia em que na
sacristia peccára de concupiscencia dentro do manto de Nossa Senhora.
Tinha a certeza que a Santa Virgem a odiava, e que não cessava de
reclamar contra ella; debalde procurava abrandal-a, com um fluxo
incessante de orações humilhadas; sentia bem Nossa Senhora, inaccessivel
e desdenhosa, de costas voltadas. Nunca mais aquelle divino rosto lhe
sorrira; nunca mais aquellas mãos se tinham aberto para receber com
agrado as suas orações, como ramos congratulatorios. Era um silencio
sêcco, uma hostilidade gelada de divindade offendida. Ella conhecia o
credito que Nossa Senhora tem nos concilios do céo; desde pequena lh'o
tinham ensinado; tudo o que ella deseja o obtem, como uma recompensa
devida aos seus prantos no Calvario; seu Filho sorri-lhe á sua direita,
o Deus-Padre falla-lhe á esquerda... E comprehendia bem que para ella
não havia esperança--e que alguma coisa medonha se preparava lá era
cima, no paraiso, que lhe cahiria um dia sobre o corpo e sobre a alma,
esmagando-a com um desabamento de catastrophe. Que seria?
Cessaria as suas relações com Amaro, se o ousasse: mas receava quasi
tanto a sua cólera como a de Deus. Que seria d'ella, se tivesse contra
si Nossa Senhora e o senhor parocho? Além d'isso, amava-o. Nos seus
braços, todo o terror do céo, a mesma idéa do céo desapparecia;
refugiada alli, contra o seu peito, não tinha medo das iras divinas: o
desejo, o furor da carne, como um vinho muito alcoolico, davam-lhe uma
coragem colerica; era com um brutal desafio ao céo que se enroscava
furiosamente ao seu corpo.--Os terrores vinham depois, só no seu quarto.
Era esta lucta que a empallidecia, lhe punha pregas d'envelhecimento ao
canto dos labios seccos e ardidos, lhe dava aquelle ar murcho de fadiga
que irritava o padre Amaro.
--Mas que tens tu, que parece te espremeram o succo? perguntava-lhe elle
quando aos primeiros beijos a sentia toda fria, toda inerte.
--Passei mal a noite... Nervoso.
--Maldito nervoso! rosnava o padre Amaro impaciente.
Depois vinham perguntas singulares que o desesperavam, repetidas agora
todos os dias. Se tinha dito a missa com fervor? Se tinha lido o
Breviario? Se tinha feito a oração mental?...
--Sabes tu que mais? disse elle furioso. Sêbo! E esta! Tu pensas que eu
sou ainda seminarista, e que tu és o padre examinador, que verifica se
cumpri a Regra? Ora a tolice!
--É que é necessario estar bem com Deus, murmurava ella.
Era com effeito a sua preoccupação, agora, que Amaro _fosse um bom
padre_. Contava, para se salvar e para se livrar da cólera de Nossa
Senhora, com a influencia do parocho na côrte de Deus: e temia que elle
por negligencia de devoção a perdesse, e que, diminuindo o seu fervor,
diminuissem os seus meritos aos olhos do Senhor. Queria-o conservar
santo e favorito do céo, para colher os proveitos da sua protecção
mystica.
Amaro chamava a isto «caturrices de freira velha». Detestava-as, por as
achar frivolas--e porque tomavam um tempo precioso, n'aquellas manhãs da
casa do sineiro...
--Nós não viemos aqui para lamurias, dizia elle, muito sêccamente. Fecha
a porta, se queres.
Ella obedecia,--e então aos primeiros beijos na penumbra da janella
cerrada, elle reconhecia emfim a sua Amelia, a Amelia dos primeiros
dias, o delicioso corpo que lhe tremia todo nos braços, em espasmos de
paixão.
E cada dia a desejava mais, d'um desejo continuo e tyrannico, que
aquellas horas escassas não satisfaziam. Ah! positivamente, como mulher
não havia outra!... Desafiava a que houvesse outra, mesmo em Lisboa,
mesmo nas fidalgas!... Tinha pieguices, sim, mas era não as tomar a
sério, e gozar emquanto era novo!
E gozava. A sua vida por todos os lados tinha confortos e doçuras--como
uma d'estas salas onde tudo é acolchoado, não ha moveis duros nem
angulos, e o corpo, onde quer que pouse, encontra a elasticidade molle
d'uma almofada.
Decerto, o melhor eram as suas manhãs em casa do tio Esguelhas. Mas
tinha outros regalos. Comia bem: fumava caro n'uma boquilha d'espuma:
toda a sua roupa branca era nova e de linho: comprára alguma mobilia: e
não tinha, como outr'ora, embaraços de dinheiro, porque a snr.^a D.
Maria da Assumpção, a sua melhor confessada, lá estava com a bolsa
prompta. Sobretudo, ultimamente, tivera uma pechincha: uma noite em casa
da S. Joanneira, a excellente senhora, a proposito d'uma familia
d'inglezes que vira passar n'um _char-á-banc_ para ir visitar a Batalha,
exprimira a opinião que os inglezes eram herejes.
--São baptisados como nós, observára D. Joaquina Gansoso.
--Pois sim, filha, mas é um baptismo para rir. Não é o nosso rico
baptismo, não lhes vale.
O conego então, que gostava de a torturar, declarou pausadamente que a
snr.^a D. Maria dissera uma blasphemia. O santo concilio de Trento, no
seu canon IV, sessão VII, lá determinára «que aquelle que disser que o
baptismo dado aos herejes, em nome do Padre, do Filho e do Espirito, não
é o verdadeiro baptismo, seja excommungado!» E a D. Maria, segundo o
santo concilio, estava desde esse momento excommungada!...
A excellente senhora teve um flato. Ao outro dia foi lançar-se aos pés
d'Amaro, que em penitencia da sua injuria feita ao canon IV, sessão VII
do santo concilio de Trento, lhe ordenou trezentas missas de intenção
pelas almas do purgatorio--que D. Maria lhe estava pagando a cinco
tostões cada uma.
Assim, elle podia ás vezes entrar na casa do tio Esguelhas com um ar de
satisfação mysteriosa e um embrulhosinho na mão. Era algum presente para
Amelia, um lenço de sêda, uma gravatinha de côres, um par de luvas. Ella
extasiava-se com aquellas provas da affeição do senhor parocho; e era
então no quarto escuro um delirio d'amor, emquanto em baixo a tisica,
sobre a Tótó, ia fazendo «trás... trás...»