D. Josepha escutava-o, babosa; e n'uma admiração:

--Ai, senhor parocho, que até dá virtude ouvil-o!

Amaro curvou-se:

--Deus ás vezes, na sua bondade, inspira-me justas palavras... Pois

minha senhora, eu não quero massar mais. Ficamos entendidos. A senhora

falla á pequena ámanhã; e se, como é de crêr, ella consentir em escutar

os meus conselhos, traz-m'a á Sé no sabbado, ás oito horas. E falle-lhe

têso, D. Josepha!

--Deixe-a commigo, senhor parocho!... Então não quer provar da minha

marmelada?

--Provarei, disse Amaro tomando um ladrilho em que cravou os dentes com

dignidade.

--É dos marmelos da D. Maria. Sahiu-me melhor que a das Gangosinhos...

--Pois adeus, D. Josepha... Ah, é verdade, que diz o nosso conego d'este

caso do escrevente?

--O mano?...

N'este momento a campainha em baixo repicou com furor.

--Ha de ser elle, disse logo D. Josepha. E vem zangado!

Vinha, com effeito, da fazenda--furioso com o caseiro, o regedor, o

governo e a perversidade dos homens. Tinham-lhe roubado uma porção de

cebolinho; e, abafado de cólera, alliviava-se repetindo com gozo o nome

do Inimigo.

--Credo, mano, que até lhe fica mal!--exclamou D. Josepha tomada

d'escrupulos.

--Ora mana, deixemos essas pieguices para a quaresma! Digo _co'os

diabos!_ e repito _co'os diabos_! Mas eu lá disse ao caseiro, que se

sentir gente na fazenda, carregue a espingarda e faça fogo!

--Ha uma falta de respeito pela propriedade... disse Amaro.

--Ha uma falta de respeito por tudo! exclamou o conego. Um cebolinho que

dava saude só olhar para elle! Pois senhores, lá vai! Isto é o que eu

chamo um sacrilegio!... Um desaforado sacrilegio!--acrescentou

convictamente; porque o roubo do seu cebolinho, o cebolinho d'um conego,

parecia-lhe um acto tão negro d'impiedade como se tivessem sido furtados

os vasos santos da Sé.

--Falta de temor a Deus, falta de religião, observou D. Josepha.

--Qual falta de religião! replicou o conego exasperado. Falta de cabos

de policia, é o que é!--E voltando-se para Amaro:--Hoje é o enterro da

velha, hein? Inda mais essa! Vá, mana, mande-me lá dentro uma volta

lavada e os sapatos de fivela!

O padre Amaro então, retomado pela sua preoccupação:

--Estavamos cá a fallar do caso do João Eduardo: o _Communicado_!

--Isso é outra maroteira que tal! fez logo o conego. Vejam essa, tambem!

Que quadrilha vai pelo mundo, que quadrilha!--E ficou de braços

cruzados, com os olhos arregalados, como contemplando uma legião de

monstros, soltos pelo universo, e arremessando-se com impudencia contra

as reputações, os principios da Igreja, a honra das familias e o

cebolinho do clero.

Ao sahir, o padre Amaro renovou ainda as suas recommendações a D.

Josepha, que o acompanhára ao patamar:

--Então hoje, noite de pezames, não se faz nada. Ámanhã falla á

rapariga, e lá para o fim da semana leva-m'a á Sé. Bem. E convença a

rapariga, D. Josepha, trate de salvar aquella alma! Olhe que Deus tem os

olhos em si. Falle-lhe têso, falle-lhe têso!... E o nosso conego que se

entenda com a S. Joanneira.

--Póde ir descansado, senhor parocho. Sou madrinha, e, quer ella queira

quer não, hei de pôl-a no caminho da salvação...

--Amen, disse o padre Amaro.

N'essa noite, com effeito, D. Josepha «não fez nada». Eram os pezames na

rua da Misericordia. Estavam em baixo, na saleta, alumiada lugubremente

por uma só vela com um _abat-jour_ verde-escuro. A S. Joanneira e

Amelia, de luto, occupavam tristemente o canapé ao centro; e em redor,

nas fileiras de cadeiras apoiadas á parede, as amigas, cobertas de negro

pesado, conservavam-se funebremente immoveis, de faces contristadas,

n'um torpôr mudo: ás vezes duas vozes ciciavam, ou d'um canto, na

sombra, sahia um suspiro: depois o Libaninho, ou Arthur Couceiro, ia em

bicos de pés espevitar o murrão da véla: a snr.^a D. Maria da Assumpção

expectorava o seu catarrho com um som choroso: e no silencio ouviam

tamancos bater o lagedo da rua, ou os quartos d'hora no relogio da

Misericordia.

A intervallos a _Ruça_, toda de negro, entrava com o taboleiro de dôces

e copos de chasada; levantava-se então o _abat-jour_; e as velhas, que

já iam cerrando as palpebras, sentindo a sala mais clara, levavam logo

os lenços aos olhos, e, com ais, serviam-se de bolinhos da Encarnação.

João Eduardo lá estava, a um canto, ignorado, ao pé da Gansoso surda que

dormia com a boca aberta: toda a noite o seu olhar procurara debalde o

olhar d'Amelia, que não se movia, com o rosto sobre o peito, as mãos no

regaço, torcendo e destorcendo o seu lenço de cambraiela. O padre Amaro

e o conego Dias vieram ás nove horas: o parocho com passos graves foi

dizer á S. Joanneira:

--Minha senhora, o golpe é grande. Mas consolemo-nos, pensando que sua

excellentissima mana está a esta hora gozando a companhia de Jesus

Christo.

Houve em redor uma murmuração de soluços; e como não restavam cadeiras,

os dois ecclesiasticos sentaram-se aos dois cantos do canapé, tendo no

meio a S. Joanneira e Amelia em lagrimas. Eram assim reconhecidos

pessoas de familia; a snr.^a D. Maria da Assumpção notou baixinho a D.

Joaquina Gansoso:

--Ai, até dá gosto vêl-os assim todos quatro!

E até ás dez horas a noite de pezames continuou soturna e somnolenta,

perturbada apenas pela tosse constante de João Eduardo que estava

constipado, e que--na opinião da snr.^a D. Josepha Dias que o disse a

todos, depois--«tossia só para fazer troça e para achincalhar o respeito

aos mortos».

D'ahi a dois dias, ás oito horas da manhã, a snr.^a D. Josepha Dias e

Amelia entraram na Sé--depois de terem fallado no terraço á Amparo,

mulher do boticario, que tinha uma criança com sarampo, e, apesar de não

ser coisa de cuidado, «viera á cautela fazer uma promessa».

O dia estava ennevoado, a igreja tinha uma luz parda. Amelia, pallida

sob a sua mantilha de renda, parou defronte do altar de Nossa Senhora

das Dôres, deixou-se cahir de joelhos, e ficou immovel, com o rosto

sobre o livro de missa. A snr.^a D. Josepha Dias, com passos fôfos,

depois de se ter prostrado diante da capella do Santíssimo e do

altar-mór, foi empurrar devagarinho a porta da sacristia: o padre Amaro

lá passeava, com os hombros vergados, as mãos atraz das costas:

--Então? perguntou logo, erguendo para D. Josepha a sua face muito

barbeada, onde os olhos reluziam inquietos.

--Está alli, disse a velha baixinho, n'uma expressão de triumpho. Fui eu

mesmo buscal-a! Ai, fallei-lhe têso, senhor parocho, não lh'as poupei!

Agora é comsigo!

--Obrigado, obrigado, D. Josepha! disse o padre, apertando-lhe as mãos

ambas com força. Deus ha de lh'o levar em conta.

Olhou em redor, nervoso; apalpou-se para sentir o lenço, a carteira dos

papeis; e, cerrando devagarinho a porta da sacristia, desceu á igreja.

Amelia ainda estava ajoelhada, fazendo um vulto negro immovel contra o

pilar branco.

--Pst, fez-lhe D. Josepha.

Ella ergueu-se devagar, muito escarlate, compondo tremulamente com as

mãos as pregas da mantilha em roda do pescoço.

--Aqui lh'a deixo, senhor parocho, disse a velha. Vou á Amparo da

botica, e venho depois por ella... Ora vai, filha, vai, Deus t'alumie

essa alma!

E sahiu, com mesuras a todos os altares.

O Carlos da botica--que era inquilino do conego e um pouco ronceiro na

renda--desbarretou-se com espalhafato apenas D. Josepha appareceu á

porta, e conduziu-a logo acima, á sala de cortinas de cassa, onde a

Amparo costurava á janella.

--Ai, não se prenda, snr. Carlos, dizia-lhe a velha. Não largue os seus

afazeres. Eu deixei a afilhada na Sé, e venho aqui descansar um

bocadinho.

--Então, se me dá licença... E como vai o nosso conego?

--Não tornou a ter a dôr. Mas tem soffrido de tonturas.

--Começos da primavera, disse o Carlos que retomára o seu ar magestoso,

de pé no meio da sala, com os dedos nas aberturas do collete. Tambem eu

me tenho sentido perturbado... Nós, as pessoas sanguíneas, soffremos

sempre d'isto que se póde chamar o renascimento da seiva... Ha uma

abundancia d'humores no sangue, que, não sendo eliminados pelos canaes

proprios, vão, por assim dizer, abrir caminho, aqui e além, pelo corpo,

sob a fórma de furunculo, espinha, nascida, ás vezes em logares bem

incommodos, e, ainda que em si insignificantes, acompanhados sempre, por

assim dizer, d'um cortejo... Perdão, sinto o praticante a palrar... Se

me dá licença... Respeitos ao nosso conego. Que use a magnesia de James!

D. Josepha então quiz vêr a menina com o sarampo. Mas não passou da

porta do quarto, recommendando á pequena, que arregalava uns olhos de

febre, muito abafada na roupa, «não se descuidasse das suas oraçõesinhas

de manhã e á noite». Aconselhou á Amparo alguns remedios, que eram

milagrosos no sarampo; mas se a promessa fôra feita com fé, a menina

podia-se considerar curada... Ai, todos os dias dava graças a Deus de se

não ter casado! Que filhos eram só para trabalho e canceiras; e com as

quezilias que traziam e o tempo que tomavam, eram até causa d'uma mulher

se descuidar das suas praticas e metter a alma no inferno...

--Tem razão, D. Josepha, disse a Amparo, é um castigo... E eu com cinco!

Ás vezes fazem-me tão doida, que me sento aqui na cadeirinha, e ponho-me

a chorar só commigo...

Tinham voltado para junto da janella, e gozaram muito, espreitando o

senhor administrador do concelho, que, por traz da vidraça da

repartição, namorava de binoculo a do Telles alfaiate.--Aí, era um

escandalo! Que nunca houvera em Leiria auctoridades assim! O secretario

geral em um desafôro com a Novaes... Que se podia esperar de homens sem

religião, educados em Lisboa, que, segundo D. Josepha, estava

predestinada a parecer como Gomorrha pelo fogo do céo?--A Amparo cosia

com a cabeça baixa, envergonhada talvez diante d'aquella indignação

piedosa, dos desejos culpados que a roiam de vêr o Passeio Publico e de

ouvir os cantores em S. Carlos.

Mas bem depressa a snr.^a D. Josepha começou a fallar do escrevente. A

Amparo não sabia nada; e a velha teve a satisfação de contar

prolixamente, «tim-tim por tim-tim», a historia do _Communicado_, o

desgosto na rua da Misericordia, e a campanha de Natario para descobrir

o _liberal_. Alargou-se principalmente sobre o caracter de João Eduardo,

a sua impiedade, as suas orgias... E, considerando um dever de christã

aniquilar o atheu, deu mesmo a entender que alguns roubos, ultimamente

commettidos em Leiria, eram «obra de João Eduardo».

A Amparo declarou-se «banzada». O casamento então, com a Ameliasinha...

--Isso pertence á historia, declarou com jubilo D. Josepha Dias. Vão

pôl-o fóra de casa! E por muito feliz se deve o homem dar em não ir

parar ao banco dos réos... Que a mim o deve, e á prudencia do mano e do

senhor padre Amaro. Que havia motivos para o ferrar na cadeia!

--Mas a pequena gostava d'elle, ao que parece.

D. Josepha indignou-se. Credo, a Amelia era uma rapariga de juízo, de

muita virtude! Apenas conheceu os desafôros, foi a primeira a dizer que

não, e que não! Ai! detestava-o...--E D. Josepha, baixando a voz em

confidencia, contou «que era positivo que elle vivia com uma desgraçada

para os lados do quartel».

--Disse-m'o o senhor padre Natario, affirmou. E aquillo é homem que da

sua boca nunca sae senão a verdade pura... Foi muito delicado commigo,

devo-lhe esse favor. Apenas soube, veio-m'o logo dizer a casa, pedir-me

conselhos... Emfim, muito attencioso.

Mas o Carlos appareceu de novo. Tinha a botica desembaraçada um momento

(que não o tinham deixado respirar toda a manhã!) e vinha fazer

companhia ás senhoras.

--Então já sabe, snr. Carlos, exclamou logo D. Josepha, o caso do

_Communicado_ e do João Eduardo?

O pharmaceutico arregalou os seus olhos redondos. Que relação havia

entre um artigo tão indigno e esse mancebo que lhe parecia honesto?

--Honesto!? ganiu a snr.^a D. Josepha Dias. Foi elle que o escreveu,

snr. Carlos!

E vendo o Carlos morder o beiço de surpreza, D. Josepha, enthusiasmada,

repetiu a historia da «maroteira».

--Que lhe parece, snr. Carlos, que lhe parece?

O pharmaceutico deu a sua opinião, n'uma voz vagarosa, sobrecarregada da

auctoridade d'um vasto entendimento:

--N'esse caso digo, e todas as pessoas de bem o dirão commigo, é uma

vergonha para Leiria. Eu já tinha observado, quando li o _Communicado_:

a religião é a base da sociedade, e minal-a é, por assim dizer, querer

aluir o edificio... É uma desgraça que haja na cidade d'esses sectarios

do materialismo e da republica, que, como é sabido, querem destruir tudo

o que existe: proclamam que os homens e as mulheres se devem unir com a

promiscuidade de cães e cadellas... (Desculpem exprimir-me assim, mas a

sciencia é a sciencia). Querem ter o direito de entrar em minha casa,

levar-me as pratas e o suor do meu rosto; não admittem que haja

auctoridades, e se os deixassem seriam capazes de cuspir na sagrada

hostia...

O crime do padre Amaro, scenas da vida devota · 第 29 / 45 题