XIII

Ao outro dia cedo, a snr.^a D. Josepha Dias que entrára, havia pouco, da

missa, ficou muito surprehendida, ouvindo a criada que lavava as escadas

dizer de baixo:

--Está aqui o senhor padre Amaro, snr.^a D. Josepha!

O parocho ultimamente raras vezes vinha a casa do conego; e D. Josepha

gritou logo lisonjeada e já curiosa:

--Que suba para aqui, não é de ceremonia! É como de familia. Que suba!

Estava na sala de jantar, arranjando n'uma travessa ladrilhos de

marmelada, com um vestido de hareje preto esgaçado na ilharga e arqueado

em redor dos tornozelos por uma _crinoline_ d'um só arco; trazia n'essa

manhã oculos azues; e foi logo ao patamar, arrastando os seus medonhos

chinelos d'ourêlo, e preparando, por debaixo do lenço preto repuxado

sobre a testa, um ar agradavel para o senhor parocho.

--Ora ditosos olhos! exclamou. Eu entrei ha bocadinho, e já cá tenho a

primeira missinha. Fui hoje á capella de Nossa Senhora do Rosario...

Disse-a o padre Vicente. Ai! e que virtude que me fez hoje, senhor

parocho! Sente-se. Ahi não, que lhe vem ar da porta... E então a pobre

entrevada lá se foi... Conte lá, senhor parocho...

O parocho teve de descrever a agonia da entrevada, a dôr da S.

Joanneira; como depois de morta a face da velha parecera remoçar; o que

as senhoras tinham decidido a respeito da mortalha...

--Aqui para nós, D. Josepha, é um grande allivio para a S.

Joanneira...--E de repente, puxando-se para a beira da cadeira,

assentando as mãos nos joelhos:--E que me diz á do senhor João Eduardo?

Já sabe? Foi elle que escreveu o artigo!

A velha exclamou, levando as mãos á cabeça:

--Ai! nem me falle n'isso, senhor parocho! Nem me falle n'isso, que até

tenho estado doente!

--Ah, já sabe?

--E mais que sei, senhor parocho! O senhor padre Natario, devo-lhe esse

favor, esteve aqui hontem e contou-me tudo! Ai, que maroto! Ai, que alma

perdida!

--E sabe que é o intimo do Agostinho, que são bebedeiras na redacção até

de madrugada, que vai para o bilhar do Terreiro achincalhar a

religião...

--Ai, por quem é, senhor parocho, nem me diga, nem me diga! Que hontem,

quando o senhor padre Natario esteve ahi, até tive escrupulos d'ouvir

tanto peccado... Que lhe devo esse favor, ao senhor padre Natario, logo

que soube veio-me contar... É de muito delicado... E olhe, senhor

parocho, a mim sempre me quiz parecer isso mesmo do homem. Eu nunca o

disse, nunca o disse! Que lá isso, esta boquinha nunca se pôz em vidas

alheias... Mas tinha cá dentro um palpite. Elle ia á missa, cumpria o

jejum; mas eu cá tinha a desconfiança que aquillo era para enganar a S.

Joanneira e a pequena. Agora se vê! Eu foi creatura que nunca me cahiu

em graça! Nunca, senhor parocho!--E de repente, com os olhinhos luzidios

d'uma alegria perversa:--E agora, já se sabe, o casamento desmancha-se?

O padre Amaro recostou-se na cadeira, e muito pausadamente:

--Elle, minha senhora, seria notorio que uma rapariga de bons principios

fosse casar com um pedreiro-livre, que não se confessa ha seis annos!

--Credo, senhor parocho! antes vêl-a morta! É necessario dizer tudo á

rapariga...

O padre Amaro interrompeu, chegando rapidamente a cadeira para ao pé

d'ella:

--Pois foi justamente para isso que eu a vim procurar, minha senhora. Eu

hontem já fallei com a pequena... Mas comprehende, no meio d'aquelle

desgosto, com a pobre senhora a expirar ao lado, não pude insistir

muito. Emfim disse-lhe o que havia, aconselhei-a por bons modos,

expuz-lhe que ia perder a sua alma, ter uma vida desgraçada, etc. Fiz o

que pude, minha senhora, como amigo e como parocho. E como era o meu

dever (ainda que me custou, realmente custou-me), lembrei-lhe que, como

christã e como senhora, tinha obrigação de romper com o escrevente.

--E ella?

O padre Amaro fez uma visagem descontente:

--Não disse que _sim_ nem que _não_. Pôz-se a fazer biquinho, a

choramingar. É verdade que estava muito alterada com a morte em casa.

Que a rapariga não morre por elle, isso é claro; mas quer casar, tem

medo que a mãi morra, que se veja só... Emfim sabe o que são raparigas!

Que as minhas palavras fizeram-lhe effeito, ficou muito indignada,

etc... Mas emfim, eu pensei que o melhor era a senhora fallar-lhe. A

senhora é a amiga da casa, é madrinha, conheceu-a de pequena... Estou

certo que no seu testamento havia de lhe deixar uma boa lembrança...

Tudo isto são considerações...

--Ai, fica por minha conta, senhor parocho! exclamou a velha; hei de

lh'as cantar!...

--A rapariga o que precisa é quem a dirija. Aqui para nós, precisa quem

a confesse! Ella confessa-se ao padre Silverio; mas, sem querer dizer

mal, o padre Silverio, coitado, pouco vale. Muito caridoso, muita

virtude; mas o que se chama _geito_ não tem. Para elle a confissão é a

_desobriga_. Pergunta doutrina, depois faz o exame pelos mandamentos da

lei de Deus... Veja a senhora!... Está claro que a rapariga não furta,

nem mata, nem deseja a mulher do seu proximo! A confissão assim não lhe

aproveita: o que ella precisa é um confessor _têso_, que lhe diga--_para

alli!_ e sem réplica. A rapariga é um espirito fraco; como a maior parte

das mulheres não se sabe dirigir por si; necessita por isso um confessor

que a governe com uma vara de ferro, a quem ella obedeça, a quem conte

tudo, de quem tenha medo... É como deve ser um confessor.

--O senhor parocho é que lhe servia...

Amaro sorriu modestamente:

--Não digo que não. Havia de aconselhal-a bem; sou amigo da mãi, acho

que ella é boa rapariga e digna da graça de Deus. Que eu, sempre que

converso com ella, todos os conselhos que posso, em tudo, dou-lh'os...

Mas a senhora comprehende, ha coisas em que se não póde estar a fallar

na sala, com gente á volta... Só se está á vontade no confessionario. E

é o que me falta, são as occasiões de lhe fallar só. Mas emfim eu não

posso ir dizer-lhe: «a menina agora ha de se confessar commigo»! Eu

n'isso sou muito escrupuloso...

--Mas digo-lh'o eu, senhor parocho! Ah, digo-lh'o eu!...

--Ora isso é que era um grande favor! Era um bem que fazia áquella alma!

Porque se a rapariga me entrega a direcção da sua alma, então podemos

dizer que lhe acabaram as difficuldades, e temol-a no caminho da

graça... E quando lhe vai fallar, D. Josepha?

D. Josepha, «como julgava peccado adiar», estava decidida a fallar-lhe

essa mesma noite.

--Não me parece, D. Josepha. Hoje é noite de pezames... O escrevente

naturalmente está lá...

--Credo, senhor parocho! Pois eu e as outras pequenas havemos de passar

a noite debaixo das mesmas telhas com o hereje?

--Tem de ser. Emfim o rapaz por ora é considerado da familia... Além

d'isso, D. Josepha, a senhora, a D. Maria e as Gansosinhos são pessoas

da maior virtude... Mas nós não devemos ter orgulho da nossa virtude.

Arriscamo-nos a perder-lhe todos os fructos. E é um acto de humildade,

que agrada muito a Deus, o misturar-nos ás vezes com os maus; é como

quando um grande fidalgo tem de estar lado a lado com um trabalhador

d'enxada... É como se dissessemos: «eu sou-te superior em virtude, mas

comparado com o que devia ser para entrar na gloria, quem sabe se não

sou tão peccador como tu!...» E esta humilhação da alma é a melhor

offerta que podemos fazer a Jesus.

O crime do padre Amaro, scenas da vida devota · 第 28 / 45 题