Assim recomeçou a intimidade de Amaro na rua da Misericordia. Jantava
cedo, depois lia o seu Breviario; e apenas na igreja batiam as sete
horas, embrulhava-se no seu capote e dava volta pela Praça passando
rente da botica, onde os frequentadores caturravam, com as mãos molles
apoiadas ao cabo dos guardachuvas. Mal avistava a janella da sala de
jantar alumiada, todos os seus desejos se erguiam; mas ao toque agudo da
campainha sentia ás vezes um susto indefinido d'achar a mãi já
desconfiada ou Amelia mais fria!... Mesmo por superstição entrava sempre
com o pé direito.
Encontrava já as Gansosos, a D. Josepha Dias; e o conego, que jantava
agora muito com a S. Joanneira, e que áquella hora, estirado na
poltrona, findava a sua somneca, dizia-lhe bocejando:
--Ora viva o menino bonito!
Amaro ia sentar-se ao pé d'Amelia que costurava á mesa; o olhar
penetrante que se trocavam era todos os dias como o mutuo juramento mudo
que o seu amor crescera desde a vespera; e ás vezes mesmo, debaixo da
mesa, roçavam os joelhos com furor. Começava então a «cavaqueira». Eram
sempre os mesmos interessesinhos, as questões que iam na Misericordia, o
que dissera o senhor chantre, o conego Campos que despedira a criada, o
que se rosnava da mulher do Novaes...
--Mais amor do proximo! resmungava o conego mexendo-se na poltrona. E
com um arrôto curto tornava a cerrar as palpebras.
Então as botas de João Eduardo rangiam na escada, e Amelia
immediatamente abria a mesinha para a partida de _manilha_: os parceiros
eram a Gansoso, D. Josepha, o parocho: e como Amaro jogava mal, Amelia,
que era _mestra_, sentava-se por detraz d'elle para o «guiar». Logo ás
primeiras vasas havia altercações. Então Amaro voltava o rosto para
Amelia, tão perto que confundiam os seus halitos.
--Esta? perguntava, indicando a carta com o olho languido.
--Não! não! espere, deixe vêr, dizia ella, vermelha.
O seu braço roçava o hombro do parocho: Amaro sentia o cheiro da agua de
colonia que ella usava com exagero.
Defronte, ao pé de Joaquina Gansoso, João Eduardo, mordicando o bigode,
contemplava-a com paixão; Amelia, para se desembaraçar d'aquelles dois
olhos langorosos fitos n'ella, tinha-lhe dito por fim «que até era
indecente, diante do parocho que era de ceremonia, estar assim a cocal-a
toda a noite».
Ás vezes mesmo dizia-lhe, rindo:
--Ó snr. João Eduardo, vá conversar com a mamã, senão têmol-a aqui
têmol-a a dormir.
E João Eduardo ia sentar-se ao pé da S. Joanneira, que, de lunetas na
ponta do nariz, fazia somnolentamente a sua meia.
Depois do chá Amelia sentava-se ao piano. Causava então enthusiasmo em
Leiria uma velha canção mexicana, a _Chiquita_. Amaro achava-a _de
appetite_; e sorria de gozo, com os seus dentes muito brancos, apenas
Amelia começava com muita languidez tropical:
Quando sali de la Habana
Valga-me Dios!...
Mas Amaro amava sobretudo a outra estrophe, quando Amelia, com os dedos
frouxos no teclado, o busto deitado para traz, rolando os olhos ternos,
em movimentos dôces de cabeça, dizia toda voluptuosa, syllabando o
hespanhol:
Si á tua ventana llega
Una paloma,
Trata-la com cariño,
Que es mi persona.
E como a achava graciosa, creoula, quando ella gorgeava:
Ay chiquita que si,
Ay chiquita que no-o-o-o!
Mas as velhas reclamavam-o para continuar a _manilha_, e elle ia
sentar-se, cantarolando as ultimas notas, com o cigarro ao canto da
boca, os olhos humidos de felicidade.
Ás sextas-feiras era a grande partida. A snr.^a D. Maria da Assumpção
apparecia sempre com o seu bello vestido de sêda preta: e como era rica
e tinha parentela fidalga davam-lhe com deferencia o melhor logar ao pé
da mesa--que ella ia occupar, meneando pretenciosamente os quadris, com
_ruge-ruges_ de sêda. Antes do chá a S. Joanneira levava-a sempre ao seu
quarto, onde guardava para ella uma garrafa de geropiga velha: e alli as
duas amigas tagarellavam muito tempo, sentadas em cadeirinhas baixas.
Depois Arthur Couceiro, cada dia mais chupado e mais tisico, cantava o
_fado_ novo que compuzera, chamado o _Fado da Confissão_; eram quadras
feitas para regalar aquella piedosa reunião de saias e de batinas:
Na capellinha do amor,
No fundo da sacristia,
Ao senhor padre Cupido
Confessei-me n'outro dia...
Vinha depois a confissão de peccadinhos dôces, um acto de contrição de
amor, uma penitencia terna:
Seis beijinhos de manhã,
De tarde um abraço só...
E p'ra acalmar dôces chammas
Jejuar a pão de ló.
Aquella composição galante e devota fôra muito apreciada na sociedade
ecclesiastica de Leiria. O senhor chantre pedira uma cópia, e
perguntára, referindo-se ao poeta:
--Quem é o habil Anacreonte?
E informado que era o escrevente da administração, fallou d'elle com
tanto apreço á esposa do senhor governador civil, que Arthur obteve a
gratificação de oito mil reis, que havia annos implorava.
Áquellas reuniões nunca faltava o Libaninho. A sua ultima pilheria era
furtar beijos á snr.^a D. Maria da Assumpção; a velha escandalisava-se
muito alto, e abanando-se com furor atirava-lhe de revez um olhar
guloso. Depois o Libaninho desapparecia um momento, e entrava com uma
saia d'Amelia vestida, uma touca da S. Joanneira, fingindo uma chamma
lubrica por João Eduardo--que, entre as risadas agudas das velhas,
recuava, muito escarlate. Brito e Natario vinham ás vezes: formava-se
então um grande _quino_. Amaro e Amelia ficavam sempre juntos; e toda a
noite, com os joelhos collados, ambos vermelhos, permaneciam vagamente
entorpecidos no mesmo desejo intenso.
Amaro sahia sempre de casa da S. Joanneira mais apaixonado por Amelia.
Ia pela rua devagar, ruminando com gozo a sensação deliciosa que lhe
dava aquelle amor--uns certos olhares d'ella, o arfar desejoso do seu
peito, os contactos lascivos dos joelhos e das mãos. Em casa despia-se
depressa, porque gostava de pensar n'ella, ás escuras, atabafado nos
cobertores; e ia percorrendo em imaginação, uma a uma, as provas
successivas que ella lhe dera do seu amor, como quem vai aspirando uma e
outra flôr, até que ficava como embriagado d'orgulho: era a rapariga
mais bonita da cidade! e escolhera-o a elle, a elle padre, o eterno
excluido dos sonhos femininos, o sêr melancollico e neutro que ronda
como um sêr suspeito á beira do sentimento! Á sua paixão misturava-se
então um reconhecimento por ella; e com as palpebras cerradas murmurava:
--Tão boa, coitadinha, tão boa!
Mas na sua paixão havia ás vezes grandes impaciencias, Quanto tinha
estado, durante tres horas da noite, recebendo o seu olhar, absorvendo a
voluptuosidade que se exhalava de todos os seus movimentos,--ficava tão
carregado de desejos que necessitava conter-se «para não fazer um
disparate alli mesmo na sala, ao pé da mãi». Mas depois, em casa, só,
torcia os braços de desespero: queria-a alli de repente, offerecendo-se
ao seu desejo: fazia então combinações--escrever-lhe-hia, arranjariam
uma casita discreta para se amarem, planeariam um passeio a alguma
quinta! Mas todos aquelles meios lhe pareciam incompletos e perigosos,
ao recordar o olho finorio da irmã do conego, as Gansosos tão
mexeriqueiras! E diante d'aquellas difficuldades que se erguiam como as
muralhas successivas d'uma cidadella, voltavam as antigas lamentações:
não ser livre! não poder entrar claramente n'aquella casa, pedil-a á
mãi, possuil-a sem peccado, commodamente! Porque o tinham feito padre?
Fôra «a velha pêga» da marqueza de Alegros! Elle não abdicára
voluntariamente a virilidade do seu peito! Tinham-o impellido para o
sacerdocio como um boi para o curral!
Então, passeando excitado pelo quarto, levava as suas accusações mais
longe, contra o Celibato e a Igreja: porque prohibia ella aos seus
sacerdotes, homens vivendo entre homens, a satisfação mais natural, que
até têm os animaes? Quem imagina que desde que um velho bispo
diz--_serás casto_--a um homem novo e forte, o seu sangue vai
subitamente esfriar-se? e que uma palavra latina--_accedo_--dita a
tremer pelo seminarista assustado, será o bastante para conter para
sempre a rebellião formidavel do corpo? E quem inventou isso? Um
concilio de bispos decrepitos, vindos do fundo dos seus claustros, da
paz das suas escólas, mirrados como pergaminhos, inuteis como eunucos!
Que sabiam elles da Natureza e das suas tentações? Que viessem alli
duas, tres horas para o pé da Ameliasinha, e veriam, sob a sua capa de
santidade, começar a revoltar-se-lhe o desejo! Tudo se illude e se
evita, menos o amor! E se elle é fatal, porque impediram então que o
padre o sinta, o realise com pureza e com dignidade? É melhor talvez que
o vá procurar pelas viellas obscenas!--Porque a carne é fraca!
A carne! Punha-se então a pensar nos tres inimigos da alma--Mundo, Diabo
e Carne. E appareciam á sua imaginação em tres figuras vivas: uma mulher
muito formosa; uma figura negra d'olho de braza e pé de cabra; e o
_mundo_, coisa vaga e maravilhosa (riquezas, cavallos, palacetes)--de
que lhe parecia uma personificação sufficiente o senhor conde de
Ribamar! Mas que mal tinham elles feito á sua alma? O diabo nunca o
vira; a mulher formosa amava-o e era a unica consolação da sua
existencia; e do mundo, do senhor conde, só recebera protecção,
benevolencia, tocantes apertos de mão... E como poderia elle evitar as
influencias da Carne e do Mundo? A não ser que fugisse, como os santos
d'outr'ora, para os areaes do deserto e para a companhia das feras! Mas
não lhe diziam os seus mestres no seminario que elle pertencia a uma
Igreja militante? O ascetismo era culpado, sendo a deserção d'um serviço
santo.--Não comprehendia, não comprehendia!
Procurava então justificar o seu amor com exemplos dos livros divinos. A
Biblia está cheia de nupcias! Rainhas amorosas adiantam-se nos seus
vestidos recamados de pedras; o noivo vem-lhe ao encontro, com a cabeça
coberta de faxas de linho puro, arrastando pelas pontas um cordeiro
branco; os levitas batem em discos de prata, gritam o nome de Deus;
abrem-se as portas de ferro da cidade para deixar passar a caravana que
leva os bem esposados; e as arcas de sandalo onde vão os thesouros do
dote rangem, amarradas com cordas de purpura, sobre o dorso dos camêlos!
Os martyres no circo casam-se n'um beijo, sob o bafo dos leões, ás
acclamações da plebe! Jesus mesmo não vivêra sempre na sua santidade
inhumana; era frio e abstracto nas ruas de Jerusalem, nos mercados do
Bairro de David; mas lá tinha o seu logar de ternura e de abandono em
Bethania, sob os sycomoros do Jardim de Lazaro; alli, emquanto os magros
nazarenos seus amigos bebem o leite e conspiram á parte, elle olha
defronte os tectos dourados do templo, os soldados romanos que jogam o
disco ao pé da Porta de Ouro, os pares amorosos que passam sob os
arvoredos de Gethesemani--e pousa a mão sobre os cabellos louros de
Martha, que ama e fia a seus pés!
O seu amor era pois uma infracção canonica, não um peccado da alma:
podia desagradar ao senhor chantre, não a Deus: seria legitimo n'um
sacerdocio de regra mais humana. Lembrava-se de se fazer protestante:
mas onde, como? Parecia-lhe mais extraordinariamente impossivel que
transportar a velha Sé para cima do monte do Castello.
Encolhia então os hombros, escarnecendo toda aquella vaga argumentação
interior. «Philosophia e palhada»! Estava doido pela rapariga,--era o
positivo. Queria-lhe o amor, queria-lhe os beijos, queria-lhe a alma...
E o senhor bispo se não fosse velho faria o mesmo, e o Papa faria o
mesmo!
Eram ás vezes tres horas da manhã, e ainda passeava no quarto, fallando
só.
Quantas vezes João Eduardo, passando alta noite pela rua das Sousas,
tinha visto na janella do parocho uma luz amortecida! Porque ultimamente
João Eduardo, como todos que têm um desgosto amoroso, tomára o habito
triste de andar até tarde pelas ruas.
O escrevente, logo desde os primeiros tempos, percebêra a sympathia de
Amelia pelo parocho. Mas conhecendo a sua educação e os habitos devotos
da casa, attribuia aquellas attenções quasi humildes com Amaro ao
respeito beato pela sua batina de padre, pelos seus privilegios de
confessor.
Instinctivamente porém começou a detestar Amaro. Sempre fôra inimigo de
padres! achava-os um «perigo para a civilisação e para a liberdade»;
suppunha-os intrigantes, com habitos de luxuria, e conspirando sempre
para restabelecer «as trevas da meia idade»; odiava a confissão que
julgava uma arma terrivel contra a paz do lar; e tinha uma religião
vaga--hostil ao culto, ás rezas, aos jejuns, cheia de admiração pelo
Jesus poetico, revolucionario, amigo dos pobres, e «pelo sublime
espirito de Deus que enche todo o Universo»! Só desde que amava Amelia é
que ouvia missa, para agradar á S. Joanneira.
E desejaria sobretudo apressar o casamento para tirar Amelia d'aquella
sociedade de beatas e padres, receando ter mais tarde uma mulher que
tremesse do inferno, passasse horas a rezar estações na Sé, e se
confessasse aos padres «que arrancam ás confessadas os segredos
d'alcova»!
Quando Amaro voltára a frequentar a rua da Misericordia, ficou
contrariado. «Cá temos outra vez o marmanjo»! pensou. Mas que desgosto,
quando reparou que Amelia tratava agora o parocho com uma familiaridade
mais terna, que a presença d'elle lhe dava visivelmente uma animação
singular, «e que havia uma especie de namoro»! Como ella se fazia
vermelha, mal elle entrava! Como o escutava, com uma admiração babosa!
Como arranjava sempre a ficar ao pé d'elle nas partidas de _quino_!
Uma manhã, mais inquieto, veio á rua da Misericordia,--e emquanto a S.
Joanneira tagarellava na cozinha, disse bruscamente a Amelia:
--Menina Amelia, sabe? Está-me a dar um grande desgosto com essas
maneiras com que trata o senhor padre Amaro.
Ella ergueu os olhos muito espantados:
--Que maneiras?! Ora essa! então como quer que o trate? É um amigo da
casa, esteve aqui d'hospede...
--Pois sim, pois sim...
--Ah! mas socegue. Se isso o quezila, verá. Não me torno a chegar ao pé
do homem.
João Eduardo, tranquillisado, raciocinou--que «não havia nada». Aquelles
modos eram excessos de beaterio. Enthusiasmo pela padraria!
Amelia decidiu então disfarçar o que lhe ia no coração: sempre
considerára o escrevente um pouco tapado--e se elle percebêra, que
fariam as Gansosos tão finas, e a irmã do conego que era cortida em
malicia! Por isso mal sentia Amaro na escada, d'ahi por diante, tomava
uma attitude distrahida, muito artificial: mas, ai! apenas elle lhe
fallava com a sua voz suave ou voltava para ella aquelles olhos negros
que lhe faziam correr estremeções nos nervos,--como uma ligeira camada
de neve que se derrete a um sol muito forte a sua attitude fria
desapparecia, e toda a sua pessoa era uma expressão continua de paixão.
Ás vezes, absorvida no seu enlevo, esquecia que João Eduardo estava
alli; e ficava toda surprehendida quando ouvia a um canto da sala a sua
voz melancolica.
Ella sentia de resto que as amigas da mãi envolviam a sua «inclinação»
pelo parocho n'uma approvação muda e affavel. Elle era, como dizia o
conego, o menino bonito: e das maneirinhas e dos olhares das velhas
exhalava-se uma admiração por elle que fazia ao desenvolvimento da
paixão d'Amelia uma atmosphera favoravel. D. Maria da Assumpção
dizia-lhe ás vezes ao ouvido:
--Olha para elle! É d'inspirar fervor. É a honra do clero. Não ha
outro!...
E todas ellas achavam João Eduardo «um presta-p'ra-nada»! Amelia então
já não disfarçava a sua indifferença por elle: as chinelas que lhe
andava a bordar tinham ha muito desapparecido do cesto do trabalho, e já
não vinha á janella vel-o passar para o cartorio.
A certeza agora tinha-se estabelecido na alma de João Eduardo--na alma,
que, como elle dizia, lhe andava mais negra que a noite.
--A rapariga gosta do padre, tinha elle concluido. E á dôr da sua
felicidade destruida juntava-se a afflicção pela honra d'ella ameaçada.
Uma tarde, tendo-a visto sahir da Sé, esperou-a adiante da botica, e
muito decidido:
--Eu quero-lhe fallar, menina Amelia... Isto não póde continuar assim...
Eu não posso... A menina traz namoro com o parocho!
Ella mordeu o beiço, toda branca:
--O senhor está a insultar-me!--E queria seguir, indignada.
Elle reteve-a pela manga do casabeque:
--Ouça, menina Amelia. Eu não a quero insultar, mas é que não sabe...
Tenho andado, que até se me parte o coração!--E perdeu a voz, de
commovido.
--Não tem razão... Não tem razão... balbuciava ella.
--Jure-me então que não ha nada com o padre!
--Pela minha salvação!... _Não ha nada!_... Mas tambem lhe digo, se
torna a fallar em tal, ou a insultar-me, conto tudo á mamã, e o senhor
escusa de nos voltar a casa.
--Oh, menina Amelia...
--Não podemos continuar aqui a fallar... Está alli já a D. Michaela a
cocar...
Era uma velha, que levantára a cortina de cassa n'uma janella baixa, e
espreitava com olhinhos reluzentes e gulosos, a face toda resequida
encostada sôfregamente á vidraça. Separaram-se então--e a velha
desconsolada deixou cahir a cortina.
Amelia n'essa noite--emquanto as senhoras discutiam com algazarra os
missionarios que então prégavam na Barrosa--disse baixo a Amaro, picando
vivamente a costura:
--Precisamos ter cautela... Não olhe tanto para mim nem esteja tão
chegado... Já houve quem reparasse.
Amaro recuou logo a cadeira para junto de D. Maria da Assumpção; e,
apesar da recommendação d'Amelia, os seus olhos não se despregavam
d'ella, n'uma interrogação muda e anciosa, já assustado que as
desconfianças da mãi ou a malicia das velhas «andassem armando
escandalo». Depois do chá, no rumor das cadeiras que se accommodavam ao
_quino_, perguntou-lhe rapidamente:
--Quem reparou?
--Ninguem. Eu é que tenho medo. É preciso disfarçar.
Desde então cessaram as olhadellas dôces, os logares chegadinhos á mesa,
os segredos; e sentiam um gozo picante em affectar maneiras frias, tendo
a certeza vaidosa da paixão que os inflammava. Era para Amelia
delicioso--emquanto o padre Amaro afastado tagarellava com as
senhoras--adorar a sua presença, a sua voz, as suas graças, com os olhos
castamente applicados ás chinelas do João Eduardo que muito astutamente
recomeçára a bordar.
Todavia o escrevente vivia ainda inquieto: amargurava-o encontrar o
parocho installado alli todas as noites, com a face próspera, a perna
traçada, gozando a veneração das velhas. «A Ameliasinha, sim, agora
portava-se bem, e era-lhe fiel, era-lhe fiel...»: mas elle sabia que o
parocho a desejava, a «cocava»; e apesar do juramento d'ella _pela sua
salvação,_ da certeza _que não havia nada_--temia que ella fosse
lentamente penetrada por aquella admiração caturra das velhas, para quem
o senhor parocho _era um anjo_: só se contentaria em arrancar Amelia (já
empregado no governo civil) áquella casa beata: mas essa felicidade
tardava a chegar--e sahia todas as noites da rua da Misericordia mais
apaixonado, com a vida estragada de ciumes, odiando os padres, sem
coragem para desistir. Era então que se punha a andar pelas ruas até
tarde; ás vezes voltava ainda vêr as janellas fechadas da casa d'ella;
ia depois á alameda ao pé do rio, mas o frio ramalhar das arvores sobre
a agua negra entristecia-o mais; vinha então ao bilhar, olhava um
momento os parceiros carambolando, o marcador, muito esguedelhado, que
bocejava encostado ao _reste_. Um cheiro de mau petroleo suffocava.
Sahia; e dirigia-se, devagar, á redacção da _Voz do Districto_.
X
O redactor da _Voz do Districto_, o Agostinho Pinheiro, era ainda seu
parente. Chamavam-lhe geralmente o _Rachitico_, por ter uma forte
corcunda no hombro e uma figurinha enfezada d'hectico. Era extremamente
sujo; e a sua carita de femea, amarellada, d'olhos depravados, revelava
vícios antigos, muito torpes. Tinha feito (dizia-se em Leiria) toda a
sorte de maroteira. E ouvira tantas vezes exclamar: «Se vossê não fosse
um rachitico, quebrava-lhe os ossos»--que, vendo na sua corcunda uma
protecção sufficiente, ganhára um descaro sereno. Era de Lisboa, o que o
tornava mais suspeito aos burguezes sérios: attribuia-se a sua voz rouca
e acre «a fartar-lhe as campainhas»: e os seus dedos queimados
terminavam em unhas muito compridas--porque tocava guitarra.
A _Voz do Districto_ fôra creada por alguns homens, a quem chamavam em
Leiria o _grupo da Maia_, particularmente hostis ao senhor governador
civil. O doutor Godinho, que era o chefe e o candidato do _grupo_, tinha
encontrado em Agostinho, como elle dizia, o _homem que se precisa_: o
que o _grupo_ precisava era um patife com orthographia, sem escrupulos,
que redigisse em linguagem sonora os insultos, as calumnias, as allusões
que elles traziam informemente á redacção, em apontamentos. Agostinho
era um estylista de vilezas. Davam-lhe quinze mil reis por mez e casa de
habitação na redacção--um terceiro andar desmantelado n'uma viella ao pé
da Praça.
Agostinho fazia o artigo de fundo, as locaes, a _Correspondencia_ de
Lisboa; e o bacharel Prudencio escrevia o folhetim litterario sob o
titulo de _Palestras Leirienses_: era um moço muito honrado, a quem o
snr. Agostinho era repulsivo; mas tinha uma tal gula de publicidade, que
se sujeitava a sentar-se todos os sabbados fraternalmente á mesma banca,
a revêr as provas da sua prosa--prosa tão florida de imagens, que se
murmurava na cidade, ao lêl-a: «_Que opulencia! Que opulencia, Jesus!_»
João Eduardo reconhecia tambem que o Agostinho era «um trastesito»; não
se atreveria a passear com elle de dia nas ruas; mas gostava de ir para
a redacção, alta noite, fumar cigarros, ouvir o Agostinho fallar de
Lisboa, do tempo que lá vivêra empregado na redacção de dois jornaes, no
theatro da rua dos Condes, n'uma casa de penhores, e em outras
instituições. Estas visitas eram _segredos_!
Áquella hora da noite a sala da typographia no primeiro andar estava
fechada (o jornal tirava-se aos sabbados); e João Eduardo encontrava em
cima Agostinho abancado, com uma velha jaqueta de pelles cujos colchetes
de prata tinham sido empenhados--ruminando, curvado, á luz d'um medonho
candieiro de petroleo, sobre longas tiras de papel: estava fazendo o
jornal, e a sala escura em redor tinha o aspecto d'uma caverna. João
Eduardo estirava-se no canapé de palhinha, ou indo buscar a um canto a
velha guitarra de Agostinho repenicava o _fado corrido_. O jornalista no
emtanto, com a testa apoiada a um punho, produzia laboriosamente: «a
coisa não lhe sahia catita»: e como nem o _fadinho_ o inspirava,
erguia-se, ia a um armario engulir um copinho de genebra que gargarejava
nas fauces estanhadas, espreguiçava-se escancaradamente, accendia o
cigarro, e aproveitando o acompanhamento cantarolava roucamente:
Ora foi o fado tyranno
Que me levou á má vida,
E a guitarra: dir-lin, din, din, dir-lin, din, don.
Na vida do negro fado
Ai! Que me traz assim perdida...
Isto trazia-lhe sempre as recordações de Lisboa, porque terminava por
dizer, com odio:
--Que possilga de terra esta!
Não se podia consolar de viver em Leiria, de não poder beber o seu
quartilho na taberna do tio João, á Mouraria, com a Anna alfaiata ou com
o Bigodinho--ouvindo o João das Biscas de cigarro ao canto da boca, o
olho choroso meio fechado pelo fumo do tabaco, fazer chorar a guitarra
dizendo a morte da Sophia!
Depois, para se reconfortar com a certeza do seu talento, lia a João
Eduardo os seus artigos, muito alto. E João interessava-se--porque essas
«producções», sendo ultimamente sempre «desandas ao clero»,
correspondiam ás suas preoccupações.
Era por esse tempo que, em virtude da famosa questão da Misericordia, o
doutor Godinho se tornára muito hostil ao cabido e «á padraria». Sempre
detestára padres; tinha uma má doença de figado, e como a Igreja o fazia
pensar no cemiterio, odiava a sotaina, porque lhe parecia uma ameaça da
mortalha. E Agostinho, que tinha um profundo deposito de fel a derramar,
instigado pelo doutor Godinho, exagerava as suas verrínas: mas, com o
seu fraco litterario, cobria o vituperio de tão espessas camadas de
rhetorica que, como dizia o conego Dias, «aquillo era ladrar, não era
morder»!
Uma d'essas noites João Eduardo encontrou Agostinho todo enthusiasmado
com um artigo que compuzera de tarde, e que lhe «sahira cheio de piadas
á Victor Hugo»!
--Tu verás! Coisa de sensação!
Como sempre, era uma declamação contra o clero e o elogio do doutor
Godinho. Depois de celebrar as virtudes do doutor, «_esse tão
respeitavel chefe de familia_» e a sua eloquencia no tribunal que
«_arrancára tantos desventurados ao cutelo da lei_», o artigo, tomando
um tom roncante, apostrophava Christo:--«Quem te diria a ti (bradava
Agostinho), ó immortal Crucificado! quem te diria, quando no alto do
Golgotha expiravas exangue, quem te diria que um dia, em teu nome, á tua
sombra, seria expulso d'um estabelecimento de caridade o doutor
Godinho,--a alma mais pura, o talento mais robusto...»--E as virtudes do
doutor Godinho voltavam, em passo de procissão, solemnes e sublimadas,
arrastando caudas de adjectivos nobres.
Depois, deixando por um momento de contemplar o doutor Godinho,
Agostinho dirigia-se directamente a Roma:--«É no seculo XIX que vindes
atirar á face de Leiria liberal os dictames do _Syllabus_! Pois bem.
Quereis a guerra? Tel-a-heis!»
--Hein, João?! dizia. Está forte! Está philosophico!
E retomando a leitura:--«Quereis a guerra? Tel-a-heis! Levantaremos bem
alto o nosso estandarte, que não é o da demagogia, comprehendei-o bem! e
arvorando-o, com braço firme, no mais alto baluarte das liberdades
publicas, gritaremos á face de Leiria, á face da Europa: Filhos do
seculo XIX! ás armas! Ás armas pelo progresso!»
--Hein? Está de os enterrar!
João Eduardo, que ficára um momento calado, disse então, levantando as
suas expressões em harmonia com a prosa sonora de Agostinho:
--O clero quer-nos arrastar aos funestos tempos do obscurantismo!
Uma phrase tão litteraria surprehendeu o jornalista: fitou João Eduardo,
disse:
--Porque não escreves tu alguma coisa, tambem?
O escrevente respondeu, sorrindo:
--E eu, Agostinho, eu é que te escrevia uma desanda aos padres... E eu
tocava-lhes os pôdres. Eu é que os conheço!...
Agostinho instou logo com elle para que escrevesse a _desanda_.
--Vem a calhar, menino!
O doutor Godinho ainda na vespera lhe recommendára:--«Em tudo que
cheirar a padre, para baixo! Havendo escandalo, conta-se! não havendo,
inventa-se!»
E Agostinho acrescentou, com benevolencia:
--E não te dê cuidado o estylo, que eu cá o florearei!
--Veremos, veremos, murmurou João Eduardo.
Mas d'ahi por diante Agostinho perguntava-lhe sempre:
--E o artigo, homem? Traze-me o artigo.
Tinha avidez d'elle, porque sabendo como João Eduardo vivia na
intimidade da «panellinha canonica da S. Joanneira» suppunha-o no
segredo de infamias especiaes.
João Eduardo, porém, hesitava. Se se viesse a saber...?
--Qual! affirmava Agostinho. A coisa publica-se como minha. É artigo da
redacção. Quem diabo vai saber?
Succedeu na noite seguinte que João Eduardo surprehendeu o padre Amaro
resvalando sorrateiramente um segredinho a Amelia--e ao outro dia
appareceu de tarde na redacção com a pallidez d'uma noite velada,
trazendo cinco largas tiras de papel, miudamente escriptas n'uma letra
de cartorio. Era o artigo, e intitulava-se: _Os modernos
phariseus!_--Depois de algumas considerações, cheias de flôres, sobre
Jesus e o Golgotha, o artigo de João Eduardo era, sob allusões tão
diaphanas como teias d'aranha, um vingativo ataque ao conego Dias, ao
padre Brito, ao padre Amaro e ao padre Natario!... Todos tinham a sua
_dóse_, como exclamou cheio de jubilo o Agostinho.
--E quando sae? perguntou João Eduardo.
O Agostinho esfregou as mãos, reflectiu, disse:
--É que está forte, diabo! É como se tivesse os nomes proprios! Mas
descansa, eu arranjarei.
Foi cautelosamente mostrar o artigo ao doutor Godinho--que o achou «uma
catilinaria atroz». Entre o doutor Godinho e a Igreja havia apenas um
arrufo: elle reconhecia em geral a necessidade da religião entre as
massas; sua esposa, a bella D. Candida, era além d'isso d'inclinações
devotas, e começava a dizer que aquella guerra do jornal ao clero lhe
causava grandes escrupulos: e o doutor Godinho não queria provocar odios
desnecessarios entre os padres, prevendo que o seu amor da paz
domestica, os interesses da ordem e o seu dever de christão o forçariam
bem cedo a uma reconciliação,--«muito contra as suas opiniões, mas...»
Disse por isso a Agostinho sêccamente:
--Isto não póde ir como artigo da redacção, deve apparecer como
communicado. Cumpra estas ordens.
E Agostinho declarou ao escrevente--que a coisa publicava-se como um
_Communicado_, assignado: _Um liberal_. Sómente João Eduardo terminava o
artigo exclamando:--_Álerta, mães de familia!_ O Agostinho suggeriu que
este final _álerta_ podia dar logar á réplica jocosa--_Álerta está!_ E
depois de largas combinações decidiram-se por este fecho:--_Cuidado,
sotainas negras!_
No domingo seguinte appareceu o communicado assignado: _Um liberal_.
Durante toda essa manhã de domingo, o padre Amaro, á volta da Sé,
estivera occupado em compôr laboriosamente uma carta a Amelia.
Impaciente, como elle dizia, «com aquellas relações que não andavam nem
desandavam, que era olhar e apertos de mão e d'alli não
passava»--tinha-lhe dado uma noite, á mesa do quino, um bilhetinho onde
escrevera com boa letra, a tinta azul:--_Desejo encontral-a só, porque
tenho muito que lhe fallar. Onde póde ser sem inconveniente? Deus
proteja o nosso affecto._ Ella não respondera:--E Amaro despeitado,
descontente tambem por não a ter visto n'essa manhã á missa das nove,
resolveu «pôr tudo a claro n'uma carta de sentimento»: e preparava os
periodos sentidos que lhe deviam ir revolver o coração, passeando pela
casa, juncando o chão de pontas de cigarro, a cada momento curvado sobre
o _Diccionario de synonymos_.
«Ameliasinha do meu coração: (escrevia elle) Não posso atinar com as
razões maiores que a não deixaram responder ao bilhetinho que lhe dei em
casa da senhora sua mamã; pois que era pela muita necessidade que tinha
de lhe fallar a sós, e as minhas intenções eram puras, e na innocencia
d'esta alma que tanto lhe quer e que não medita o peccado.
«Deve ter comprehendido que lhe voto um fervente affecto, e pela sua
parte me parece, (se não me enganam esses olhos que são os pharoes da
minha vida, e como a estrella do navegante) que tambem tu, minha
Ameliasinha, tens inclinação por quem tanto te adora; pois que até outro
dia, quando o Libano quinou com os seis primeiros numeros, e que todos
fizeram tanta algazarra, tu apertaste-me a mão por baixo da mesa com
tanta ternura, que até me pareceu que o céo se abria e que eu sentia os
anjos entoarem o Hossana! Porque não respondeste pois? Se pensas que o
nosso affecto póde ser desagradavel aos nossos anjos da guarda, então te
direi que maior peccado commettes trazendo-me n'esta incerteza e
tortura, que até na celebração da missa estou sempre com o pensar em ti,
e nem me deixa elevar a minha alma no divino sacrificio. Se eu visse que
este mutuo affecto era obra do tentador, eu mesmo te diria: oh minha bem
amada filha, façamos o sacrificio a Jesus, para lhe pagar parte do
sangue que derramou por nós! Mas eu tenho interrogado a minha alma e
vejo n'ella a brancura dos lirios. E o teu amor tambem é puro como a tua
alma, que um dia se unirá á minha, entre os córos celestes, na
bemaventurança. Se tu soubesses como eu te quero, querida Ameliasinha,
que até às vezes me parece que te podia comer aos bocadinhos! Responde
pois, e dize se não te parece que poderia arranjar-se a vermo-nos no
Morenal, pela tarde. Pois eu anceio por te exprimir todo o fogo que me
abraza, bem como fallar-te de coisas importantes, e sentir na minha mão
a tua que eu desejo que me guie pelo caminho do amor, até aos extases
d'uma felicidade celestial. Adeus, anjo feiticeiro, recebe a offerta do
coração do teu amante e pai espiritual
«_Amaro_».
Depois de jantar copiou esta carta a tinta azul, e com ella bem dobrada
no bolso da batina foi á rua da Misericordia. Logo da escada sentiu em
cima a voz aguda de Natario, discutindo.
--Quem está por cá?--perguntou á _Ruça_, que alumiava, encolhida no seu
chale.
--As senhoras todas. Está o senhor padre Brito.
--Ólá! Bella sociedade!
Galgou os degraus, e á porta da sala, com o seu capote ainda pelos
hombros, tirando alto o chapéo:
--Muito boas noites a todos, começando pelas senhoras.
Natario, immediatamente, plantou-se diante d'elle e exclamou:
--Então que lhe parece?
--O quê? perguntou Amaro. E reparando no silencio, nos olhos cravados
n'elle:--O que é? Alguma coisa de novo?
--Pois não leu, senhor parocho!? exclamaram. Não leu o _Districto_!?
Era papel em que elle não puzera os olhos, disse. Então as senhoras
indignadas romperam:
--Ai! é um desafôro!
--Ai! é um escandalo, senhor parocho!
Natario, com as mãos enterradas nas algibeiras, contemplava o parocho
com um sorrisinho sarcastico, soltando d'entre os dentes:
--Não leu! Não leu! Então que fez?
Amaro reparava, já aterrado, na pallidez d'Amelia, nos seus olhos muito
vermelhos. E emfim o conego erguendo-se pesadamente:
--Amigo parocho, dão-nos uma desanda!...
--Ora essa! exclamou Amaro.
--Têsa!
O senhor conego, que trouxera o jornal, devia ler alto--lembraram.
--Leia, Dias, leia, acudiu Natario. Leia, para saborearmos!
A S. Joanneira deu mais luz ao candieiro: o conego Dias accommodou-se á
mesa, desdobrou o jornal, pôz os oculos cuidadosamente, e, com o lenço
do rapé nos joelhos, começou a leitura do _Communicado_ na sua voz
pachorrenta.
O principio não interessava: eram periodos enternecidos em que o
_liberal_ exprobrava aos phariseus a crucifixão de Jesus:--«Por que o
matasteis? (exclamava elle). Respondei!» E os phariseus
respondiam:--«Matamol-o porque elle era a liberdade, a emancipação, a
aurora de uma nova era», etc. O _liberal_ então esboçava, a largos
traços, a noite do Calvario:--«Eil-o pendente da cruz, traspassado de
lanças, a sua tunica jogada aos dados, a plebe infrene», etc. E,
voltando a dirigir-se aos phariseus infelizes, o _liberal_ gritava-lhes
com ironia:--«Contemplai a vossa bella obra!» Depois, por uma gradação
habil, o _liberal_ descia de Jerusalem a Leiria:--«Mas pensam os
leitores que os phariseus morreram? Como se enganam! Vivem!
conhecemol-os nós; Leiria está cheia d'elles, e vamos apresental-os aos
leitores...»
--Agora é que ellas começam, disse o conego olhando para todos em redor,
por cima dos oculos.
Com effeito «ellas começavam»; era, n'uma fórma brutal, uma galeria de
photographias ecclesiasticas: a primeira era a do padre Brito:--«Vêde-o,
(exclamava o _liberal_) grosso como um touro, montado na sua egua
castanha...»
--Até a côr da egua! murmurou com uma indignação piedosa a snr.^a D.
Maria da Assumpção.
«...Estupido como um melão, sem sequer saber latim...»
O padre Amaro, assombrado, fazia: Oh! oh! E o padre Brito, escarlate,
mexia-se na cadeira, esfregando devagar os joelhos.
«...Especie de caceteiro», continuava o conego que lia aquellas phrases
crueis com uma tranquillidade dôce, «desabrido de maneiras, mas que não
desgosta de se dar á ternura, e, segundo dizem os bem informados,
escolheu para Dulcinêa a propria e legitima esposa do seu regedor...»
O padre Brito não se dominou:
--Eu racho-o de meio a meio! exclamou erguendo-se e recahindo
pesadamente na cadeira.
--Escute, homem! disse Natario.
--Qual escute! O que é, é que o racho!
Mas se elle não sabia quem era o _liberal_!
--Qual _liberal_! Quem eu racho é o doutor Godinho. O doutor Godinho é
que é o dono do jornal. O doutor Godinho é que eu racho!
A sua voz tinha tons roucos: e atirava furioso grandes palmadas á côxa.
Lembraram-lhe o dever christão de perdoar as injurias. A S. Joanneira
com unção citou a bofetada que Jesus Christo supportou. Devia imitar
Christo.
--Qual Christo, qual cabaça! gritou Brito apopletico.
Aquella impiedade creou um terror.
--Credo, senhor padre Brito, credo! exclamou a irmã do conego recuando a
cadeira.
O Libaninho, com as mãos na cabeça, vergado sob o desastre, murmurava:
--Nossa Senhora das Dôres, que até póde cahir um raio!
E, vendo mesmo Amelia indignada, o padre Amaro disse gravemente:
--Brito, realmente vossê excedeu-se.
--Pois se estão a puxar por mim!...
--Homem, ninguem puxou por vossê, disse severamente Amaro. E com um tom
pedagogo:--Apenas lhe lembrarei, como devo, que em taes casos, quando se
diz a _blasphemia má_, o reverendo padre Scomelli recommenda confissão
geral e dois dias de recolhimento a pão e agua.
O padre Brito resmungava.
--Bem, bem, resumiu Natario. O Brito commetteu uma grande falta, mas
saberá pedir perdão a Deus, e a misericordia de Deus é infinita!
Houve uma pausa commovida em que se ouviu a snr.^a D. Maria da Assumpção
murmurar «que ficára sem pinga de sangue»; e o conego, que durante a
catastrophe pousára os oculos sobre a mesa, retomou-os, e continuou
serenamente a leitura:
«...Conheceis um outro com cara de furão?...»
Olhares de lado fixaram o padre Natario.
«...Desconfiai d'elle: se puder trahir-vos, não hesita; se puder
prejudicar-vos, folga: as suas intrigas trazem o cabido n'uma confusão
porque é a vibora mais damninha da diocese, mas com tudo isso muito dado
á jardinagem, porque cultiva com cuidado _duas rosas do seu canteiro_.»
--Homem, essa! exclamou Amaro.
--É para que vossê veja, disse Natario erguendo-se lívido. Que lhe
parece? Vossê sabe que eu, quando fallo das minhas sobrinhas, costumo
dizer _as duas rosas do meu canteiro_. É um gracejo. Pois senhores, até
vem com isto!--E com um sorriso macilento, de fel:--mas ámanhã hei de
saber quem é! Ólaré! Eu hei de saber quem é!
--Deite ao desprezo, senhor padre Natario, deite ao desprezo, disse a S.
Joanneira pacificadora.
--Obrigado, minha senhora, acudiu Natario curvando-se com uma ironia
rancorosa--obrigado! Cá recebi!
Mas a voz imperturbavel do conego retomára a leitura. Agora era o
retrato d'elle, traçado com odio:
«...Conego bojudo e glutão, antigo caceteiro do senhor D. Miguel, que
foi expulso da freguezia de Ourem, outr'ora mestre de Moral n'um
seminario e hoje mestre de immoralidade em Leiria...»
--Isso é infame! exclamou Amaro exaltado.
O conego pousou o jornal, e com a voz pachorrenta:
--Vossê pensa que me dá isto cuidado? disse elle. Boa! Tenho que comer e
que beber, graças a Deus! Deixar rosnar quem rosna!
--Não, mano, interrompeu a irmã, mas a gente sempre tem o seu bocadinho
de brio!
--Ora, mana! replicou o conego Dias com um azedume de raiva concentrada.
Ora, mana! ninguem lhe pede a sua opinião!
--Nem preciso que m'a peçam! gritou ella impertigando-se. Sei-a dar
muito bem quando quero e como quero. Se não tem vergonha, tenho-a eu!
--Então! então!... disseram em roda, acalmando-a.
--Menos lingua, mana, menos lingua! disse o conego fechando os seus
oculos. Olhe não lhe cáiam os dentes postiços!
--Seu malcriado!
Ia fallar, mas suffocou-se; e começou subitamente a soltar _ais_.
Recearam logo que lhe désse o _flato_: a S. Joanneira e a D. Joaquina
Gansoso levaram-na para o quarto, em baixo, amparando-a, com palavras
brandas:
--Estás doida! Por quem és, filha! Olha que escandalo! Nossa Senhora te
valha!
Amelia mandava buscar agua de flôr de laranja.
--Deixe-a lá, rosnou o conego, deixe-a lá! Aquillo passa-lhe. São
calores!
Amelia deu um olhar triste ao padre Amaro, e desceu ao quarto com a
snr.^a D. Maria da Assumpção e a Gansoso surda, que iam tambem «socegar
a D. Josepha, coitadita»! Os padres agora estavam sós; e o conego
voltando-se para Amaro:--Ouça vossê, que é a sua vez--disse retomando o
jornal.
--E verá que dóse! disse Natario.
O conego escarrou, aproximou mais o candieiro, e declamou:
«...Mas o perigo são certos padres novos e ajanotados, parochos por
influencias de condes da capital, vivendo na intimidade das familias de
bem onde ha donzellas inexperientes, e aproveitando-se da influencia do
seu sagrado ministerio para lançar na alma da innocente a semente de
chammas criminosas!»
--Pouca vergonha! murmurou Amaro livido.
«...Dize, sacerdote de Christo, onde queres arrastar a impolluta virgem?
Queres arrastal-a aos lodaçaes do vicio? Que vens fazer aqui ao seio
d'esta respeitavel familia? Porque rondas em volta da tua prêsa como o
milhafre em torno da innocente pomba? Para traz, sacrilego! Murmuras-lhe
seductoras phrases, para a desviares do caminho da honra; condemnas á
desgraça e á viuvez algum honrado moço que lhe queira offerecer sua mão
trabalhadora; e vaes-lhe preparando um horroroso futuro de lagrimas. E
tudo para quê? Para saciares os torpes impulsos de tua criminosa
lascivia!...»
--Que infame! rosnou com os dentes cerrados o padre Amaro.
«...Mas acautela-te, presbytero perverso!» E a voz do conego tinha tons
cavos ao soltar aquellas apostrophes. «Já o archanjo levanta a espada da
justiça. E sobre ti, e teus cumplices, já a opinião da illustrada Leiria
fita seu olho imparcial. E nós cá estamos, nós, filhos do trabalho, para
vos marcar na fronte o estigma da infamia. Tremei, sectarios do
_Syllabus_! Cuidado, sotainas negras!»
--D'escacha! fez o conego suado, dobrando a _Voz do Districto_.
O padre Amaro tinha os olhos ennevoados de duas lagrimas de raiva:
passou devagar o lenço pela testa, soprou, disse com os beiços a tremer:
--Eu, collegas, nem sei o que hei de dizer! Pelo Deus que me ouve, isto
é a calumnia das calumnias.
--Uma calumnia infame... rosnaram.
-E a mim o que me parece, continuou Amaro, é que nos dirijamos á
auctoridade!
--É o que eu tinha dito, acudiu Natario, é necessario fallar ao
secretario geral...
--Um cacete é que é! rugiu o padre Brito. Auctoridade! O que é, é
rachal-o! Eu bebia-lhe o sangue!...
O conego, que meditava coçando o queixo, disse então:
--E vossê, Natario, é que deve ir ao secretario geral. Vossê tem lingua,
tem logica.
--Se os collegas decidem, disse Natario curvando-se, vou. E hei de lh'as
cantar, á auctoridade!
Amaro ficára junto da mesa com a cabeça entre as mãos, aniquilado. E o
Libaninho murmurava:
--Ai, filhos, eu não é nada commigo, mas só de ouvir todo esse aranzel,
até se me estão a vergar as pernas. Ai, filhos, um desgosto assim...
Mas sentiram a voz da snr.^a Joaquina Gansoso subindo a escada; e o
conego immediatamente com uma voz prudente:
--Collegas, o melhor, diante das senhoras, é não se fallar mais n'isto.
Bem basta o que basta.
D'ahi a momentos, apenas Amelia entrou, Amaro ergueu-se, declarou que
estava com uma forte dôr de cabeça, e despediu-se das senhoras.
--E sem tomar chá? acudiu a S. Joanneira.
--Sim, minha senhora, disse elle embrulhando-se no seu capote, não me
estou a sentir bem. Boas noites... E vossê, Natario, appareça ámanhã
pela Sé á uma hora.
Apertou a mão de Amelia, que se lhe abandonou entre os dedos passiva e
molle,--e sahiu com os hombros vergados.
A S. Joanneira notou, desconsolada:
--O senhor parocho ia muito pallido...
O conego levantou-se, e com um tom impaciente e quezilado:
--Se ia pallido, ámanhã estará córado. E agora quero dizer uma coisa:
esse aranzel do jornal é a calumnia das calumnias! Eu não sei quem o
escreveu, nem para que o escreveu. Mas são tolices e são infamias. É
pateta e maroto, quem quer que seja. O que devemos fazer já o sabemos, e
como já se tagarellou bastante sobre o caso, a senhora mande vir o chá.
E o que lá vai, lá vai, não se falla mais na questão.
As faces em roda continuavam contristadas.--E então o conego
acrescentou:
--Ah! e quero dizer outra coisa: como não morreu ninguem, não ha
necessidade de estar aqui com cara de pezames. E tu, pequena, senta-te
ao instrumento e repenica-me essa _Chiquita_!
O secretario geral, o snr. Gouvêa Ledesma, antigo jornalista, e, em
annos mais expansivos, auctor do livro sentimental _Devaneios de um
sonhador_, estava então dirigindo o districto na ausencia do governador
civil.
Era um moço bacharel que passava por ter talento. Representára de galan
no theatro academico, em Coimbra, com muito applauso; e tomára a esse
tempo o habito de passear á tarde na Sophia, com o ar fatal com que no
palco arrepellava os cabellos, ou levava, nos transes d'amor, o lenço
aos olhos. Depois em Lisboa arruinára um pequeno patrimonio com o amor
de Lolas e de Carmens, ceias no Matta, muita calça no Xafredo e
perniciosas convivencias litterarias: aos trinta annos estava pobre,
saturado de mercurio e auctor de vinte folhetins romanticos na
_Civilisação_: mas tornára-se tão popular, que era conhecido nos
lupanares e nos cafés por um cognome carinhoso--era o _Bibi_. Julgando
então que conhecia a fundo a existencia, deixou crescer as suiças,
começou a citar Bastiat, frequentou as camaras e entrou na carreira
administrativa; chamava agora á republica que tanto exaltára em Coimbra
_uma absurda chimera_; e Bibi era um pilar das instituições.
Detestava Leiria, onde passava por espirituoso; e dizia ás senhoras, nas
_soirées_ do deputado Novaes,--«que estava cansado da vida». Rosnava-se
que a esposa do bom Novaes andava doida por elle: e em verdade Bibi
escrevêra a um amigo da capital:--«emquanto a conquistas, pouco por ora;
tenho apenas no papo a Novaesitos».
Levantava-se tarde; e n'essa manhã, de robe-de-chambre á mesa do almoço,
partia os seus ovos quentes, lendo com saudade no jornal a narração
apaixonada d'uma pateada em S. Carlos, quando o criado,--um gallego que
trouxera de Lisboa--veio dizer que «estava alli um cura».
--Um cura? Que entre para aqui!--E murmurou para sua satisfação
pessoal:--O Estado não deve fazer esperar a Igreja.
Ergueu-se, e estendeu as duas mãos ao padre Natario que entrava, muito
composto, na sua longa batina de lustrina.
--Uma cadeira, Trindade! Toma uma chavena de chá, senhor cura? Soberba
manhã, hein? Estava justamente pensando em v. s.^a--isto é, estava
pensando no clero em geral... Acabava de lêr as peregrinações que se
estão fazendo a Nossa Senhora do Lourdes... Grande exemplo! Milhares de
pessoas da melhor roda... É realmente consolador vêr renascer a fé...
Ainda hontem eu disse em casa do Novaes: «no fim de tudo a fé é a mola
real da sociedade». Tome uma chavena de chá... Ah! é um grande
balsamo!...
--Não, obrigado, almocei já.
--Mas não! Quando digo um grande balsamo refiro-me á fé, não ao chá! Ah!
ah! É boa, não?
E prolongou a sua risadinha com complacencia. Queria agradar a Natario,
pelo principio que repetia muito, com um sorriso astuto--«que quem está
mettido na politica deve ter por si a padraria».
--E depois, acrescentou, como eu dizia hontem em casa do Novaes, que
vantagem para as localidades! Lourdes, por exemplo, era uma aldeola;
pois com a affluencia dos devotos está uma cidade... Grandes hoteis,
_boulevards_, bellas lojas... É por assim dizer o desenvolvimento
economico, correndo parelhas com o renascimento religioso.
E deu com satisfação um puxãosinho grave ao collarinho.
--Pois eu vinha aqui fallar a v. exc.^a a respeito d'um communicado na
_Voz do Districto_.
--Ah! interrompeu o secretario geral, perfeitamente, li! Uma famosa
verrina... Mas litterariamente, como estylo e como imagens, que miseria!
--E que tenciona v. exc.^a fazer, senhor secretario geral?
O snr. Gouvéa Ledesma apoiou-se nas costas da cadeira, perguntou
pasmado:
--Eu!?
Natario disse, distillando as palavras:
--A auctoridade tem o dever de proteger a religião do Estado, e
implicitamente os seus sacerdotes... Que tenha v. exc.^a em vista, eu
não venho aqui em nome do clero...
E acrescentou com a mão sobre o peito:
--Sou apenas um pobre padre sem influencia... Venho, como particular,
perguntar ao senhor secretario geral se se póde permittir que caracteres
respeitaveis da Igreja diocesana sejam assim diffamados...
--É certamente lamentavel que um jornal...
Natario interrompeu, impertigando o busto com indignação:
--Jornal que já devia estar suspenso, senhor secretario geral!
--Suspenso!? Por quem é, senhor cura! Mas v. s.^a decerto não quer que
eu volte aos tempos dos corregedores-móres! Suspender o jornal! Mas a
liberdade de imprensa é um principio sagrado! Nem as leis de imprensa o
permittem... Mesmo querelar pelo ministerio publico porque um periodico
diz duas ou tres pilherias sobre o cabido, impossivel! Tínhamos de
querelar de toda imprensa de Portugal, com excepção da _Nação_ e do _Bem
Publico!_ Onde iria parar a liberdade de pensamento, trinta annos de
progresso, a propria idéa governamental? Mas nós não somos os Cabraes,
meu caro senhor! Nós queremos luz, muitissima luz! Justamente o que nós
queremos é luz!
Natario tossiu devagarinho, disse:
--Perfeitamente. Mas então quando, pelas eleições, a auctoridade nos
vier pedir o nosso auxilio, nós, vendo que não encontramos n'ella
protecção, diremos simplesmente: _Non possumus_!
--E pensa o senhor cura, que por amor de alguns votos que dão os
senhores abbades, nós vamos trahir a civilisação?
E o antigo _Bibi_, tomando uma grande attitude, soltou esta phrase:
--Somos filhos da liberdade, não renegaremos nossa mãi!
--Mas o doutor Godinho, que é a alma do jornal, é opposição, observou
então Natario; proteger-lhe o jornal é implicitamente proteger-lhe as
manobras...
O secretario geral teve um sorriso:
--Meu caro senhor cura, v. s.^a não está no segredo da politica. Entre o
doutor Godinho e o governo civil não ha inimizade, ha apenas um
arrufo... O doutor Godinho é uma intelligencia... Vai reconhecendo que o
_grupo da Maia_ não produz nada... O doutor Godinho aprecia a politica
do governo, e o governo aprecia o doutor Godinho.
E, rebuçando-se todo n'um mysterio d'Estado, acrescentou:
--Coisas d'alta política, meu caro senhor.
Natario ergueu-se:
--De modo que...
--_Impossibilis est_, disse o secretario. De resto acredite, senhor
cura, que como particular revolto-me contra o _Communicado_; mas como
auctoridade devo respeitar a expressão do pensamento... Mas creia, e
póde dizel-o a todo o clero diocesano, a Igreja catholica não tem um
filho mais fervente que eu, Gouvêa Ledesma... Quero porém uma religião
liberal, de harmonia com o progresso, com a sciencia... Foram sempre as
minhas idéas; préguei-as bem alto, na imprensa, na universidade e no
gremio... Assim, por exemplo, não acho que haja poesia maior que a
poesia do christianismo! E admiro Pio IX, uma grande figura! Sómente
lamento que elle não arvore a bandeira da civilisação!--E o antigo Bibi,
contente da sua phrase, repetia:--Sim, lamento que elle não arvore a
bandeira da civilisação... O _Syllabus_ é impossivel n'este seculo de
electricidade, senhor cura! E a verdade é que nós não podemos querelar
d'um jornal porque elle diz duas ou tres pilherias sobre o sacerdocio,
nem nos convém, por altas razões de política, escandalisar o doutor
Godinho. Aqui tem o meu pensamento.
--Senhor secretario geral... disse Natario curvando-se.
--Um criado de v. s.^a Sinto que não tome uma chavena de chá... E como
vai o nosso chantre?
--S. exc.^a n'estes ultimos dias, segundo creio, tem tornado a soffrer
de tonturas.
--Sinto. Uma intelligencia tambem! Grande latinista... Tenha cuidado com
o degrau!...
Natario correu á Sé, com um passo nervoso, resmungando alto de cólera.
Amaro passeava devagar no terraço, com as mãos atraz das costas: tinha
as olheiras batidas e a face envelhecida.
--Então? disse elle, indo rapidamente ao encontro de Natario.
--Nada!
Amaro mordeu o beiço: e emquanto Natario lhe contava, excitado, a
conversação com o secretario geral, «e como argumentára com elle, e como
o homem tagarellára, tagarellára»,--a face do parocho cobria-se d'uma
sombra desconsolada, e ia arrancando raivosamente, com a ponta do
guardasol, a herva que crescia nas fendas do terraço.
--Um patarata! resumiu o padre Natario com um grande gesto. Pela
auctoridade não se faz nada. É escusado... Mas a questão agora é entre
mim e o _liberal_, padre Amaro! Eu hei de saber quem é, padre Amaro! E
quem o esmaga sou eu, padre Amaro, sou eu!...
No emtanto João Eduardo desde o domingo triumphava: o artigo fizera
escandalo: tinham-se vendido oitenta numeros avulsos do jornal, e o
Agostinho affirmára-lhe que na botica da Praça a opinião era «que o
_liberal_ conhecia a padraria a fundo e tinha cabeça»!
--És um genio, rapaz! disse o Agostinho. É trazer-me outro, é trazer-me
outro!
João Eduardo gozava prodigiosamente «d'aquelle fallatorio que ia pela
cidade».
Relia então o artigo com uma deleitação paternal; se não receasse
escandalisar a S. Joanneira, desejaria ir pelas lojas dizer bem
alto--_fui eu, eu é que o escrevi!_--E já ruminava outro, mais terrivel,
que se deveria intitular: _O diabo feito ermita_, ou _O sacerdocio de
Leiria perante o seculo XIX_!
O doutor Godinho encontrára-o na Praça, e parára com condescendencia,
para lhe dizer:
--A coisa tem feito barulho. Vossê é o diabo! E a piada ao padre Brito é
bem jogada. Que eu não sabia... E diz que é bonita, a mulher do
regedor...
--V. exc.^a não sabia?
--Não sabia, e saboreei. Vossê é o diabo! Eu fui que disse ao Agostinho
que publicasse a coisa como um communicado. Vossê comprehende... Eu não
me convém ter turras de mais com o clero... E depois lá minha esposa tem
seus escrupulos... Emfim é mulher, e é conveniente que as mulheres
tenham religião... Mas no meu fôro interior saboreei... Sobretudo a
piada ao Brito. O patife fez-me uma guerra dos diabos na eleição
passada... Ah! e outra coisa, o seu negocio arranja-se. Lá para o mez
que vem tem vossê o seu emprego no governo civil.
--Oh, snr. doutor... v. exc.^a...
--Qual historia! vossê é um benemerito!
João Eduardo foi para o cartorio, tremulo d'alegria. O snr. Nunes Ferral
sahira: o escrevente aparou devagar uma penna, começou a cópia d'uma
procuração--e de repente, agarrando o chapéo, correu á rua da
Misericordia.
A S. Joanneira costurava só á janella; Amelia fôra ao Morenal; e João
Eduardo, logo da porta:
--Sabe, D. Augusta? Estive agora com o doutor Godinho. Diz que lá para o
mez que vem tenho o meu emprego...
A S. Joanneira tirou a luneta, deixou cahir as mãos no regaço:
--Que me diz?...
--É verdade, é verdade...
E o escrevente esfregava as palmas, com risinhos nervosos de jubilo.
--Que pechincha! exclamou. De modo que agora, se a Ameliasinha estiver
d'accordo...
--Ai, João Eduardo! fez a S. Joanneira com um grande suspiro, que me
tira um peso do coração... Que tenho estado... Olhe, nem tenho
dormido!...
João Eduardo presentiu que ella ia fallar do _Communicado_. Foi pôr o
chapéo n'uma cadeira ao canto; e voltando á janella, com as mãos nos
bolsos:
--Então porquê, porquê?
--Aquella pouca vergonha no _Districto!_ Que diz vossê? Aquella
calumnia! Ai! tenho-me feito velha!
João Eduardo escrevera o artigo sob as solicitações do ciume, só para
«enterrar» o padre Amaro; não previra o desgosto das duas senhoras; e
vendo agora a S. Joanneira com duas lagrimas no branco dos olhos,
sentia-se _quasi arrependido_. Disse ambíguamente:
--Eu li, é o diabo...
Mas aproveitando o sentimento da S. Joanneira para servir a sua paixão,
acrescentou sentando-se, chegando a cadeira para ao pé d'ella:
--Eu nunca lhe quiz fallar d'isso, D. Augusta, mas... olhe que a
Ameliasinha tratava o parocho com muita familiaridade... E pelas
Gansosos, pelo Libaninho, mesmo sem quererem, a coisa ia-se sabendo,
ia-se rosnando... Eu bem sei que ella, coitada, não via o mal, mas... a
D. Augusta sabe o que é Leiria. Que linguas, hein!
A S. Joanneira então declarou que lhe ia fallar como a um filho: o
artigo affligira-a, sobretudo por causa d'elle, João Eduardo. Porque
emfim elle podia acreditar tambem, desfazer o casamento, e que desgosto!
E ella podia dizer-lhe, como mulher de bem, como mãi, que não havia
entre a pequena e o senhor parocho nada, nada, nada! Era a rapariga que
tinha aquelle genio communicativo! E o parocho tinha boas palavras,
sempre muito delicado... Que ella sempre o dissera, o senhor padre Amaro
tinha maneiras que tocavam o coração...
--Decerto, disse João Eduardo mordendo o bigode, com a cabeça baixa.
A S. Joanneira então poz a mão de leve sobre o joelho do escrevente, e
fitando-o:
--E olhe, não sei se me fica mal dizer-lh'o, mas a rapariga quer-lhe
devéras, João Eduardo.
O coração do escrevente teve uma palpitação commovida.
--E eu! disse. A D. Augusta sabe a paixão que eu tenho por ella... E lá
do artigo que me importa a mim!
Então a S. Joanneira limpou os olhos ao avental branco. Ai! era uma
alegria para ella! Ella sempre o dissera, como rapaz de bem, não havia
outro na cidade de Leiria!
--Vossê sabe, quero-lhe como filho!
O escrevente enterneceu-se:
--Pois vamos a isso, e tapam-se as bocas do mundo...
E erguendo-se, com uma solemnidade engraçada:
--Snr.^a D. Augusta! Tenho a honra de lhe pedir a mão...
Ella riu-se--e na sua alegria João Eduardo beijou-a na testa,
filialmente.
--E falle á noite á Ameliasinha, disse ao sahir. Eu venho ámanhã, e
felicidade não ha de faltar...
--Louvado seja Nosso Senhor! acrescentou a S. Joanneira retomando a sua
costura, com um suspiro de muito allivio.
Apenas n'essa tarde Amelia voltou do Morenal, a S. Joanneira, que estava
pondo a mesa, disse-lhe:
--Esteve ahi o João Eduardo...
--Ah!...
--Ahi esteve a fallar, coitado...
Amelia, calada, dobrava a sua manta de lã.
--Ahi esteve a queixar-se... continuou a mãi.
--Mas de quê? perguntou ella muito vermelha.
--Ora de quê! Que se fallava muito na cidade do artigo do _Districto_;
que se perguntava a quem alludia o periodico com as _donzellas
inexperientes_, e que a resposta era: «Quem ha de ser? a Amelia da S.
Joanneira, da rua da Misericordia!» O pobre João diz que tem andado tão
desgostoso!... Não se atrevia, por delicadeza, a fallar-te... Emfim...
--Mas que hei de eu fazer, minha mãi? exclamou Amelia com os olhos
subitamente cheios de lagrimas áquellas palavras que cahiam sobre os
seus tormentos como gotas de vinagre sobre feridas.
--Eu digo-te isto para teu governo. Faze o que quizeres, filha. Eu bem
sei que são calumnias! Mas tu sabes o que são linguas do mundo... O que
te posso dizer é que o rapaz não acreditou no periodico. Que era isso
que me dava cuidado!... Credo! tirou-me o somno... Mas não, diz que não
lhe importa o artigo, que te quer da mesma maneira, e está a arder por
que se faça o casamento... E eu por mim o que fazia, para calar toda
essa gente, era casar-me já. Eu bem sei que tu não morres por elle, bem
sei. Deixa lá! Isso vem depois. O João é bom rapaz, vai ter o emprego...
--Vai ter o emprego!?
--Pois foi o que elle me veio dizer tambem... Esteve com o doutor
Godinho, diz que lá para o fim do mez está empregado... Emfim tu fazes o
que entenderes... Que olha que eu estou velha, filha, posso faltar-te
d'um momento para o outro...
Amelia não respondeu, olhando de frente no telhado voarem os
pardaes--menos desassocegados, n'aquelle instante, que os seus
pensamentos.
Desde domingo vivia atordoada. Sabia bem que a _donzella inexperiente_ a
que alludia o _Communicado_ era ella, Amelia, e torturava-a o vexame de
vêr assim o seu amor publicado no jornal. Depois (como ella pensava,
mordendo o beiço n'uma raiva muda, com os olhos afogados de lagrimas),
aquillo vinha estragar tudo! Na Praça, na Arcada já se diria com
risinhos perversos:--«Então a Ameliasita da S. Joanneira mettida com o
parocho, hein?» Decerto o senhor chantre, tão severo em «coisas de
mulheres,» reprehenderia o padre Amaro... E por alguns olhares, alguns
apertos de mão, ahi estava a sua reputação estragada, estragado o seu
amor!
Na segunda-feira, ao ir ao Morenal, parecera-lhe sentir pelas costas
risinhos a escarnecel-a; no aceno que lhe fez da porta da botica o
respeitavel Carlos julgou vêr uma seccura reprehensível; á volta
encontrára o Marques da loja de ferragens, que não lhe tirou o chapéo, e
ao entrar em casa julgava-se desacreditada--esquecendo que o bom Marques
era tão curto da vista que usava na loja duas lunetas sobrepostas.
--Que hei de eu fazer? que hei de eu fazer? murmurava, às vezes, com as
mãos apertadas na cabeça. O seu cerebro de devota apenas lhe fornecia
soluções devotas--entrar n'um recolhimento, fazer uma promessa a Nossa
Senhora das Dôres «para que a livrasse d'aquelle apuro», ir confessar-se
ao padre Silverio... E terminava por se vir sentar resignadamente ao pé
da mãi com a sua costura, considerando, muito enternecida, que desde
pequena fôra sempre bem infeliz!
A mãi não lhe fallára claramente sobre o _Communicado_; tivera apenas
palavras ambíguas:
--É uma pouca vergonha... É deitar ao desprezo... Quando a gente tem a
sua consciencia socegada, o mais historias...
Mas Amelia via-lhe bem o desgosto--na face envelhecida, nos tristes
silencios, nos suspiros repentinos quando fazia meia á janella com a
luneta na ponta do nariz: e então mais se convencia que havia «grande
fallatorio na cidade», de que a mãi, coitada, estava informada pelas
Gansosos e pela D. Josepha Dias--cuja boca produzia o mexerico mais
naturalmente que a saliva. Que vergonha, Jesus!
E então o seu amor pelo parocho, que até ahi, n'aquella reunião de saias
e batinas da rua da Misericordia se lhe afigurára natural, agora,
julgando-o reprovado pelas pessoas que desde pequena fora acostumada a
respeitar--os Guedes, os Marques, os Vazes,--apparecia-lhe já
monstruoso: assim as côres d'um retrato pintado á luz d'azeite, e que á
luz d'azeite parecem justas, tomam tons falsos e disformes quando lhes
cae em cima a luz do sol. E quasi estimava que o padre Amaro não tivesse
voltado á rua da Misericordia.
No emtanto, com que anciedade esperava todas as noites o seu toque de
campainha! Mas elle não vinha; e aquella ausencia, que a sua razão
julgava prudente, dava ao seu coração o desespero d'uma traição. Na
quarta-feira á noite não se conteve, disse, córando sobre a sua costura:
--Que será feito do senhor parocho?
O conego, que na sua poltrona parecia dormitar, tossiu grosso, mexeu-se,
rosnou:
--Mais que fazer... E escusam de esperar por elle tão cedo!...
E Amelia, que ficára branca como a cal, teve immediatamente a certeza
que o parocho, aterrado com o escandalo do jornal, aconselhado pelos
padres timoratos zelosos «do bom nome do clero»--tratava de se descartar
d'ella! Mas, cautelosa, diante das amigas da mãi, escondeu o seu
desespero: foi mesmo sentar-se ao piano, e tocou mazurkas tão
estrondosas--que o conego, tornando a mexer-se na poltrona, grunhiu:
--Menos espalhafato e mais sentimento, rapariga!
Passou uma noite agoniada, e sem chorar. A sua paixão pelo parocho
flammejava mais irritada; e todavia detestava-o pela sua cobardia. Mal
uma allusão n'um jornal o picára, ficára a tremer na sua batina,
apavorado, não se atrevendo sequer a visital-a--sem se lembrar que
tambem ella se via diminuida na sua reputação, sem ser satisfeita no seu
amor! E fôra elle que a tentára com as suas palavrinhas dôces, as suas
denguices! Infame!... Desejava violentamente apertal-o ao coração--e
esbofeteal-o. Teve a idéa insensata de ir ao outro dia à rua das Sousas
atirar-se-lhe aos braços, installar-se-lhe no quarto, fazer um escandalo
que o obrigasse a fugir da diocese... Porque não? Eram novos, eram
robustos, poderiam viver longe, n'outra cidade--e a sua imaginação
começou a repastar-se logo hystericamente nas perspectivas deliciosas
d'essa existencia, em que se figurava constantemente a dar-lhe beijos!
Através da sua intensa excitação, aquelle plano parecia-lhe muito
pratico, muito facil: fugiriam para o Algarve; lá, elle deixaria crescer
o cabello (que mais bonito seria então!) e ninguem saberia que era um
padre; poderia ensinar latim, ella coseria para fóra; e viveriam n'uma
casinha--onde o que mais a attrahia era o leito com as duas
travesseirinhas chegadas... E a unica difficuldade que via em todo este
plano radiante era fazer sahir de casa, às escondidas da mãi, o bahú com
a sua roupa!--Mas quando acordou, essas resoluções morbidas, á luz clara
do dia, desfizeram-se como sombras: tudo aquillo lhe parecia agora tão
impraticavel, e elle tão separado d'ella, como se entre a rua da
Misericordia e a rua das Sousas se erguessem inaccessivelmente todas as
montanhas da terra. Ai, o senhor parocho abandonára-a, era certo! Não
queria perder os lucros da sua parochia nem a estima dos seus
superiores!... Pobre d'ella! Considerou-se então para sempre infeliz e
desinteressada da vida. Guardou, todavia, muito intenso o desejo de se
vingar do padre Amaro.
Foi então que reflectiu, pela primeira vez, que João Eduardo desde a
publicação do _Communicado_ não apparecera na rua da Misericordia.
Tambem me volta as costas--pensou com amargura. Mas que lhe importava!
No meio da afflicção que lhe dava o abandono do padre Amaro, a perda do
amor do escrevente, piegas e pesado, que lhe não trazia utilidade nem
prazer, era uma contrariedade imperceptivel: uma infelicidade viera que
lhe arrebatava bruscamente todas as affeições--a que lhe enchia a alma e
a que apenas lhe acariciava a vaidadesinha: e irritava-a, sim, não
sentir já o amor do escrevente collado a suas saias, com a docilidade
d'um cão--mas todas as suas lagrimas eram para o senhor parocho, «que já
não queria saber d'ella»! Só lamentava a deserção de João Eduardo,
porque perdia assim um meio sempre prompto de fazer enraivecer o padre
Amaro...
Por isso n'essa tarde á janella, calada, olhando no telhado defronte
voarem os pardaes--depois de saber que João Eduardo, certo do emprego,
viera fallar emfim á mãi,--pensava com satisfação no desespero do
parocho ao vêr publicados na Sé os banhos do seu casamento. Depois as
palavras muito praticas da S. Joanneira trabalhavam-lhe silenciosamente
n'alma: o emprego do governo civil rendia 25$000 reis mensaes; casando,
reentrava logo na sua respeitabilidade de senhora; e se a mãi morresse,
com o ordenado do homem e com o rendimento do Morenal, podia viver com
decencia, ir mesmo no verão aos banhos... E via-se já na Vieira, muito
comprimentada pelos cavalheiros, conhecendo talvez a do governador
civil.
--Que lhe parece, minha mãi?--perguntou bruscamente. Estava decidida
pelas vantagens que entrevia; mas, com a sua natureza lassa, desejava
ser persuadida e forçada.
--Eu ia pelo seguro, filha--foi a resposta da S. Joanneira.
--É sempre o melhor--murmurou Amelia entrando no quarto. E sentou-se
muito triste aos pés da cama, porque a melancolia que lhe dava o
crepusculo tornava-lhe agora mais pungente a saudade «dos seus bons
tempos com o senhor parocho».
N'essa noite choveu muito, as duas senhoras passaram sós. A S.
Joanneira, repousada agora das suas inquietações, estava muito
somnolenta, a cada momento cabeceava com a meia cahida no regaço. Amelia
então pousava a costura, e com o cotovêlo sobre a mesa, fazendo girar o
_abat-jour_ verde do candieiro, pensava no seu casamento: o João Eduardo
era bom rapaz, coitado; realisava o typo de marido tão estimado na
pequena burguezia--não era feio e tinha um emprego; decerto o
offerecimento da sua mão, apesar das infamias do jornal, não lhe
parecia, como a mãi dissera, «um rasgo de mão cheia»; mas a sua
dedicação lisonjeava-a, depois do abandono tão cobarde de Amaro: e havia
dois annos que o pobre João gostava d'ella... Começou então
laboriosamente a lembrar tudo o que n'elle lhe agradava--o seu ar sério,
os seus dentes muito brancos, a sua roupa aceada.
Fóra ventava forte, e a chuva, fustigando friamente as vidraças,
dava-lhe appetites de confortos, um bom lume, o marido ao lado, o
pequerrucho a dormir no berço--porque seria um rapaz, chamar-se-hia
Carlos e teria os olhos negros do padre Amaro. O padre Amaro!... Depois
de casada, decerto, tornaria a encontrar o senhor padre Amaro... E então
uma idéa atravessou todo o seu sêr, fêl-a erguer bruscamente, ir por
instincto procurar a escuridão da janella para occultar a vermelhidão do
rosto. Oh! isso não, isso não! Era horrível!... Mas a idéa
implacavelmente apoderára-se d'ella como um braço muito forte que a
suffocava e lhe dava uma agonia deliciosa. E então o antigo amor, que o
despeito e a necessidade tinham recalcado no fundo da_sua alma, rompeu,
inundou-a: murmurou repetidamente, com paixão, torcendo as mãos, o nome
d'Amaro: desejou avidamente os seus beijos--oh! adorava-o! E tudo tinha
acabado, tudo tinha acabado! E devia casar, pobre d'ella!... Então á
janella, com a face contra a escuridão da noite, choramingou baixinho.
Ao chá a S. Joanneira disse-lhe, de repente:
-Pois a coisa a fazer-se, filha, devia ser já... Era começar o enxoval,
e se fosse possivel casar-te para o fim do mez.
Ella não respondeu--mas a sua imaginação alvoroçou-se áquellas palavras.
Casada d'ahi a um mez, ella! Apesar de João Eduardo lhe ser
indifferente, a idéa d'aquelle rapaz, novo e apaixonado, que ia viver
com ella, dormir com ella, deu uma perturbação a todo o seu sêr.
E quando a mãi ia descer ao quarto disse-lhe:
--Que lhe parece, minha mãi? Eu está-me a custar entrar em explicações
com o João Eduardo, dizer-lhe que sim. O melhor era escrever-lhe...
--Tambem acho, filha, escreve-lhe... A _Ruça_ leva a carta pela manhã...
Uma carta bonita, e que agrade ao rapaz.
Amelia ficou na sala de jantar até tarde fazendo o rascunho da carta.
Dizia:
«Snr. João Eduardo,
«A mamã cá me pôz ao facto da conversação que teve comsigo. E se a sua
affeição é verdadeira, como creio e me tem dado muitas provas, eu estou
pelo que se decidiu com muito boa vontade, pois conhece os meus
sentimentos. E a respeito d'enxoval e papeis, ámanhã se fallará, pois
que o esperamos para o chá. A mamã está muito contente e eu desejo que
tudo seja para nossa felicidade, como espero ha de ser, com a ajuda de
Deus. A mamã recommenda-se e eu sou
a que muito lhe quer,
_«Amelia Caminha»_.
Apenas fechou a carta, as folhas de papel branco espalhadas diante
d'ella deram-lhe o desejo d'escrever ao padre Amaro. Mas o quê?
Confessar-lhe o seu amor, com a mesma penna, molhada na mesma tinta, com
que aceitava por marido o _outro_?... Accusal-o da sua cobardia, mostrar
o seu desgosto--era humilhar-se! E, apesar de não ter motivo para lhe
escrever, a sua mão ia traçando com gozo as primeiras palavras _«Meu
adorado Amaro...»_ Deteve-se, considerando que não tinha por quem mandar
a carta. Ai! tinham de separar-se assim, em silencio, para sempre!...
Separarem-se porquê?--pensou. Depois de casada podia bem vêr o senhor
padre Amaro. E a mesma idéa voltava, subtilmente, mas n'uma fórma tão
honesta agora, que a não repellia: decerto, o senhor padre Amaro podia
ser o seu confessor; era em toda a christandade a pessoa que melhor
guiaria a sua alma, a sua vontade, a sua consciencia; haveria então
entre elles uma troca deliciosa e constante de confidencias, de dôces
admoestações; todos os sabbados iria receber ao confessionario, na luz
dos seus olhos e no som das suas palavras, uma provisão de felicidade; e
aquillo seria casto, muito picante, e para gloria de Deus.
Sentiu-se quasi satisfeita com a impressão, que não definia bem, d'uma
existencia em que a carne estaria legitimamente contente, e a sua alma
gozaria os encantos d'uma devoção amorosa. Tudo vinha a calhar bem, por
fim... E d'ahi a pouco dormia serenamente, sonhando que estava na _sua_
casa, com o _seu_ marido, e que jogava a manilha com as velhas amigas,
no meio do contentamento de toda a Sé, sentada nos joelhos do senhor
parocho.
Ao outro dia a _Ruça_ levou a carta a João Eduardo, e toda a manhã as
duas senhoras, costurando á janella, fallaram do casamento. Amelia não
se queria separar da mãi, e, como a casa tinha accommodações, os noivos
viveriam no primeiro andar, e a S. Joanneira dormiria no quarto em cima;
decerto o senhor conego ajudaria para o enxoval; podiam ir passar a lua
de mel para a fazenda da D. Maria. E Amelia áquellas perspectivas
felizes fazia-se toda escarlate, sob o olhar da mãi que, de luneta na
ponta do nariz, a admirava babosa.
Ás Ave-Marias a S. Joanneira fechou-se em baixo no seu quarto a rezar a
sua corôa, e deixou Amelia só «para se entender com o rapaz».--D'ahi a
pouco, com effeito, João Eduardo bateu á campainha. Vinha muito nervoso,
de luvas pretas, enfrascado em agua de colonia. Quando chegou á porta da
sala de jantar não havia luz, e a bonita fórma d'Amelia destacava de pé,
junto á claridade da vidraça. Elle pôz o chale-manta a um canto como
costumava, e vindo para ella que ficára immovel, disse-lhe, esfregando
muito as mãos:
--Lá recebi a cartinha, menina Amelia...
--Eu mandei-a pela _Ruça_ logo pela manhã para o pilhar em casa, disse
ella immediatamente com as faces a arder.
--Eu ia para o cartorio, até já ia na escada... Haviam de ser nove
horas...
--Haviam de ser... disse ella.
Calaram-se, muito perturbados. Elle então tomou-lhe delicadamente os
pulsos, e baixo:
--Então sempre quer?
--Quero, murmurou Amelia.
--E o mais depressa possivel, hein?
--Pois sim...
Elle suspirou, muito feliz.
--Havemos de nos dar muito bem, havemos de nos dar muito bem! dizia. E
as suas mãos, com pressões ternas, iam-se apoderando dos braços d'ella,
dos pulsos aos cotovêlos.
--A mamã diz que podemos viver juntos, disse ella, esforçando-se por
fallar tranquillamente.
--Está claro, e eu vou mandar fazer lençoes, acudiu elle, todo alterado.
Attrahiu-a então a si, subitamente, beijou-lhe os labios; ella teve um
soluçosinho, abandonou-se-lhe entre os braços, toda fraca, toda
languida.
--Oh, filha! murmurava o escrevente.
Mas os sapatos da mãi rangeram na escada, e Amelia foi vivamente para o
aparador accender o candieiro.
A S. Joanneira parou á porta; e para dar a sua primeira approvação
maternal, disse, com bonhomia:
--Então vossês estão aqui ás escuras, filhos?
Foi o conego Dias que participou ao padre Amaro o casamento d'Amelia,
uma manhã, na Sé. Fallou no «a proposito do enlace», e acrescentou:
--Eu estimo, porque é a contento da rapariga, e é um descanso para a
pobre velha...
--Está claro, está claro...--murmurou Amaro que se fizera muito branco.
O conego pigarreou grosso, e ajuntou:
--E vossê agora appareça por lá, agora está tudo na ordem... A patifaria
do jornal isso pertence á historia... O que lá vai, lá vai!
--Está claro, está claro...--rosnou Amaro. Traçou bruscamente a capa,
sahiu da igreja.
Ia indignado; e continha-se, para não praguejar alto, pelas ruas. Á
esquina da viella das Sousas quasi esbarrou com Natario, que o agarrou
logo pela manga, para lhe soprar ao ouvido:
--Ainda não sei nada!
--De quê?
--Do _liberal_, do _Communicado_. Mas trabalho, trabalho!
Amaro, que anciava por desabafar, disse logo:
--Então ouviu a novidade? O casamento d'Amelia... Que lhe parece?
--Disse-me o animal do Libaninho. Diz que o rapaz apanhou o emprego...
Foi o doutor Godinho... É outro que tal!... Veja vossê esta corja: o
doutor Godinho no jornal ás bulhas com o governo civil, e o governo
civil a atirar postas aos afilhados do doutor Godinho... Vá lá
entendel-os! Isto é um paiz de biltres!
--Diz que grande alegrão na casa da S. Joanneira!--disse o parocho, com
um azedume negro.
--Que se divirtam! Eu não tenho tempo de lá ir... Eu não tenho tempo
para nada!... Eu cá ando no meu fito, saber quem é o _liberal_ e
escachal-o! Não posso vêr esta gente que leva a chicotada, coça-se, e
curva a orelha. Eu cá não! eu guardo-as!--E, com uma contracção de
rancor que lhe curvou os dedos em garra e lhe encolheu o peito magro.
disse por entre os dentes cerrados:--Eu, quando odeio, odeio bem!
Esteve um momento calado, gozando o sabôr do seu fel.
--Vossê se fôr á rua da Misericordia dê lá os parabens a essa
gente...--E acrescentou com os olhinhos em Amaro:--O palerma do
escrevente leva a rapariga mais bonita da cidade! Vai encher o papo!
--Até á vista! exclamou bruscamente Amaro, abalando pela rua furioso.
Depois d'aquelle terrivel domingo em que apparecera o _Communicado_, o
padre Amaro, ao principio, muito egoistamente, apenas se preoccupára com
as consequências--«consequencias fataes, santo Deus!»--que lhe podia
trazer o escandalo. Hein! se pela cidade se espalhasse que era elle o
_padre ajanotado_ que o _liberal_ apostrophava! Viveu dois dias
aterrado, tremendo de vêr apparecer o padre Saldanha, com a sua cara
ameninada e voz melliflua, a dizer-lhe «que sua excellencia o senhor
chantre reclamava a sua presença»! Passava já o tempo preparando
explicações, respostas habeis, lisonjas a sua excellencia.--Mas quando
viu que, apesar da violencia do artigo, sua excellencia parecia disposto
«a fazer a vista grossa», occupou-se então, mais tranquillo, dos
interesses do seu amor tão violentamente perturbados. O medo tornava-o
astucioso; e decidiu não voltar algum tempo á rua da Misericordia.
--Deixar passar o aguaceiro, pensou.
Ao fim de quinze dias, tres semanas, quando o artigo estivesse
esquecido, appareceria de novo em casa da S. Joanneira: deixaria vêr bem
á rapariga que a adorava sempre, mas evitaria a antiga familiaridade, as
conversasinhas baixas, os logarzinhos chegados ao quino; depois, pela D.
Maria da Assumpção, pela D. Josepha Dias, obteria que Amelia deixasse o
padre Silverio, e se confessasse a elle: poderiam então entender-se, no
segredo do confessionario: combinariam uma conducta discreta, encontros
cautelosos aqui e além, cartinhas pela criada: e aquelle amor assim
conduzido, com prudenciasinha, não teria o perigo de apparecer uma manhã
annunciado no periodico! E regosijava-se já da habilidade d'esta
combinação, quando lhe vinha o grande choque--casava-se a rapariga!
Depois dos primeiros desesperos, desabafados em patadas no soalho e
blasphemias de que pedia logo perdão a Nosso Senhor Jesus Christo, quiz
serenar, estabelecer a razão das coisas. Aonde o levava aquella paixão?
Ao escandalo. E assim, casada ella, cada um entrava no seu destino
legitimo e sensato--ella na sua familia, elle na sua parochia. Depois,
quando se encontrassem, um comprimento amavel; e elle poderia passear a
cidade com a sua cabeça bem direita, sem medo dos ápartes da Arcada, das
insinuações da gazeta, das severidades de sua excellencia e das
picadinhas da consciencia! E a sua vida seria feliz.--Não, por Deus! a
sua vida não poderia ser feliz sem ella! Tirado á sua existencia aquelle
interesse das visitas à rua da Misericordia, os apertosinhos de mão, a
esperança de delicias melhores--que lhe restava a elle? Vegetar, como um
dos tortolhos nos cantos humidos do adro da Sé! E ella, ella que o
entontecera com os seus olhinhos e as suas maneirinhas, voltava-lhe as
costas mal lhe apparecia outro, bom para marido, com 25$000 reis por
mez! Todos aquelles suspiros, aquellas mudanças de côr--chalaça! Mangára
com o senhor parocho!...
O que a odiava!--menos que o outro porém, o outro que triumphava porque
era um homem, tinha a sua liberdade, o seu cabello todo, o seu bigode,
um braço livre para lhe dar na rua! Repastava então a imaginação
rancorosamente nas visões de felicidade do escrevente: via-o trazendo-a
da igreja triumphantemente; via-o beijando-lhe o pescoço e o peito... E
a estas idéas dava patadas furiosas no soalho--que assustavam a Vicencia
na cozinha.
Depois procurava socegar, retomar a direcção das suas faculdades,
applical-as todas a achar uma vingança, uma boa vingança! E voltava
então o antigo desespero de não viver no tempo da inquisição, e com uma
denuncia de irreligião ou de feiticeria, mandal-os ambos para um
carcere. Ah! n'esse tempo um padre gozava! Mas agora, com os senhores
liberaes, tinha de vêr aquelle miseravel escrevente a seis vintens por
dia apoderar-se-lhe da rapariga--e elle, sacerdote instruido, que podia
ser bispo, que podia ser Papa, tinha de vergar os hombros e ruminar
solitariamente o seu despeito! Ah! se as maldições de Deus tinham algum
valor--malditos fossem elles! Quereria vêl-os cheios de filhos, sem pão
na prateleira, com o ultimo cobertor empenhado, resequidos de fome,
injuriando-se,--e elle a rir-se, elle a regalar-se!...
Na segunda-feira não se conteve, foi á rua da Misericordia. A S.
Joanneira estava em baixo na saleta com o conego Dias. E apenas viu
Amaro:
--Oh, senhor parocho! bem apparecido! Estava a fallar em v. s.^a! Já
estranhava não o vermos, agora que ha alegria em casa.
--Já sei, já sei, murmurou Amaro pallido.
--Alguma vez havia de ser, disse o conego jovialmente. Deus os faça
felizes e lhes dê poucos filhos, que a carne está cara.
Amaro sorriu--escutando em cima o piano.
Era Amelia que tocava como outr'ora a valsa dos _Dois Mundos_; e João
Eduardo, muito chegado a ella, voltava as folhas da musica.
--Quem entrou, _Ruça_? gritou ella sentindo os passos da rapariga nas
escadas.
--O senhor padre Amaro.
Um fluxo de sangue abrazou-lhe o rosto--e o coração batia-lhe tão forte,
que ficou um momento com os dedos immoveis sobre o teclado.
--Não se precisava cá do senhor padre Amaro, rosnou João Eduardo por
entre dentes.
Amelia mordeu o beiço. Teve odio ao escrevente: n'um instante
repugnou-lhe a sua voz, os seus modos, a sua figura de pé junto d'ella:
pensou com deleite como depois de casada (já que tinha de casar) se
confessaria toda ao padre Amaro, e não deixaria de o amar! Não sentia
n'aquelle momento escrupulos; e quasi desejava que o escrevente lhe
visse no rosto a paixão que a revolvia.
--Credo, creatura! disse-lhe. Chegue-se um pouco mais para lá, que nem
me deixa os braços livres para tocar!
Terminou bruscamente a valsa dos _Dois Mundos_, começou a cantar o
_Adeus_:
Ai! adeus! acabaram-se os dias
Que ditosa vivi a teu lado!
A sua voz elevava-se, com uma modulação ardente,--dirigindo o canto,
através do soalho, ao coração do parocho, em baixo.
E o parocho, com a sua bengala entre os joelhos, sentado no canapé,
devorava todos os tons da voz d'ella--emquanto a S. Joanneira
tagarellava, contando as peças de algodão que comprára para lençoes, os
arranjos que ia fazer no quarto dos noivos, e as vantagens de viverem
juntos...
--Uma felicidade por ahi além, interrompeu o conego erguendo-se
pesadamente. E vamos lá para cima, que isto de noivos não se querem
sós...
--Ah, lá n'isso, disse a S. Joanneira rindo, fio-me n'elle, que é homem
de bem ás direitas.
Amaro, ao subir a escada, tremia--e, mal entrou na sala, o rosto
d'Amelia, alumiado pelas luzes do piano, deu-lhe um deslumbramento, como
se as vesperas do noivado a tivessem embellezado e a separação lh'a
tornasse mais appetitosa. Foi dar-lhe gravemente um aperto de mão, outro
ao escrevente, disse baixo, sem os olhar:
--Os meus parabens... Os meus parabens...
Voltou as costas, e foi conversar com o conego que se enterrára na sua
poltrona queixando-se d'enfastiamento e reclamando o chá.
Amelia ficára como abstracta, correndo inconscientemente os dedos pelo
teclado. Aquelle modo do padre Amaro confirmava a sua idéa: queria a
todo o custo descartar-se d'ella, o ingrato! fazia «como se nada tivesse
havido», o villão! Na sua cobardia de padre, com o terror do senhor
chantre, do jornal, da Arcada, de tudo,--sacudia-a da sua imaginação, do
seu coração, da sua vida, como se sacode um insecto que tem peçonha!...
Então, para o enraivecer, começou a cochichar ternamente com o
escrevente; roçava-se-lhe pelo hombro, rendida, com risinhos,
segredinhos; tentaram, em alarido jovial, tocar uma peça a quatro mãos;
depois ella beliscou-o, elle deu um gritinho exagerado.--E a S.
Joanneira contemplava-os babosa, emquanto o conego dormitava já, e o
padre Amaro, abandonado a um canto como outr'ora o escrevente, ia
folheando o velho album.
Mas um brusco repique da campainha veio sobresaltal-os todos: passos
rapidos galgaram a escada, pararam em baixo na saleta: e a _Ruça_
appareceu dizendo «que era o senhor padre Natario, que não desejava
subir, e queria dar uma palavra ao senhor conego».
--Fracas horas para embaixadas, rosnou o conego, arrancando-se com custo
ao fundo confortavel da poltrona.
Amelia fechou logo o piano--e a S. Joanneira pousando a meia foi em
bicos de pés escutar ao alto da escada: fóra ventava forte, e para os
lados da Praça afastava-se o toque de retreta.
Emfim a voz do conego chamou, de baixo, da porta da saleta:
--Ó Amaro!
--Padre-Mestre?
--Venha cá, homem. E diga á senhora que póde vir tambem.
A S. Joanneira desceu logo, muito assustada: Amaro imaginava que o padre
Natario emfim descobrira o _liberal_!
A saleta parecia muito fria com a luz pequenina da vela sobre a mesa: e
na parede, n'um velho painel muito escuro--que ultimamente o conego dera
á S. Joanneira--destacava uma face livida de monge e um osso frontal de
caveira.
O conego Dias accommodára-se ao canto do canapé, sorvendo
reflectidamente a pitada; e Natario, que se agitava pela sala, exclamou
logo:
--Boas noites, senhora! Olá, Amaro! Trago novidades!... Não quiz subir
porque imaginei que estaria o escrevente, e estas coisas são cá para
nós. Estava a começar a dizer ao collega Dias... Tive lá em casa o padre
Saldanha. Temol-as boas!
O padre Saldanha era o confidente do senhor chantre. E o padre Amaro, já
inquieto, perguntou:
--Coisa que nos toca?
Natario começou com solemnidade erguendo alto o braço:
--_Primo_: o collega Brito mudado da freguezia d'Amor para ao pé
d'Alcobaça, para a serra, para o inferno...
--Que me diz!? exclamou a S. Joanneira.
--Obras do _liberal_, minha senhora! O nosso digno chantre levou-lhe
tempo a meditar o _Communicado_ do _Districto_, mas por fim sahiu-se! O
pobre Brito lá vai esfogueteado!...
--Sempre é o que se dizia da mulher do regedor... murmurou a boa
senhora.
--Ólá! interrompeu severamente o conego. Então, senhora, então! Isto
aqui não é casa de murmuração!... Siga com o seu recado, collega
Natario.
--_Secundo_, continuou Natario: é o que eu ia dizer ao collega Dias... O
senhor chantre, em vista do _Communicado_ e d'outros ataques da
imprensa, está decidido a «reformar os costumes do clero diocesano»,
palavras do padre Saldanha. Que lhe desagradam summamente os
conciliabulos de ecclesiasticos e de senhoras... Que quer saber o que é
isso de sacerdotes ajanotados tentando meninas bonitas... Emfim,
palavras textuaes de sua excellencia--_está decidido a limpar as
cavalhariças d'Augias_!...--o que quer dizer em bom portuguez, minha
senhora, que vai andar tudo n'uma roda-viva.
Houve uma pausa consternada. E Natario, plantado no meio da saleta com
as mãos enterradas nas algibeiras, exclamou:
--Que lhes parece esta á ultima hora, hein?
O conego ergueu-se pachorrentamente:
--Olhe, collega, disse, entre mortos e feridos ha de escapar alguem... E
a senhora não se fique ahi com essa cara de _Mater-dolorosa_, e mande
servir o chá, que é o importante.
--Eu lá disse ao padre Saldanha...--começou Natario perorando.
Mas o conego interrompeu-o com força:
--O padre Saldanha é um patarata!... Vamos nós ás torradinhas, e lá em
cima, diante dos rapazes, caluda.
O chá foi silencioso. O conego, a cada bocado de torrada, respirava
affrontado, franzia muito o sobr'olho; a S. Joanneira, depois de fallar
da D. Maria da Assumpção que estava mal do catarrho, ficou toda murcha,
com a testa sobre o punho; Natario, a grandes passadas, fazia uma
ventania na sala com as abas do casacão.
--E quando vem essa boda? exclamou elle, estacando subitamente diante
d'Amelia e do escrevente; que tomavam o chá sobre o piano.
--Um dia cedo, respondeu ella sorrindo.
Amaro então ergueu-se devagar, e tirando o seu _cebolão_:
--São horas de me ir chegando á rua das Sousas, minhas senhoras, disse
com uma voz desalentada.
Mas a S. Joanneira não consentiu. Credo, estavam todos mônos como se
estivessem de pêzames!... Que fizessem um quino para espairecer...--O
conego porém, sahindo do seu torpor, disse com severidade:
--Está a senhora muito enganada, ninguem está môno. Não ha razões senão
para estar alegre. Pois não é verdade, senhor noivo?
João Eduardo mexeu-se, sorriu:
--Eu cá por mim, senhor conego, não tenho razão senão para estar feliz.
--Pois está claro, disse o conego. E agora Deus lhes dê boas noites a
todos, que eu vou _quinar_ para valle de lençoes. E o Amaro tambem.
Amaro foi apertar silenciosamente a mão d'Amelia,--e os tres padres
desceram calados.
Na saleta a vela ainda ardia com um murrão. O conego entrou a buscar o
seu guardachuva; e então, chamando os outros, cerrando devagarinho a
porta, disse-lhes baixo:
--Eu, collegas, não quiz assustar ha pouco a pobre senhora, mas essas
coisas do chantre, esses fallatorios... É o diabo!
--É ter cautelinha, meninos! aconselhou Natario, abafando a voz.
--É sério, é sério, murmurou lugubremente o padre Amaro.
Estavam de pé no meio da saleta. Fóra o vento uivava: a luz da vela
agitada fazia alternadamente destacar e reentrar na sombra do quadro o
osso frontal da caveira: e em cima Amelia cantarolava a _Chiquita_.
Amaro recordava outras noites felizes em que elle, triumphante e sem
cuidados, fazia rir as senhoras,--e Amelia, gorgeando _Ai chiquita que
si_, revirava-lhe olhares rendidos...
--Eu, disse o conego, os collegas sabem, tenho que comer e beber, não me
importa... Mas é necessario manter a honra da classe!
--E não carece duvida, acrescentou Natario, que se ha outro artigo e
mais fallatorios, estala com certeza o raio...
--Olha o pobre Brito, murmurou Amaro, esfogueteado para a serra!...
Em cima decerto houve alguma graça, porque sentiram as risadas do
escrevente.
Amaro rosnou com rancor:
--Grande galhofa, lá em cima!...
Desceram. Ao abrir a porta uma rajada de vento bateu a face de Natario
d'uma chuva miudinha.
--Olha que noite! exclamou furioso.
Só o conego tinha guardachuva; e abrindo-o devagar:
--Pois meninos, não ha que vêr, estamos em calças pardas...
Da janella de cima, alumiada, sahiam os sons do piano, nos
acompanhamentos da _Chiquita_. O conego soprava, agarrando fortemente o
guardachuva contra o vento; ao lado Natario, cheio de fel, rilhava os
dentes, encolhido no seu casacão; Amaro caminhava de cabeça cahida, n'um
abatimento de derrota; e emquanto os tres padres, assim agachados sob o
guardachuva do conego, iam chapinhando as poças pela rua tenebrosa, por
traz a chuva penetrante e sonora ia-os ironicamente fustigando!