VIII

O padre Amaro voltára para casa aterrado.

--E agora? E agora? dizia elle encostado ao canto da janella, sentindo o

coração encolhido.

Devia sahir immediatamente da casa da S. Joanneira! Não podia continuar

alli, na mesma familiaridade, depois de ter tido «aquelle atrevimento

com a pequena».

Que ella não ficára muito indignada--apenas atordoada; contivera-a

talvez o respeito ecclesiastico, a delicadeza para com o hospede, a

attenção para com o amigo do conego. Mas podia contar á mãi, ao

escrevente... Que escandalo! E via já o senhor chantre, traçando a perna

e fitando-o,--que era a sua attitude de reprehensão--dizer-lhe com

pompa:--«São esses desregramentos que deshonram o sacerdocio. Não se

comportaria d'outro modo um Satyro no monte Olympo!»--Poderiam

desterral-o outra vez para alguma freguezia da serra!... Que diria a

senhora condessa de Ribamar?

E depois, se persistisse em vêl-a na intimidade, ter constantemente

presentes aquelles olhos negros, o sorriso calido que lhe fazia uma

covinha no queixo, a curva d'aquelle peito--a sua paixão, crescendo

surdamente, irritada a toda a hora, recalcada para dentro, tornal-o-hia

doido, «podia fazer alguma asneira»!

Decidiu-se então a ir fallar ao conego Dias: a sua natureza fraca

necessitava sempre receber forças d'uma razão, d'uma experiencia alheia:

costumava consultar ordinariamente o conego que, pelo habito da

disciplina ecclesiastica, elle julgava mais intelligente por ser seu

superior na hierarchia; e não perdera, desde o seminario, a sua

dependencia de discipulo. Depois, se quizesse arranjar uma casa e uma

criada para ir viver só, necessitava o auxilio do conego, que conhecia

Leiria como se a tivesse edificado.

Encontrou-o na sala de jantar. O candieiro de azeite esmorecia com um

murrão avermelhado. Os tições da brazeira, cobertos d'uma pulverisação

de cinza, revermelhavam vagamente. E o conego, sentado n'uma cadeira de

braços, com o capote pelos hombros, os pés embrulhados n'um cobertor,

amodorrado no calor do lume, com o Breviario sobre os joelhos,

dormitava. Na dobra do cobertor, a _Trigueira_ estirada dormitava como

elle.

Aos passos de Amaro o conego abriu muito devagar os olhos, rosnou:

--Ia adormecendo, hein!

--É cedo, disse o padre Amaro. Ainda não tocou a recolher. Então que

preguiça é essa?

--Ah! é vossê? disse o conego com um enorme bocejo. Cheguei tarde de

casa do abbade, tomei uma gota de chá, veio o quebranto... Então que é

feito?

--Vim por aqui.

--Pois o abbade deu-nos um rico jantar. A cabedella estava de mão cheia!

Eu carreguei-me um bocado, disse o conego rufando com os dedos na capa

do Breviario.

Amaro, sentado ao pé d'elle, remexia devagar o brazido:

--Sabe vossê, padre-mestre? disse elle de repente. Ia

acrescentar:--Aconteceu-me um caso!--Mas reteve-se, murmurou:--Estou

hoje exquisito; tenho andado ultimamente fóra dos eixos...

-Vossê com effeito anda amarello, disse o conego, considerando-o.

Purgue-se, homem!

Amaro esteve um momento calado, a olhar o lume.

--Sabe? estou com idéa de mudar de casa.

O conego ergueu a cabeça, arregalou os olhinhos somnolentos:

--Mudar de casa! Ora essa! Porquê?

O padre Amaro chegou a cadeira para elle, e fallando baixo:

--Vossê percebe... Tenho estado a pensar, é assim exquisito estar em

casa de duas mulheres, com uma rapariga...

--Ora, historias! Que me vem vossê contar? Vossê é hospede... Deixe-se

d'isso, homem! É como quem está na hospedaria.

--Não, não, padre-mestre, eu cá me entendo...

E suspirou; desejava que o conego o interrogasse, facilitasse as

confidencias.

--Então só hoje é que pensa n'isso, Amaro?!

--É verdade, tenho estado a pensar hoje n'isto. Tenho minhas razões.--Ia

a dizer:--Fiz uma tolice,--mas acanhou-se.

O conego olhou para elle um momento:

--Homem, seja franco!

--Sou.

--Vossê acha aquillo caro?

--Não! disse o outro com uma negação impaciente.

--Bem, então é outra coisa...

--É. Vossê que quer?--E n'um tom magano, com que julgou agradar ao

conego:--A gente tambem gosta do que é bom...

--Bem, bem, disse o conego rindo, percebo. Vossê, como eu sou amigo da

casa, quer-me dizer por bons modos que tem nojo de tudo aquillo!

--Tolice! disse Amaro erguendo-se, irritado de tanta obtusidade.

--Oh, homem! exclamou o conego abrindo os braços. Vossê quer sahir da

casa? Por alguma é! Ora a mim parece-me que melhor...

--É verdade, é verdade, dizia Amaro que dava agora grandes passadas pela

sala. Mas estou com esta ferrada! Veja vossê se me arranja uma casita

barata com alguma mobilia... Vossê entende melhor d'essas coisas...

O conego ficou calado, muito enterrado na poltrona, coçando devagar o

queixo.

--Uma casita barata... rosnou por fim. Eu verei, eu verei... Talvez.

--Vossê comprehende, acudiu vivamente Amaro, chegando-se ao conego. A

casa da S. Joanneira...

Mas a porta rangeu, D. Josepha Dias entrou: e depois de conversarem

sobre o jantar do abbade, o catarrho da pobre D. Maria da Assumpção, a

doença de figado que ia minando o engraçado conego Sanches--Amaro sahiu,

quasi contente agora de se não «ter desabotoado com o padre-mestre».

O conego ficou ainda ao pé do lume, ruminando. Aquella resolução d'Amaro

de deixar a casa da S. Joanneira era bem vinda; quando elle o trouxera

d'hospede para a rua da Misericordia, combinára com a S. Joanneira

diminuir-lhe a mezada que havia annos lhe dava, regularmente, no dia 30.

Mas arrependeu-se logo; a S. Joanneira, se não tinha hospede, dormia só

no primeiro andar: o conego podia então saborear livremente os carinhos

da sua velhota,--e Amelia, na sua alcova, em cima, era alheia a este

«conchêgosinho». Quando veio o padre Amaro, a S. Joanneira cedeu-lhe o

quarto e dormia n'uma cama de ferro ao pé da filha: e o conego então

reconheceu, como elle disse, desconsolado--«que aquelle arranjo tinha

estragado tudo». Para gozar as doçuras da sésta com a sua S. Joanneira

era necessario que Amelia jantasse fóra, que a _Ruça_ estivesse na

fonte, outras combinações importunas; e elle, conego do cabido, na

egoista velhice, quando precisava ter recato com a sua saude, via-se

obrigado a esperar, a espreitar, a ter nos seus prazeres regulares e

hygienicos as difficuldades d'um collegial que ama a senhora professora.

Ora se Amaro sahisse, a S. Joanneira descia ao seu quarto, no primeiro

andar; vinham as antigas commodidades, as tranquillas séstas. É verdade

que tinha de dar a antiga mezada... Daria a mezada!

--Que diabo! ao menos está um homem á sua vontade, resumiu elle.

--Que está para ahi o mano a fallar só? perguntou a snr.^a D. Josepha

despertando do quebranto em que ia cahindo, ao pé do lume.

--Estava cá a malucar como hei de castigar a carne na quaresma...--disse

o conego com um riso grosso.

A essa hora a _Ruça_ chamava o padre Amaro para o chá: e elle subia

devagar, com o coração pequenino, receando encontrar a S. Joanneira

muito carrancuda, já informada do insulto. Achou só Amelia--que

tendo-lhe sentido os passos na escada tomára rapidamente a costura e,

com a cabeça muito baixa, dava grandes agulhadas, vermelha como o lenço

que abainhava para o conego.

--Muito boa noite, menina Amelia.

--Muito boa noite, senhor parocho.

Amelia costumava sempre ter um _olá!_ ou um _ora viva!_ muito amavel;

aquella seccura aterrou-o; disse-lhe logo muito perturbado:

--Menina Amelia, eu peço-lhe que me perdôe... Foi um atrevimento... Eu

nem soube o que fiz... Mas acredite... Estou resolvido a sahir d'aqui.

Até já pedi ao senhor conego Dias que me arranjasse casa...

Fallava com o rosto baixo--e não via Amelia erguer os olhos para elle,

surprehendida e toda desconsolada.

N'este momento a S. Joanneira entrou, e logo da porta, abrindo os

braços:

--Viva! Então já sei, já sei! Disse-me o senhor padre Natario: grande

jantar! Conte lá, conte lá!

Amaro teve de dizer os pratos, as pilherias do Libaninho, a discussão

theologica; depois fallaram da fazenda: e Amaro desceu, sem se ter

atrevido a dizer á S. Joanneira que ia deixar a casa,--o que era,

coitada, para a pobre mulher, uma perda de seis tostões por dia!

Na manhã seguinte o conego foi a casa d'Amaro, pela manhã, antes d'ir ao

côro. O parocho fazia a barba á janella:

--Ólá, padre-mestre! Que ha de novo?

--Parece-me que se arranja a coisa! E foi por acaso, esta manhã... Ha

uma casita lá para os meus lados, que é um achado. Era do major Nunes,

que vai mudado para o 5.

Aquella precipitação desagradou a Amaro: perguntou, dando

desconsoladamente o fio á navalha:

--Tem mobilia?

--Tem mobilia, tem louças, tem roupas, tem tudo.

--Então...

--Então é entrar e começar a gozar. E aqui para nós, Amaro, vossê tem

razão. Estive a pensar no caso... É melhor para vossê viver só. De modo

que vista-se, e vamos vêr a casita.

Amaro, calado, rapava a cara com desespero.

A casa era na rua das Sousas, d'um andar, muito velha, com a madeira

carunchosa: a mobilia, como disse o conego, «podia passar a veteranos»;

algumas lithographias desbotadas pendiam lugubremente de grandes prégos

negros; e o immundo major Nunes deixára os vidros quebrados, os soalhos

todos escarrados, as paredes riscadas de phosphoros, e até sobre um

poial da janella duas piugas quasi negras.

Amaro aceitou a casa. E n'essa mesma manhã o conego ajustou-lhe uma

criada, a snr.^a Maria Vicencia, pessoa muito devota, alta e magra como

um pinheiro, antiga cozinheira do doutor Godinho. E (como considerou o

conego Dias) era a propria irmã da famosa Dionysia!

A Dionysia fôra outr'ora a _Dama das Camelias_, a Ninon de Lenclos, a

Manon de Leiria: gozára a honra de ser concubina de dois governadores

civis e do terrivel morgado da Sertejeira; e as paixões phreneticas que

inspirára tinham sido para quasi todas as mães de familia de Leiria

causa de lagrimas e de fanicos. Agora engommava para fóra,

encarregava-se de empenhar objectos, entendia muito de partos, protegia

«o rico adulteriosinho» segundo a singular expressão do velho D. Luiz da

Barrosa cognominado o _infame_, fornecia lavradeirinhas aos senhores

empregados publicos, sabia toda a historia amorosa do districto. E

via-se sempre na rua a Dionysia com o seu chale de xadrez traçado, o

pesado seio tremendo dentro d'um chambre sujo, o passinho discreto e os

antigos sorrisos--mas a que faltavam já os dois dentes de diante.

O conego logo n'essa tarde deu parte á S. Joanneira da resolução

d'Amaro. Foi um grande espanto para a excellente senhora! Queixou-se,

com amargura, da ingratidão do senhor parocho.

O conego tossiu grosso e disse:

--Escute, senhora. Fui eu que arranjei a coisa. E eu lhe digo porquê: é

que este arranjo de quarto em cima, etc., está-me a arrazar a saude.

Deu outras razões de prudencia hygienica e acrescentou, passando-lhe com

bondade os dedos pelo pescoço:

--E o que é perder a conveniencia, não se afflija a senhora! Eu darei

p'r'á panella como d'antes; e como a colheita foi boa porei mais meia

moeda para os arrebiques da pequena. Ora venha de lá uma beijoca,

Augustinha, sua bréjeira! E ouça, hoje como-lhe cá as sopas.

Amaro no emtanto em baixo ia emmalando a sua roupa. Mas a cada momento

parava, dava um _ai_ triste, ficava a olhar em redor o quarto, a cama

fôfa, a mesa com a sua toalha branca, a larga cadeira forrada de chita

onde elle lia o Breviario, ouvindo, por cima, cantarolar Amelia.

--Nunca mais! pensava. Nunca mais!

Adeus as boas manhãs passadas ao pé d'ella, vendo-a costurar! Adeus as

alegres sobremesas, que se prolongavam á luz do candieiro! Adeus os

chás, ao pé da brazeira, quando o vento uivava fóra e cantavam as frias

goteiras! Tudo tinha acabado!

A S. Joanneira e o conego appareceram então á porta do quarto. O conego

resplandecia; e a S. Joanneira disse, muito magoada:

--Já sei, já sei, seu ingrato!

--É verdade, minha senhora, fez Amaro encolhendo os hombros tristemente.

Mas ha razões... Eu sinto...

--Olhe, senhor parocho, disse a S. Joanneira, não se offenda com o que

lhe vou dizer, mas eu já lhe queria como filho...--E levou o lenço aos

olhos.

--Tolices! exclamou o conego. Pois então elle não póde vir aqui em

amizade, passar as noites para o cavaco, tomar o seu café?... O homem

não vai para o Brazil, senhora!

--Pois sim, pois sim, dizia a pobre senhora desconsolada, mas sempre era

tel-o de portas a dentro!

Emfim, ella bem sabia que a gente na sua casa está muito melhor...

Fez-lhe então grandes recommendações sobre a lavadeira, que mandasse

buscar o que quizesse, louças, lençoes...

--E veja lá não lhe esqueça alguma coisa, senhor parocho!

--Muito obrigado, minha senhora, muito obrigado...

E, continuando a arrumar a sua roupa, o parocho desesperava-se agora

contra a resolução que tomára. A pequena evidentemente não tinha aberto

bico! Para que sahiria então d'aquella casa tão barata, tão confortavel,

tão amiga? E odiava o conego pelo seu zelo tão precipitado.

O jantar foi triste. Amelia, decerto para explicar a sua pallidez,

queixava-se de dôres na cabeça. Ao café o conego quiz a sua «dóse de

musica»; e Amelia, ou machinalmente ou com intenção, disse a canção

querida:

Ai! adeos! acabaram-se os dias

Que ditoso vivi a teu lado!

Sôa a hora, o momento fadado,

É forçoso deixar-te e partir!

Então, áquella chorosa melodia repassada das tristezas da separação,

Amaro sentiu-se tão perturbado que teve de se erguer bruscamente, ir

encostar o rosto á vidraça, esconder as duas lagrimas que

irreprimivelmente lhe saltavam das palpebras. Os dedos d'Amelia

embrulhavam-se tambem no teclado; até a mesma S. Joanneira disse:

--Oh filha, toca outra coisa, credo!

Mas o conego erguendo-se pesadamente:

--Pois senhores, vão sendo horas. Vamos lá, Amaro. Eu vou comsigo até a

rua das Sousas...

Amaro então quiz dizer adeus á idiota; mas, depois d'um forte accesso de

tosse, a velha dormia, muito fraca.

--Deixal-a socegada, disse Amaro. E apertando a mão á S.

Joanneira:--Muito obrigado por tudo, minha senhora, acredite...

Calou-se, com um soluço na garganta.

A S. Joanneira tinha levado aos olhos a ponta do seu avental branco.

--Oh, senhora! disse o conego rindo-se, já ha bocado lhe disse, o homem

não vai p'r'ás Indias!

--A gente é pela amizade que lhes ganha... choramingou a S. Joanneira.

Amaro tentou gracejar. Amelia, muito branca, mordia o beicinho.

Emfim Amaro desceu: e o João Ruço que na sua chegada a Leiria lhe

trouxera o bahú para a rua da Misericordia, muito bebedo, cantarolando o

_Bemdito_,--levava-lh'o agora para a rua das Sousas, bebedo tambem, mas

trauteando o _Rei-chegou_.

Quando Amaro, n'essa noite, se viu só n'aquella casa tristonha, sentiu

uma melancolia tão pungente e um tedio tão negro da vida, que, com a sua

natureza lassa, teve vontade de se encolher a um canto e ficar alli a

morrer!

Parava no meio do quarto, punha-se a olhar em redor: a cama era de

ferro, pequena, com um colchão duro e uma coberta vermelha; o espelho

com o aço gasto luzia sobre a mesa; como não havia lavatorio, a bacia e

o jarro, com um bocadinho de sabonete, estavam sobre o poial da janella;

tudo alli cheirava a môfo; e fóra, na rua negra, cahia sem cessar a

chuva triste. Que existencia! E seria sempre assim!...

Desesperou-se então contra Amelia: accusou-a, com o punho fechado, das

commodidades que perdera, da falta de mobilia, da despeza que ia ter, da

solidão que o regelava! Se fosse mulher de coração devia ter vindo ao

seu quarto e dizer-lhe: «Senhor padre Amaro, para que sae de casa? Eu

não estou zangada!» Porque emfim quem irritára o seu desejo? Ella, com

as suas maneirinhas ternas, os seus olhinhos adocicados! Mas não,

deixára-o emmalar a roupa, descer a escada, sem uma palavra amiga, indo

tocar com estrondo a valsa do _Beijo_!

Jurou então não voltar a casa da S. Joanneira. E, a grandes passadas

pelo quarto, pensara no que havia de fazer para humilhar Amelia. O quê?

Desprezal-a como uma cadella! Ganhar influencia na sociedade devota de

Leiria, ser muito do senhor chantre; afastar da rua da Misericordia o

conego e as Gansosos; intrigar com as senhoras da boa roda para que se

afastassem d'ella, com seccura, no altar-mór, á missa do domingo; dar a

entender que a mãi era uma prostituta... Enterral-a! cobril-a de lama! E

na Sé, ao sahir da missa, regalar-se de a vêr passar encolhida no seu

mantelete preto, escorraçada de todos, emquanto elle, á porta, de

proposito, conversaria com a mulher do senhor governador civil e seria

galante com a baroneza de Via-Clara!... Depois prégaria um grande

sermão, na quaresma, e ella ouviria dizer, na arcada, nas lojas: «Grande

homem, o padre Amaro!» Tornar-se-hia ambicioso, intrigaria e, protegido

pela senhora condessa de Ribamar, subiria nas dignidades ecclesiasticas:

e o que pensaria ella quando o visse um dia bispo de Leiria, pallido e

interessante na sua mitra toda dourada, passando, seguido dos

incensadores, ao longo da nave da Sé, entre um povo ajoelhado e

penitente, sob os roucos cantos do orgão? E ella o que seria então? Uma

magra creatura murcha, embrulhada n'um chale barato! E o snr. João

Eduardo, o escolhido d'agora, o esposo? Seria um pobre amanuense mal

pago, com uma quinzena roçada, os dedos queimados do cigarro, curvado

sobre o seu papel almasso, imperceptivel na terra, adulando alto e

invejando baixo! E elle, bispo, na vasta escadaria hierarchica que sobe

até ao céo, estaria já muito para cima dos homens, na zona de luz que

faz a face de Deus-Padre!--E seria par do reino, e os padres da sua

diocese tremeriam de o vêr franzir a testa!

Na igreja, ao lado, bateram devagar dez horas.

Que faria ella áquella hora? pensava. Costurava decerto, na sala de

jantar: estava o escrevente: jogavam a bisca, riam--ella roçava-lhe

talvez com o pé, no escuro, debaixo da mesa! Recordou o seu pé, o

bocadinho da meia que vira quando ella saltava as lamas na quinta; e

essa curiosidade inflammada subia pela curva da perna até ao seio,

percorrendo bellezas que suspeitava... O que elle gostava d'aquella

maldita! E era impossivel obtel-a! E todo o homem feio e estupido podia

ir á rua da Misericordia pedil-a á mãi, vir á Sé dizer-lhe: «Senhor

parocho, case-me com esta mulher», e beijar, sob a protecção da Igreja e

do Estado, aquelles braços e aquelle peito! Elle não. Era padre! Fôra

aquella infernal pêga da marqueza d'Alegros!...

Abominava então todo o mundo secular--por lhe ter perdido para sempre os

privilegios: e, como o sacerdocio o excluia da participação nos prazeres

humanos e sociaes, refugiava-se, em compensação, na idéa da

superioridade espiritual que elle lhe dava sobre os homens. Aquelle

miseravel escrevente podia casar e possuir a rapariga--mas que era elle

em comparação d'um parocho a quem Deus conferira o poder supremo de

distribuir o céo e o inferno?...--E repastava-se d'este sentimento,

enchendo o espirito d'orgulhos sacerdotaes. Mas vinha-lhe bem depressa a

desconsoladora idéa que esse dominio só era valido na região abstracta

das almas; nunca o poderia manifestar, por actos triumphantes, em plena

sociedade. Era um Deus dentro da Sé--mas, apenas sahia para o largo, era

apenas um plebeu obscuro. Um mundo irreligioso reduzira toda a acção

sacerdotal a uma mesquinha influencia sobre almas de beatas... E era

isto que lamentava, esta diminuição social da Igreja, esta mutilação do

poder ecclesiastico, limitado ao espiritual, sem direito sobre o corpo,

a vida e a riqueza dos homens... O que lhe faltava era a auctoridade dos

tempos em que a Igreja era a nação e o parocho dono temporal do rebanho.

Que lhe importava, no seu caso, o direito mystico d'abrir ou fechar as

portas do céo? O que elle queria era o velho direito d'abrir ou fechar a

porta das masmorras! Necessitava que os escreventes e as Amelias

tremessem da sombra da sua batina... Desejaria ser um sacerdote da

antiga Igreja, gozar das vantagens que dá a denuncia e dos terrores que

inspira o carrasco, e alli n'aquella villa, sob a jurisdicção da sua Sé,

fazer estremecer, á idéa de castigos torturantes, aquelles que

aspirassem a realisar felicidades--que lhe eram a elle interdictas: e

pensando em João Eduardo e em Amelia, lamentava não poder accender as

fogueiras da Inquisição!--Assim aquelle inoffensivo moço tinha durante

horas, sob a excitação colerica d'uma paixão contrariada, ambições

grandiosas de tyrannia catholica:--porque todo o padre, o mais boçal,

tem um momento em que é penetrado pelo espirito da Igreja ou nos seus

lances de renunciamento mystico ou nas suas ambições de dominação

universal: todo o sub-diacono se julga uma hora capaz de ser santo ou de

ser Papa: não ha seminarista que não tenha, durante um instante,

aspirado com ternura á caverna no deserto em que S. Jeronymo, olhando o

céo estrellado, sentia descer-lhe sobre o peito a Graça como um

abundante rio de leite: e o abbade pansudo que á tardinha, á varanda,

palita o dente furado saboreando o seu café com um ar paterno, traz

dentro em si os indistinctos restos d'um Torquemada.

A vida d'Amaro tornou-se monotona. Março ia muito molhado, muito frio;

e, depois do serviço na Sé, Amaro entrava em casa, tirava as botas

enlameadas, ficava em chinelas a aborrecer-se. Ás tres horas jantava; e

nunca levantava a tampa rachada da terrina sem se lembrar, com uma

saudade pungente, do jantarinho na rua da Misericordia, quando Amelia,

com o seu collar muito branco, lhe passava a sopa de grãos de bico,

sorrindo, toda carinhosa. Ao lado a Vicencia servia, têsa e enorme, com

o seu corpo de soldado vestido de saias, sempre constipada; e de vez em

quando, desviando a cabeça, assoava-se ao avental com ruido. Era muito

suja: as facas tinham o cabo humido da agua gordurosa das lavagens.

Amaro, desgostoso e indifferente, não se queixava; comia mal, á pressa;

mandava vir o café, e ficava horas esquecidas sentado á mesa, quebrando

a cinza do cigarro na borda do prato, perdido n'um tedio mudo, sentindo

os pés e os joelhos frios do vento que entrava pelas frinchas da sala

desabrigada.

Ás vezes o coadjutor, que nunca o visitára na rua da Misericordia,

apparecia ao fim do jantar: sentava-se arredado da mesa, e ficava

calado, com o seu guardachuva entre os joelhos. Depois, julgando agradar

ao parocho, repetia, invariavelmente:

--Vossa senhoria aqui está melhor, sempre é estar em sua casa.

--Está claro... rosnava Amaro.

Ao principio, para consolar o seu despeito, dizia ligeiramente mal da S.

Joanneira, provocando, animando o coadjutor (que era de Leiria) a contar

os escandalos da rua da Misericordia. O coadjutor, por servilismo, tinha

sorrisos mudos, repassados de perfidia.

--Alli ha pôdres, hein? dizia o parocho.

O outro encolhia os hombros, com as mãos muito espalmadas ao pé das

orelhas, n'uma expressão de malicia; mas não pronunciava um som,

receando que as suas palavras, repetidas, escandalisassem o senhor

conego. Ficavam então soturnos, trocando, a espaços, phrases molles: um

baptisado que havia; o que dissera o conego Campos; um frontal do altar

que era necessario limpar. Aquella conversa enfastiava Amaro: sentia-se

muito pouco padre, muito distante da panellinha ecclesiastica: não o

interessavam as intriguinhas do cabido, as parcialidades tão commentadas

do senhor chantre, os roubos da Misericordia, as turras da camara

ecclesiastica com o governo civil; e achava-se sempre alheio, mal

informado, nas palestras ecclesiasticas em que tão femininamente se

deleitam os padres, e que têm a puerilidade d'uma caturrice e a

tortuosidade d'uma conspiração.

--O vento está sul? perguntava elle emfim, bocejando.

--Sempre! respondia o coadjutor.

Accendia-se a luz; o coadjutor erguia-se, sacudia o guardachuva, e sahia

com um olhar de revez á Vicencia.

Era aquella a peor hora, a da noite, quando ficava só. Procurava lêr,

mas os livros enfastiavam-n'o: deshabituado da leitura não comprehendia

«o sentido». Ia olhar á vidraça: a noite estava tenebrosa, o lagedo

reluzia vagamente. Quando acabaria aquella vida? Accendia o cigarro, e

do lavatorio para a janella recomeçava os seus passeios, com as mãos

atraz das costas. Deitava-se sem rezar ás vezes: e não tinha escrupulos:

julgava que ter renunciado a Amelia era já uma penitencia, não

necessitava cansar-se a lêr orações no livro; celebrára o «seu

sacrificio»--sentia-se vagamente quite com o céo!

E continuava a viver só: o conego nunca vinha á rua das Sousas, «porque,

dizia, era casa que só o entrar n'ella até se lhe agoniava o estomago».

E Amaro, cada dia mais amuado, não voltára a casa da S. Joanneira.

Escandalisára-se muito que ella não lhe tivesse mandado pedir para ir ás

partidas da sexta-feira; attribuira «a desfeita» á hostilidade d'Amelia;

e, mesmo para a não vêr, trocára com o padre Silveira a missa do

meio-dia onde ella costumava ir, e dizia a das nove horas, furioso com

aquelle novo sacrificio!

Todas as noites Amelia, ao ouvir tocar a campainha, tinha uma palpitação

tão forte no coração que ficava como suffocada um momento. Depois os

botins de João Eduardo rangiam na escada, ou ella conhecia os passos

fôfos das galochas das Gansosos: apoiava-se então às costas da cadeira,

cerrando os olhos, como na fadiga d'uma desesperança repetida. Esperava

o padre Amaro; e ás vezes, pelas dez horas, quando já não era possível

que elle viesse, a sua melancolia era tão pungente que se lhe entumecia

a garganta de soluços, tinha de pousar a costura, dizer:

--Vou-me deitar, estou com umas dôres de cabeça que não paro!

Atirava-se para a cama de bruços, murmurava n'uma agonia:

--Oh Senhora das Dôres, minha madrinha! porque não vem elle, porque não

vem elle?

Nos primeiros dias, apenas elle se fôra embora, toda a casa lhe pareceu

deshabitada e lugubre! Quando vira no quarto d'elle os cabides sem a sua

roupa, a commoda sem os seus livros, rompeu a chorar. Foi beijar a

travesseirinha onde elle dormia, apertou ao peito com delirio a ultima

toalha a que elle limpára as mãos! Tinha constantemente o seu rosto

presente, elle entrava sempre nos seus sonhos. E com a separação o seu

amor ardia mais forte e mais alto, como uma fogueira que se isola.

Uma tarde, que fôra visitar uma prima enfermeira no hospital, viu ao

chegar á ponte gente parada, embasbacada com gozo para uma rapariga de

cuia á banda e _garibaldi_ escarlate, que, de punho no ar, já rouca,

praguejava contra um soldado: o rapazola, um beirão de cara redonda e

lorpa coberta de pennugem loura, virava-lhe as costas, encolhendo os

hombros, as mãos muito enterradas nos bolsos, rosnando:

--Não lhe fez mal, não lhe fez mal...

O snr. Vasques, com loja de panos na Arcada, parára a olhar, descontente

d'aquella «falta d'ordem publica».

--Algum barulho? perguntou-lhe Amelia.

--Olá, menina Amelia! Não, uma brincadeira do soldado. Atirou-lhe um

rato morto á cara, e a mulher está a fazer aquelle espalhafato. Bebedas!

Mas a rapariga de _garibaldi_ vermelha voltára-se--e Amelia aterrada

reconheceu a Joanninha Gomes, sua amiga da mestra, que fôra amante do

padre Abilio! O padre fôra suspenso, deixára-a; ella partira para

Pombal, depois para o Porto; de miseria em miseria voltára a Leiria, e

ahi vivia n'alguma viella ao pé do quartel, entisicando, gasta por todo

um regimento!--Que exemplo, santo Deus, que exemplo!

E tambem ella gostava d'um padre! Tambem ella, como outr'ora a

Joanninha, chorava sobre a sua costura quando o senhor padre Amaro não

vinha! Onde a levava aquella paixão? Á sorte da Joanninha! A ser a

_amiga do parocho_! E via-se já apontada a dedo, na rua e na Arcada,

mais tarde abandonada por elle, com um filho nas entranhas, sem um

pedaço de pão!... E, como uma rajada de vento que limpa n'um momento um

céo ennevoado, o terror agudo que lhe dera o encontro de Joanninha

varreu-lhe do espirito as nevoas amorosas e morbidas em que ella se ia

perdendo. Decidiu aproveitar a separação, esquecer Amaro: lembrou-se

mesmo de apressar o seu casamento com João Eduardo para se refugiar n'um

dever dominante; durante alguns dias forçou-se a interessar-se por elle;

começou mesmo a bordar-lhe umas chinelas...

Mas pouco a pouco a _idéa má_ que, atacada, se encolhera e se fingira

morta,--principiou lentamente a desenroscar-se, a subir, a invadil-a! De

dia, de noite, costurando e rezando, a idéa do padre Amaro, os seus

olhos, a sua voz appareciam-lhe, tentações teimosas! com um encanto

crescente. Que faria elle? porque não vinha? gostava d'outra? Tinha

ciumes indefinidos, mas mordentes, que a queimavam. E aquella paixão

ia-a envolvendo como uma atmosphera d'onde não podia sahir, que a seguia

se ella fugia, e que a fazia viver! As suas resoluções honestas

resequiam-se, morriam como debeis florinhas n'aquelle fogo que a

percorria. Se ás vezes a lembrança de Joanninha ainda voltava,

repellia-a com irritação; e acolhia alvoroçadamente todas as razões

insensatas que lhe vinham de amar o padre Amaro! Tinha agora só uma

idéa:--atirar-lhe os braços ao pescoço e beijal-o... oh! beijal-o!

Depois, se fosse necessario, morrer!

Começou então a impacientar-se com o amor de João Eduardo. Achava-o

«palerma».

--Que massada! pensava quando lhe sentia os passos na escada, á noite.

Não o supportava com os seus olhos voltados sempre para ella, a sua

quinzena preta, as suas monotonas conversas sobre o governo civil.

E idealisava Amaro! As suas noites eram sacudidas de sonhos lubricos; de

dia vivia n'uma inquietação de ciumes, com melancolias lugubres, que a

tornavam, como dizia a mãi, «uma môna, que até enraivece»!

O genio azedava-se-lhe.

--Credo, rapariga! que tens tu? exclamava a mãi.

--Não me sinto boa. Estou para ter alguma!

Andava, com effeito, amarella, perdera o appetite. E emfim uma manhã

ficou de cama com febre. A mãi, assustada, chamou o doutor Gouvêa. O

velho pratico, depois de vêr Amelia, veio à sala de jantar sorvendo com

satisfação a sua pitada.

--Então, senhor doutor? disse a S. Joanneira.

--Case-me esta rapariga, S. Joanneira, case-me esta rapariga. Tenho-lh'o

dito tantas vezes, creatura!

--Mas, senhor doutor...

--Mas case-a por uma vez, S. Joanneira, case-a por uma vez! repetia elle

pelas escadas, arrastando um pouco a perna direita que um rheumatismo

teimoso encolhia.

Amelia emfim melhorou--com grande alegria de João Eduardo, que emquanto

ella estivera doente vivera n'uma afflicção, lamentando não poder ser

seu enfermeiro, e derramando ás vezes no cartorio uma lagrima triste

sobre os papeis sellados do severo Nunes Ferral.

No domingo seguinte, á missa das nove horas na Sé, Amaro, ao subir para

o altar, entre as devotas que se arredavam viu de relance Amelia ao pé

da mãi, com o seu vestido de sêda preta de largos folhos. Cerrou um

momento os olhos; e mal podia sustentar o calix com as mãos tremulas.

Quando, depois de resmungar o Evangelho, Amaro fez uma cruz sobre o

missal, se persignou e se voltou para a igreja dizendo _Dominus

vobiscum_--a mulher do Carlos da botica disse baixo a Amelia «que o

senhor parocho estava tão amarello, que devia ter alguma dôr». Amelia

não respondeu, curvada sobre o livro, com todo o sangue nas faces. E

durante a missa, sentada sobre os calcanhares, absorta, a face banhada

n'um extase baboso, gozou a sua presença, as suas mãos magras erguendo a

hostia, a sua cabeça bem feita curvando-se na adoração ritual; uma

doçura corria-lhe na pelle quando a voz d'elle, apressada, dizia mais

alto algum latim: e quando Amaro, tendo a mão esquerda no peito e a

direita estendida, disse para a igreja o _Benedicat vos_, ella, com os

olhos muito abertos, arremessou toda a sua alma para o altar, como se

elle fosse o proprio Deus a cuja benção as cabeças se curvavam ao

comprido da Sé, até ao fundo, onde os homens do campo com os seus

varapaus pasmavam para os dourados do sacrario.

Á sahida da missa começára a chover; e Amelia e a mãi, á porta com

outras senhoras, esperavam uma «aberta».

--Ólá! por aqui!? disse de repente Amaro, chegando-se, muito branco.

--Estamos á espera que passe a chuva, senhor parocho, disse a S.

Joanneira voltando-se. E immediatamente, muito reprehensiva:--E porque

não tem apparecido, senhor parocho? Realmente! Que lhe fizemos nós?

Credo, até dá que fallar...

--Muito occupado, muito occupado... balbuciou o parocho.

--Mas um bocadinho á noite. Olhe, póde crêr, tem-me causado desgosto...

E todos têm reparado. Não, lá isso, senhor parocho, tem sido ingratidão!

Amaro disse, córando:

--Pois acabou-se. Hoje á noite lá appareço, e estão as pazes feitas ...

Amelia, muito vermelha, para encobrir a sua perturbação olhava para

todos os pontos o céo carregado, como assustada do temporal.

Amaro então offereceu-lhe o seu guardachuva. E emquanto a S. Joanneira o

abria, apanhando com cuidado o vestido de sêda, Amelia disse ao parocho:

--Até á noite, sim?--E mais baixo, olhando em redor, com medo:--Oh, vá!

Tenho estado tão triste! tenho estado como doida! Vá, peço-lh'o eu!

Amaro, voltando para casa, continha-se para não correr de batina pelas

ruas. Entrou no quarto, sentou-se aos pés da cama, e alli ficou saturado

de felicidade, como um pardal muito farto n'um raio de sol muito quente:

recordava o rosto d'Amelia, a redondeza dos seus hombros, a belleza dos

encontros, as palavras que lhe dissera:--_Tenho estado como doida!_ A

certeza de que «a rapariga gostava d'elle» entrou-lhe então na alma com

a violencia de uma rajada, e ficou a susurrar por todos os recantos do

seu sêr com um murmurio melodioso de felicidades agitadas. E passeava

pelo quarto com passadas de covado, estendendo os braços, desejando a

posse immediata do seu corpo: sentia um orgulho prodigioso: ia defronte

do espelho altear a arca do peito, como se o mundo fosse um pedestal

expresso que só o sustentasse a elle! Mal pôde jantar. Com que

impaciencia desejava a noite! A tarde clareára; a cada momento tirava o

seu «cebolão» de prata, indo olhar á janella, com irritação, a claridade

do dia que se arrastava devagar no horisonte. Engraxou elle mesmo os

seus sapatos, lustrou o cabello de banha. E antes de sahir rezou

cuidadosamente o seu Breviario--porque, em presença d'aquelle amor

adquirido, viera-lhe um susto supersticioso que Deus ou os santos

escandalisados o viessem perturbar: e não queria, com desleixos de

devoção, _dar-lhes razão de queixa_.

Ao entrar na rua d'Amelia o coração bateu-lhe tão forte que teve de

parar, suffocado; e pareceu-lhe melodioso o piar das corujas na velha

Misericordia, que ha tantas semanas não ouvia.

Que admiração quando elle appareceu na sala de jantar!

--Ditosos olhos que o vêem! Pensavamos que tinha morrido! Grande

milagre!...

Estava a snr.^a D. Maria da Assumpção, as Gansosos. Arredaram as

cadeiras com enthusiasmo para lhe dar logar, admiral-o.

--Então que tem feito, que tem feito? E olhe que está mais magro!

O Libaninho, no meio da sala, imitava foguetes subindo ao ar. O snr.

Arthur Couceiro improvisou-lhe um _fadinho_ á viola:

Ora já cá temos o senhor parocho

Nos chás da S. Joanneira.

Isto já parece outra coisa,

Volta a bella cavaqueira!

Houve palmas. E a S. Joanneira, toda banhada de riso:

--Ai, tem sido uma ingratidão d'elle!

--Uma ingratidão, diz a senhora? rosnou o conego. Uma casmurrice, digo

eu!

Amelia não fallava, com as faces abrazadas, os olhos humidos pasmados

para o padre Amaro--a quem tinham dado a poltrona do conego, e que se

repoltreava n'ella, tumido de gozo, fazendo rir as senhoras pelas

pilherias com que contava os desleixos da Vicencia.

João Eduardo, isolado a um canto, ia folheando o velho album.

O crime do padre Amaro, scenas da vida devota · 第 25 / 45 题