É a videira uma das plantas mais celebradas pelos antigos. A sua cultura
desenvolveu-se outr'ora muito na Grecia, Persia e Asia menor.
Era com pampanos que se enfeitavam Baccho, as Bacchantes, Silene, Rhea,
Bona Dea, as Graças, a deusa Lætitia, etc. Narra a Biblia que Noé se
dedicou cuidadosamente á sua cultura, sendo o primeiro mortal que
fabricou vinho da uva.
Diz Santo Ambrosio, referindo-se á enorme embriaguez que a primeira
absorpção do liquido extrahido da uva produziu em Noé, que não foram
bastantes todas as aguas do diluvio para fazerem com que Noé ficasse nú,
mas que o vinho o fez ficar fóra de si, sem juizo e vergonhosamente
decomposto.
O philosopho Anacarsis tratando da videira relata que este vegetal tem
tres varas, a primeira das quaes produz gosto, a segunda delirio e a
terceira a loucura.
Para a mytologia a videira nasceu do sangue dos Gigantes, derramado na
terra, quando, dementados, pretenderam escalar o ceu. É por isto que o
vinho tem a propriedade de causar furor, uma enorme excitação a quem o
bebe em demazia.
Uma lenda arabe conta que o diabo regou o primeiro pé de videira com o
sangue do macaco, do tigre e do porco.
Por isso ao primeiro vinho bebido, o homem fica alegre, agitado,
bulhento e brincalhão como o macaco; continuando a beber a alegria
transforma-se em violentas arremetidas de tigre, para por ultimo, cahir,
roncando, no somno bestialisador do porco.
Segundo os Persas foi uma mulher no feliz reinado de Djemschid, que,
querendo matar-se, bebeu o succo das uvas, pensando ser veneno. O somno
que elle e causou, foi porém tão agradavel que continuou depois a fazer
vinho e a bebel-o, espalhando-se em breve o uso por todo o paiz.
O mitho hellenico sintethisa a vinha n'um companheiro e amigo de Baccho,
no pastor Staphylo. Staphylo era um pastor do rei da Grecia Oenêo, que
reparando que uma cabra do rebanho, a mais gorda e bem tratada de todas,
recolhia sempre mais tarde que as outras, e não comia nunca do alimento
fornecido ao resto do rebanho, a seguiu, indo ter a um bosque espesso,
onde a viu a comer soffregamente uvas, fructo até então completamente
desconhecido. Staphylo colheu grande porção de cachos com que brindou o
rei Oenêo o qual fez d'elles vinho. Em recordação d'este facto, deram
depois os gregos o nome de _Oinos_, ao saboroso licôr das uvas.