O melão em virtude das suas numerosas sementes e por se multiplicar com
extrema facilidade, era tido pelos antigos como simbolo da geração.
Segundo uma lenda arabe vegeta no paraizo onde significa que Deus é um
só e Ali o seu propheta. Esta significação vem-lhe de n'um só todo
reunir sementes innumeraveis que vão depois reproduzil-o por toda a
eternidade. É como o propheta Ali que em si encerra toda a sabedoria e
doutrina religiosa que lhe foi inspirada por Deus, para que por toda a
eternidade a transmittisse aos miseros mortaes.
A mais formosa lenda relativa a este saborosissimo fructo, por nós
conhecida, é a seguinte, muito popular ainda hoje na Toscana:
Em tempos remotos, quando os reis casavam com simples pastoras, havia
n'uma pequena povoação da Toscana uma casa habitada por tres irmãs que
pobremente viviam da tecelagem. Uma tarde, passando o rei proximo da
modesta habitação, e ouvindo dentro animada conversação, quedou-se a
escutar.
«Todo o meu desejo, dizia uma das irmãs, era casar com o padeiro do rei.
Teria ao menos pão magnifico e tanto quanto desejasse.
«Pois eu, replicou outra, preferia antes casar com o cosinheiro. Então o
que me havia de regalar de comer bons petiscos.
A mais nova das tres, formosa a mais não ser, disse suspirando:
«As minhas aspirações são mais altas. Só me contentava casando com o rei
a quem havia de dar tres filhos lindos como o sol e com cabellos de oiro
e dentes de prata».
O rei, de regresso ao palacio, fez chamar as tres irmãs, e satisfez as
aspirações de todas ellas, realisando-se em poucos dias os tres casamentos.
As irmãs mais velhas, ao verem a fortuna e felicidade da mais nova,
encheram-se de inveja e juraram desde logo a sua perda.
Um anno depois a rainha tinha um filho. Era uma soberba creança de
cabellos do mais puro ouro e dentes de uma alvura deslumbrante. As
irmãs, esconderam porém a creança e fizeram crêr ao rei que o que
nascera fôra um gato morto.
No segundo anno de casada a rainha teve novo filho, tão seductor como o
primeiro.
As irmãs disseram ao rei que o que ella dera á luz fôra apenas um
informe pedaço de pau.
No terceiro anno nasceu terceiro rapaz, lindo como os amores, porém as
irmãs capacitaram o rei de que fôra uma serpente o que a irmã tivera.
O rei furioso, com a cabeça perdida, fez encerrar a esposa em medonha
prisão a regimen de pão e agua.
Obtido isto, as duas irmãs, que até então tinham tido as creanças
escondidas para o que désse e viesse, deitaram-as ao mar dentro de um
pequeno bote.
O jardineiro do rei andando a passear na praia vê o bote fluctuando ao
sabôr das aguas e indo apanhal-o depara com as tres creanças, que
compassivamente recolhe.
Com o tempo o pae adoptivo ensina-lhes o officio e fez d'ellas tres
notaveis jardineiros, que tinham os jardins reaes, como até então nunca
se vira.
Uma tarde, merendavam os rapazes á sombra de uma copada arvore quando
appareceu uma andrajosa velha, que lhes pediu uma esmola. Repartiram com
ella da merenda, e, finda a refeição, a velha disse-lhe que os jardins
estavam um primor reunindo tudo quanto havia de raro, faltando-lhe só,
para serem uma maravilha, a agua que dansa, a arvore que toca e a ave
que falla.
Os rapazes enthusiasmados, sob indicação da velha, partem á busca dos
tres prodigios.
No caminho encontram o rei que ia á caça para se distrahir, e que
simpathisa tanto com os rapazes que se queda esquecido a conversar com
elles, abraçando-os e beijando-os ao separar-se. Mais adeante
apparece-lhes a velha que lhes indica como devem encontrar a agua que
dansa, o que elles afinal obtéem, continuando o caminho á busca da
arvore que toca. Debalde a procuraram e já iam para regressar
desanimados, quando a velha, surgindo, lhe diz onde a poderão encontrar
e que basta trazer d'ella uma folha, a qual, plantada no jardim, dará
uma arvore corpulenta, que fará ouvir doces melodias estranhas.
Na arvore que toca acharam tambem empoleirada a ave que falla.
Recolheram jubilosos ao palacio e plantaram a folha que logo no dia
seguinte appareceu transformada em enorme arvore, que fazia a delicia
dos visitantes com as musicas divinaes, nunca até então executadas por
humana orchestra.
O rei, ao saber do facto, correu a vêr a maravilha, e os tres rapazes,
sob indicação da velha, brindaram-o com o melhor melão dos produzidos
por um extenso meloal que cultivavam. O rei quiz servir-se logo do
fructo, e ao partil-o encontrou-o, em vez de sementes, cheio de pedras
preciosas.
--Como póde ser dar um melão pedras preciosas?
--E como póde ser, respondeu a ave que falla, que estava pousada na
arvore que toca, uma mulher parir um gato morto, um pedaço de madeira e
uma cobra. Estas creanças são teus filhos, e tu foste enganado pelas
tuas cunhadas, castigando a esposa innocente.
Fez-se então a luz no espirito do rei que, arrependido, mandou soltar a
esposa, implorando-lhe humildemente perdão, e enchendo-a de mimos e
prendas riquissimas.
Ás más cunhadas, a essas, para exemplo futuro, fel-as queimar na
principal praça publica do reino.