LOTUS.

O lotus é uma planta sagrada para os indianos e para os egypcios.

No Egypto chamam á flôr do lotus flôr do Nilo, por isso que, quando o

rio trasborda, nas cheias periodicas que são a fertilidade d'aquellas

regiões, a superficie das aguas cobre-se completamente de lotus em flôr.

É por isso que os egypcios representam a creação por uma immensa

superficie de agua sobre a qual fluctua um lotus collossal. Creem elles

que no principio o mundo esteve todo coberto d'agua, d'onde brotou um

lotus que, estendendo-se sobre o liquido, o cobriu completamente; dando

a tudo a luz e a vida.

É tambem, portanto, o lotus um simbolo da geração espontanea.

A flôr de lotus é dedicada a Osiris, Wishnou e sobretudo a Brahma.

Conta uma lenda indiana que Brahma sahiu de um lotus nascido sobre o

umbigo de Wishnou.

A mulher de Wishnou, a formosa das formosas, a maravilhosa belleza

oriental, é sempre representada nos templos, sentada sobre uma flor de

lotus.

A poesia oriental está cheia de referencias ao lotus, comparando-o a

todas as partes do corpo humano. Um poeta indiano referindo-se aos olhos

da sua amada que lhe realçam a belleza do rosto, _diz que sobre uma flôr

de lotus brotaram outras duas bellas flores eguaes_.

As indianas adoram apaixonadamente a flôr de lotus apesar da

particularidade que lhe attribuem de fazer acalmar o ardor das paixões.

Parece que esta mesma crença era corrente no Egypto antigo, e que é

devido a ella o terem sido encontradas flores de lotus cobrindo as

partes sexuaes das mumias.

Outr'ora, nos sacrificios indianos, o sangue do sacrificado era sempre

recolhido sobre petalas de lotus; os primeiros christãos dedicaram

tambem o lotus á Virgem ornamentando-lhe os altares exclusivamente com

estas flores.

Para os gregos o lotus é o simbolo da belleza e as donzellas de Athenas,

nos dias de festa, enfeitam-se de preferencia com flores de lotus.

Segundo uma antiga lenda grega, uma nimpha apaixonou-se doidamente por

Hercules. Vendo que não podia alcançar ser correspondida pelo grande

heroe, atirou-se a um rio, onde morreu afogada.

Jupiter, compadecido das desditas da enamorada nimpha, transformou-a na

brilhante flôr do lotus.

Diz uma lenda buddhica que o rei Pandu, n'uma guerra que sustentou com

vassalos seus adoradores de Buddha, que se tinham revoltado contra a sua

soberania, se apoderou do templo principal onde era preciosamente

guardado, em luxuoso altar, um dente do grande deus indiano. Pandu, para

provar o seu poderio, mandou triturar o dente e lançar os fragmentos a

uma grande fogueira, para que ficassem completamente consumidos. Porém,

mal os restos do dente cahiram sobre o fogo, este extinguiu-se

completamente, brotando logo do centro da fogueira uma enorme flôr de

lotus, no interior da qual foi encontrado intacto o dente de Buddha.

Pandu, assombrado por este milagre, converteu-se a buddhismo sendo

depois um dos mais fieis e ardentes sectarios da magestosa divindade

indiana.

A mitologia conta-nos tambem que a nimpha Lotis, sendo perseguida por

Priapo, foi transformada em Lotus, escapando assim ao dissoluto deus.

Esta lenda parece ter sido imitada da seguinte antiquissima lenda

indiana, que encontramos publicada no _Jornal de Viagens_:

Havia em Ellora um sabio brahmane que tinha uma formosa filha, a

gentil Hevah, a dos olhos de esmeralda.

Um dia que ella tinha ido ao templo subterraneo, onde se adora o

senhor dos mundos, o divino Brahma, e que estava em oração com os

olhos fitos na imagem do auctor dos dias, fallou-lhe assim o divino

Brahma:

«Ó minha bem amada. As meninas dos teus olhos são como duas flores

de lotus que se abrem na superficie esmeraldada dos lagos».

Do rosto do deus jorrava uma claridade divina; Hevah tocou a terra

com a fronte, e não se atrevia a olhar.

E Brahma repetiu:

«As meninas dos teus olhos são como duas flores de lotus que se

abrem na superficie esmeraldada dos lagos».

E Hevah que nunca ouvira a ninguem aquellas frases, continuava,

pudica, de rojo, ante o divino senhor dos mundos.

Porém, eis que Brahma repete terceira vez aquella phrase de amor.

Hevah, então, levantou a fronte do pó, cobriu o rosto com o veu e

fugiu do templo; e foi mirar-se na superficie do lago; e entrou pelo

remanso das verdes aguas.

Dormiam os saurios o somno da sesta. E as garças reaes, dormitavam

n'um pé só, sobre o dorso dos grandes reptis.

E eis que de repente ella sentiu que os seus pés tomavam raiz; e que

os seus braços se lhe tornavam duas enormes folhas verdes; e que os

olhos se lhe desabrochavam em dous formosos nenuphares; e ouvia-se a

voz de Brahma:

«Os teus olhos, ó minha bem amada, são como duas flores de lotus que

se abrem na superficie esmeraldada dos lagos».

Lendas dos Vegetaes · 第 60 / 74 题