A
PAG. 3.--«... _de encobrir com a mantilha um dos seus formosissimos
olhos_». Como referimos no Cap. XI, o _tarbah_ das musulmanas serve-lhes
de abáfo e tambem lhes véla o rosto, não deixando algumas vêr senão um
dos olhos. É de presumir, que as andaluzas herdassem d'ellas este
costume.
B
PAG. 26.--«..._a ponto de provocar a formação das Hermandades_». Estas
confrarias politicas, instituição popular da edade media, excluiam por
essencia o influxo da auctoridade real e serviam não só para manter a
segurança publica, senão que velavam egualmente pela conservação dos
fóros e liberdade dos povos e communidades que as formavam. Eram uma
força importantissima, que os reis catholicos habilmente aproveitaram
depois, fazendo depender do governo do Estado a disciplina e
constituição d'ella. Organisando as capitanias e mais tropas da
_Hermandad_, aquelles principes lográram ter um corpo permanente de
exercito, prompto a conter em respeito o poder dos magnates. Foi um
ensaio de milicia nacional, paga immediatamente pelos povos, e que muito
contribuiu, para que a corôa se emancipasse da influição e dependencia
da mais incommoda e turbulenta oligarchia.
Muito antes de conflicto do Toro já existia a «_santa hermandad_», e não
foi «organisada contra as tropas portuguezas», que depois d'elle se
limitavam a saquear as terras, a praticar actos de bandidos, como
erradamente affirma o Sr. Oliveira Martins em _O Principe Perfeito_.
C
PAG. 33.--«_Não é d'este modo, que deve comprehender-se a missão da
historia_». Clemencin, referindo-se aos historiadores e chronistas
ácerca do silencio de uns e das diminutas noticias de outros, em
assumpto de tanta monta, como a successão á corôa de Castella por morte
de Henrique IV, diz: «o fallar tinha inconvenientes, e a relação inteira
e veridica do succedido podia offender a pessoas auctorisadas e
poderosas».
É evidente o corollario d'esta affirmativa tão imparcial, como sensata.
D
PAG. 47.--«... _o principe D. João casasse com a princesa de Castella,
D. Joanna_». Zurita, que tão parcial se mostra na descripção do encontro
de Toro, e tão affecto a D. Fernando, o Catholico, diz, que D. João II,
sendo principe, muito desejou a entrada de D. Affonso V em Castella; mas
«condemnou depois o máu conselho d'elle, em não haver acceitado os
primeiros casamentos d'aquelle reino: que era casar el-rei com a Infante
D. Isabel, e elle com a princeza D. Joanna». Zurita, Anales de Aragon,
tom. IV, liv. XIX, cap. XVIII.
Em fins de 1463 ou principios de 1464, avistando-se em Gibraltar os reis
D. Henrique e D. Affonso, trataram de casar D. Isabel com este Diogo de
Clemencin, Mem. de la Real Acad. de la Hist., tom. VII.
E
PAG. 69.--«... _a bandeira real, que por instantes tremulara na mão de
um castelhano_». O sr. Oliveira Martins em _O Principe Perfeito_ mostra,
não dar crédito ao caso do escudeiro Gonçalo Pires haver, com effeito,
recobrado o estandarte real, e affirma simplesmente, que Pedro Vaca o
tomou. Ignorava de certo, que existe em Torre d'Eita, povoação pouco
distante de Viseu, uma familia illustre, a qual representa legitimamente
o seu antepassado Gonçalo Pires, por isso usa do brazão e appellido de
Bandeira, concedidos a elle, como recompensa do seu brilhante e heroico
feito de Toro.
É conseguintemente falso, que na veiga de Bisagra a multidão apinhada
visse passar os reis catholicos em procissão, levando como tropheu o
estandarte real portuguez a varrer as ruas.
F
PAG. 90.--«_D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande predilecção
pelos que cultivavam as lettras_». O sr. Oliveira Martins amesquinha com
tão rematada injustiça o páe de D. João II, que dotando-o de um _genio
incoherente e curto no alcance_, concede-lhe a primasia em organisar uma
bibliotheca no paço, mas... unicamente _por seguir a móda_; e occulta o
facto de ter sido o sympathico heróe de Arzilla o primeiro rei, que
tratou, de que se escrevesse em lingua latina a historia portugueza.
Singular criterio!
G
PAG. 100.--«..._cortezãos dotados de bôas prendas_». Talvez o leitor
compulsasse já um livro intitulado Viagem por Hespanha e Portugal no
seculo XV, de Nicolaus von Popplau, cavalleiro da casa de Frederico III,
imperador da Allemanha.
Nas poucas paginas consagradas ao nosso paiz, o auctor, que por cá andou
nos ultimos mezes de 1484, capitula de incivis, de ignorantes e de
insensatos tanto nobres, como plebeus. Considera os portuguezes, em
geral, incapazes de bons costumes e sem bondade. Ás mulheres, dá-lhes os
olhos negros e furiosos.
Nas taes paginas, porém, encontra-se a explicação do máu humor, com que
foram escriptas. Relaxo, pois, ao meu despreso a estolida aldravice.
H
PAG. 154.--«..._depois de ter descoberto a costa do Labrador_». Quem
primeiro tornou publico este facto, foi o illustrado e benemerito
michaelense, sr. Ernesto do Canto, no _Archivo dos Açores_, vol. XII,
pag. 529; e confirmou-o, exhibindo um documento no seu opusculo _Quem
deu o nome á Terra do Labrador_.
Mais tarde o mesmo academico publicou outro documento comprovativo, que
foi extrahido da Chancellaria de el-rei D. Manoel, e fornecido pelo
indefesso investigador, o erudito general sr. Jacintho Ignacio de Brito
Rebello.
I
PAG. 155.--«... _a quem a patria não fez ainda a devida justiça_». Em
a _Noticia Preliminar_, que precede o _Esmeraldo de situ Orbis_,
publicação dirigida pelo douto academico sr. Raphael Basto, para a
commemoração do quarto centenario do descobrimento da America, mostra o
sr. Basto, com trechos de uma carta de Pero Vaz de Caminha e do Roteiro
de Duarte Pacheco, ser acertado, não attribuir a mero acaso o
descobrimento da terra de _Vera Cruz_. Como temos, ha muito, esta
opinião, folgámos de vêr, que para ella pende o sr. Raphael Basto, a
cujas investigações persistentes e conscienciosas muito deve já a
historia portugueza.
J
PAG. 155.--«... _da geração e linhagem dos Machados_». É digno de reparo
que a familia Barcellos adoptasse o brazão, que lhe pertencia por linha
materna, parecendo assim reputar de menos valia as flores de liz, que
seus maiores, por linha paterna, ostentavam legitima e vaidosamente
gravadas no seu escudo.
A varonia dos Pinheiros é, como a dos Machados, illustrissima, não só
pela sua antiguidade, mas pela sua régia ascendencia. Sobre isto são
accórdes todos os nossos genealogistas.
Se com os Machados se ligáram os Azevedos, os Cunhas, os Vasconcellos,
os Silvas, os Castros, os Val de Reis, os Montebellos de Hespanha; com
os Pinheiros aparentaram-se numerosas familias nobres, como os Alvitos,
os Galveias, os Alcoforados, os Lacerdas, os Pereiras de Bretiandos; de
modo que se diffundiu por quasi todas as mais antigas casas do reino o
sangue das duas familias.
A preferencia pelo brazão dos Machados explica-se talvez, por serem
estes mais opulentos na ilha, do que os Pinheiros, e todos os parentes
d'aquelles procurariam contribuir, para perpetuar o nome, que muito os
distinguia aos olhos de seus conterraneos. E tanto os Barcellos iam
n'essa esteira, que nem os fez desviar d'ella a honrosissima carta, com
que o rei D. Manoel premiou tão liberalmente os serviços do navegador
Pedro de Barcellos. Não apreciáram até devidamente o valor particular
d'essa mercê.
D. Manoel não quiz estimular apenas os descendentes do agraciado, e
aquelles a quem constasse; era natural suppôr, que no animo do rei
pesaria a circumstancia, de pertencer o filho de Pedro de Barcellos a
uma familia, que tantos serviços prestára á casa de Bragança, e d'isto
podia ser informado o monarcha pela rainha D. Leonor, sua irmã.
De certo não ignorava, e por isso não esquecia a viuva de D. João II,
que Pedro Esteves, avô de Pedro de Barcellos, se creára no paço de D.
Affonso, primeiro duque de Bragança, e d'alli fôra a Salamanca estudar
direito civil e canonico na Universidade, onde o graduaram de doutor _in
utroque_. Voltando para Portugal, tornou-se notavel pelo seu grande
entendimento, summa prudencia, bom conselho, profundo conhecimento das
lettras, e as suas muitas virtudes e qualidades o fizeram conciliar os
affectos de todos os principes do seu tempo.
Era cavalleiro da casa de el-rei D. Duarte, e nenhum negocio da de
Bragança se tratava, sem que elle fosse ouvido, mostrando-se sempre tão
imparcial e recto em seus conselhos, que o infante D. Pedro, quando
regente, o chamou para seu lado.
Seu páe, Estevam Annes, _o Môço_, fôra educado na casa do condestavel D.
Nun'Alvares Pereira, seu parente, e acompanhou, desde muito novo, em
todas as grandes e famosas emprezas o glorioso vencedor da batalha dos
Atoleiros.
Mas, para maior lustre e gloria dos Barcellos, o navegador Pedro
Pinheiro de Barcellos, ou Pedro de Barcellos, como officialmente o
denomina a carta de D. Manoel, foi bisavô do Beato João Baptista
Machado, que, renunciando o morgado e casa de seus páes, entrou na
Companhia de Jesus, e foi martyrisado no Japão em 22 de maio de 1617.
O representante legitimo d'esta familia Barcellos, da ilha Terceira, é o
antigo fidalgo sr. Francisco de Paula de Barcellos Machado Bettencourt.
D'este e de sua mulher e prima, já fallecida, a sr.ª D. Maria Isabel
Borges do Canto, era filha D. Francisca Emilia de Barcellos e Canto
Bettencourt do Carvalhal Brandão, raro modêlo de virtudes, alliadas a
uma intelligencia e a uma illustração sãs, que se lhe serviram de
ornamento proprio, tambem contribuiram, para honrar mais ainda a sua
estirpe nobilissima.--Foi a mãe, sobre todas carinhosa e desvelada, de
meus filhos.
Fica assim patente a razão, por que Pedro de Barcellos apparece na côrte
de D. João II, e justifica-se o tratamento de primo, que Maria Thereza
lhe deu, não para desdenhar os seus requebros, mas para congelar-lhe os
enthusiasmos.