III

Por todas as disposições se reconhecia que este excepcional domingo e

estes doze annos de Margarida viriam a marcar data na historia da

familia. Os convidados, amigos e parentes de João da Costa, que já

muitos tinham chegado para assistir ao arraial, mostravam-se

interessados por verem tanta gente assim atarefada e remexida: eram

todos os creados da casa, os armadores da capella com Zé Maximo á

frente, que tambem mandava nas illuminações, o fogueteiro com os seus

ajudantes a abrirem covas para o fogo preso, os dos zabumbas, os das

caixas e o gaiteiro... todos a alarmarem a freguezia e redondezas. Uma

balburdia, uma abundancia, uma grandeza sem par!... O amor, louco e

incondiccional, d'aquelles paes por sua filha, explicava o turbulento

apparato; mas, de todas as pessoas ali reunidas, uma parecia menos

gostosa do que se passava e era a festejada creança. Agitava-se é certo,

andava no meio d'aquellas coisas, com outras meninas e rapazes da sua

egualha; porém reconheciam-n'a possuida d'uma das suas crises de

tristeza e inconvivencia, como quando fugia para a matta, a esconder-se

na espessura dos arvoredos, para evitar o contacto de gente, que lhe

melindrasse a sensibilidade. A mãe, que a perscrutava, momento a

momento, percebera, pelo arrepanhado das linhas faciaes, pelo seu olhar

frenetico, que Margarida soffria uma sezão de impaciencia; no seio

decerto lhe crescia um desejo inconstante, e logo que poude tel-a entre

os braços perguntou-lhe:

—Que tens tu, minha filha, que andas tão esquisita?! Falta-te alguma

coisa?

—Não sei... Falta!...

—O que?...

—Não sei... Falta...—repetiu desprendendo-se, para se ir misturar aos

que admiravam o fogo disposto no quinteiro. As creanças faziam os seus

commentarios, comparando estas com outras figuras que tinham visto arder

em romarias, e dirigiam as suas observações a Margarida em tom

bajulador, que ella acceitava com sobranceria de dona. João da Costa,

homem prevenido, vendo-as assim zaranzar, e temendo qualquer semsaboria,

disse ao filho do Zé Osti:

—Olha lá. Não seria melhor recolher tudo na adega?! Póde estragar-se

qualquer coisa, entendes?...

—Mais que isso, póde haver trapalhada. Um lume prompto, a ponta d'um

cigarro dentro d'aquelle cesto (indicou-o com o dedo), levava tudo pelos

ares, emquanto o diabo esfrega um olho...

Abriu-se a ampla porta, que tinha fechadura valente. Ali ninguem

entraria sem consentimento e o morgado accrescentou para o fogueteiro:

—Tu que és responsavel ficas com a chave. Ninguem mais tem que cheirar

n'estas coisas.

O filho de José Osti, com o seu pessoal, é que collocou dentro dos dois

lagares o fogo, arrumando-o pela sua importancia. A um lado o que era

figurame, bem separadas as peças, para se não destruirem os enfeites que

seriam o encanto da vista; ao outro o fogo do ar, as taes abantesmas com

bombas do tamanho de cabeças de toiro. O cesto mysterioso e suspeito, já

assignalado como coisa de circumstancia e perigo, foi collocado a um

canto com a seguinte recommendação do Osti, dita em tom de grande preço:

—São os trincafios, a namite, as lagrimas, a polvora fina e outras

coisas... Isso póde incendiar-se e será uma de mil demonios!...

As creanças, na presença de quem a recommendação fôra feita, ficaram

maravilhadas, medrosas e attentas. Que coisas terriveis e bellas não

estariam debaixo d'aquella toalha de branco linho, cobertura do modesto

cesto!... Os grandes olhos de Margarida haviam-se illuminado de fulgor

cupido e excepcional, logo ao primeiro aviso no quinteiro; agora

fixaram-se com uma absorpção intensa no logar onde haviam pousado o

objecto defezo. Com um impulso que lhe guiava a vontade, a sua pequena

mão dirigiu-se á toalha branca, para a levantar, mas o fogueteiro

susteve-a, dizendo:

—Ó menina! Ahi não se bole! Não ouviu?!...

João da Costa incutiu-lhe maior curiosidade e pavor:

—Ó filha! Nem te approximes sequer!...

—O que aconteceria se eu bolisse?—perguntou com os olhos meigos e

risonhos fitos no Osti.

—Podia-se incendiar tudo, n'um instante, como um relampago—explicou.

—Então havia de ser bonito...

—Isso como um ceu aberto!—encareceu o artista.

Todos sahiram. O grande portão, por onde podia entrar um carro com uma

dorna, fechou-se com estrondo magestatico. João da Costa depois de, por

sua propria mão ter dado volta á chave, entregou-a ao fogueteiro:

—Toma-a, que és o responsavel.

O rosto de Margarida soffreu nova transfiguração: não era de alegria,

nem de tristeza o sentimento que exprimia, mas de reserva e idéa fixa

que lhe obcecasse o cerebro. Fugiu para o seu quarto, abandonando os

companheiros de brinquedos e ali se quedou com a vista absorta na cal

branca da parede... Sorria deliciosamente a uma visão angelica, ou

carregava o sobr'olho n'uma expressão voluntariosa. Sentada na borda da

cama, o queixo levantado na pequenina mão, seguia miragem ou chimera,

que lhe encantava a mente, levando-lh'a a voar pelos infinitos espaços.

Como se houvesse tomado qualquer resolução, desceu de onde estava, bateu

imperiosamente com o pé no chão e pronunciou:

—Pois hei de ir lá vêr o que é!...

Sabia perfeitamente como poderia entrar na adega, mesmo que a porta

estivesse fechada. Quantas vezes, no jogo das escondidas com outras

creanças, ali se sumira sem que ninguem a podesse encontrar!

Ensinara-lhe o caminho uma cadella, que lá dentro tivera a sua ninhada,

e que a occultas a ia amammentar, entrando por um postigo da face

poente, que conservavam sempre aberto para arejo dos toneis. Trepando

pela parede, como muitas vezes praticara, entraria no antro do mysterio,

e sosinha (como era seu desejo) podia admirar o que fôra prohibido a

toda a gente. Deviam ser maravilhas nunca vistas, deslumbramentos nunca

apreciados!... Que intenso prazer lhe não dava, infringir ordens

terminantes de seu pae e do fogueteiro! Um doce e longo effluvio lhe

percorria todos os nervos; antegostava com delicia incomparavel o

instante de poder tocar de leve os encantos que lhe fizeram conceber!

Descobriria o segredo d'esses deslumbramentos, que recamavam o negro

manto das noites d'arraial, com estrellas de côres! Saberia o que eram

em germen as lagrimas, antes de escorrerem em escadeas de luz e de

maravilharem a imaginação! E era-lhe devido este goso pela posição

especial que occupava em tal festa. Não era ella a senhora, a festeira,

a pessoa que deveria mandar sem estorvos em tudo? Estremecia de

contentamento, ao delinear na mente o furtivo accesso pelo postigo

grande, por onde entrava a cadella, quando ia amammentar os filhos.

Realmente, ao lusco-fusco d'esse dia, no periodo em que as sombras

principiavam a cahir solemnemente das montanhas com todo o seu poder de

mysterio, Margarida sahiu de casa com a alma aguilhoada para aclarar o

enigma. Munira-se d'um coto de vela de cêra que tirou do oratorio, d'uma

caixa de lumes-promptos, e foi sem ser presentida. Logo que se encontrou

dentro da adega, diluido o seu corpo na treva, accendeu a luz para

retomar a propria individualidade. Á vista do pequeno cesto coberto de

toalha lavada e branca (qual pacifico e substancial merendeiro) o

entendimento entorpeceu-se-lhe com a força da curiosidade. Seria

possivel estarem ali escondidos os maravilhosos lumes, que, abertos no

escuro da noite, offuscavam o scintilar das estrellas?! Fontes de luz,

variadas no brilho e nas côres; descenso de adornos do firmamento, que

duram instantes; maravilhas de pequenos meteoros, que, ondulando no

espaço como espiritos angelicos, buscam repouso glorioso; rebentos da

treva como flores luminosas de cristal; adereços de pedras preciosas

jorrando do interior do céu... era o que ella presumia sob a modesta

toalha branca... Quantas vezes os olhos do seu corpo não haviam cegado

com os deslumbramentos d'essas lampadas sagradas suspensas sobre a

Terra! As radiantes lagrimas, quando brancas, parecem chuva de

claridades ou pranto celeste brotando como rozeiral de diamantes e

morrendo, depois, suavemente como beijos; quando de côres semelham

rosarios de rubis, de topazios, de esmeraldas, que transformam a treva

em interior illuminado de palacio encantado, habitação de fadas. Tudo

isto, sabia-o Margarida porque lh'o tinham revelado na prohibição feita,

e estava ali inerte sob a toalha branca. Não devia ver e averiguar o que

fosse? Correria risco quem o tentasse... mas para aquelle espirito

irrequieto e temerario, o perigo era um incitamento. Com a pequenina mão

direita, tremula de commocção que não de susto, levantou a ponta da

toalha alumiando-se com a vela acesa... O que viram os seus olhos

cubiçosos e egoistas?!... Nada, ou pouco mais: embrulhos em papeis;

alguns pequenos frascos com liquidos e tigelas com agua de onde se

mergulhavam coisas; meadas de torcidas de algodão impregnadas de

polvora, com envolucro de papel, a que chamam trincafios. Seria d'isto

que sahiam esses lampadarios aereos, que deslumbravam os olhos de tanta

gente?! Mal se podia acreditar, pois toda a apparencia era de objectos

vulgares, inertes e sem flammancia. Cheia de confiança em si e minada do

desejo de averiguação, principiou com os seus delicados dedos a remexer

todas aquellas miudesas, emprestando-lhes alguma vida, para d'ahi sahir

a acalmação da febre que lhe exacerbava a mente. Talvez que, ao seu

contacto, das substancias mortas nascessem vivas faiscas, inicio de

prodigios! Talvez!... Quem poderia dizer o contrario? Aquelle algodão

embebido em polvora e envolto em papel, muitas vezes ella o vira

encendiar-se, se lhe applicavam a morraca... Se agora lhe achegasse a

luz, talvez ardesse um boccadinho e fosse este um começo de

fascinações... Nos olhos vivos e sequiosos apparecia o signal de que tal

desejo lhe crescia no cerebro, como lavareda dominadora. Com mão timida

ainda, mas guiada por força que não podia contrariar, foi ajuntando a

chamma da vela com o ponto negro do trincafio... Apparece o primeiro

brilho e logo Margarida retira promptamente a pequenina mão, para que

não continue a arder... Mas esse ponto luminoso foi logo maior e grande,

propagou-se por todo o cesto, como um vaga-lume rabioso... Alarga-se

n'uma luz azul e viva de relampago, seguem-se estoiros e logo pavoroso e

infernal ruido, que tendo começado dentro do cesto, se propagou com a

velocidade a todo o espaço da ampla adega. Que scena phantastica,

maravilhosa, deslumbrante e cahotica, esta de um horrido estrepito no

meio de lavaredas, que vomitavam raios, esfusiando de todos os lados!...

Quem podera ver a graciosa figura de Margarida, n'esta confusão

terrivel, consideral-a-hia apparição angelica, cheia de gloria e poder

divino, dominando a confusão dos mundos, com a serenidade risonha d'um

seraphim. Estava de pé na separação dos lagares, os braços levantados em

prece sublime, olhos brilhantes e cheios de enthusiasmo, como os dos

martyres que a Deus glorificavam sobre fogueiras! Que se passaria no seu

craneo n'este instante unico!... Talvez sentisse a alma arrebatada em

fogo! talvez se julgasse levada aos infinitos paramos em ondas de luz!

talvez que esse estranho grito que da sua debil garganta sahiu, fosse a

primeira nota d'um canto de gloria!...

A nossa Gente · 第 21 / 53 题