Por todas as disposições se reconhecia que este excepcional domingo e
estes doze annos de Margarida viriam a marcar data na historia da
familia. Os convidados, amigos e parentes de João da Costa, que já
muitos tinham chegado para assistir ao arraial, mostravam-se
interessados por verem tanta gente assim atarefada e remexida: eram
todos os creados da casa, os armadores da capella com Zé Maximo á
frente, que tambem mandava nas illuminações, o fogueteiro com os seus
ajudantes a abrirem covas para o fogo preso, os dos zabumbas, os das
caixas e o gaiteiro... todos a alarmarem a freguezia e redondezas. Uma
balburdia, uma abundancia, uma grandeza sem par!... O amor, louco e
incondiccional, d'aquelles paes por sua filha, explicava o turbulento
apparato; mas, de todas as pessoas ali reunidas, uma parecia menos
gostosa do que se passava e era a festejada creança. Agitava-se é certo,
andava no meio d'aquellas coisas, com outras meninas e rapazes da sua
egualha; porém reconheciam-n'a possuida d'uma das suas crises de
tristeza e inconvivencia, como quando fugia para a matta, a esconder-se
na espessura dos arvoredos, para evitar o contacto de gente, que lhe
melindrasse a sensibilidade. A mãe, que a perscrutava, momento a
momento, percebera, pelo arrepanhado das linhas faciaes, pelo seu olhar
frenetico, que Margarida soffria uma sezão de impaciencia; no seio
decerto lhe crescia um desejo inconstante, e logo que poude tel-a entre
os braços perguntou-lhe:
—Que tens tu, minha filha, que andas tão esquisita?! Falta-te alguma
coisa?
—Não sei... Falta!...
—O que?...
—Não sei... Falta...—repetiu desprendendo-se, para se ir misturar aos
que admiravam o fogo disposto no quinteiro. As creanças faziam os seus
commentarios, comparando estas com outras figuras que tinham visto arder
em romarias, e dirigiam as suas observações a Margarida em tom
bajulador, que ella acceitava com sobranceria de dona. João da Costa,
homem prevenido, vendo-as assim zaranzar, e temendo qualquer semsaboria,
disse ao filho do Zé Osti:
—Olha lá. Não seria melhor recolher tudo na adega?! Póde estragar-se
qualquer coisa, entendes?...
—Mais que isso, póde haver trapalhada. Um lume prompto, a ponta d'um
cigarro dentro d'aquelle cesto (indicou-o com o dedo), levava tudo pelos
ares, emquanto o diabo esfrega um olho...
Abriu-se a ampla porta, que tinha fechadura valente. Ali ninguem
entraria sem consentimento e o morgado accrescentou para o fogueteiro:
—Tu que és responsavel ficas com a chave. Ninguem mais tem que cheirar
n'estas coisas.
O filho de José Osti, com o seu pessoal, é que collocou dentro dos dois
lagares o fogo, arrumando-o pela sua importancia. A um lado o que era
figurame, bem separadas as peças, para se não destruirem os enfeites que
seriam o encanto da vista; ao outro o fogo do ar, as taes abantesmas com
bombas do tamanho de cabeças de toiro. O cesto mysterioso e suspeito, já
assignalado como coisa de circumstancia e perigo, foi collocado a um
canto com a seguinte recommendação do Osti, dita em tom de grande preço:
—São os trincafios, a namite, as lagrimas, a polvora fina e outras
coisas... Isso póde incendiar-se e será uma de mil demonios!...
As creanças, na presença de quem a recommendação fôra feita, ficaram
maravilhadas, medrosas e attentas. Que coisas terriveis e bellas não
estariam debaixo d'aquella toalha de branco linho, cobertura do modesto
cesto!... Os grandes olhos de Margarida haviam-se illuminado de fulgor
cupido e excepcional, logo ao primeiro aviso no quinteiro; agora
fixaram-se com uma absorpção intensa no logar onde haviam pousado o
objecto defezo. Com um impulso que lhe guiava a vontade, a sua pequena
mão dirigiu-se á toalha branca, para a levantar, mas o fogueteiro
susteve-a, dizendo:
—Ó menina! Ahi não se bole! Não ouviu?!...
João da Costa incutiu-lhe maior curiosidade e pavor:
—Ó filha! Nem te approximes sequer!...
—O que aconteceria se eu bolisse?—perguntou com os olhos meigos e
risonhos fitos no Osti.
—Podia-se incendiar tudo, n'um instante, como um relampago—explicou.
—Então havia de ser bonito...
—Isso como um ceu aberto!—encareceu o artista.
Todos sahiram. O grande portão, por onde podia entrar um carro com uma
dorna, fechou-se com estrondo magestatico. João da Costa depois de, por
sua propria mão ter dado volta á chave, entregou-a ao fogueteiro:
—Toma-a, que és o responsavel.
O rosto de Margarida soffreu nova transfiguração: não era de alegria,
nem de tristeza o sentimento que exprimia, mas de reserva e idéa fixa
que lhe obcecasse o cerebro. Fugiu para o seu quarto, abandonando os
companheiros de brinquedos e ali se quedou com a vista absorta na cal
branca da parede... Sorria deliciosamente a uma visão angelica, ou
carregava o sobr'olho n'uma expressão voluntariosa. Sentada na borda da
cama, o queixo levantado na pequenina mão, seguia miragem ou chimera,
que lhe encantava a mente, levando-lh'a a voar pelos infinitos espaços.
Como se houvesse tomado qualquer resolução, desceu de onde estava, bateu
imperiosamente com o pé no chão e pronunciou:
—Pois hei de ir lá vêr o que é!...
Sabia perfeitamente como poderia entrar na adega, mesmo que a porta
estivesse fechada. Quantas vezes, no jogo das escondidas com outras
creanças, ali se sumira sem que ninguem a podesse encontrar!
Ensinara-lhe o caminho uma cadella, que lá dentro tivera a sua ninhada,
e que a occultas a ia amammentar, entrando por um postigo da face
poente, que conservavam sempre aberto para arejo dos toneis. Trepando
pela parede, como muitas vezes praticara, entraria no antro do mysterio,
e sosinha (como era seu desejo) podia admirar o que fôra prohibido a
toda a gente. Deviam ser maravilhas nunca vistas, deslumbramentos nunca
apreciados!... Que intenso prazer lhe não dava, infringir ordens
terminantes de seu pae e do fogueteiro! Um doce e longo effluvio lhe
percorria todos os nervos; antegostava com delicia incomparavel o
instante de poder tocar de leve os encantos que lhe fizeram conceber!
Descobriria o segredo d'esses deslumbramentos, que recamavam o negro
manto das noites d'arraial, com estrellas de côres! Saberia o que eram
em germen as lagrimas, antes de escorrerem em escadeas de luz e de
maravilharem a imaginação! E era-lhe devido este goso pela posição
especial que occupava em tal festa. Não era ella a senhora, a festeira,
a pessoa que deveria mandar sem estorvos em tudo? Estremecia de
contentamento, ao delinear na mente o furtivo accesso pelo postigo
grande, por onde entrava a cadella, quando ia amammentar os filhos.
Realmente, ao lusco-fusco d'esse dia, no periodo em que as sombras
principiavam a cahir solemnemente das montanhas com todo o seu poder de
mysterio, Margarida sahiu de casa com a alma aguilhoada para aclarar o
enigma. Munira-se d'um coto de vela de cêra que tirou do oratorio, d'uma
caixa de lumes-promptos, e foi sem ser presentida. Logo que se encontrou
dentro da adega, diluido o seu corpo na treva, accendeu a luz para
retomar a propria individualidade. Á vista do pequeno cesto coberto de
toalha lavada e branca (qual pacifico e substancial merendeiro) o
entendimento entorpeceu-se-lhe com a força da curiosidade. Seria
possivel estarem ali escondidos os maravilhosos lumes, que, abertos no
escuro da noite, offuscavam o scintilar das estrellas?! Fontes de luz,
variadas no brilho e nas côres; descenso de adornos do firmamento, que
duram instantes; maravilhas de pequenos meteoros, que, ondulando no
espaço como espiritos angelicos, buscam repouso glorioso; rebentos da
treva como flores luminosas de cristal; adereços de pedras preciosas
jorrando do interior do céu... era o que ella presumia sob a modesta
toalha branca... Quantas vezes os olhos do seu corpo não haviam cegado
com os deslumbramentos d'essas lampadas sagradas suspensas sobre a
Terra! As radiantes lagrimas, quando brancas, parecem chuva de
claridades ou pranto celeste brotando como rozeiral de diamantes e
morrendo, depois, suavemente como beijos; quando de côres semelham
rosarios de rubis, de topazios, de esmeraldas, que transformam a treva
em interior illuminado de palacio encantado, habitação de fadas. Tudo
isto, sabia-o Margarida porque lh'o tinham revelado na prohibição feita,
e estava ali inerte sob a toalha branca. Não devia ver e averiguar o que
fosse? Correria risco quem o tentasse... mas para aquelle espirito
irrequieto e temerario, o perigo era um incitamento. Com a pequenina mão
direita, tremula de commocção que não de susto, levantou a ponta da
toalha alumiando-se com a vela acesa... O que viram os seus olhos
cubiçosos e egoistas?!... Nada, ou pouco mais: embrulhos em papeis;
alguns pequenos frascos com liquidos e tigelas com agua de onde se
mergulhavam coisas; meadas de torcidas de algodão impregnadas de
polvora, com envolucro de papel, a que chamam trincafios. Seria d'isto
que sahiam esses lampadarios aereos, que deslumbravam os olhos de tanta
gente?! Mal se podia acreditar, pois toda a apparencia era de objectos
vulgares, inertes e sem flammancia. Cheia de confiança em si e minada do
desejo de averiguação, principiou com os seus delicados dedos a remexer
todas aquellas miudesas, emprestando-lhes alguma vida, para d'ahi sahir
a acalmação da febre que lhe exacerbava a mente. Talvez que, ao seu
contacto, das substancias mortas nascessem vivas faiscas, inicio de
prodigios! Talvez!... Quem poderia dizer o contrario? Aquelle algodão
embebido em polvora e envolto em papel, muitas vezes ella o vira
encendiar-se, se lhe applicavam a morraca... Se agora lhe achegasse a
luz, talvez ardesse um boccadinho e fosse este um começo de
fascinações... Nos olhos vivos e sequiosos apparecia o signal de que tal
desejo lhe crescia no cerebro, como lavareda dominadora. Com mão timida
ainda, mas guiada por força que não podia contrariar, foi ajuntando a
chamma da vela com o ponto negro do trincafio... Apparece o primeiro
brilho e logo Margarida retira promptamente a pequenina mão, para que
não continue a arder... Mas esse ponto luminoso foi logo maior e grande,
propagou-se por todo o cesto, como um vaga-lume rabioso... Alarga-se
n'uma luz azul e viva de relampago, seguem-se estoiros e logo pavoroso e
infernal ruido, que tendo começado dentro do cesto, se propagou com a
velocidade a todo o espaço da ampla adega. Que scena phantastica,
maravilhosa, deslumbrante e cahotica, esta de um horrido estrepito no
meio de lavaredas, que vomitavam raios, esfusiando de todos os lados!...
Quem podera ver a graciosa figura de Margarida, n'esta confusão
terrivel, consideral-a-hia apparição angelica, cheia de gloria e poder
divino, dominando a confusão dos mundos, com a serenidade risonha d'um
seraphim. Estava de pé na separação dos lagares, os braços levantados em
prece sublime, olhos brilhantes e cheios de enthusiasmo, como os dos
martyres que a Deus glorificavam sobre fogueiras! Que se passaria no seu
craneo n'este instante unico!... Talvez sentisse a alma arrebatada em
fogo! talvez se julgasse levada aos infinitos paramos em ondas de luz!
talvez que esse estranho grito que da sua debil garganta sahiu, fosse a
primeira nota d'um canto de gloria!...