VI

Mais e mais a minha tortura se exacerbava cada noite. E embora visse

claramente que todo o meu sofrimento, todos os meus receios, provinham

só de obsessões destrambelhadas e que, portanto, motivo algum havia

para eu os ter--o certo é que, pelo menos, uma certeza lucida me

restava pressentida: fosse como fosse, havia em todo o caso um motivo

real no arrepio de medo que me varava a todo o instante. Seriam

destrambelhadas as minhas obsessões--ah! mas eram justos, bem justos no

fundo, os meus receios.

Os nossos encontros prosseguiam sempre todas as tardes em minha casa, e

eu hoje esperava, tremendo, a hora dos nossos amplexos. Tremendo e, ao

mesmo tempo, a ansear numa agonia aquilo que me fazia tremer.

Esquecera as minhas repugnancias; o que me oscilava agora era outra

duvida: apesar de os nossos corpos se emmaranharem, se incrustarem, de

ela ter sido minha, toda minha--começou a parecer-me, não sei porquê,

que nunca a possuira inteiramente; mesmo que não era possivel possuir

aquele corpo inteiramente por uma impossibilidade fisica qualquer:

_assim como se «ela» fosse do meu sexo_!

E ao penetrar-me esta ideia alucinadora, eu lembrava-me sempre

de que o beijo de Ricardo, esse beijo masculino, me soubera ás

mordeduras de Marta; tivera a mesma côr, a mesma perturbação...

* * * * * * * *

Passaram-se alguns mêses.

Entre periodos mais ou menos tranquilos, o tempo ia agora seguindo. Eu

olvidava a minha inquietação, o meu misterio, elaborando um novo

volume de novelas--o ultimo que devia escrever...

Meus tristes sonhos, meus grandes cadernos de projectos--acumulei-vos...

acumulei-vos numa ascensão, e por fim tudo ruiu em destroços... Etereo

construtor de torres que nunca se ergueram, de catedrais que nunca se

sagraram... Pobres torres de luar ... pobres catedrais de neblina...

* * * * * * * *

Por este tempo, houve tambem uma epoca muito interessante na minha crise

que não quero deixar de mencionar: durante ela eu pensava muito

no meu caso, mas sem de forma alguma me atribular--friamente,

desinteressadamente, como se esse caso se não desse comigo.

E punha-me sobretudo a percorrer o começo da nossa ligação. De que

modo se iniciara ela? Misterio... Sim, por muito estranho que pareça, a

verdade é que eu me esquecera de todos os pequenos episodios que a

deviam forçosamente ter antecedido. Pois decerto não começaramos logo

por beijos, por caricias viciosas--houvera sem duvida qualquer coisa

antes, que hoje não me podia recordar.

E o meu esquecimento era tão grande que, a bem dizer, eu não tinha a

sensação de haver esquecido esses episodios: parecia-me impossivel

recordá-los, como impossivel é recordarmo-nos de coisas que nunca

sucederam...

Mas estas bizarrias não me dilaceravam, repito: durante esta epoca eu

examinei-me sempre de fóra, num deslumbramento--num deslumbramento

lucido, donde provinha o meu alivio actual.

E só me lembrava--conforme narrei--do primeiro encontro das nossas

mãos, do nosso primeiro beijo... Nem de tanto, sequer. A verdade

simples era esta: eu sabia apenas que devera ter havido seguramente um

primeiro encontro de mãos, uma primeira mordedura nas bôcas ... como

em todos os romances...

Quando a saudade dêsse primeiro beijo me acudia mais nitida--ele

surgia-me sempre como se fôra a coisa mais natural, a menos criminosa,

ainda que dado na bôca... Na bôca? Mas é que eu nem mesmo disso

estava seguro. Pelo contrario: era até muito possivel que esse beijo,

mo tivessem dado na face--como o beijo de Ricardo, _o beijo semelhante

aos de Marta_...

Meu Deus, meu Deus, quem me diria entretanto que estava ainda a meio do

meu calvario, que tudo o que eu já sofrera nada valeria em face duma

nova tortura--ai, desta vez, tortura bem real, não simples obsessão...

Com efeito um dia comecei observando uma certa mudança na atitude de

Marta--nos seus gestos, no seu rosto: um vago constrangimento, um

alheamento singular, devidos sem duvida a qualquer preocupação. Ao

mesmo tempo reparei que já não se me entregava com a mesma

intensidade.

Demorava-se agora menos em minha casa, e uma tarde, pela primeira vez,

faltou.

No dia seguinte não aludiu á sua ausencia, nem eu tão pouco me atrevi

a perguntar-lhe coisa alguma. Entretanto notei que a expressão do seu

rosto mudara ainda: voltara a serenidade, a serenidade melancolica do

seu rosto--mas essa serenidade era hoje diferente: mais loira, mais

sensual, mais esbatida...

E desde aí, principiou a não me aparecer amiudadas vezes--ou chegando

fóra das horas habituais, entrando e logo saindo, sem se me entregar.

De maneira que eu vivia agora num martirio incessante. Cada dia que se

levantava, era cheio do medo de que ela me faltasse. E desde a manhã a

esperava, fechado em casa, numa excitação indomavel que me quebrava,

que me ardia.

Por seu lado, Marta nunca tinha pensado em justificar-me as suas

ausencias, as suas recusas. E eu, embora o quisesse, ardentemente o

quisesse, não lhe ousava fazer a mais ligeira pergunta.

De resto, devo explicar que, desde o inicio da nossa ligação,

terminara a nossa intimidade. Com efeito, desde que Marta fôra

minha--eu olhava-a como se olha alguem que nos é muito superior e a

quem tudo devemos. Recebera o seu amor como uma esmola de rainha--como

aquilo que menos poderia esperar, _como uma impossibilidade_.

Eis pelo que não arriscava uma palavra.

Eu era apenas o seu escravo--um escravo a quem se prostituira

a patrícia debochada... Mas, por ser assim, tanto mais contorcida

se enclavinhava a minha angustia...

* * * * * * * *

Uma tarde decidi-me.

Passara ha muito a hora depois da qual Marta nunca vinha.

--Ah! que faria nesse instante? Porque não viera!?...

Fosse como fosse, era preciso saber alguma coisa!

Já mais duma vez, quando ela me faltava, eu estivera prestes a ir

procura-la. Mas nunca ousara sair do meu quarto, no receio pueril de

que--embora muito tarde--ainda aparecesse.

Nesse dia, porêm, pude-me vencer. Decidi-me...

Corri a casa do meu amigo numa ansia esbraseada...

Fui encontra-lo no seu gabinete de trabalho, entre uma avalanche de

papeis, fazendo uma escolha dos seus versos inéditos para uma

distribuição em dois volumes--distribuição que ha mais dum âno o

torturava.

--Ainda bem que apareceste!--gritou-me.--Vais-me ajudar nesta horrivel

tarefa!...

Volvi-lhe balbuciando, sem me atrever a perguntar pela sua companheira,

motivo unico da minha inesperada visita... Estaria em casa? Era pouco

provavel. Emtanto podia ser...

Só a vi ao jantar. Tinha um vestido-tailleur, de passeio...

* * * * * * * *

Agora todas as minhas obsessões se haviam dissipado, convertidas em

ciume--ciume que eu ocultava á minha amante como uma vergonha, que

fazia por ocultar a mim proprio, tentando substitui-lo pelos meus

antigos desvairos. Mas sempre embalde.

Contudo nunca passavam três dias seguidos sem que Marta me pertencesse.

O horror fisico que o seu corpo já me suscitara tinha voltado de novo.

Esse horror, porêm, e o ciume, mais me faziam deseja-la, mais

alastravam em côres fulvas os meus espasmos.

Muitas vezes repeti a experiencia de correr a sua casa nas tardes em que

ela não vinha. Mas sempre encontrava Ricardo. Marta não aparecia

senão ao jantar... E eu, na minha incrivel timidez, nunca perguntava

por ela--esquecia-me mesmo de o fazer, como se não fosse para isso só

que viera procurar o meu amigo àquela hora...

Porêm, um dia o poeta admirou-se das minhas visitas intempestivas, do

ar febril com que eu chegava e, desde então, nunca mais ousei repetir

essas experiencias, aliás inuteis.

Decidi espiona-la.

Uma tarde tomei um coupé e, descidas as cortinas, mandei-o parar perto

de sua casa... Esperei algum tempo. Por fim ela saiu. Ordenei ao

cocheiro que a seguisse a distancia...

Marta tomou por uma rua transversal, dobrou á esquerda, enveredou

por uma avenida paralela àquela em que habitava e onde as construções

eram ainda raras. Dirigiu-se a um pequeno predio de asulejo

verde. Entrou sem bater...

* * * * * * * *

Ah! como eu sofria! como eu sofria!... Fôra buscar a prova evidente de

que ela tinha outro amante... Louco que eu era em a ter ido procurar...

Hoje, nem mesmo que quisesse, me poderia já iludir...

E como eu me enganara outróra pensando que não seria sensivel á

traição carnal duma minha amante, que pouco me faria que ela

pertencesse a outros...

Começou então a ultima tortura...

Num grande esforço baldado, procurei ainda olvidar-me do que

descobrira--esconder a cabeça debaixo dos lençois como as crianças,

com medo dos ladrões, nas noites de inverno.

Ao entrelaça-la, hoje, debatia-me em extases tão profundos, mordia-a

tão sofregamente, que ela uma vez se me queixou.

Com efeito, sabe-la possuida por outro amante--se me fazia sofrer na

alma, só me excitava, só me contorcia nos desejos...

Sim! sim!--laivos de roxidão!--aquele corpo esplendido, triunfal,

dava-se a três homens--três machos se estiraçavam sobre êle, a

polui-lo, a sugá-lo!... Três? Quem sabia se uma multidão?... E ao

mesmo tempo que esta ideia me despedaçava, vinha-me um desejo perverso

de que assim fosse...

Ao estrebucha-la agora, em verdade, era como se, em beijos monstruosos,

eu possuisse tambem todos os corpos masculinos que resvalavam pelo seu.

A minha ansia convertera-se em achar na sua carne uma mordedura, uma

escoriação de amor, qualquer rastro doutro amante...

E um dia de triunfo, finalmente, descobri-lhe no seio esquerdo uma

grande nodoa negra... Num impeto, numa furia, colei a minha boca a essa

mancha--chupando-a, trincando-a, dilacerando-a...

Marta, porêm, não gritou. Era muito natural que gritasse com a minha

violencia, pois a boca ficara-me até sabendo a sangue. Mas o certo é

que não teve um queixume. Nem mesmo parecera notar essa caricia

brutal...

De modo que, depois de ela sair, eu não pude recordar-me do meu beijo

de fogo--foi-me impossivel relembra-lo numa estranha duvida...

* * * * * * * *

Ai, quanto eu não daria por conhecer o seu outro amante ... os seus

outros amantes...

Se ela me contasse os seus amores livremente, sinceramente, se eu não

ignorasse as suas horas--todo o meu ciume desapareceria, não teria

razão de existir.

Com efeito, se ela não se ocultasse de mim, _se apenas se ocultasse dos

outros_, eu seria o primeiro. Logo, só me poderia envaidecer; de forma

alguma me poderia revoltar em orgulho. Porque a verdade era essa,

atingira: todo o meu sofrimento provinha apenas do meu orgulho ferido.

Não, não me enganara outróra, ao pensar que nada me angustiaria por a

minha amante se entregar a outros. Unicamente era necessario que ela me

contasse os seus amores, os seus espasmos até.

O meu orgulho só não admitia segredos. E em Marta era tudo misterio.

Daí a minha angustia--_daí o meu ciume_.

Muita vez--julgo--deligenciei fazer-lhe compreender isto mesmo,

evidencear-lhe a minha forma de sentir, a ver se provocava uma

confissão inteira da sua parte, cessando assim o meu martirio. Ela

porêm, ou nunca me percebeu, ou era resumido o seu afecto para tamanha

prova de amor.

Se em face do meu ciume todas as outras obsessões haviam sossobrado,

restavam-me ainda--como já disse--as minhas repugnancias

incompreensiveis. E procurando de novo aclara-las a mim proprio,

assaltou-me de subito este receio: _seriam elas originadas pelo outro

amante_?

Eu me explico:

Tive sempre grandes antipatias fisicas, meramente exteriores. Lembro-me

por exemplo de que, em Paris, a um restaurante onde todas as noites

jantava com Gervasio Vila-Nova, ia algumas vezes uma rapariga italiana,

deveras graciosa--modelo sem duvida--que muito me enternecia, que eu

cheguei quasi a desejar.

Mas em breve tudo isso passou.

É que a vira um Domingo caminhando de mãos dadas com certo individuo

que eu abominava com o maior dos tedios, e que já conhecia de o

encontrar todas as tardes jogando as cartas num café burguês da praça

S. Michel. Era escarradamente o que as damas de quarenta ânos e as

criadas de servir chamam _um lindo rapaz_. Muito branco, rosadinho e

loiro, bigodito bem frisado, o cabelo encaracolado; uns olhos

pestanudos, uma bôca pequenina--meiguinho, todo esculpido em manteiga;

oleoso nos seus modos, nos seus gestos. Caixeiro de loja de modas--ah!

não podia deixar de ser!...

Embirrava de tal forma com semelhante criatura açucarada, que nunca

mais tinha voltado ao café provinciano da praça de S. Miguel. Com

efeito era-me impossivel sofrer a sua presença. Dava-me sempre vontade

de vomitar em face dêle, na mesma nausea que me provocaria uma mistura

de toucinho rançoso, enxundia de galinha, mel, leite e herva-dôce...

Ao encontra-lo--o que não era raro--eu não sabia nunca evitar um gesto

de impaciencia. Uma manhã por sinal nem almocei, pois abancando num

restaurante que não frequentava habitualmente, o alambicado personagem

tivera a desfaçatez de se vir assentar diante de mim, na mesma mesa...

Ah! que desejo enorme me afogueou de o esbofetear, de lhe esmurrar o

narizinho num chuveiro de murros... Mas contive-me. Paguei e fugi.

Ora encontrar essa pequena galante de mãos dadas com tamanho

imbecil--fôra o mesmo do que a ver tombar morta a meus pés. Ela não

deixara de ser um amor--é claro--mas eu é que nunca mais a poderia

sequer aproximar. Sujara-a para sempre o homemzinho loiro,

engordurara-a. E se eu a beijasse, logo me ocorreria a sua lembrança

amanteigada, vir-me-hia um gosto humido a saliva, a coisas peganhentas e

viscosas. Possui-la então, seria o mesmo que banhar-me num mar sujo, de

espumas amarelas, onde boiassem palhas, pedaços de cortiça e cascas de

melões...

Pois bem: e se as minhas repugnancias em face do corpo admiravel de

Marta, tivessem a mesma origem? Se esse amante que eu ignorava, fosse

alguem que me inspirasse um grande nojo?... Podia muito bem ser assim,

num pressentimento, tanto mais que--já o confessei--ao possui-la, eu

tinha a sensação monstruosa de possuir tambem o corpo masculino desse

amante.

Mas a verdade é que, no fundo, eu estava quasi certo de que me enganava

ainda; de que era bem diferente, bem mais complicada a razão das minhas

repugnancias misteriosas. Ou melhor: que mesmo que eu, se o conhecesse,

antipatisasse com o seu amante, não seria esse o motivo das minhas

nauseas.

Com efeito a sua carne de forma alguma me repugnava numa sensação de

enjoo--a sua carne só me repugnava numa sensação de monstruosidade,

de _desconhecido_: eu tinha nojo do seu corpo como sempre tive nojo dos

epilepticos, dos loucos, dos feiticeiros, dos iluminados, dos reis, dos

pápas--da gente que o misterio grifou...

Numa derradeira vontade tentei ainda provocar uma explicação com

Marta--descrever-lhe sinceramente todo o meu martirio, ou, pelo menos,

insultá-la. Emfim, pôr um termo qualquer á minha situação infernal.

Mas não o consegui nunca. Quando ia a dizer-lhe a primeira palavra, via

os seus olhos de infinito ... o seu olhar fascinava-me. E como um

_medium_ no estado hipnotico eram outras as frases que eu

proferia--_talvez só as que ela me obrigava a pronunciar_.

Então resolvi, pelo menos, saber de qualquer forma quem era o habitante

do prediozinho verde. Repugnavam-me muito as deligencias suspeitas, mas

não descera eu já a seguir Marta?

Assim, enchi-me de arrojo e determinei ir perguntar pelas cercanias

informações sobre o que eu desejava averiguar, recorrendo mesmo em

ultimo caso ao porteiro--se é que o predio tinha guarda-portão.

Escolhi a manhã dum domingo para as minhas investigações, dia em que

eu e Marta só nos encontravamos em casa do poeta, que todas as tardes

de domingo nos levava a passear no seu automovel, o qual

então--estavamos em 1899--fazia grande sucesso em Lisboa.

Porêm, ao dobrar a rua transversal que levava á avenida onde era o

predio misterioso, tive um gesto de despeito: Ricardo caminhava na minha

frente. Não me pude esconder. Ele vira-me já, não sei como:

--Hein? Tu por aqui a estas horas?...--gritou admirado.

Reuni todas as minhas forças para balbuciar:

--É verdade... Ia a tua casa... Mas lembrei-me de ver estas ruas

novas... Ando tão aborrecido...

--Do calor?

--Não... E tu proprio ... dize-me... Nunca costumas sair de manhã ...

sobretudo aos domingos...

--Ah! uma madureza como outra qualquer. Concluí agora mesmo uns versos.

E na ansia de os ler a alguem, ia a casa do Sergio Warginsky para lhos

mostrar... É aqui perto... Anda comigo... Fazemos horas para o

almoço...

A estas palavras todo eu tremi num arrepio. Silencioso, pus-me a

acompanhá-lo, maquinalmente.

O artista quebrou o silencio:

--Então, e a tua peça?

--Terminei-a a semana passada.

--O quê!? Mas ainda não me tinhas dito coisa alguma!...

Desculpei-me murmurando:

--É que me esqueci, talvez...

--Homem! tens cada resposta que não lembra ao diabo!...--recordo-me

perfeitamente de que êle exclamara rindo. E prosseguiu:

--Mas conta-me depressa... Estás satisfeito com a tua obra?... Como

resolveste afinal aquela dificuldade do segundo acto? O escultor sempre

morre?...

E eu:

--Resolveu-se tudo muito bem. O escultor...

Chegaramos defronte do prediozinho verde. Interrompi-me de subito...

Não! não era ilusão: em face de nós, no outro passeio, Marta sempre

nos seus passos leves, indecisos mas rapidos, silenciosos--sem nos ver,

sem reparar em redór de si, dirigia-se ao predio misterioso, batia á

porta desta vez, entrava...

E, ao mesmo tempo, apertando-me o braço bruscamente, dizia-me o poeta:

--No fim de contas é um disparate irmos incomodar o russo. O que eu

estou é ansioso por conhecer o teu drama. Vamos buscá-lo os dois a tua

casa. Quero ouvi-lo esta tarde. Tanto mais que o automovel precisa

concerto. Aquilo, dia sim, dia não, é uma peça que se parte...

* * * * * * * *

Vivi todo o resto desse dia como que envolto num denso véu de bruma.

Emtanto pude ler o meu drama a Ricardo e a Marta. Sim, quando voltámos

ao palacete, após termos passado por minha casa, já Marta regressara,

_e notei mesmo que já tinha mudado de vestido_--embora contra o seu

costume, não vestisse um traje de interior, mas sim uma toilette de

passeio.

Lembro-me tambem de que durante toda a leitura da minha peça, só tive

esta sensação lucida: que era bizarro como eu, no meu estado de

espirito podia entretanto trabalhar.

De resto, conforme observei, as minhas dôres, as minhas angustias, as

minhas obsessões eram intermitentes, tinham fluxos e refluxos: como nos

dias de revolta social, entre os tiros de canhão e o tiroteio nas

praças, a vida diaria prossegue--tambem, no meio da minha tortura,

seguia a minha vida intelectual. Por isso mesmo lograra esconder de

todos, até hoje, a atribulação do meu espirito.

Mas, juntamente com a ideia lucida que descrevi, sugerira-se-me durante

a leitura outra ideia muito estrambotica. Fôra isto: pareceu-me

vagamente que eu era o meu drama--a coisa artificial--e o meu drama a

realidade.

Um parentese:

Quem me tiver seguido deve, pelo menos, reconhecer a minha

imparcialidade, a minha inteira franqueza. Com efeito, nesta simples

exposição da minha inocencia, não me poupo nunca a descrever as

minhas ideias fixas, os meus aparentes desvairos que, interpretados com

estreiteza, poderiam levar a concluir, não pela minha culpabilidade,

mas pela minha embustice ou--criterio mais estreito--pela minha loucura.

Sim, _pela minha loucura_; não receio escreve-lo. Que isto fique bem

frisado, porquanto eu necessito de todo o credito para o final da minha

exposição, tão misterioso e alucinador êle é.

Ricardo e Marta felicitaram-me muito pela minha obra--creio. Mas não o

posso afirmar, em virtude do denso véu de bruma cinzenta que me

envolvera, e que só me deixou nitidas as lembranças que já referi.

Jantei com os meus amigos. Despedi-me cedo pretextando um ligeiro

incomodo.

Corri para minha casa. Deitei-me logo... Mas antes de adormecer, revendo

a scena culminante do dia, observei esta estranha coisa:

Ao pararmos em face do predio verde, de subito eu vira Marta avançar

distraída até bater á porta... Ora, segundo a direcção em que ela

me aparecera, era fatal que tinha vindo sempre atrás de nós. Logo, ela

devia-me ter visto; _logo eu devia-a ter visto_ quando--lembrava-me

muito bem--olhara para trás, por sinal em frente dum grande predio em

construção...

E ao mesmo tempo--ignoro porque motivo--lembrei-me de que o meu amigo,

quando decidira de repente não ir a casa de Warginsky, terminara a sua

frase com estas palavras:

--... o automovel precisa concerto. Aquilo, dia sim, dia não, é uma

peça que se parte...

E eram as unicas palavras de que me lembrava frisantemente--mesmo as

unicas que eu estava certo de lhe ter ouvido. Entretanto as unicas que

eu não podia admitir que êle tivesse pronunciado...

Demorei-me ainda largas horas a rever o meu estranho dia. Mas

por fim adormeci, levando num sono até alta manhã...

* * * * * * * *

Dois dias depois, sem prevenir ninguem, sem escrever uma palavra a

Ricardo, eu tive finalmente a coragem de partir...

Ah! a sensação de alivio que experimentei ao descer emfim na gare do

Quai d'Orsay: respirava, desennastrara-se-me a alma!...

Com efeito eu sofri sempre as dôres morais na minha alma, fisicamente.

E a impressão horrivel que ha muito me debelava, era esta: que a minha

alma se havia dobrado, contorcido, confundido...

Mas agora, ao ver-me longe de tudo quanto me misturara, essa dor

estranha diluira-se: o meu espirito, sentia-o destrinçado como

outróra.

Durante a viagem, pelo contrario, numa ansia de chegar a Paris, as

minhas torturas tinham-se enrubescido. Eu pensava que nunca chegaria a

Paris, que era impossivel haver triunfado, que sonhava com certeza--ou

então que me prenderiam no caminho por engano; que me obrigariam a

tornar a Lisboa, que vinham no meu encalço Marta, Ricardo, todos os

meus amigos, todos os meus conhecidos...

E um calafrio de horror me zig-zagueara ao ver entrar em Biarritz um

homem alto e loiro, no qual, de subito, eu julguei reconhecer Sergio

Warginsky. Mas olhando-o melhor--_olhando-o pela primeira vez

realmente_--sorri para mim proprio: o desconhecido apenas tinha

do conde russo o ser alto e loiro...

* * * * * * * *

Emtanto agora já não podia duvidar; _vencera_. Atravessava a Praça da

Concordia, monumental e aristocratica, tilintante de luzes...

De novo, ungindo-me de Europa, alastrando-me da sua vibração, se

encapelava dentro de mim Paris--_o meu Paris_, o Paris dos meus vinte e

tres ânos...

E foram então os ultimos seis meses da minha vida...

Vivi-os de existencia diaria, em banalidade, frequentando os cafés, os

teatros, os grandes restaurantes...

Nas primeiras semanas--e mesmo depois, numa ou noutra hora--ainda pensei

no meu caso, mas nunca embrenhadamente.

Afinal--pressentia--tudo aquilo, no fundo, era talvez bem mais simples

do que se me afigurava. O _misterio_ de Marta? Ora ... ora... Fazem-se

tantas loucuras ... ha tantas aventureiras...

E parecia-me até que, se eu quisesse, num grande esforço, numa grande

concentração, poderia explicar a mim proprio tudo quanto me obcecara.

Mas conclui que valia bem melhor não explicar coisa alguma, esquecer

tudo. _Esquecer é não ter sido_. Se eu lograsse abolir o triste

episodio da minha recordação, era exactamente como se nunca o

existira. E foi pelo que me esforcei.

Entretanto nunca podia deixar de pensar numa circunstancia: a

complacencia inaudita de Ricardo--_a sua infamia_. Então as coisas

haviam chegado a ponto da sua mulher ir atrás dêle, quasi com êle, a

casa dum amante? Pois se nós a não viramos, ela, por mais distraída

que caminhasse, tinha-nos visto com certeza. Mas nem por isso

retrocedera!

E um turbilhão de pequeninas coisas me ocorria juntamente, mil factos

sem importancia ao primeiro exame, mil pormenores insignificantes em que

eu só agora atentava.

Ha muito que o meu amigo descobrira tudo decerto; por força que ha

muito soubera das nossas relações... Nem podia deixar de ser assim.

Só se fosse cego... Era pasmoso!...

E êle que me queria sempre ao lado da sua companheira? Mudara de lugar

á mesa, pretextando uma corrente de ar que nunca existira, só para que

eu me sentasse junto de Marta e as nossas pernas se podessem

entrelaçar...

Se saíamos os três, eu ia ao lado dela... E nos nossos passeios

de automovel, Ricardo tomando sempre o volante, sentavamo-nos

os dois sozinhos no interior da carruagem ... bem chegados um

ao outro ... _de mãos dadas_. Sim; pois logo os nossos dedos se nos

ennastravam--maquinalmente, instintivamente... Ah! e era impossivel que

êle o não observasse quando, muita vez, se voltava para nos dizer

qualquer coisa...

Mas--facto estranho--a verdade é que, nesses momentos, eu nunca receara

que êle visse as nossas mãos; nunca me perturbara, nem sequer

esboçara nunca um gesto de as desenlear... Era como se as nossas mãos

fossem soltas, e nós sentados muito longe um do outro...

E dar-se-hia o mesmo com Sergio? Oh, sem duvida... _Ricardo

estimava-o tanto_...

* * * * * * * *

O mais infame, o mais inacreditavel porêm, era que _sabendo êle_, a

sua amizade, as suas atenções, por mim e pelo russo aumentassem cada

dia...

Que êle soubesse e emtanto se calasse, por muito amar a sua companheira

e, acima de tudo, não a querer perder--ainda se admitia. Mas então, ao

menos, que mostrasse uma atitude nobre--que nos não adulasse, que não

nos acariciasse...

Ah! como tudo isto me revoltava! Não propriamente pela sua atitude;

antes pela sua falta de orgulho. Eu não soube nunca desculpar uma falta

de orgulho. E sentia que toda a minha amizade, a minha sincera amizade

por Ricardo de Loureiro, sossobrara hoje em face da sua baixeza. A sua

baixeza! Êle que tanto me gritara ser o orgulho a unica qualidade cuja

ausencia não perdoava em um caracter...

Mas devo esclarecer: ao pensar no extraordinario procedimento do meu

amigo, nunca me confrangiam as reminiscencias das minhas antigas

obsessões. Esquecera-as por completo. Mesmo que as recordasse,

importancia alguma já daria ao _misterio_--seguramente _misterio_ de

pacotilha--ao meu ciume, a tudo mais...

Apenas ás vezes, quando muito, me assaltava uma saudade vaga, esvaída

em melancolia, por tudo o que outróra me torturara.

Somos sempre assim: o tempo vai passando, e tudo se nos volve

saudoso--sofrimentos, dores até, desilusões...

Com efeito, ainda hoje, ás tardes maceradas, eu não sei evitar numa

reminiscencia longinqua, a saudade violeta de certa criaturinha indecisa

que nunca tive, e mal roçou pela minha vida. Por isto só: porque ela

me beijou os dedos; e um dia, a sorrir, defronte dos nossos amigos, me

colocou em segredo o braço nu, mordorado, sobre a mão...

E depois logo fugiu da minha vida, esguiamente, embora eu, por

piedade--doido que fui!--ainda a quisesse dourar de mim, num

enternecimento asul pelas suas caricias...

E sofri ... ela era tão pouca coisa, mas a verdade é que sofri ...

sofri de ternura. Nunca lhe tive amor. Apenas ternura ... uma ternura

muito suave ... penetrante ... aquatica...

Os meus afectos, mesmo, foram sempre ternuras...

Porêm quando me acordava essa saudade branda do meu antigo

sofrimento--isto é: do corpo nu de Marta--no mesmo instante ela se me

diluía, ao lembrar-me da atitude infame de Ricardo.

E a minha revolta era cada vez maior.

Por felicidade, até aí, ainda não recebera uma carta do artista. Que

nem a teria aberto, se a recebera...

Pessoa alguma conhecia o meu endereço. Saber-se-hia talvez que eu

estava em Paris, devido a encontros fortuitos com vagos conhecidos.

Não comprava jornais portugueses. Se vinha no _Matin_ qualquer

telegrama de Lisboa, não o lia; e assim, em verdade quasi triunfara

esquecer-me de quem era... Entre a multidão cosmopolita, criava-me

alguem sem patria, sem amarras, sem raizes em todo o mundo.

--Ah! que venturoso eu fora se não tivesse nascido em parte

nenhuma e entretanto existisse...--lembrei-me muita vez estranhamente,

nos meus passeios solitarios pelos boulevards, pelas avenidas,

pelas grandes praças...

* * * * * * * *

Uma tarde, como de costume, folheava as ultimas novidades literarias nas

galerias do Odéon, quando deparei com um volume de capa amarela,

recem-aparecido, segundo a classica tira vermelha... E diante dos meus

olhos, em letras de brasa, o nome de Ricardo de Loureiro fulgurou...

Era com efeito a tradução francesa do _Diadema_ que um editor arrojado

acabara de lançar, revelando ao mundo uma literatura nova...

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Nessa tarde, pela primeira vez desde que cheguei a Paris, tive algumas

horas realmente alucinadas.

Durante elas embrenhei-me a pensar em Ricardo, no seu procedimento

inqualificavel, na sua inadmissivel falta de orgulho.

Meditei em todos os pequenos episodios que atrás referi, descortinei

outros ainda mais significativos, perdendo-me a querer descobrir todos

os amantes possiveis de Marta... E numa alucinação, não podia

conceber que nenhum dos homens que eu vira um dia junto dela, não

tivesse passado pelo seu corpo--_e sabendo-o o marido_: Luís de

Monforte, Narciso do Amaral, Raul Vilar ... todos, emfim, todos...

Entretanto, no meio disto, ainda havia qualquer coisa mais bizarra: era

que nesta revolta, neste asco, neste odio--sim; neste odio!--por

Ricardo, misturava-se como que um vago despeito, um ciume, um verdadeiro

ciume dêle proprio. _Invejava-o_! Invejava-o por _ela_ me haver

pertencido ... a mim, ao conde russo, a todos mais!...

E esta sensação descera-me tão forte, essa tarde, que num relampago

me voou pelo cerebro a ideia rubra de o assassinar--para satisfazer

a minha inveja, o meu ciume: _para me vingar dêle_!...

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Mas voltei por fim á minha calma, e, perante o meu antigo amigo, só me

restou o meu nojo, o meu tedio, e um desejo ardente de lhe escarrar na

cara toda a sua indignidade, toda a sua baixeza, clamando-lhe:

--Olha que fomos amantes _dela_ ... eu e todos nós, ouves? _E todos

sabemos que tu já o sabes_!...

Á noite, antes de adormecer, veiu-me ainda esta ideia perturbadora, num

atordoamento luminoso:

--A sua baixeza ... a sua falta de orgulho... Ah! mas se eu me

engano ... se eu me engano ... se é Marta quem lhe conta tudo ... se êle

conhece tudo só porque _ela_ lho diz ... se ela tem segredos para

todos, menos para êle ... como eu queria... como eu a queria para

mim... Nesse caso ... nesse caso...

E ao mesmo tempo--arripiadamente, desarazoadamente--acudiu-me á

lembrança a estranha confissão que Ricardo me fizera uma noite, ha

tantos ânos ... no fim dum jantar ... para o Bosque de Bolonha ... no

Pavilhão ... no Pavilhão d'Armenonville...

A confissão de Lucio,: Narrativa. · 第 9 / 11 题