Atordoaram-me, positivamente me atordoaram, as palavras do russo.
Pois seria possivel? _Ricardo trouxera-a de Paris_?... Mas como não a
conhecera eu, sendo assim? Acaso não o teria acompanhado á gare do
Quai d'Orsay? Fôra verdade, fôra, não o acompanhara--lembrei-me de
subito. Estava doente, com um fortissimo ataque de gripe... E êle...
Não; era impossivel ... não podia ser...
Mas logo, procurando melhor nas minhas reminiscencias, me ocorreram pela
primeira vez, nitidamente me ocorreram, certos detalhes obscuros que se
prendiam com o regresso do artista a Portugal.
Ele amava tanto Paris ... e decidira regressar a Portugal...
_Declarara-mo, e eu não me tinha admirado_--não me tinha admirado como
se houvesse uma razão que justificasse, que exigisse esse regresso.
Ai, como me arrependia hoje de, com efeito, o não ter acompanhado á
estação, embora o meu incomodo, e talvez ainda outro motivo, que eu
depois esquecera. Entretanto recordava-me de que apesar da minha febre,
das minhas violentas dôres de garganta, estivera prestes a erguer-me e
a ir despedir-me do meu amigo... Porêm, em face dum torpor fisico que
me invadira todo, deixara-me ficar estendido no leito, imerso numa
profunda modorra, _numa estranha modorra de penumbra_...
* * * * * * * *
Aquela mulher, ah! aquela mulher...
Quem seria... quem seria?... Como sucedera _tudo aquilo_?...
E só então me lembrei distintamente da carta do poeta pela qual se me
afigurava ter sabido do seu enlace: a verdade era que, de forma alguma,
êle me participava um casamento nessa carta; nem sequer de longe aludia
a esse acto--falava-me apenas das «transformações da sua vida», do
seu lar, e tinha frases como esta que me bailava em letras de fôgo
diante dos olhos: «agora, que vive alguem a meu lado; que emfim de tudo
quanto derroquei sempre se ergueu alguma coisa...»
E, facto extraordinario, notava eu hoje: êle referia-se a tudo isso
como se se tratasse de episodios que eu já conhecesse, sendo por
conseguinte inutil narrá-los, só comentando-os...
Mas havia outra circunstancia, ainda mais bizarra: é que, pela minha
parte, eu não me admirara, como se efectivamente já tivesse conhecido
_tudo isso_, que porêm olvidara por completo, e que a sua carta agora,
vagamente, me vinha recordar...
Sim, sim: nem me admirara, nem lhe falara do meu esquecimento, nem lhe
fizera perguntas--não pensara sequer em lhas fazer, _não pensara em
coisa alguma_.
Mais do que nunca o misterio subsistia pois; entretanto divergido para
outra direcção. Isto é: a ideia fixa que êle me enclavinhava no
espirito, alterara-se essencialmente:
Outróra o misterio apenas me obcecava como misterio: evidenciando-se,
tambem a minha alma se desensombraria. Era êle só a minha angustia E
hoje--meu Deus!--a tortura volvera-se-me em quebranto; o segredo que
velava a minha desconhecida, só me atraía hoje, só me embriagava de
champanhe--era a beleza unica da minha existencia.
Daí por diante seria eu proprio a esforçar-me por que ele
permanecesse, impedindo que luz alguma o viesse iluminar. E quando
desabasse, a minha dôr seria infinita. Mais: se êle sossobrasse,
apesar de tudo, numa ilusão, talvez eu ainda o fizesse prosseguir!
O meu espirito adaptara-se ao misterio--e esse misterio ia ser a
armadura, a chama e o rastro d'ouro da minha vida...
Isto, entretanto, não o avistei imediatamente; levou-me muitas semanas
o aprendê-lo--e, ao descobri-lo, recuei horrorisado. Tive medo; um
grande medo... O misterio era essa mulher. Eu só amava o misterio...
... Eu amava essa mulher! Eu queria-a! eu queria-a!...
* * * * * * * *
Meu Deus, como sangrei...
O espirito fendera-se-me numa oscilação temivel; um arrepio contínuo
me varava a carne zig-zagueantemente. Não dormia, nem sequer sonhava.
Tudo eram linhas quebradas em meu redór, manchas de luz pôdre, ruidos
dissonantes...
Foi então que num impeto de vontade, bem decidido, comecei a procurar
com toda a lucidez a força de salvar o precipicio que estava já bem
perto, na minha carreira... Logo a encontrei. O que me impelia para essa
mulher fazendo-ma ansear esbraseadamente, não era a sua alma, não era
a sua beleza--era só isto: o seu misterio. Derrubado o segredo,
esvair-se-hia o encantamento: eu poderia caminhar bem seguro.
Assim determinei abrir-me inteiramente com Ricardo, dizer-lhe as minhas
angustias, e suplicar-lhe que me contasse tudo, tudo, que posesse termo
ao misterio, que preenchesse os espaços vasios da minha memoria.
Mas foi-me impossivel levar a cabo tal resolução. Desfaleci
adivinhando que sofreria muito mais, muito mais fanadamente, extinto o
sortilegio, de que emquanto êle me diluísse.
Quis ter porêm outra coragem: a de fugir.
Desapareci durante uma semana fechado em minha casa, sem fazer coisa
alguma, passeando todo o dia á roda do meu quarto. Os bilhetes do meu
amigo principiaram chovendo, e como nunca lhe respondesse, uma tarde
êle proprio me veiu procurar. Disseram-lhe que eu não estava, mas
Ricardo sem ouvir, precipitou-se no meu quarto a gritar-me:
--Homem! que diabo significa isto? Pósas ao neurasténico á ultima
hora? Vamos, faze-me o favor de te vestir, e de me acompanhares
imediatamente a minha casa.
Não soube articular uma razão, uma escusa. Apenas sorri volvendo:
--Não faças caso. São as minhas exquisitices...
E, no mesmo instante, eu decidi não fugir mais do precipicio;
entregar-me á corrente--deixar-me ir até onde ela me levasse. _Com
esta resolução voltou-me toda a lucidez_.
Acompanhei Ricardo. Ao jantar falou-se só da minha «madureza», e o
primeiro a blaguea-la fui eu proprio.
Marta estava linda essa noite. Vestia uma blusa negra de crépe da
China, amplamente decotada. A saia muito cingida deixava pressentir a
linha escultural das pernas que uns sapatos muito abertos mostravam
quasi nuas, revestidas por meias de fios metalicos, entrecruzados em
largos losangos por onde a carne surgia...
E pela primeira vez, ao jantar, me sentei a seu lado, pois o artista
recusou o seu lugar do costume pretextando uma corrente de ar...
O que foram as duas semanas que sucederam a esta noite, não sei.
Emtanto a minha lucidez continuava. Nenhuma ideia estranha feria o meu
espirito, nenhuma hesitação, nenhum remorso... E contudo sabia-me
arrastado, deliciosamente arrastado, em uma nuvem de luz que me
encerrava todo e me aturdia os sentidos--_mas não deixava ver_, embora
eu tivesse a certeza de que êles me existiam bem lucidos. Era
como se houvesse guardado o meu espirito numa gaveta...
* * * * * * * *
Foi duas noites após o meu regresso que as suas mãos, naturalmente,
pela primeira vez encontraram as minhas...
Ah! como as horas que passavamos solitarios eram hoje magentas... As
nossas palavras tinham-se volvido--pelo menos julgo que se tinham
volvido--frases sem nexo, sob as quais ocultavamos aquilo que sentiamos
e não queriamos ainda desvendar, não por qualquer receio, mas sim,
unicamente, num desejo perverso de sensualidade.
Tanto que uma noite, sem me dizer coisa alguma, ela pegou nos meus dedos
e com eles acariciou as pontas dos seios--a acera-las, para que
enfolassem agrestemente o tecido ruivo do kimono de seda.
E cada noite era uma nova voluptuosidade silenciosa.
Assim, ora nos beijavamos os dentes, ora ela me estendia os pés
descalços para que lhos roesse--me soltava os cabelos; me dava a
trincar o seu sexo maquilado, o seu ventre obsceno de tatuagens
rôxas...
E só depois de tantos requintes de brasa, de tantos extases
perdidos--sem forças para prolongarmos mais as nossas perversões--nos
possuimos realmente.
Foi uma tarde triste, chuvosa e negra de fevereiro. Eram quatro horas.
Eu sonhava dela quando, de subito, a encantadora surgiu na minha
frente...
Tive um grito de surpresa. Marta porêm logo me fez calar com um beijo
mordido...
Era a primeira vez que vinha a minha casa, e eu admirava-me, receoso da
sua audacia. Mas não lho podia dizer: ela mordia-me sempre...
* * * * * * * *
Por fim os nossos corpos embaralharam-se, oscilaram perdidos numa ansia
ruiva...
... E em verdade não fui eu que a possuí--ela, toda nua, ela
sim, é que me possuiu...
* * * * * * * *
Á noite, como de costume, jantei em casa de Ricardo.
Muito curiosa a disposição do meu espirito: nem o minimo remorso, o
minimo constrangimento--nuvem alguma. Pelo contrario, ha muito que me
não via tão bem disposto. O proprio meu amigo o observou.
Falámos os dois largamente essa noite, coisa que ha bastante não
acontecia. Ricardo terminara emfim nessa tarde o seu volume. Por isso
nos não deixou...
... E no meio da sua conversa intima, eu esquecera até o episodio
dourado. Olhando em redór de mim nem mesmo me ocorria que Marta estava
seguramente perto de nós...
Na manhã seguinte, ao acordar, lembrei-me de que o poeta me dissera
esta estranha coisa:
--Sabe você, Lucio, que tive hoje uma bizarra alucinação? Foi á
tarde. Deviam ser quatro horas... Escrevera o meu ultimo verso. Saí do
escritorio. Dirigi-me para o meu quarto... Por acaso olhei para o
espelho do guarda-vestidos _e não me vi reflectido nêle_! Era verdade! Via
tudo em redór de mim, via tudo quanto me cercava projectado no espelho.
_Só não via a minha imagem_... Ah! não calcula o meu espanto ... a
sensação misteriosa que me varou... Mas quer saber? Não foi uma
sensação de pavor, _foi uma sensação de orgulho_.
Porêm, reflectindo melhor, descobri que em realidade o meu amigo me
não dissera nada disto. Apenas eu--numa reminiscencia muito complicada
e muito estranha--me lembrava, não de que verdadeiramente ele mo
tivesse dito, mas de que, entretanto, mo devera ter dito.
V
A nossa ligação, sem uma sombra, foi prosseguindo.
Ah! como eu, ascendido, me orgulhava do meu amor... Vivia em sortilegio,
no contínuo deslumbramento duma apoteose branca de carne...
Que delirios estrebuchavam os nossos corpos doidos ... como eu me sentia
pouca coisa quando ela se atravessava sobre mim, iriada e sombria, toda
nua e liturgica...
Caminhava sempre aturdido do seu encanto--do meu triunfo. Eu tinha-a! Eu
tinha-a!... E erguia-se tão longe o meu entusiasmo, era tamanha a minha
ansia que ás vezes--como os amorosos baratos escrevem nas suas cartas
romanescas e patetas--eu não podia crer na minha gloria, chegava a
recear que tudo aquilo fosse apenas um sonho.
A minha convivencia com Ricardo seguia sempre a mesma, e o meu afecto.
Nem me arrependia, nem me condenava. De resto, antevendo-me em todas as
situações, já anteriormente me suposera nas minhas circunstancias
actuais, adquirindo a certeza de que seria assim.
Com efeito, segundo o meu sentir, eu não prejudicava o meu amigo em
coisa alguma, não lhe fazia doer--êle não descera coisa alguma na
minha estima.
Nunca tive a noção convencional de certas ofensas, de certos
escrupulos. De nenhum modo procedia pois contra êle; transpondo-me,
não me sabia indignar com o que lhe tinha feito.
Aliás, ainda que o meu procedimento fosse na verdade um crime, eu não
praticava esse crime por mal, criminosamente. Eis pelo que me era
impossivel ter remorsos.
Se lhe mentia--estimava-o entretanto com o mesmo afecto. Mentir não é
menos querer.
Porêm--coisa estranha--este amor pleno, este amor sem remorsos; eu
vibrava-o insatisfeito, dolorosamente. Fazia-me sofrer muito, muito. Mas
porquê, meu Deus? Cruel enigma...
Amava-a, e ela queria-me tambem decerto ... dava-se-me toda em luz...
Que me faltava?...
Não tinha subitos caprichos, recusas subitas, como as outras amantes.
Nem me fugia, nem me torturava... Que me doía então?
Misterio...
O certo é que ao possui-la eu era todo medo--medo inquieto e agonia:
agonia de ascensão, medo raiado de asul; emtanto morte e pavor.
Longe dela, recordando os nossos espasmos, vinham-me de subito
incompreensiveis nauseas. Longe dela?... Mesmo até no momento dourado
da posse essas repugnancias me nasciam a alastrarem-me, não a
resumirem-me, a enclavinharem-me os extases arfados; e--cumulo da
singularidade--essas repugnancias eu não sabia, mas adivinhava, serem
apenas repugnancias fisicas.
Sim, ao esvaí-la, ao lembrar-me de a ter esvaído, subia-me sempre um
alem-gosto a doença, a monstruosidade, como se possuira uma criança,
um ser doutra especie ou um cadaver...
Ah! e o seu corpo era um triunfo; o seu corpo glorioso ... o seu corpo
bebedo de carne--aromatico e lustral, evidente ... salutar...
As lutas em que eu hoje tinha de me debater para que ela não
suspeitasse as minhas repugnancias, repugnancias que--já disse e
acentuo--apenas vinham contorcer os meus desejos, aumentá-los...
Elançava-me agora sobre o seu corpo nu, como quem se arremessasse a um
abismo encapelado de sombras, tilintante de fogo e gumes de punhais--ou
como quem bebesse um veneno subtil de maldição eterna, por uma taça
d'ouro, heraldica, ancestral...
Cheguei a recear-me, não a fosse um dia estrangular--e o meu cerebro,
por vezes de misticismos incoerentes, logo pensou, num rodopio, se essa
mulher fantastica não seria antes um demonio: o demonio da minha
expiação, noutra vida a que eu já houvesse baixado.
E as tardes iam passando...
Por mais que diligenciasse referir toda a minha tortura á nossa
mentira, ao nosso _crime_--não me lograva enganar. Coisa alguma eu
lastimava; não podia ter remorsos... Tudo aquilo era quimera!
Volvido tempo, porêm, á força de as querer descer, de tanto meditar
nestas estranhezas, como que emfim me adaptei a elas. E a tranquilidade
regressou-me.
Mas este novo periodo de calma bem pouco durou. Em face do misterio não
se pode ser calmo--e eu depressa me lembrei de que ainda não sabia
coisa alguma dessa mulher que todas as tardes emmaranhava.
Nas suas conversas mais intimas, nos seus amplexos mais doidos, ela era
sempre a mesma esfinge. Nem uma vez se abrira comigo numa confidencia--e
continuava a ser a que não tinha uma recordação.
Depois, olhando melhor, nem era só do seu passado que eu ignorava
tudo--tambem duvidava do seu presente. Que faria Marta durante as horas
que não viviamos juntos? Era extraordinario! Nunca me falara delas; nem
para me contar o mais pequenino episodio--qualquer desses episodios
futeis que todas as mulheres, que todos nós nos apressamos a narrar,
narramos maquinalmente, ainda os mais reservados... _Sim, em verdade,
era como se não vivesse quando estava longe de mim_.
Passou-me esta ideia pelo espirito, e logo encontrei outro facto muito
estranho:
Marta parecia não viver quando estava longe de mim. Pois bem, pela
minha parte, quando a não tinha ao meu lado, coisa alguma me restava
que, materialmente, me podesse provar a sua existencia: nem uma carta,
um veu, uma flôr sêca--nem retratos, nem madeixas. Apenas o seu
perfume, que ela deixava penetrante no meu leito, que sempre bailava
subtil em minha volta. Mas um perfume é uma irrealidade. Por isso, como
outróra, descia-me a mesma ansia de a ver, de a ter junto de mim para
estar bem certo de que, pelo menos, _ela existia_.
Evocando-a, nunca a lograra entrever. As suas feições escapavam-me
como nos fogem as das personagens dos sonhos. E, ás vezes, querendo-as
recordar por força, as unicas que conseguia suscitar em imagem, eram as
de Ricardo. Decerto por ser o artista quem vivia mais perto dela.
Ah! bem forte, sem duvida, o meu espirito, para resistir ao turbilhão
que o silvava...
(Entre parenteses observe-se, porêm, que estas obsessões reais que
descrevo nunca foram continuas no meu espirito. Durante semanas
desapareciam por completo e, mesmo nos periodos em que me varavam,
tinham fluxos e refluxos).
Juntamente com o que deixo exposto, e era o mais frisante das minhas
torturas, outras pequeninas coisas, traiçoeiras ninharias, me vinham
fustigar. Coloca-se até aqui um episodio curioso que, embora sem grande
importancia, é conveniente referir:
Apesar de grandes amigos e de intimos amigos, eu e Ricardo não nos
tratavamos por tu, devido com certeza á nossa intimidade ter
principiado relativamente tarde--não sermos companheiros de infancia.
De resto, nunca sequer atentaramos no facto.
Ora, por esta epoca, eu encontrei-me por vezes de subito a tratar o meu
amigo por tu. E quando o fazia, logo me emendava, _corando como se
viesse de praticar uma imprudencia_. E isto repetia-se tão
amiudadamente que o poeta uma noite me observou com a maior
naturalidade:
--Homem, escusas de ficar todo atrapalhado, titubiante, vermelho como
uma malagueta, quando te enganas e me tratas por tu. Isso é ridiculo
entre nós. E olha, fica combinado: de hoje em diante acabou-se o
«você». Viva o «tu»! É muito mais natural...
E assim se fez. Contudo, nos primeiros dias, eu não soube retrair um
certo embaraço ao empregar o novo tratamento--_tratamento que me fôra
permitido_.
Ricardo, virando-se para Marta, mais de uma vez me troçou, dizendo-lhe:
--Este Lucio sempre tem cada exquisitice... Não vês? Parece uma noiva
liria!... uma pombinha sem fél... Que marócas!...
Entretanto este meu embaraço tinha um motivo--complicado motivo esse,
por sinal:
Nas nossas entrevistas intimas, nos nossos amplexos, eu e Marta
tratavamo-nos por tu.
Ora, sabendo-me muito distraído, eu receava que alguma vez, em frente
de Ricardo, me enganasse e a fosse tratar assim.
Este receio converteu-se por ultimo numa ideia fixa, e por isso mesmo,
por esse excesso de atenção, comecei um dia a ter subitos descuidos.
_Porêm, dessas vezes, eu encontrava-me sempre a tratar por tu, não
Marta, Ricardo_.
E embora depois tivessemos assentado usar esse tratamento, o meu
embaraço continuou durante alguns dias como se ingenuamente,
confiadamente, _Ricardo_ houvesse exigido que eu e a sua companheira nos
tratassemos por tu.
As minhas entrevistas amorosas com Marta, realisavam-se sempre em minha
casa, á tarde.
Com efeito ela nunca se me quisera entregar em sua casa. Em sua casa
apenas me dava os labios a morder e consentia vicios prateados.
Eu admirava-me até muito da facilidade evidente que ela tinha em se
encontrar comigo todas as tardes á mesma hora, em se demorar largo
tempo.
Uma vez recomendei-lhe prudencia. Ela riu. Pedi-lhe explicações: como
não eram estranhadas as suas longas ausencias, como me chegava sempre
tranquila, caminhando pelas ruas desensombradamente, nunca se
preocupando com as horas... E ela então soltou uma gargalhada,
mordeu-me a bôca ... fugiu...
Nunca mais a interroguei sobre tal assunto. Seria mau gosto insistir.
Entretanto fôra mais um segredo que se viera juntar á minha obsessão,
a excitá-la...
De resto, as imprudencias de Marta não conheciam limites.
Em sua casa beijava-me com as portas todas abertas, sem se lembrar de
que qualquer criado nos poderia descobrir--ou mesmo o proprio Ricardo,
que muitas vezes, de subito, saía do seu gabinete de trabalho. Sim, ela
nunca tinha desses receios. Era como se tal nos não podesse
acontecer--_tal como se nós nos não beijássemos_...
Aliás, se havia alguem bem confiante, era o poeta. Bastava olhá-lo
para logo se ver que nenhuma preocupação o torturava. Nunca o vira
tão satisfeito, tão bem disposto.
Um vago ar de tristeza, de amargura, que após o seu casamento ainda de
vez em quando o anuviava, esse mesmo desaparecera hoje por
completo--como se, com o decorrer dos dias, ele já tivesse esquecido o
acontecimento cuja lembrança lhe suscitava aquela ligeira nuvem.
As suas antigas complicações d'alma, essas, mal eu chegara a Lisboa
logo ele me dissera que já não o desolavam--pois que, nesse sentido, a
sua vida se _limpara_.
E--facto curioso--justamente depois de Marta ser minha amante é que
tinham cessado todas as nuvens, é que eu via melhor a sua boa
disposição--o seu orgulho, o seu jubilo, _o seu triunfo_...
As imprudencias de Marta aumentavam agora dia a dia.
Numa audacia louca, nem retinha já certos gestos de ternura a mim
dirigidos, na presença do proprio Ricardo!
Todo eu tremia, mas o poeta nunca os estranhava--_nunca os via_; ou, se
os via, era só para se rir, para os acompanhar.
Assim, uma tarde de verão, lanchavamos no terraço, quando Marta de
subito--num gesto que, em verdade, se poderia tomar por uma simples
brincadeira agarotada--me mandou beijá-la na fronte, em castigo de
qualquer coisa que eu lhe dissera.
Hesitei, fiz-me muito vermelho; mas como Ricardo insistisse, curvei-me
trémulo de medo, estendi os labios mal os pousando na péle...
E Marta:
--Que beijo tão desengraçado! Parece impossivel que ainda não saiba
dar um beijo... Não tem vergonha? Anda, Ricardo, ensina-o tu...
Rindo, o meu amigo ergueu se, avançou para mim ... tomou-me
o rosto ... beijou-me...
* * * * * * * *
_O beijo de Ricardo fôra igual, exactamente igual, tivera a mesma côr,
a mesma perturbação que os beijos da minha amante_. Eu sentira-o da
mesma maneira.