Decorrido um mês, eu e Ricardo eramos não só dois companheiros
inseparaveis, como tambem dois amigos intimos, sinceros, entre os quais
não havia mal-entendidos, nem quasi já segredos.
O meu convivio com Gervasio Vila-Nova cessara por completo. Mesmo,
passado pouco, êle regressou a Portugal.
Ah! como era bem diferente, bem mais expontanea, mais cariciosa, a
intimidade com o meu novo amigo! E como estavamos longe do Gervasio
Vila-Nova que, a propoposito de coisa alguma, fazia declarações como
esta:
--Sabe você, Lucio, não imagina a pena que eu tenho de que não gostem
das minhas obras. (As suas obras eram esculturas sem pés nem
cabeça--pois êle só esculpia torsos contorcidos, enclavinhados,
monstruosos, onde porêm, de quando em quando, por alguns detalhes, se
adivinhava um cinzel admiravel). Mas não pense que é por mim. Eu estou
certo do que elas valem. É por _êles_, coitados, que não podem sentir
a sua beleza.
Ou então:
--Creia, meu querido amigo, você faz muito mal em colaborar nessas
revistecas lá de baixo ... em se apressar tanto a imprimir os seus
volumes. O verdadeiro artista deve guardar quanto mais possivel o seu
inédito. Vêja se eu já expús alguma vez... Só compreendo que se
publique um livro numa tiragem reduzida; e a 100 francos o exemplar,
como fez o ... (e citava o nome do russo chefe dos selvagens). Ah! eu
abomino a publicidade!...
As minhas conversas com Ricardo--pormenor interessante--foram logo desde
o inicio, bem mais conversas de alma, do que simples conversas de
intelectuais.
Pela primeira vez eu encontrara efectivamente alguem que sabia descer um
pouco aos recantos ignorados do meu espirito--os mais sensiveis, os mais
dolorosos para mim. E com êle o mesmo acontecera--havia de mo contar
mais tarde.
Não eramos felizes--oh! não... As nossas vidas passavam torturadas de
ansias, de incompreensões, de agonias de sombra...
Subiramos mais alto; pairavamos sobre a vida. Podiamo-nos embriagar de
orgulho, se quiséssemos--mas sofriamos tanto ... tanto... O nosso unico
refugio era nas nossas obras.
Pintando-me a sua angustia, Ricardo de Loureiro fazia perturbadoras
confidencias, tinha imagens estranhas:
--Ah! meu caro Lucio, acredite-me! Nada me encanta já; tudo me
aborrece, me nausêa. Os meus proprios raros entusiasmos, se me lembro
dêles, logo se me esvaem--pois, ao medi-los, encontro-os tão
mesquinhos, tão de pacotilha... Quer saber? Outróra, á noite, no meu
leito, antes de dormir, eu punha-me a divagar. E era feliz por momentos,
entre-sonhando a gloria, o amor, os extases... Mas hoje já não sei com
que sonhos me robustecer. Acastelei os maiores ... êles proprios me
fartaram: são sempre os mesmos--e é impossivel achar outros... Depois,
não me saciam apenas as coisas que possuo--aborrecem-me tambem as que
não tenho, porque, na vida como nos sonhos, são sempre as mesmas. De
resto, se ás vezes posso sofrer por não possuir certas coisas que
ainda não conheço inteiramente, a verdade é que, descendo-me melhor,
logo averiguo isto: Meu Deus, se as tivera, ainda maior seria a minha
dôr, o meu tedio... De forma que _gastar tempo_ é hoje o unico fim da
minha existencia deserta. Se viajo, se escrevo--se vivo, numa palavra,
creia-me: é só para consumir instantes. Mas dentro em pouco--já o
pressinto--isto mesmo me saciará. E que fazer então? Não sei ... não
sei... Ah! que amargura infinita...
Eu punha-me a anima-lo; a dizer-lhe inferiormente que urgia pôr de
parte essas ideias abatidas. Um belo futuro se alastrava em sua face.
Era preciso ter coragem!
--Um belo futuro?... Olhe, meu amigo, até hoje ainda me não vi no meu
futuro. E as coisas em que me não _vejo_, nunca me sucederam.
Perante tal resposta, esbocei uma interrogação muda, a que o poeta
volveu:
--Ah! sim, talvez não compreendesse... Ainda lhe não expliquei. Oiça:
Desde criança que, pensando em certas situações possiveis numa
existencia, eu, antecipadamente, me vejo ou não vejo nelas. Por
exemplo: uma coisa onde nunca me vi, foi na vida--e diga-me se na
realidade nos encontramos nela? Mas descendo a pequenos detalhes:
«A minha imaginação infantil sonhava, romanescamente construia, mil
aventuras amorosas, que aliás todos vivem. Pois bem: nunca me vi ao
fantasia-las, como existindo-as mais tarde. E até hoje eu sou aquele
que em nenhum desses episodios gentis se encontrou. Não porque lhes
fugisse... Nunca fugi de coisa alguma.
«Entretanto, na minha vida, houve certa situação exquisita, mesmo um
pouco torpe. Ora eu lembrava-me muita vez de que essa triste aventura
havia de ter um fim. E sabia dum muito natural. _Nesse_, contudo, nunca
eu me figurava. Mas noutro qualquer. _Outro qualquer_, porêm, só podia
dar-se por meu intermedio. E por meu intermedio--era bem claro--não se
podia, _não se devia_ dar. Passou-se tempo... Escuso de lhe dizer que
foi justamente a «impossibilidade» que se realisou...
«Era um estudante distinto, e nunca me antevisionava com o meu curso
concluido. Efectivamente um belo dia, de subito, sem razão, deixei a
universidade... Fugi para Paris...
«Dentro da vida pratica tambem nunca me figurei. Até hoje, aos vinte e
sete ânos, não consegui ainda ganhar dinheiro pelo meu trabalho.
Felizmente não preciso... E nem mesmo cheguei a entrar nunca na vida,
na simples Vida com V grande--na vida social, se prefere. É curioso:
sou um isolado que conhece meio mundo, um desclassificado que não tem
uma divida, uma nodoa--que todos consideram, e que entretanto em parte
alguma é admitido... Está certo. Com efeito, nunca me _vi_
«admitido» em parte alguma. Nos proprios meios onde me tenho
embrenhado, não sei porquê senti-me sempre um estranho...
«E é terrivel; martirisa-me por vezes este meu condão. Assim se eu
não _vejo_ erguida certa obra cujo plano me entusiasma, é seguro que a
não consigo lançar, e que depressa me desencanto da sua ideia--embora,
no fundo, a considere admiravel.
«Emfim, para me entender melhor: esta sensação é semelhante, ainda
que de sentido contrario, a uma outra em que provavelmente ouviu
falar--que talvez mesmo conheça--a do _já-visto_. Nunca lhe sucedeu
ter visitado pela primeira vez uma terra, um scenario, e--numa
reminiscencia longingua, vaga, perturbadora--chegar-lhe a lembrança de
que, _não sabe quando nem aonde_, já esteve naquela terra, já
contemplou aquele scenario?...
«É possivel que o meu amigo não atinja o que ha de comum entre estas
duas ideias. Não lhe sei explicar--contudo pressinto, tenho a certeza,
que essa relação existe».
Respondi divagando, e o poeta acrescentou:
--Mas ainda lhe não disse o mais estranho. Sabe? É que de maneira
alguma me concebo na minha velhice, bem como de nenhuma forma me vejo
doente, agonisante. Nem sequer suicidado--segundo ás vezes me procuro
iludir. E creia, _é tão grande a minha confiança nesta superstição
que--juro-lhe--se não fosse haver a certeza absoluta de que todos
morremos, eu, não me «vendo» morto, não acreditaria na minha
morte_...
Sorri da boutade.
Vagos conhecidos entravam no Café onde tinhamos abancado. Sentaram-se
junto de nós e, banal e facil, a conversa deslisou noutro plano.
Outras vezes tambem, Ricardo surgia-me com revelações estramboticas
que lembravam um pouco os snobismos de Vila-Nova. Porêm nele, eu sabia
que tudo isso era verdadeiro, sentido. Quando muito, _sentido já como
literatura_. Efectivamente o poeta explicara-me, uma noite:
--Garanto-lhe, meu amigo, todas as ideias que lhe surjam nas minhas
obras, por mais bizarras, mais impossiveis--são, pelo menos em parte,
sinceras. Isto é: traduzem emoções que na realidade senti;
pensamentos que na realidade me ocorreram sobre quaisquer detalhes da
minha psicologia. Apenas o que pode suceder é que, quando elas nascem,
já venham literatisadas...
Mas voltando ás suas revelações estramboticas:
Como gostassemos, em muitas horas, de nos embrenhar pela vida normal e
de nos esquecer a nós proprios--frequentavamos bastante os teatros e os
music-halls, numa ansia tambem de sermos agitados por esses meios
intensamente contemporaneos, europeus e luxuosos.
Assim uma vez, no Olympia, assistiamos a umas danças de _girls_
inglesas misturadas numa revista, quando Ricardo me perguntou:
--Diga-me, Lucio, você não é sujeito a certos medos inexplicaveis,
destrambelhados?
Que não, só se muito vagamente--volvi.
--Pois comigo--tornou o artista--não acontece o mesmo. Emfim, quer
saber? Tenho medo destas dançarinas.
Soltei uma gargalhada.
Ricardo prosseguiu:
--É que, não sei se reparou, em todos os music-halls tornaram-se agora
moda estes bailados por ranchos de raparigas inglesas. Ora essas
criaturinhas são todas iguais, sempre--vestidas dos mesmos fatos, com
as mesmas pernas nuas, as mesmas feições tenues, o mesmo ar gentil. De
maneira que eu em vão me esforço por considerar cada uma delas como
uma individualidade. Não lhes sei atribuir uma vida--um amante, um
passado; certos habitos, certas maneiras de ser. Não as posso
destrinçar do seu conjunto: daí, o meu pavor. Não estou pôsando, meu
amigo, asseguro-lhe.
«Mas não são estes só os meus medos. Tenho muitos outros. Por
exemplo: o horror dos arcos--de alguns arcos triunfais e, sobretudo, de
alguns velhos arcos de ruas. Não propriamente dos arcos--antes do
espaço aereo que eles enquadram. E lembro-me de haver experimentado uma
sensação misteriosa de pavor, ao descobrir no fim duma rua solitaria
de não sei que capital, um pequeno arco ou, melhor, uma porta aberta
sobre o infinito. Digo bem--sobre o infinito. Com efeito a rua subia e
para lá do monumento começava, sem duvida, a descer. De modo que, de
longe, só se via horizonte através desse arco. Confesso-lhe que me
detive alguns minutos olhando-o fascinado. Assaltou-me um forte desejo
de subir a rua até ao fim e averiguar para aonde ele deitava. Mas a
coragem faltou-me... Fugi apavorado. E veja, a sensação foi tão
violenta, que nem sei já em que triste cidade a oscilei...
«Quando era pequeno--ora, ainda hoje!--apavoravam-me as ogivas das
catedrais, as abobadas, as sombras de altas colunas, os obeliscos, as
grandes escadarias de marmore... De resto, toda a minha vida
psicologica tem sido até agora a projecção dos meus pensamentos
infantis--ampliados, modificados, mas sempre no mesmo sentido, na mesma
ordem: apenas em outros planos.
«E por ultimo, ainda a respeito de medos: Assim como me assustam alguns
espaços vazios emmoldurados por arcos--tambem me inquieta o ceu das
ruas, estreitas e de predios altos, que de subito se partem em curvas
apertadas.»
O seu espirito estava seguramente predisposto para a bizarria, essa
noite, pois ainda me fez estas exquisitas declarações á saída do
teatro:
--Meu caro Lucio, vai ficar muito admirado, mas garanto-lhe que não foi
tempo perdido o que passei ouvindo essa revista chocha. Achei a razão
fundamental do meu sofrimento. Você recorda-se duma capoeira de
galinhas que apareceu em scena? As pobres aves queriam dormir. Metiam os
bicos debaixo das asas, mas logo acordavam assustadas pelos jorros dos
projectores que iluminavam as «estrelas», pelos saltos do compadre...
_Pois como esses pobres bichos, tambem a minha alma anda
estremunhada_--descobri em frente dêles. Sim, a minha alma quer dormir
e, minuto a minuto, a veem despertar jorros de luz, estrepitosas
vozearias: grandes ansias, ideias abrasadas, tumultos de
aspirações--aureos sonhos, cinzentas realidades... Sofreria menos se
ela nunca pudesse adormecer. Com efeito, o que mais me exacerba esta
tortura infernal é que, em verdade, a minha alma chega muitas vezes a
pegar no sono, _a fechar os olhos_--perdôe a frase estrambotica. Mal os
cerra, porêm, logo a zurzem--e de novo acorda perdida numa agonia
estonteada...
Mais tarde, relembrando-me esta constatação, ajuntara:
--O meu sofrimento moral, ainda que sem razões, tem aumentado tanto,
tanto, estes ultimos dias, que eu hoje sinto a minha alma fisicamente.
Ah! é horrivel! _A minha alma não se angustía apenas, a minha alma
sangra_. As dôres morais transformam-se-me em verdadeiras dôres
fisicas, em dôres horriveis, que eu sinto materialmente--não no meu
corpo, mas no meu espirito. É muito dificil, concordo, fazer
compreender isto a alguem. Entretanto, acredite-me; juro-lhe que é
assim. Eis pelo que eu lhe dizia a outra noite que tinha a minha alma
estremunhada. Sim, a minha pobre alma anda morta de sono, e não a
deixam dormir--tem frio, e não a sei aquecer! Endureceu-me toda, toda!
secou, anquilosou-se-me; de forma que move-la--isto é: pensar--me faz
hoje sofrer terriveis dôres. E quanto mais a alma me endurece, mais eu
tenho ansia de pensar! Um turbilhão de ideias--loucas ideias!--me silva
a desconjunta-la, a arrepanha-la, a rasga-la, num martirio alucinante!
Até que um dia--oh! é fatal--ela se me partirá, voará em
estilhaços... A minha pobre alma! a minha pobre alma!...
Em tais ocasiões os olhos de Ricardo cobriam-se dum veu de luz. Não
brilhavam: cobriam-se dum veu de luz. Era muito estranho, mas era assim.
Divagando ainda sobre as dores fisicas do seu espirito; num tom de
blague que raramente tomava, o poeta desfechou-me uma tarde, de subito:
--Tenho ás vezes tanta inveja das minhas pernas... Porque uma perna
não sofre. Não tem alma, meu amigo, não tem alma!...
Largas horas, solitario, eu meditava nas singularidades do artista, a
querer concluir alguma coisa. Mas o certo é que nunca soube descer uma
psicologia, de maneira que chegava só a esta conclusão: êle era uma
criatura superior--genial, perturbante. Hoje mesmo, volvidos longos
ânos, é essa a minha unica certeza, e eis pelo que eu me limito a
contar sem ordem--á medida que me vão recordando--os detalhes mais
caracteristicos da sua psicologia, como meros documentos na minha
justificação.
Factos, apenas factos--avisei logo de principio.
Compreendiam-se perfeitamente as nossas almas--tanto quanto duas almas
se podem compreender, E, todavia, eramos duas criaturas muito diversas.
Raros traços comuns entre os nossos caracteres. Mesmo, a bem dizer, só
numa coisa iguais: no nosso amor por Paris.
--Paris! Paris!--exclamava o poeta--Porque o amo eu tanto? Não sei...
Basta lembrar-me que existo na capital latina, para uma onda de orgulho,
de jubilo e ascensão, se encapelar dentro de mim. É o unico ópio
loiro para a minha dôr--Paris!
«Como eu amo as suas ruas, as suas praças, as suas avenidas! Ao
recorda-las longe delas--em miragem nimbada, todas me surgem num
resvalamento arqueado que me trespassa em luz. E o meu proprio corpo,
que elas vararam, as acompanha no seu rodopio.
«De Paris, amo tudo com igual amor: os seus monumentos, os seus
teatros, os seus boulevards, os seus jardins, as suas arvores... Tudo
nele me é heraldico, me é liturgico.
«Ah, o que eu sofri um âno que passei longe da minha Cidade, sem
esperanças de me tornar a envolver nela tão cedo... E a minha saudade
foi então a mesma que se tem pelo corpo duma amante perdida...
«As ruas tristonhas da Lisboa do sul, descia-as ás tardes maguadas
rezando o seu nome: O meu Paris... o meu Paris... E á noite, num grande
leito deserto, antes de adormecer, eu recordava-o--sim,
recordava-o--como se recorda a carne nua duma amante doirada!
«Quando depois regressei á capital assombrosa, a minha ansia foi logo
de a percorrer em todas as avenidas, em todos os bairros, para melhor a
entrelaçar comigo, para melhor a delirar... O meu Paris! o meu
Paris!...
«Entretanto, Lucio, não creia que eu ame esta grande terra pelos seus
boulevards, pelos seus cafés, pelas suas actrizes, pelos seus
monumentos. Não! Não! Seria mesquinho. Amo-a por qualquer outra coisa:
por uma aureola, talvez, que a envolve e a constitue em alma--mas que eu
não vejo; que eu sinto, que eu realmente sinto, e lhe não sei
explicar!...
«Só posso viver nos grandes meios. Quero tanto ao progresso, á
civilisação, ao movimento citadino, á actividade febril
contemporanea!... Porque, no fundo, eu amo muito a vida. Sou todo de
incoerencias. Vivo desolado, abatido, parado de energia, e admiro a vida
emtanto como nunca ninguem a admirou!
«Europa! Europa! Encapela-te dentro de mim, alastra-me da tua
vibração, unge-me da minha época!...
«Lançar pontes! lançar pontes! silvar estradas ferreas! erguer torres
de aço!...»
E o seu delirio prosseguia através imagens bizarras, destrambelhadas
ideias:
--Sim! Sim! Todo eu sou uma incoerencia! O meu proprio corpo é uma
incoerencia. Julga-me magro, corcovado? Sou-o; porêm muito menos do que
pareço. Admirar-se-hia se me visse nu...
«Mas ha mais. Toda a gente me crê um homem misterioso. Pois eu não
vivo, não tenho amantes ... desapareço ... ninguem sabe de mim...
Engano! Engano! A minha vida é pelo contrario uma vida sem segredo. Ou
melhor: o seu segredo consiste justamente em não o ter.
«E a minha vida, livre de estranhezas, é no emtanto uma vida
bizarra--_mas duma bizarria ás avessas_. Com efeito a sua singularidade
encerra-se, não em conter elementos que se não encontram nas vidas
normais--mas sim em não conter nenhum dos elementos comuns a todas as
vidas. Eis pelo que nunca me sucedeu coisa alguma. _Nem mesmo o que
sucede a toda a gente_. Compreende-me?»
Eu compreendia sempre. E êle fazia-me essa justiça. Por isso as nossas
conversas d'alma se prolongavam em geral até de manhã; passeando nas
ruas desertas, sem sentirmos frio nem cansaço, numa intoxicação mutua
e arruivada.
Em horas mais tranquilas, Ricardo punha-se-me a falar da suavidade da
vida normal. E confessava-me:
--Ah, quantas vezes isolado em grupos de conhecidos banais, eu não
invejei os meus camaradas... Lembro-me tanto de certo jantar no Leão
d'Ouro ... numa noite chuvosa de dezembro... Acompanhavam-me dois
actores e um dramaturgo. Sabe? O Roberto Dávila, o Carlos Mota, o
Alvares Cezimbra... Eu diligenciara, num esforço, descer até êles.
Por ultimo, consegui iludir-me. Fui feliz, instantes, creia... E o
Carlos Mota, pedia a minha colaboração para uma das suas operetas...
Carlos Mota, o autor da _Videirinha_, o grande sucesso da Trindade...
Bons rapazes! bons rapazes... Ai, não ser como êles...
«Porque afinal essa sua vida--«a vida de todos os dias»--é a unica
que eu amo. Simplesmente não a posso existir... E orgulho-me tanto de
não a poder viver ... orgulho-me tanto de não ser feliz... Cá
estamos: a maldita literatura...»
E, depois duma breve pausa:
--Noutros tempos, em Lisboa, um meu companheiro intimo, hoje já morto,
alma ampla e intensa de artista requintado--admirava-se de me ver
acamaradar com certas creaturas inferiores. É que _essas_ andavam na
vida, e eu aprazia-me com elas numa ilusão. As minhas eternas
incoerencias! Vocês, os verdadeiros artistas, as verdadeiras grandes
almas--eu sei--nunca saem, nem pretendem sair, do vosso circulo de
ouro--nunca lhes veem desejos de baixar á vida. É essa a vossa
dignidade. E fazem bem. São muito mais felizes... Pois eu sofro
duplamente, porque vivo no mesmo circulo dourado e, entretanto, sei-me
agitar cá em baixo...
--Ao contrario, eis pelo que você é maior--comentava eu--Esses a quem
se refere, se não ousam descer, é por adivinharem que, se se
misturassem á existencia quotidiana, ela os absorveria, sossobrando o
seu genio de envolta com a banalidade. São fracos. E esse
pressentimento, instintivamente os salva. Emquanto que o meu amigo pode
arriscar o seu genio por entre mediocres. É tão grande que nada o
sujará.
--Quimera! Quimera--volvia o poeta--Sei lá o que sou... Em todo o caso,
olhe que é lamentavel a banalidade dos _outros_... Como a «maioria»
se contenta com poucas ansias, poucos desejos espirituais, pouca alma...
Oh! é desolador!... Um drama de Jorge Ohnet, um romance de Bourget, uma
opera de Verdi, uns versos de João de Deus ou um poema de Tomás
Ribeiro--chegam bem para encher o seu ideal. Que digo? Isto mesmo são
já requintes de almas superiores. As outras--as verdadeiramente
normais--ora ... ora ... deixemo-nos de devaneios, contentam-se com as
obscenidades lantejouladas de qualquer baixo-revisteiro sem gramatica...
«A _maioria_, meu caro, a _maioria_ ... os felizes... E daí, quem sabe
se êles é que têm razão ... se tudo o mais será frioleira...
«Em suma ... em suma...»
Correram meses, seguindo sempre entre nós o mesmo afecto, a mesma
camaradagem.
Uma tarde de Domingo--recordo-me tão bem--iamos em banalidade Avenida
dos Campos Eliseos acima, misturados na multidão, quando a sua conversa
resvalou para um campo, que até aí o poeta nunca atacara,
positivamente:
--Ah! como se respira vida, vida intensa e sadia, nestes domingos de
Paris, nestes maravilhosos Domingos!... É a vida simples, a _vida
util_, que se escoa em nossa face. Horas que nos não pertencem--etereos
sonhadores de beleza, roçados de Alem, ungidos de Vago... Orgulho!
Orgulho! E emtanto como valera mais se fossemos da gente-media que nos
rodeia. Teriamos, pelos menos no espirito, a suavidade e a paz. Assim
temos só a luz. Mas a luz cega os olhos... Somos todos alcool, todos
alcool!--_alcool que nos esvai em lume que nos arde_!
«E é pela agitação desta cidade imensa, por esta vida atual,
quotidiana, que eu amo o meu Paris numa ternura loira. Sim! Sim! Digo
bem, numa ternura--uma ternura ilimitada. Eu não sei ter afectos. Os
meus amores foram sempre ternuras... Nunca poderia amar uma mulher pela
alma--isto é: por ela propria. Só a adoraria pelos enternecimentos que
a sua _gentileza_ me despertasse: pelos seus dedos trigueiros a
apertarem os meus numa tarde de sol, pelo timbre subtil da sua voz,
pelos seus rubores--e as suas gargalhadas ... as suas correrias...
«Para mim, o que pode haver de sensivel no amor, é uma saia branca a
sacudir o ar, um laço de setim que mãos esguias ennastram, uma cintura
que se verga, uma madeixa perdida que o vento desfez, uma canção
ciciada em labios de ouro e de vinte anos, a flôr que a boca duma
mulher trincou...
«Não, nem é sequer a formosura que me impressiona. É outra coisa
mais vaga--imponderavel, translucida: _A gentileza_. Ai, e como eu a vou
descobrir em tudo, em tudo--a gentileza... Daí, uma ansia estonteada,
_uma ansia sexual_, de possuir vozes, gestos, sorrisos, aromas e
côres!...
«... Lume doido! Lume doido!... Devastação! Devastação!...»
Mas logo, serenando:
--A boa gente que aí vai, meu querido amigo, nunca teve destas
complicações. Vive. Nem pensa... Só eu não deixo de pensar... O meu
mundo interior ampliou-se--volveu-se infinito, e hora a hora se excede!
É horrivel. Ah! Lucio, Lucio! tenho medo--medo de sossobrar, de me
extinguir no meu mundo interior, de desaparecer da vida, perdido nele...
«... E aí tem o assunto para uma das suas novelas: um homem que, á
força de se concentrar, desaparecesse da vida--imigrado no seu
mundo-interior...
«Não lhe digo eu? A maldita literatura...»
Sem motivos nenhuns, livre de todas as preocupações, sentia-me emtanto
exquisitamente disposto, essa tarde. Um calafrio me arripiava toda a
carne--o calafrio que sempre me varara nas horas culminantes da minha
vida.
E Ricardo, de novo, apontando-me uma soberba _vitória_ que dois
esplendidos cavalos negros tiravam:
--Ah! como eu me trocaria pela mulher linda que ali vai... Ser belo! ser
belo! ... ir na vida fulvamente ... ser pagem na vida... Haverá triunfo
mais alto?...
«A maior gloria da minha existencia não foi--ah! não julgue que
foi--qualquer elogio sobre os meus poemas, sobre o meu genio. Não. Foi
isto só; eu lhe conto:
«Uma tarde de abril, ha três anos, caminhava nos grandes boulevards,
solitario como sempre. De subito, uma gargalhada soou perto de mim...
Tocaram-me no ombro... Não dei atenção... Mas logo a seguir me
puxaram por um braço, garotamente, com o cabo duma sombrinha...
Voltei-me... Eram duas raparigas... duas raparigas gentis, risonhas...
Áquela hora, duas costureiras--decerto--saídas dos ateliers da rua da
Paz. Tinham embrulhos nas mãos...
«E uma delas, a mais audaciosa:
«--Sabe que é um lindo rapaz?
«Protestei... E fomos andando juntos, trocando palavras banais...
(Acredite que meço muito bem todo o ridiculo desta confidencia).
«Á esquina do faubourg Poissonnière, despedi-me: devia-me encontrar
com um amigo--garanti. Efectivamente, num desejo de perversidade, eu
resolvera pôr termo á aventura. Talvez receoso de que, se ela se
prolongasse, me desiludisse. Não sei...
«Separámo-nos...
«_Essa tarde foi a mais bela recordação da minha vida!_...
«Meu Deus! Meu Deus! Como em vez deste corpo dobrado, este rosto
contorcido--eu quisera ser belo, esplendidamente belo! E nessa tarde,
fui-o por instantes, acredito... É que vinha de escrever alguns dos
meus melhores versos. Sentia-me orgulhoso, admiravel... E a tarde era
asul, o boulevard ia lindissimo... Depois, tinha um chapeu petulante ...
ondeava-se-me na testa uma madeixa juvenil...
«Ah! como vivi semanas, semanas, da pobre saudade ... que ternura
infinita me desceu para essa rapariguinha que nunca mais encontrei--_que
nunca mais poderia encontrar_ porque, na minha alegria envaidecida, nem
sequer me lembrara de ver o seu rosto... Como lhe quero... Como lhe
quero... Como a abençoo... Meu amor! meu amor!...»
E, numa transfiguração--todo aureolado pelo brilho intenso, melodioso,
dos seus olhos portugueses--Ricardo de Loureiro erguia-se realmente
belo, esse instante...
Aliás, ainda hoje ignoro se o meu amigo era ou não era formoso. Todo
de incoerencias, tambem a sua fisionomia era uma incoerencia: Por vezes
o seu rosto esguio, macerado--se o viamos de frente, parecia-nos
radioso. Mas de perfil já não sucedia o mesmo... Contudo, nem sempre:
o seu perfil, por vezes, tambem era agradavel ... sob certas luzes ...
em certos espelhos...
Entretanto, o que mais o prejudicava, era sem duvida o seu corpo que
êle despresava, deixando-o «cair de si», segundo a frase
extravagante, mas muito propria, de Gervasio Vila-Nova.
Os retratos que existem hoje do poeta, mostram-no belissimo, numa
aureola de genio. Simplesmente, não era essa a expressão do seu rosto.
Sabendo tratar-se dum grande artista, os fotografos e os pintores
ungiram-lhe a fronte duma expressão nimbada que lhe não pertencia.
Convem desconfiar sempre dos retratos dos grandes homens...
--Ah! meu querido Lucio--tornou ainda o poeta--como eu sinto a Victoria
duma mulher admiravel, estiraçada sobre um leito de rendas, olhando a
sua carne toda nua ... esplendida ... loira d'alcool! A carne
feminina--que apoteose! Se eu fosse mulher, nunca me deixaria possuir
pela carne dos homens--tristonha, sêca, amarela: sem brilho e sem
luz... Sim! num entusiasmo espasmodico, sou todo admiração, todo
ternura, pelas grandes debochadas que só emmaranham os corpos de
marmore com outros iguais aos seus--femininos tambem; arruivados,
sumptuosos... E lembra-me então um desejo perdido de ser mulher--ao
menos, para isto: para que, num encantamento, podesse olhar as minhas
pernas nuas, muito brancas, a escoarem-se, frias, sob um lençol de
linho...
Emtanto, eu admirava-me do rumo que a conversa tomara. Com efeito, se a
obra de Ricardo de Loureiro era cheia de sensualismo, de loucas
perversidades--nas suas conversas nada disso surgia. Pelo contrario. Ás
suas palavras nunca se misturava uma nota sensual--ou simplesmente
amorosa--e detinham-no logo subitos pudores se, por acaso, de longe se
referia a qualquer detalhe dessa natureza.
Quanto á vida sexual do meu amigo, ignorava-a por completo. Sob esse
ponto de vista, Ricardo afigurava-se-me porêm uma criatura tranquila.
Talvez me enganasse... Enganava-me com certeza. E a prova--ai, a
prova!--tive-a essa noite pela mais estranha confissão--a mais
perturbadora, a mais densa...
Eram sete e meia. Haviamos subido todos os Campos Eliseos e a Avenida do
Bosque até á Porta Maillot. O artista decidiu que jantassemos no
Pavilhão de Armenonville--ideia que eu aplaudi do melhor grado.
Tive sempre muito afecto ao celebre restaurante. Não sei... O seu
scenario literario (porque o lemos em novelas), a grande sala de tapete
vermelho e, ao fundo, a escadaria; as arvores romanticas que
exteriormente o ensombram, o pequeno lago--tudo isso, naquela atmosfera
de grande vida, me evocava por uma saudade longinqua, subtil,
bruxoleante, a recordação astral de certa aventura amorosa que eu
nunca vivera. Luar de outono, folhas sêcas, beijos e champanhe...
* * * * * * * *
Correu simples a nossa conversa durante a refeição. Foi só ao café
que Ricardo principiou:
--Não pode imaginar, Lucio, como a sua intimidade me encanta, como eu
bemdigo a hora em que nos encontrámos. Antes de o conhecer, não lidara
senão com indiferentes--criaturas vulgares que nunca me compreenderam,
muito pouco que fosse. Meus pais adoravam-me. Mas, por isso exactamente,
ainda menos me compreendiam. Emquanto que o meu amigo é uma alma
rasgada, ampla, que tem a lucidez necessaria para entrever a minha. É
já muito. Desejaria que fosse mais; mas é já muito. Por isso hoje eu
vou ter a coragem de confessar, pela primeira vez a alguem, a maior
estranheza do meu espirito, a maior dôr da minha vida...
Deteve-se um instante e, de subito, em outro tom:
--É isto só:--disse--_não posso ser amigo de ninguem_... Não
proteste... Eu não sou seu amigo. Nunca soube ter afectos--já lhe
contei--apenas ternuras. A amizade maxima, para mim, traduzir-se-hia
unicamente pela maior ternura. E uma ternura traz sempre consigo um
desejo caricioso: um desejo de beijar ... de estreitar... Emfim: de
possuir! Ora eu, só depois de satisfazer os meus desejos, posso
realmente sentir aquilo que os provocou. A verdade, por consequencia, é
que as minhas proprias ternuras, nunca as _senti_, apenas as
_adivinhei_. Para as sentir, isto é, para ser amigo dalguem (visto que
em mim a ternura equivale á amizade) forçoso me seria antes possuir,
quem eu estimasse, ou mulher ou homem. Mas uma criatura do nosso sexo,
não a podemos possuir. _Logo eu só poderia ser amigo duma criatura do
meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo_.
«Ah! a minha dôr é enorme: Todos podem ter amizades, que são o
amparo duma vida, a «razão» duma existencia inteira--amizades que nos
dedicam; amizades que, sinceramente, nós retribuimos. Emquanto que eu,
por mais que me esforce, nunca poderei retribuir nenhum afecto: _os
afectos não se materialisam dentro de mim_! É como se me faltasse um
sentido--se fosse cego, se fosse surdo. Para mim, cerrou-se um mundo
d'alma. Ha qualquer coisa que eu vejo, e não posso abranger; qualquer
coisa que eu palpo, e não posso sentir... Sou um desgraçado ... um
grande desgraçado, acredite!
«Em certos momentos chego a ter nojo de mim. Escute. Isto é horrivel!
Em face de todas as pessoas que eu sei que deveria estimar--_em face de
todas as pessoas por quem adivinho ternuras_--assalta-me sempre um
desejo violento de as morder na boca! Quantas vezes não retraí uma
ansia de beijar os labios de minha mãi...
«Entretanto estes desejos materiais--ainda lhe não disse tudo--não
julgue que os sinto na minha carne; _sinto-os na minha alma_. Só com a
minha alma poderia matar as minhas ansias enternecidas. Só com a minha
alma eu lograria possuir as criaturas que adivinho estimar--e assim
satisfazer, isto é, _retribuir-sentindo_ as minhas amizades.
«Eis tudo...
«Não me diga nada ... não me diga nada!... Tenha dó de mim ... muita
dó...»
Calei-me. Pelo meu cerebro ia um vendaval desfeito. Eu era alguem a
cujos pés, sobre uma estrada lisa, cheia de sol e arvores, se cavasse
de subito um abismo de fogo.
Mas, após instantes, muito naturalmente, o poeta exclamou:
--Bem... Já vai sendo tempo de nos irmos embora
E pediu a conta.
Tomámos um fiacre.
Pelo caminho, ao atravessarmos não sei que praça, chegaram-nos ao
ouvido os sons dum violino de cego, estropiando uma linda ária. E
Ricardo comentou:
--Ouve esta musica? É a expressão da minha vida: Uma partitura
admiravel, estragada por um horrivel, por um infame executante...