Lisboa

INDICE

Capitulo I

Capitulo II

Capitulo III

Capitulo IV

Capitulo V

Capitulo VI

Capitulo VII

Capitulo VIII

A

_Antonio Ponce de Leão_

... _assim eramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo bem se

o outro não era êle-proprio, se o incerto outro viveria_...

FERNANDO PESSOA

_Na floresta do alheamento_

_Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do

qual, emtanto, nunca me defendi; morto para a vida e para os sonhos;

nada podendo já esperar e coisa alguma desejando--eu venho fazer emfim

a minha confissão: isto é: demonstrar a minha inocência._

_Talvez não me acreditem. Decerto que não me acreditam. Mas pouco

importa. O meu interesse hoje em gritar que não assassinei Ricardo de

Loureiro, é nulo. Não tenho familia; não preciso que me reabilitem.

Mesmo, quem esteve dez ânos preso, nunca se reabilita. A verdade

simples, é esta._

_E àqueles que, lendo o que fica exposto, me perguntarem: «--Mas

porque não fez a sua confissão quando era tempo? porque não

demonstrou a sua inocencia ao tribunal?»--a esses responderei:--A minha

defesa era impossivel. Ninguem me acreditaria. E fôra inutil fazer-me

passar por um embusteiro ou por um doido... Demais, devo confessar,

após os acontecimentos em que me vira envolvido nessa época, ficara

tão despedaçado que a prisão se me afigurava uma coisa sorridente.

Era o esquecimento, a tranquilidade, o sono. Era um fim como qualquer

outro--um termo para a minha vida devastada. Toda a minha ansia foi pois

de ver o processo terminado e começar cumprindo a minha sentença._

_De resto, o meu processo foi rapido. Oh! o caso parecia bem claro... Eu

nem negava nem confessava. Mas quem cala consente... E todas as

simpatias estavam do meu lado._

_O crime era, como devem ter dito os jornais do tempo, um «crime

passional»._ Cherchez la femme. _Depois, a vitima um poeta--um artista.

A mulher romantisara-se desaparecendo. Eu era um heroi, no fim de

contas. E um heroi com seus laivos de misterio, o que mais me aureolava.

Por tudo isso, independentemente do belo discurso de defesa, o juri

concedeu-me circunstancias atenuantes. E a minha pena foi curta._

_Ah! foi bem curta--sobretudo para mim... Esses dez ânos esvoaram-se-me

como dez meses. E que, em realidade, as horas não podem mais ter

acção sobre aqueles que viveram um instante que focou toda a sua vida.

Atingido o sofrimento maximo, nada já nos faz sofrer. Vibradas as

sensações maximas, nada já nos fará oscilar. Simplesmente, este

momento culminante raras são as criaturas que o vivem. As que o viveram

ou são, como eu, os_ mortos-vivos, _ou--apenas--os_ desencantados _que,

muita vez, acabam no suicidio._

_Contudo, ignoro se é felicidade maior não se existir tamanho

instante. Os que o não vivem, têem a paz--pode ser. Entretanto não

sei. E a verdade é que todos esperam esse momento luminoso. Logo, todos

são infelizes. Eis pelo que, apesar de tudo, eu me orgulho de o ter

vivido._

_Mas punhamos termo aos devaneios. Não estou escrevendo uma novela.

Apenas desejo fazer uma exposição clara de factos. E para a clareza,

vou-me lançando em mau caminho--parece-me. Aliás, por muito lucido que

queira ser, a minha confissão resultará--estou certo--a mais

incoerente, a mais perturbadora, a menos lucida._

_Uma coisa garanto porem: Durante ela não deixarei escapar um pormenor,

por minimo que seja, ou aparentemente incaracteristico. Em casos como o

que tento explanar, a luz só pode nascer duma grande soma de factos. E

são apenas factos que eu relatarei. Desses factos, quem quiser, tire as

conclusões. Por mim, declaro que nunca o experimentei. Endoideceria,

seguramente._

_Mas o que ainda uma vez, sob minha palavra de honra, afirmo é que só

digo a verdade. Não me importa que me acreditem, mas só digo a

verdade_--mesmo quando ela é inverosimil.

_A minha confissão é um mero documento._

I

Por 1895, não sei bem como, achei-me estudando direito na Faculdade de

Paris, ou melhor, não estudando. Vagabundo da minha mocidade, após ter

tentado varios _fins_ para a minha vida e de todos igualmente

desistido--sedento de Europa, resolvera transportar-me á grande

capital. Logo me embrenhei por meios mais ou menos artisticos, e

Gervasio Vila-Nova, que eu mal conhecia de Lisboa, volveu-se-me o

companheiro de todas as horas. Curiosa personalidade essa de grande

artista falido, ou antes, predestinado para a falencia.

Perturbava o seu aspecto fisico, macerado e esguio, e o seu corpo de

linhas quebradas tinha estilisações inquietantes de feminilismo

histerico e opiado, umas vezes--outras, contrariamente, de ascetismo

amarelo. Os cabelos compridos, se lhe descobriam a testa ampla e dura,

terrivel, evocavam cilicios, abstenções rôxas; se lhe escondiam a

fronte, ondeadamente, eram só ternura, perturbadora ternura de espasmos

dourados e beijos subtis. Trajava sempre de preto, fatos largos, onde

havia o seu quê de sacerdotal--nota mais frisantemente dada pelo

colarinho direito, baixo, fechado. Não era enigmatico o seu

rosto--muito pelo contrario, se lhe cobriam a testa os cabelos ou o

chapeu. Emtanto, coisa bizarra, no seu corpo havia misterio--corpo de

esfinge, talvez, em noites de luar. Aquela criatura não se nos gravava

na memoria pelos seus traços fisionomicos, mas sim pelo seu estranho

perfil. Em todas as multidões êle se destacava, era olhado,

comentado--embora, em realidade, a sua silhueta á primeira vista

parecesse não se dever salientar notavelmente: pois o fato era

negro--apenas dum talhe um pouco exagerado--os cabelos não

escandalosos, ainda que longos; e o chapeu, um _bonet_ de

fazenda--exquisito, era certo--mas que em todo o caso muitos artistas

usavam, quasi identico.

Porêm, a verdade é que em redor da sua figura havia uma aureola.

Gervasio Vila-Nova era aquele que nós olhamos na rua dizendo: ali, deve

ir _alguem_.

Todo êle encantava as mulheres. Tanta rapariguinha que o seguia de

olhos fascinados quando o artista, sobranceiro e esguio, investigava os

cafés... Mas esse olhar, no fundo, era mais o que as mulheres lançam

a uma criatura do seu sexo, formosissima e luxuosa, cheia de

pedrarias...

--Sabe, meu caro Lucio--dissera-me o escultor muita vez--não sou eu

nunca que possuo as minhas amantes; elas é que me possuem...

Ao falar-nos, brilhava ainda mais a sua chama. Era um conversador

admiravel, adoravel nos seus erros, nas suas ignorancias, que sabia

defender intensamente, sempre vitorioso; nas suas opiniões revoltantes

e belissimas, nos seus paradoxos, nas suas blagues. Uma criatura

superior--ah! sem duvida. Uma destas criaturas que se nos enclavinham na

memoria--e nos perturbam, nos obcecam. Todo fôgo! todo fôgo!

Entretanto, se o examinavamos com a nossa inteligencia, e não apenas

com a nossa vibratilidade, logo viamos que, infelizmente, tudo se

cifrava nessa aureola, que o seu genio--talvez por demasiado

luminoso--se consumiria a si proprio, incapaz de se condensar numa

obra--disperso, quebrado, ardido. E assim aconteceu, com efeito. Não

foi um falhado porque teve a coragem de se despedaçar.

A uma criatura como aquela não se podia ter afecto, embora no fundo

êle fosse um excelente rapaz; mas ainda hoje evoco com saudade as

nossas palestras, as nossas noites de café--e chego a convencer-me que,

sim, realmente, o destino de Gervasio Vila-Nova foi o mais belo; e êle

um grande, um genial artista.

Tinha muitas relações no meio artistico o meu amigo. Literatos,

pintores, musicos, de todos os países. Uma manhã, entrando no meu

quarto, desfechou-me:

--Sabe, meu caro Lucio, apresentaram-me ontem uma americana muito

interessante. Calcule, é uma mulher riquissima que vive num palacio que

propositadamente fez construir no local onde existiam dois grandes

predios que ela mandou deitar abaixo--isto, imagine você, em plena

Avenida do Bosque de Bolonha! Uma mulher linda. Nem calcula. Quem ma

apresentou foi aquele pintor americano dos oculos asuis. Recorda-se? Eu

não sei como êle se chama... Podemo-la encontrar todas as tardes no

Pavilhão de Armenonville. Costuma ir lá tomar chá. Quero que você a

conheça. Vai ver. Interessantissima!

No dia seguinte--uma esplendida tarde de inverno, tépida, cheia de sol

e céu asul--tomando um fiacre, lá nos dirigimos ao grande restaurante.

Sentámo-nos; mandou-se vir chá... Dez minutos não tinham decorrido,

quando Gervasio me tocava no braço. Um grupo de oito pessoas entrava no

salão--três mulheres, cinco homens. Das mulheres, duas eram loiras,

pequeninas, de péle de rosas e leite; de corpos harmoniosos,

sensuais--identicas a tantas inglesas adoraveis. Mas a outra, em

verdade, era qualquer coisa de sonhadamente, de misteriosamente belo.

Uma criatura alta, magra, dum rosto esguio de pele dourada--e uns

cabelos fantasticos, dum ruivo incendiado, alucinante. A sua formosura

era uma destas belezas que inspiram receio. Com efeito, mal a vi, a

minha impressão foi de medo--dum medo semelhante ao que experimentamos

em face do rosto dalguem que praticou uma acção enorme e monstruosa.

Ela sentou-se em ruido; mas logo, vendo-nos, correu estendendo as mãos

para o escultor:

--Meu caro, muito prazer em o encontrar... Falaram-me ontem muito bem de

si... Um seu compatriota ... um poeta ... M. de Loureiro, julgo...

Foi dificil adivinhar o apelido português entre a pronuncia mesclada.

--Ah... Não o sabia em Paris--murmurou Gervasio.

E para mim, depois de me haver apresentado á estrangeira:

--Você conhece? Ricardo de Loureiro, o poeta das _Brasas_...

Que nunca lhe falara, que apenas o conhecia de vista e, sobretudo, que

admirava intensamente a sua obra.

--Sim ... não discuto isso ... você bem vê, para mim já essa arte

passou. Não me pode interessar... Leia-me os _selvagens_, homem, que

diacho!...

Era uma das _scies_ de Gervasio Vila-Nova: Elogiar uma pseudo-escola

literaria da ultima-hora--o _Selvagismo_, cuja novidade residia em os

seus livros serem impressos sobre diversos papeis e com tintas de varias

côres, numa estrambotica disposição tipografica. Tambem--e eis o que

mais entusiasmava o meu amigo--os poetas e prosadores _selvagens_,

abolindo a ideia, «esse escarro», traduziam as suas emoções

unicamente em jogo silabico, por onomatopeias raspadas, bizarras:

criando mesmo novas palavras que coisa alguma significavam e cuja

beleza, segundo êles, residia justamente em não significarem coisa

alguma... De resto, até aí, parece que apenas se publicara um livro

dessa escola. Certo poeta russo de nome arrevesado. Livro que Gervasio

seguramente não lera, mas que todavia se não cansava de exalçar,

gritando-o assombroso, genial...

A mulher estranha chamou-nos para a sua mesa, e apresentou-nos os seus

companheiros que ainda não conheciamos: o jornalista Jean Lamy, do

_Figaro_, o pintor holandês van Derk e o escultor inglês Tomás

Westwood. Os dois outros eram o pintor americano dos oculos asuis e o

inquietante viscondezinho de Naudières, louro, diafano, maquilado.

Quanto ás duas raparigas, limitou-se apontando-nos:

--Jenny e Dora.

A conversa logo se entabolou ultra-civilisada e banal. Falou-se de

modas, discutiu-se teatro e music-hall, com muita arte á mistura. E

quem mais se distinguiu, quem em verdade até exclusivamente falou, foi

Gervasio. Nós limitavamo-nos--como acontecia com todos, perante êle,

perante a sua intensidade--a ouvir, ou, quando muito, a protestar. Isto

é: a dar ensejo para que êle brilhasse...

--Sabe, meu querido Lucio--uma vez contara-me o escultor--o Fonseca diz

que é um oficio acompanhar-me. E uma arte dificil, fatigante. É que eu

falo sempre; não deixo o meu interculotor repousar. Obrigo-o a ser

intenso, a responder-me... Sim, concordo que a minha companhia seja

fatigante. Vocês têem razão.

_Vocês_--note-se em parentese--era todo o mundo, menos Gervasio... E o

Fonseca, de resto, um pobre pintorzinho da Madeira, «pensionista do

Estado», de barbichas, lavallière, cachimbo--sempre calado e ôco,

olhando nostalgicamente o espaço, á procura talvez da sua ilha

perdida... Um santo rapaz!

Depois de muito se conversar sobre teatro e de Gervasio ter proclamado

que os actores--ainda os maiores, como a Sara, o Novelli--não passavam

de meros cabotinos, de meros intelectuais que _aprendiam_ os seus

papeis, e de garantir--«creiam os meus amigos que é assim»--que a

verdadeira arte apenas existia entre os saltimbancos; esses

_saltimbancos_ que eram um dos seus estribilhos e sobre os quais, na

noite em que nos encontraramos em Paris, logo me narrara, em

confidencia, uma historia tetrica: o seu rapto por uma companhia de

pelotiqueiros, quando tinha dois ânos e os pais o haviam mandado,

barbaramente, para uma ama da Serra da Estrela, mulher dum oleiro, do

qual, sem duvida, êle herdara a sua tendencia para a escultura e de

quem, na verdade, devido a uma troca de berços, era até muito possivel

que fosse filho--a conversa deslisou, não sei como, para a

voluptuosidade na arte.

E então a americana bizarra logo protestou:

--Acho que não devem discutir o papel da voluptuosidade na arte porque,

meus amigos, a voluptuosidade é uma arte--e, talvez a mais bela de

todas. Porêm, até hoje, raros a cultivaram nesse espirito. Venham cá,

digam-me: Fremir em espasmos de aurora, em extases de chama, ruivos de

ansia--não será um prazer bem mais arripiado, bem mais intenso do que

o vago calafrio de beleza que nos pode proporcionar uma tela genial, um

poema de bronze? Sem duvida, acreditem-me. Entretanto o que é

necessario é saber vibrar esses espasmos, _saber provocá-los_. E eis o

que ninguem sabe; eis no que ninguem pensa. Assim, para todos, os

prazeres dos sentidos são a luxuria, e se resumem em amplexos brutais,

em beijos humidos, em caricias repugnantes, viscosas. Ah! mas aquele que

fosse um grande artista e que, para materia-prima, tomasse a

voluptuosidade, que obras irriais de admiraveis não altearia!... Tinha

o fogo, a luz, o ar, a agua, e os sons, as côres, os aromas, os

narcoticos e as sedas--tantos sensualismos novos ainda não

explorados... Como eu me orgulharia de ser esse artista!... E sonho uma

grande festa no meu palacio encantado, em que os maravilhasse de

volupia... em que fizesse descer sobre vós os arrepios misteriosos das

luzes, dos fogos multicolores--e que a vossa carne, então, sentisse

emfim o fogo e a luz, os perfumes e os sons, penetrando-a a dimana-los,

a esvaí-los, a matá-los!... Pois nunca atentaram na estranha

voluptuosidade do fogo, na perversidade esguia da agua, nos requintes

viciosos da luz?... Eu confesso-lhes que sinto uma verdadeira

excitação sexual--_mas de desejos espiritualizados em beleza_--ao

mergulhar as minhas pernas todas nuas na agua dum regato, ao contemplar

um braseiro incandescente, ao deixar o meu corpo iluminar-se de

torrentes electricas, luminosas... Meus amigos, creiam-me, não passam

duns barbaros, por mais requintados, por mais complicados e artistas que

presumam aparentar!

Gervasio insurgiu-se: «Não; a voluptuosidade não era uma arte.

Falassem-lhe do ascetismo, da renuncia. Isso sim!... A voluptuosidade

ser uma arte? Banalidade... Toda a gente o dizia ou, no fundo, mais ou

menos o pensava».

E por aqui fóra, adoravelmente dando a entender que só por se lhe

afigurar essa a opinião mais geral, êle a combatia.

Durante toda a conversa, apenas quem nunca arriscara uma palavra tinham

sido as duas inglesinhas, Jenny e Dora--sem tambem despregarem ainda de

Gervasio, um só instante, os olhos asuis e louros.

Entretanto as cadeiras haviam-se deslocado e, agora, o escultor

sentava-se junto da americana. Que belo grupo! Como os seus dois perfis

se casavam bem na mesma sombra esbatidos--duas feras de amor,

singulares, perturbadoras, evocando mordoradamente perfumes esfingicos,

luas amarelas, crepusculos de roxidão. Beleza, perversidade, vicio e

doença...

Mas a noite descera. Um par de amorosos do grande mundo entrava a

refugiar-se no celebre estabelecimento, quasi deserto pelo inverno.

A americana excentrica deu o sinal de partida; e quando ela se ergueu eu

notei, duvidosamente notei, que calçava umas estranhas sandalias, nos

pés nus ... _nos pés nus de unhas douradas_...

Na Porte Maillot, tomámos o tramway para Montparnasse, começando

Gervasio:

--Então, Lucio, que lhe pareceu a minha americana?

--Muito interessante.

--Sim? Mas você não deve gostar daquela gente. Eu compreendo bem.

Você é uma natureza simples, e por isso...

--Ao contrario--protestava eu em idiotice--admiro muito essa gente.

Acho-os interessantíssimos. E quanto á minha simplicidade...

--Ah! pelo meu lado, confesso que os adoro... Sou todo ternura por

êles. Sinto tantas afinidades com essas criaturas ... como tambem as

sinto com os pederastas ... com as prostitutas... Oh! é terrivel, meu

amigo, terrivel...

Eu sorria apenas. Estava já acostumado. Sabia bem o que significava

tudo aquilo. Isto só: _Arte_.

Pois Gervasio partia do principio que o artista não se revelava pelas

suas obras, mas sim, unicamente, pela sua personalidade. Queria dizer:

ao escultor, no fundo, pouco importava a obra dum artista. Exigia-lhe

porêm que fosse interessante, genial, no seu aspecto físico, na sua

maneira de ser--no seu modo exterior, numa palavra:

--Porque isto, meu amigo, de se chamar artista, de se chamar homem de

genio, a um patusco obeso como o Balzac, corcovado, aborrecido, e que é

vulgar na sua conversa, nas suas opiniões--não está certo; não é

justo nem admissivel.

--Ora...--protestava eu, citando verdadeiros grandes artistas, bem

inferiores no seu aspecto físico.

E então Gervasio Vila-Nova tinha respostas impagaveis.

Se por exemplo--o que raro acontecia--o nome citado era o dum artista

que êle já alguma vez me elogiara pelas suas obras, volvia-me:

--O meu amigo desculpe-me, mas é muito pouco lucido. Esse de quem me

fala, embora aparentemente mediocre, era todo chama. Pois não sabe

quando êle...

E inventava qualquer anedota interessante, bela, intensa, que atribuia

ao seu homem...

E eu calava-me...

De resto, era outro traço caracteristico em Gervasio: construir as

individualidades como lhe agradava que fossem, e não as ver como

realmente eram. Se lhe apresentavam uma criatura com a qual, por

qualquer motivo, simpatisava--logo lhe atribuia opiniões, modos de ser

do seu agrado: embora, em verdade, a personagem fosse a antítese disso

tudo. É claro que um dia chegava a desilusão. Entretanto, longo tempo

êle tinha a força de sustentar o encanto...

Pelo caminho, não pude deixar de lhe observar:

--Você reparou que ela trazia os pés descalços, em sandalias, e as

unhas douradas?

--Você crê?... Não...

A desconhecida estranha impressionara-me vivamente e, antes de

adormecer, largo tempo a relembrei e á roda que a acompanhava.

Ah! como Gervasio tinha razão, como eu no fundo abominava essa

gente--_os artistas_. Isto é, os falsos artistas cuja obra se encerra

nas suas atitudes; que falam petulantemente, que se mostram complicados

de sentidos e apetites; artificiais, irritantes, intoleraveis. Emfim,

que são os exploradores da arte apenas no que ela tem de falso e de

exterior.

Mas, na minha incoerencia de espirito, logo me vinha outra ideia:--Ora,

se os odiava, era só afinal por os invejar e não poder nem saber ser

como êles...

Em todo o caso, mesmo abominando-os realmente, o certo é que me atraiam

como um vicio pernicioso.

Durante uma semana--o que raro acontecia--estive sem ver Gervasio.

Ao fim dela, apareceu-me e contou-me:

--Sabe, tenho estreitado relações com a nossa americana. É na verdade

uma criatura interessantissima. E muito artista... Aquelas duas pequenas

são amantes dela. É uma grande safica.

--Não...

--Asseguro-lhe.

E não falámos mais da estrangeira.

Passou-se um mês. Eu já me esquecera da mulher fulva, quando uma noite

o escultor me participou de subito:

--É verdade: aquela americana que eu lhe apresentei outro dia, dá

amanhã uma grande soirée. Você está convidado.

--Eu!?...

--Sim. Ela disse-me que levasse alguns amigos. E falou-me de si.

Aprecia-o muito... Aquilo deve ser curioso. Ha uma representação no

fim--umas apoteoses, uns bailados ou o quer que é. Emtanto, se é

maçador para você, não venha. Eu creio que estas coisas o

aborrecem...

Protestei, idiotamente ainda, como era meu habito; afirmei que, pelo

contrario, tinha até um grande empenho em o acompanhar, e marcámos

rendez-vous para a noite seguinte, na Closerie, ás dez horas.

No dia da festa, arrependi-me de haver aceitado. Eu era tão avesso á

vida mundana... E depois, ter que envergar um smoking, perder uma

noite...

Emfim ... emfim...

Quando cheguei ao café--caso estranho!--já o meu amigo chegara. E

disse-me:

--Ah ... sabe? Temos que esperar ainda pelo Ricardo de Loureiro. Tambem

está convidado. E ficou de se encontrar aqui comigo. Olhe, aí vem

êle...

E apresentou-nos:

--O escritor Lucio Vaz.

--O poeta Ricardo de Loureiro.

E nós, um ao outro:

--Muito gosto em o conhecer pessoalmente.

Pelo caminho a conversa foi-se entabolando e, ao primeiro contacto, logo

experimentei uma viva simpatia por Ricardo de Loureiro. Adivinhava-se

naquele rosto arabe de traços decisivos, bem vincados, uma natureza

franca, aberta--luminosa por uns olhos geniais, intensamente negros.

Falei-lhe da sua obra, que admirava, e êle contou-me que lera o meu

volume de novelas e que, sobretudo, lhe interessara o conto chamado

_João Tortura_. Esta opinião não só me lisongeou, como mais me fez

simpatisar com o poeta, adivinhando nêle uma natureza que compreenderia

um pouco a minha alma. Efectivamente, essa novela era a que eu preferia,

que de muito longe eu preferia, e entretanto a unica que nenhum critico

destacara--que os meus amigos mesmo, sem mo dizerem, reputavam a mais

inferior.

Brilhantissima aliás a conversa do artista, alem de insinuante, e pela

vez primeira eu vi Gervasio calar-se--ouvir, êle que em todos os grupos

era o dominador.

Por fim o nosso coupé estacou em face dum magnifico palacio da Avenida

do Bosque, todo iluminado através de cortinas vermelhas, de seda,

fantasticamente. Carruagens, muitas, á porta--contudo uma mescla de

fiacres mais ou menos avariados, e algumas soberbas equipagens

particulares.

Descemos.

Á entrada, como no teatro, um lacaio recebeu os nossos cartões de

convite, e outro imediatamente nos empurrou para um ascensor que,

rapido, nos ascendeu ao primeiro andar. Então, deparou-se-nos um

espectaculo assombroso:

Uma grande sala eliptica, cujo tecto era uma elevadissima cupula

rutilante, sustentada por colunas multicolores em magicas volutas. Ao

fundo, um estranho palco erguido sobre esfinges bronzeadas, do qual--por

degraus de marmore rosa--se descia a uma larga piscina semi-circular,

cheia de agua translucida. Três ordens de galerias--de forma que todo o

aspecto da grande sala era o dum opulento, fantastico teatro.

Em qualquer parte, ocultamente, uma orquestra moía valsas.

Á nossa entrada--foi sabido--todos os olhares se fixaram em Gervasio

Vila-Nova, hieratico, belissimo, na sua casaca negra, bem cintada. E

logo a estrangeira se nos precipitou a perguntar a nossa opinião sobre

a sala. Com efeito, os arquitectos apenas ha duas semanas a tinham dada

por concluida. Aquela festa sumptuosa era a sua inauguração.

Gritámos o nosso pasmo em face á maravilha, e ela, a encantadora, teve

um sorriso de misterio:

--Logo, é que eu desejo conhecer o vosso juizo... _E, sobretudo, o que

pensam das luzes_...

Um deslumbramento, o trajo da americana. Envolvia-a uma tunica dum

tecido muito singular, impossivel de descrever. Era como que uma

estreita malha de fios metalicos--mas dos metais mais diversos--a

fundirem-se numa scintilação esbraseada, onde todas as côres ora se

enclavinhavam ululantes, ora se dimanavam, silvando tumultos astrais de

reflexos. _Todas as côres enlouqueciam na sua tunica_.

Por entre as malhas do tecido, olhando bem, divisava-se a pele nua; e o

bico dum seio despontava numa agudeza aurea.

Os cabelos fulvos tinha-os enrolado desordenadamente e entretecido de

pedrarias que constelavam aquelas labaredas em raios de luz

ultrapassada. Mordiam-se-lhe nos braços serpentes de esmeraldas. Nem

uma joia sobre o decote profundo... A estatua inquietadora do desejo

contorcido, do vicio platinado... E de toda a sua carne, em penumbra

azul, emanava um aroma denso a crime.

Rapida, após momentos, ela se afastou de nós a receber outros

convidados.

A sala enchera-se entretanto duma multidão bigarrada e exquisita. Eram

extranhas mulheres quasi nuas nos seus trajes audaciosos de baile, e

rostos suspeitos sobre as unisonas e negras vestes masculinas de

cerimonia. Havia russos hirsutos e fulvos, escandinavos suavemente

louros, meridionais densos, crespos--e um chinês, um indio. Emfim,

condensava-se ali bem o Paris cosmopolita--rastaquouère e genial.

Até á meia noite, dançou-se e conversou-se. Nas galerias jogava-se

infernalmente. Mas a essa hora foi anunciada a ceia; e todos passámos

ao salão de jantar--outra maravilha.

Pouco antes chegara-se a nós a americana e, confidencialmente, nos

dissera:

--Depois da ceia, é o espectaculo--o meu Triunfo! Quis condensar

nêle as minhas ideias sobre a voluptuosidade-arte. Luzes, corpos,

aromas, o fogo e a agua--tudo se reunirá numa orgia de carne

espiritualisada em ouro!

* * * * * * * *

Ao entrarmos novamente na grande sala--por mim, confesso, tive medo ...

recuei...

Todo o scenario mudara--era como se fosse outro o salão. Inundava-o um

perfume denso, arripiante de extases; silvava-o uma brisa misteriosa,

_uma brisa cinzenta com laivos amarelos_--não sei porquê, pareceu-me

assim, bizarramente--aragem que nos fustigava a carne em novos arrepios.

Emtanto, o mais grandioso, o mais alucinador, era a iluminação.

Declaro-me impotente para a descrever. Apenas, num esforço, poderei

esboçar aonde residia a sua singularidade, o seu quebranto:

Essa luz--evidentemente electrica--provinha duma infinidade de globos,

de estranhos globos de varias côres, varios desenhos, de transparencias

varias--mas, sobretudo, de ondas que projectores ocultos nas galerias,

golfavam em esplendor. Ora essas torrentes luminosas, todas orientadas

para o mesmo ponto quimerico do espaço, convergiam nele em um

turbilhão--e, desse turbilhão meteorico, é que elas realmente, em

ricochete enclavinhado, se projectavam sobre paredes e colunas, se

espalhavam no ambiente da sala, apoteotisando-a.

De forma que a luz total era uma projecção da propria luz--em outra

luz, seguramente, mas a verdade é que a maravilha que nos iluminava nos

não parecia luz. Afigurava-se-nos qualquer outra coisa--um fluido novo.

Não divago; descrevo apenas uma sensação real: essa luz, nós

sentiamo-la mais do que a viamos. E não receio avançar muito afirmando

que ela não impressionava a nossa vista, mas sim o nosso tacto. _Se de

subito nos arrancassem os olhos, nem por isso nós a deixariamos de

ver_. E depois--eis o mais bizarro, o mais esplendido--nós respiravamos

o estranho fluido. Era certo, juntamente com o ar, com o perfume roxo do

ar, sorviamos essa luz que, num extase iriado, numa vertigem de

ascensão--se nos engolfava pelos pulmões, nos invadia o sangue, nos

volvia todo o corpo sonoro. Sim, essa luz magica ressoava em nós,

ampliando-nos os sentidos, alastrando-nos em vibratilidade,

dimanando-nos, aturdindo-nos... Debaixo dela, toda a nossa carne era

sensivel aos espasmos, aos aromas, ás melodias!...

E não foi só a nós, requintados d'ultra-civilisação e arte, que o

misterio rutilante fustigou. Pois em breve todos os espectadores

evidenceavam, em rostos confundidos e gestos ansiosos, que um ruivo

sortilegio os varara sob essa luz d'alem-Inferno, sob essa luz

_sexualisada_.

Mas de subito toda a iluminação se transformou divergindo num

resvalamento arqueado; e outro fremito mais brando nos diluiu então,

como beijos de esmeraldas sucedendo a mordeduras.

Uma musica penetrante tilintava nessa nova aurora, em ritmos

desconhecidos--esguia melopeia em que sossobravam gomos de cristal

entrechocando-se, onde palmas de espadas refrescavam o ar esbatidamente,

onde listas humidas de sons se vaporisavam subtis...

Emfim: prestes a esvairmo-nos num espasmo derradeiro d'alma--tinham-nos

sustido para nos alastrarem o prazer.

E, ao fundo, o pâno do teatro descerrou-se sobre um scenario

aureoral... Extinguiu-se a luz perturbadora, e jorros de electricidade

branca nos iluminaram apenas.

No palco surgiram três dançarinas. Vinham de tranças soltas--blusas

vermelhas lhes encerravam os troncos, deixando-lhes os seios livres,

oscilantes. Ténues gases rasgadas lhes pendiam das cinturas. Nos

ventres, entre as blusas e as gases, havia um intervalo--um cinto de

carne nua onde se desenhavam flores simbolicas.

As bailadeiras começaram as suas danças. Tinham as pernas nuas.

Volteavam, saltavam, reuniam-se num grupo, embaralhavam os seus membros,

mordiam-se nas bôcas...

Os cabelos da primeira eram pretos, e a sua carne esplendida de sol. As

pernas, talhadas em aurora loira, esgueiravam-se-lhe em luz radiosa a

nimbar-se, junto do sexo, numa carne mordorada que apetecia trincar. Mas

o que as fazia mais excitantes era a saudade limpida que lembravam dum

grande lago azul de agua cristalina aonde, uma noite de luar, elas se

mergulhassem descalças e amorosas.

A segunda bailadeira tinha o tipo caracteristico da adolescente

pervertida. Magra--porêm de seios bem visiveis--cabelos dum louro

sujo, cara provocante, nariz arrebitado. As suas pernas despertavam

desejos brutais de as morder, escalavradas de musculos, de

durezas--masculinamente.

Emfim, a terceira, a mais perturbadora, era uma rapariga frigida, muito

branca e macerada, esguia, evocando misticismos, doença, nas suas

pernas de morte--devastadas.

Emtanto o baile prosseguia. Pouco a pouco os seus movimentos se tornavam

mais rapidos até que por ultimo, num espasmo, as suas bocas se uniram

e, rasgados todos os veus--seios, ventres e sexos descobertos--os corpos

se lhes emmaranharam, agonisando num arqueamento de vicio.

E o pâno cerrou-se na mesma placidez luminosa...

Houve depois outros quadros admiraveis: Dançarinas nuas perseguindo-se

na piscina, a mimarem a atracção sexual da agua, estranhas bailadeiras

que esparziam aromas que mais entenebreciam, em quebranto, a atmosfera

fantastica da sala, apoteoses de corpos nus, amontoados--visões

luxuriosas de cores intensas, rodopiantes de espasmos, sinfonias de

sedas e veludos que sobre corpos nus volteavam...

Mas todas estas maravilhas--incriveis de perversidade, era certo--nos

não excitavam fisicamente em desejos lubricos e bestiais; antes numa

ansia d'alma, esbraseada e, ao mesmo tempo, suave: extraordinaria,

deliciosa.

_Escoava-se por nós uma impressão de excesso._

Emtanto os delirios que as almas nos fremiam, não os provocavam

unicamente as visões lascivas. De maneira alguma. O que oscilavamos,

provinha-nos duma sensação-total identica á que experimentâmos

ouvindo uma partitura sublime executada por uma orquestra de mestres. E

os quadros sensuais valiam apenas como um instrumento dessa orquestra.

Os outros: as luzes, os perfumes, as cores... Sim, todos esses elementos

se fundiam num conjunto admiravel que, ampliando-a, nos penetrava a

alma, e que só a nossa alma sentia em febre de longe, em vibração de

abismos. Eramos todos alma. _Desciam-nos só da alma os nossos desejos

carnais_.

Porêm nada valeu em face da ultima visão:

Raiaram mais densas as luzes, mais agudas e penetrantes, caindo agora,

em jorros, do alto da cupula--e o pâno rasgou-se sobre um vago templo

asiatico... Ao som duma musica pesada, rouca, longinqua--ela surgiu, a

mulher fulva...

E começou dançando...

Envolvia-a uma tunica branca, listada de amarelo. Cabelos soltos,

loucamente. Joias fantasticas nas mãos; e os pés descalços,

constelados...

Ai, como exprimir os seus passos silenciosos, humidos, frios de cristal;

o marulhar da sua carne ondeando; o alcool dos seus labios que, num

requinte, ela dourara--toda a harmonia esvaecida nos seus gestos; todo o

horizonte difuso que o seu rodopiar suscitava, nevoadamente...

Entretanto, ao fundo, numa ara misteriosa, o fogo ateara-se...

Vicio a vicio a tunica lhe ia resvalando, até que, num extase abafado,

sossobrou a seus pés... Ah! nesse momento, em face á maravilha que nos

varou, ninguém pôde conter um grito de assombro...

Quimerico e nu, o seu corpo subtilisado, erguia-se liturgico entre mil

scintilações irreais. Como os labios, os bicos dos seios e o sexo

estavam dourados--num ouro palido, doentio. E toda ela serpenteava em

misticismos escarlates a querer-se dar ao fogo...

Mas o fogo repelia-a...

Então, numa ultima perversidade, de novo tomou os veus e se ocultou,

deixando apenas nu o sexo aureo--terrivel flôr de carne a estrebuchar

agonias magentas...

Vencedora, tudo foi lume sobre ela...

E, outra vez desvendada--esbraseada e feroz, saltava agora por entre

labaredas, rasgando-as: emmaranhando, _possuindo_, todo o fogo bebado

que a cingia.

Mas finalmente, saciada após estranhas epilepsias, num salto

prodigioso, como um meteoro--ruivo meteoro--ela veio tombar no lago que

mil lampadas ocultas esbatiam de asul cendrado.

Então foi a apoteose:

Toda a agua asul, ao recebe-la, se volveu vermelha de brasas,

encapelada, ardida pela sua carne que o fogo penetrara... E numa ansia

de se extinguir, possessa, a fera nua mergulhou... Mas quanto mais se

abismava, mais era lume ao seu redór...

... Até que por fim, num misterio, o fogo se apagou em oiro e, morto, o

seu corpo flutuou heraldico sobre as aguas douradas--tranquilas, mortas

tambem...

* * * * * * * *

A luz normal regressara. Era tempo. Mulheres debatiam-se em ataques de

histerismo; homens, de rostos congestionados, tinham gestos

incoerentes...

As portas abriram-se e nós mesmos, perdidos, sem

chapeus--encontrámo-nos na rua, afogueados, perplexos... O ar fresco da

noite, vergastando-nos, fez-nos despertar; e como se chegassemos dum

sonho que os três houvessemos sonhado--olhamo-nos inquietos, num

espanto mudo.

Sim, a impressão fôra tão forte, a maravilha tão alucinadora, que

não tivemos animo para dizer uma palavra.

Esmagados, aturdidos, cada um de nós voltou para sua casa...

Na tarde seguinte--ao acordar dum sono de onze horas--eu não acreditava

já na estranha orgia: _A Orgia do Fogo_, como Ricardo lhe chamou

depois.

Saí. Jantei.

Quando entrava no Café Riche, alguem me bateu no ombro:

--Então como passa o meu amigo? Vamos, as suas impressões?...

Era Ricardo de Loureiro.

Falámos largamente àcerca das extraordinarias coisas que

presencearamos. E o poeta concluiu que tudo aquilo, mais lhe parecia

hoje uma visão de onanista genial do que a simples realidade.

Quanto á americana fulva, não a tornei a ver. O proprio Gervasio

deixou de falar nela. E, como se se tratasse dum misterio d'Alem a que

valesse melhor não aludir--nunca mais nos referimos á noite admiravel.

Se a sua lembrança me ficou para sempre gravada, não foi por a ter

vivido--mas sim porque, dessa noite, se originava a minha amizade com

Ricardo de Loureiro.

Assim sucede com efeito. Referimos certos acontecimentos da nossa vida a

outros mais fundamentais--e muitas vezes, em torno dum beijo, circula

todo um mundo, toda uma humanidade.

De resto, no caso presente, que podia valer a noite fantastica em face

do nosso encontro--_desse encontro que marcou o principio da minha

vida_?

Ah! sem duvida amizade predestinada aquela que começava num scenario

tão estranho, tão perturbador, tão dourado...

A confissão de Lucio,: Narrativa. · 第 5 / 11 题